Os documentos de patente são uma importante fonte de informação tecnológica que, se utilizada de forma correta, pode ser usado pelas organizações para obter vantagem competitiva em seu campo de atuação. De acesso público, esses documentos contêm informações detalhadas tais como a descrição da invenção, suas reivindicações, assim como informações sobre inventores e a organização a qual pertencem.
A maior parte dos documentos de patente nunca resultarão em produtos ou processos comerciais, apenas algumas levarão substanciais retornos econômicos para os seus proprietários. No entanto, muitas patentes são tecnicamente importantes porque trazem, direta ou indiretamente, o estado da técnica do desenvolvimento de uma tecnologia que poderá resultar em muitos outros desenvolvimentos. Desta forma torna-se também uma fonte bibliográfica pertinente sobre os assuntos de interesse do pesquisador ou organização (NEWTON, 1998).
Outro importante dado que pode ser observado nestes documentos são as citações. A obrigatoriedade, por lei, de que uma patente cite outros documentos de patentes como estado da técnica, possibilita a verificação de possíveis ligações entre organizações, assim como identificar as patentes de peso de certos segmentos. Esta abordagem baseia-se no argumento de que uma patente altamente citada é, provavelmente, mais relevante tecnicamente que outras sem citações ou com poucas citações. Além disso, a patente também apresenta referências legais, o que pode evidenciar implicações econômicas relacionadas à tecnologia em questão. Desta forma, as citações podem oferecer um indicador indireto da importância tecnológica de tecnologias recentes e desenvolvimentos relacionados a esta tecnologia, considerando que muitos outros desenvolvimentos seguem a mesma linha e contribuem para o acúmulo de conhecimento e o rápido avanço desta tecnologia (JAFFE; TRAJTENBERG, 2002).
No entanto, outros estudos que tratam do tema, atentam para o fato de que muitos fatores podem influenciar tais citações, uma das mais comuns a causarem desiquilibro é a idade da patente, pois patentes mais antigas tendem a ter mais citações, mas não necessariamente grande importância tecnológica. Além disso, a tendência em citar patentes antigas, indica que a empresa possui um ciclo tecnológico longo, o que pode indicar tecnologias mais consolidadas. Fatores como o campo tecnológico considerado e as diferentes regras de citação dos escritórios nacionais também podem influenciar na quantidade de
citações. Por isso outras análises devem sempre vir acompanhadas das análises de citações (NARIN; BREITZMAN; THOMAS, 2004; CUENTAS; PICO; POLO, 2010; ERNST; OMLAND, 2011).
Ernst (2003) sugere que a contribuição da gestão em patentes para a gestão tecnológica de uma organização baseia-se em duas funções fundamentais: proteção e informação. O conjunto de direitos exclusivos para a exploração por um tempo determinado é concedido àqueles inventores que cumprirem as exigências para a obtenção da carta patente. Tal direito pode ser entendido como a função de proteção. A função de informação refere-se à disponibilização da informação, que ocorre 18 meses após o depósito do pedido de patente, o chamado período de sigilo, prazo este que pode diferir de acordo com a lei de cada país.
Leva-se em conta que 18 meses de sigilo de uma dada tecnologia antes que o depósito se torne público, não pode ser considerado um atraso relevante que configure perda de informações importantes. Geralmente um pedido de patente não é depositado quando um dado desenvolvimento está terminado, mas sim num momento bem anterior, ainda no desenvolvimento. Este procedimento é uma estratégia para proteger os altos investimentos em P&D desde o início. Desta forma, pode-se ter nesses documentos uma visão muita clara das estratégias de uma organização (FABRY et al., 2006). Entretanto, tal afirmação deve ser observada com cuidado. É preciso reconhecer claramente o campo em que se está inserido. Tecnologias com um ciclo de vida curto pode ter problemas com o período de sigilo destes documentos (ERNST, 2003).
Os documentos de patentes são uma grande fonte de conhecimento técnico e comercial em termos de progresso técnico e tendência de mercado, desta forma, a análise de patentes tem sido considerada como uma ferramenta útil para os processos de P&D. Neste sentido, medir a importância das ideias comerciais e científicas de cada patente seria o cenário ideal para o planejamento estratégico de uma organização (LIU; SHYU, 1997).
