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Estudar uma organização social como o MST não é tarefa fácil. Do ponto de vista da ciência hegemônica, que nos impõe falsa imparcialidade e desconsidera o movimento histórico, dialético e político dos objetos de pesquisa, estudar um movimento social de característica política e ideológica como o MST, enfrenta barreiras epistemológicas de alto grau de complexidade, ainda assim quando se trata de pesquisas acadêmicas.

Sabendo que o enfoque epistemológico das pesquisas acadêmicas hoje se baseiam na estrutura de um positivismo moderno (Bruhl, 1990), que libera, por um lado, a subjetividade de limitações metodológicas e, de outro, ao mesmo tempo, cria-se também uma “ilusão objetivista” da ciência, que pretende somente atribuir um caráter verdadeiro aos “fatos” comprovados pelo caminho empírico-analitico rejeitando qualquer proposta hermenêutica, analisar um sujeito coletivo em constante movimento, nos obriga a aprofundar o caráter materialista histórico-dialético, de forma a desconstruir certos reducionismos científicos e abordagens rígidas.

Do ponto de vista sociológico, (Ianni, 1991) nos diz que cabe reconhecer que o objeto da pesquisa é a realidade social em movimento, formação e transformação. O objeto e o sujeito de conhecimento distinguem-se e confundem-se. A realidade da pesquisa é um ser ao qual o sujeito participa, em

37 alguma medida, pelo universo de práticas, valores, ideais. Simultaneamente, é um ser em movimento, modificação, devir, revolução. Desafia todo o tempo o pensamento, como algo conhecido e incógnito, transparente e opaco (Ianni, 1991).

Ainda assim, o desafio da abordagem científica em torno de um objeto de estudo de natureza social e coletiva, deve ter raízes nos impasses, problemas, lutas e ilusões que desafiam os indivíduos, os grupos, classes, movimentos, partidos, setores, regiões e a sociedade como um todo (Ianni, 1991).

Por esta perspectiva, analisar e estudar sujeitos coletivos que se movimentam na realidade social concreta, tem profunda importância, pois, compreender os ciclos históricos, políticos e sociais que definem passos que a sociedade dá em direção as diversas mudanças que ocorrem no seio da política, e assim, interferindo na realidade econômica, cultural, social, educativa, ambiental, dos sujeitos, sejam individuais ou coletivos, nos coloca questões de fundo que dialogam com a realidade da luta entre classes que extrapolam falsas mediações impostas a um possível movimento “natural” das relações sociais, como tentam nos fazer pensar, a partir de determinados focos e abordagens da ciência hegemônica e pós-moderna4.

Portanto, estudar o MST demanda compreendermos o lugar da Reforma Agrária como objeto de pesquisa. Inicialmente, é necessário perceber que há relações diretas entre produção cientifica e projeto histórico, este entendido como projeto de classe. Entender o MST como um movimento que assume um vínculo com o projeto histórico da classe trabalhadora evidencia a necessidade de aprofundar a leitura acerca deste movimento, a partir de produção cientifica.

4 Aqui, entende-se por pós-modernismo a representação de uma nova época, pois reconhece

que em sua essência se encontra a marca da lógica do capital. A pós-modernidade é a forma de domínio cultural vigente, reunindo o campo de forças confluente na ideia de dominação. Ela seria, por fim, o período de transição de dois estágios do capitalismo, transição esta que representa um processo de reestruturação da economia capitalista que avança em escala global, com tendência de controle político, social e cultural.

38 Caldart (2014) nos lembra de que o momento histórico em que vivemos diminui o espaço dos “intelectuais tradicionais” e pressiona a formação dos “intelectuais orgânicos” das classes fundamentais em confronto. O MST hoje, para além de um movimento de luta pela terra e pela Reforma Agrária, compreende que qualquer movimento social que ouse lutar pela transformação da sociedade, deve ter em seus quadros orgânicos militantes com alto nível de formação política. Porém, é importante que esta formação política se consolide atrelada aos mais amplos processos de estudo.

Assim, uma das linhas fundamentais do MST é a ocupação dos espaços formais de educação. Primeiro, é necessário executar um programa de estudo e pesquisa em torna da alfabetização. É de suma importância desenvolver pesquisas teóricas e práticas que ajudem nos processos de alfabetização dos trabalhadores rurais. O MST, em parceria com a CNBB, a UnB e a UNESCO, durante a década dos anos de 1990, ajudou a criar o PRONERA, com o objetivo de expandir o acesso de trabalhadores e trabalhadoras rurais a todos os níveis de educação, desde a alfabetização até o ensino de pós-graduação.

Foi neste contexto que o MST atrelou suas perspectivas de luta concreta a necessidade de avançar em uma pedagogia de base socialista5, desenvolvendo estudos e pesquisas em parcerias com diversas universidades públicas brasileiras e com muitos professores que tinham sua formação acadêmica e seus projetos de pesquisa identificados com um projeto de sociedade.