No entanto, tais dados são muito difíceis de serem obtidos, por isso, na maioria das vezes, as empresas utilizam indicadores extraídos destes documentos a fim de identificar certos parâmetros desejados (WOLFF, 1998). Por exemplo, o nível de atividade patentária em uma área especifica, fornece boas evidências em relação ao interesse por parte das empresas em proteger certas tecnologias. Alta atividade sugere, normalmente, um elevado interesse e consistente desenvolvimento de uma área técnica (SAJI, 2003).
Em um sentido macro, a análise de patentes tem sido muitas vezes utilizada para gerar indicadores econômicos, avaliando a ligação entre o desenvolvimento da tecnologia e do crescimento econômico, os fluxos do conhecimento tecnológico e seu impacto sobre a
produtividade, ou comparar o desempenho inovativo das nações no contexto internacional. Em um nível micro, a análise de patentes tem sido utilizada para avaliar a competitividade das empresas, desenvolver planos de tecnologia, avaliar prioridades de investimento em P&D ou para monitorar o foco tecnológico das empresas (ERNST; OMLAND, 2011; BAGLIERI; CESARONI, 2013).
De acordo com Baglieri e Cesaroni (2013) a análise das patentes deve incluir três conjuntos de atividades de diferentes escopos, sendo:
i) A busca de patentes, que lida com a recuperação da informação de patentes, com o objetivo de conhecer e reduzir os riscos de infringir as patentes de outros detentores;
ii) A análise de patentes, que é uma atividade multivariada que pode utilizar diversas ferramentas para a avaliação de um ou de um portfólio de documentos de patente, de acordo com a decisão estratégica tomada para a análise;
iii) O monitoramento de patentes, que consiste em uma atividade de inteligência que diz respeito à necessidade de monitorar o setor a fim de avaliar as tendências tecnológicas e o comportamento dos processos de inovação dos concorrentes. Os autores também afirmam que a utilização de metodologias e ferramentas de análise de informações em patentes tem sido desenvolvida para facilitar a utilização dessas informações no processo de criação de conhecimento e tomada de decisão nas organizações para diferentes propósitos estratégicos. Nos últimos anos, essas metodologias têm se tornado sofisticadas, permitindo uma análise profunda dos dados e informações contidas nos documentos e facilitando a identificação de conexões formais e informais entre patentes, pesquisadores e organizações empresariais.
Do ponto de vista estratégico essa análise pode ser abordada de duas maneiras principais. A primeira é com foco nas empresas, para estudar patentes de uma tecnologia específica ou em diversas, identificando, por exemplo, seus pontos fortes e fracos, além de suas estratégias de negócio. O segundo é a análise com foco na tecnologia, que envolve o estudo de patentes de tecnologias específicas, independentemente das empresas envolvidas. Nesta opção a empresa poderá determinar quais tecnologias são mais promissoras e em quais realmente é
possível investir (SAJI, 2003). A Tabela 6 relaciona alguns tipos de análises e os possíveis retornos de seus resultados.
Tabela 6 - Principais aplicações da análise de patentes
Análise Benefícios
Concorrentes
Comparação de empresas concorrentes e estratégias empregadas.
Identificação das tecnologias chave dos concorrentes
Melhora da gestão estratégica de desenvolvimento de novos produtos.
Maior foco nos desenvolvimentos de maior retorno.
Aquisições
Avaliação de licenciamentos de tecnologias Análise de aquisições de empresas
Melhores licenciamentos tecnológicos Redução do risco em novos investimentos
Gestão de P&D
Avaliação de produtos e processos Melhor locação de recursos para P&D
Gestão de portfólio de patentes
Identificação de patentes valiosas, licenciamento, venda e desenvolvimento
Identificação de potenciais compradores de tecnologias
Melhores retornos financeiros das patentes
Monitoramento de produtos e processos
Monitorar novas patentes de tecnologias relacionadas Verificação de infrigimentos
Alerta sobre novos entrantes e novas tecnologias
Melhor proteção da Propriedade Intelectual
Fonte: (SAJI, 2003)
A qualidade da gestão das informações em patentes está intimamente ligada à intensidade com a qual a organização utiliza a informação técnica, legal e estratégica oferecidas por esses documentos e, consequentemente, o quanto a utilização dessas informações efetivamente impactará o processo de criação de conhecimento e inovação na organização. Diferentemente do sistema de proteção, o sistema de informação em patentes recupera as atividades gerenciais. Tal processo melhora a qualidade da tomada de decisão por funcionar como subsídio real. Os resultados podem ser obtidos pela avaliação de diferentes indicadores extraídos de um dado grupo de documentos de patentes pré-selecionado pela
organização. Através desses processos pode-se avaliar e entender tendências no desenvolvimento de tecnologias e planejar estratégias adequadas (SHIH; LIU; HSU, 2010).
Ernst, Conley e Omland (2012), dividem esse processo em 4 partes, sendo:
i) Criação do conhecimento tecnológico interno. As informações nos documentos de patentes podem ser usadas para monitoramento da concorrência e avaliação das tecnologias. Conhecer as estratégias de P&D dos concorrentes e identificar as tecnologias mais promissoras é fundamental para que uma organização direcione seus esforços e recursos de forma coerente com sua estratégia.
ii) O gerenciamento das informações em patentes pode melhorar o uso do conhecimento tecnológico, ajudando a organização a identificar potencias infrigimentos de patentes. Tal ação pode causar consideráveis prejuízos aos infratores e significantes retornos financeiros aos titulares das patentes infringidas. O uso dessas informações dá liberdade de atuação à organização e fortalece sua competitividade.
iii) A gestão de informações em patentes dá suporte à criação de conhecimento tecnológico externo, através de fontes que podem ser identificadas e acessadas através da análise de informações em patentes. Possibilita a identificação, avaliação e seleção de múltiplas oportunidades de aquisições, ou licenciamentos de tecnologias externas.
iv) A gestão de informações em patentes dá suporte ao uso do conhecimento tecnológico externo. A análise dos padrões de citações ou dos cenários tecnológicos, por exemplo, ajuda identificar oportunidades de licenciamento para os detentores de patentes, aumentando desta forma os retornos financeiros da organização através do uso exclusivo do direito de exploração da tecnologia.
As vantagens de um bom gerenciamento da informação patentária dentro da organização podem, portanto, ser demonstradas em diferentes fases do ciclo de geração do conhecimento e
inovação. Segundo Ernst (2003), dentre as diversas questões que podem ser respondidas utilizando indicadores de patentes, algumas podem ser destacadas:
i) Como as mudanças tecnológicas no ambiente competitivo da organização podem ser identificadas e avaliadas?
ii) Como a posição da organização pode ser avaliada em comparação com um competidor em mesmo campo tecnológico?
iii) Como as mudanças nas estratégias de desenvolvimento tecnológico do competidor podem ser identificadas?
iv) Como alocar recursos para P&D em campos tecnológicos mais promissores? O conhecimento do potencial estratégico e das metodologias de avaliação de patentes torna-se, portanto, uma questão essencial para a construção de conhecimento nas organizações. Nesse contexto, identificar as melhores formas de gerir e trabalhar com esse tipo de informação auxilia a atividade inovativa das empresas (LEONE; LAURSEN, 2011).
A Figura 5 mostra o papel das informações em patentes no ciclo de criação de conhecimento da propriedade industrial. O objetivo é alcançar o desenvolvimento da indústria através da sinergia entre o ciclo e o uso das informações disponíveis.
As múltiplas características destas fontes no que tange informações de alto valor agregado, o torna um recurso valioso no planejamento estratégico de P&D e inovação empresarial. No entanto, este é ainda um campo pouco explorado pela maioria das empresas, principalmente as brasileiras, merecendo maior preocupação destas com esse tema em virtude de sua importância estratégica.
Figura 5 - O papel das informações em patentes
Fonte: (JAPAN PATENT OFFICE, 2013b)
Embora as informações contidas nos documentos de patentes sejam uma fonte única para identificar importantes tecnologias e características das organizações, existem limitações em seu uso que não podem ser ignoradas, em dois principais aspectos. O primeiro é quanto à temporalidade das informações lá contidas, considerando o tempo entre o desenvolvimento da patente, depósito e análises, no momento em que muitas patentes são publicamente disponibilizadas o produto ou processo pode ter sido já implementado. Esta afirmação, como já dito anteriormente, torna-se ainda mais pertinente quando são consideradas tecnologias de ciclo curto. Em segundo lugar, com a finalidade de avaliar a concorrência, as informações em patentes podem não ser suficientes, considerando que muitas melhorias tecnológicas em produtos e processos são protegidas por segredo industrial e jamais serão apresentados em documentos de patentes. Isto significa que a análise dos competidores de um segmento poderia ser incompleta quando apenas as patentes são utilizadas como fontes. Tais limitações podem evidenciar as informações em patentes como não suficientes, por si só, para um eficaz planejamento estratégico. Portanto, é muito importante que outras fontes sejam incluídas às análises de patentes, tais como: histórico de vendas, tendências econômicas, receita investida em P&D, entre outros.