Pesquisar o MST requer compromisso com a trajetória histórica do movimento. Há muitas linhas nas Universidades que negam o MST como

5 A elaboração teórica e prática de uma pedagogia de base socialista sempre esteve

organicamente vinculada às experiências de luta social e política, demarcando concepções diferenciadas de formação humana a concepção hegemônica do capital, que impõe aos homens a forma mercadoria como marco de construção da sua subjetividade e materialidade histórica. Portanto, tratar de uma pedagogia socialista, mais do que se ater a princípios metafísicos, é dimensionar dialeticamente as experiências concretas de formação humana no bojo dos processos revolucionários, das organizações políticas e dos movimentos sociais que apontaram, ao longo do século XX, para processos de formação humana nos quais o homem é a medida de todas as coisas (Ciavata; Lobo, 2012, p. 561).

39 sujeito coletivo e desconsideram sua formação como apta a enquadrar-se no universo das pesquisas acadêmicas. Há quem desconsidere a própria natureza política e social do movimento, tentando vincula-lo a milícias armadas ou organização terrorista, e assim, sem merecer qualquer espaço como objeto de estudo social ou científico.

Porém, a relação histórica do MST com a Universidade, a partir da complexidade da Reforma Agrária defendida pela construção teórico-prática detalhada em seu programa agrário, demonstra a total necessidade de acumular estudos e pesquisas para aprofundar na construção da Reforma Agrária Popular em suas mais variadas dimensões, desde a democratização da terra até a construção de escolas e processos pedagógicos que atribuam ao trabalhador camponês e aos assentamentos as necessidades educativas e culturais inerentes à sua condição de sujeito histórico e de direitos.

Importante ressaltar que Universidade pública brasileira é um espaço tático necessário de tensionamento e acúmulo para os trabalhadores rurais. O MST compreende este universo como fundamental na disputa das diversas dimensões que envolvem a consciência, desde o ponto de vista da apropriação da ciência e da pesquisa pelos trabalhadores como o espaço de disputa política histórica ao qual se insere a Universidade no Brasil.

Portanto, pela contradição histórica da luta pela terra no Brasil, o MST se inscreve, na atualidade, como sujeito coletivo que avança nas dimensões necessárias para a construção da Reforma Agrária. E esta condição somente se concretizará a partir do momento que a pesquisa social, assim como o acirramento das lutas e da massificação de trabalhadores, tomar parte como instrumento de elevação do nível de consciência dos trabalhadores em direção à construção de um projeto de sociedade. A Universidade e a pesquisa devem tomar parte nisso, o discurso da neutralidade da ciência evidencia seu lado meritocrático e liberal, calçado no discurso da manutenção e da imobilidade social.

40 Caldart e Alentejano (2014) reforçam que o modelo da agricultura empresarial e capitalista necessita de quadros intelectuais e técnicos que contribuam para sua estruturação. As universidades têm servido historicamente para isso, mas há as que formam os quadros dirigentes do agronegócio (como a Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz – ESALQ) e as que formam o exército de vendedores e sócios menores do sistema. Aparentemente, para a burguesia, não é interessante expandir universidades públicas que integrem trabalhadores pobres e tampouco interessa qualificar os cursos existentes, pois o perfil acadêmico geral, que forma os “vendedores de pacotes tecnológicos”, deve ser estimulado a partir da formação em poucos núcleos de excelência, adaptando sua formação as tecnologias essenciais e necessárias para manutenção do sistema.

Essa lógica entra em contradição com a construção do conhecimento aprofundado pelo MST e pela necessidade da Reforma Agrária, e também em relação ao conhecimento de base agroecológica. Com isso, (re) abre a discussão sobre o papel do campesinato6 como produtor e consumidor de conhecimento, tendo na agroecologia uma forma de (re) leitura de Paulo Freire e da Educação Popular, a partir da construção de métodos como o “diálogo de saberes” 7, feito por técnicos e agricultores em situação de igualdade. Com

isso, evidenciam-se contradições entre o centro-periferia da academia

6Campesinato é o conjunto de famílias camponesas existentes em um território. As famílias

camponesas existem em território, isto é, no contexto de relações sociais que se expressam em regras de uso (instituições) das disponibilidades naturais (biomas e ecossistemas) e culturais (capacidades difusas internalizadas nas pessoas e aparatos infraestruturais tangíveis e intangíveis) de um dado espaço geográfico politicamente delimitado (Costa; Carvalho, 2012, p. 113).

7 O Diálogo de Saberes – DS emergiu no processo de formação dos e das dirigentes e técnicos

do Setor de Produção, Cooperação e Meio Ambiente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra SPCMA/MST (2005/2007) e simultaneamente foi adequado como disciplina curricular dos cursos técnicos de agroecologia das escolas do MST e CLOC – Via campesina do Paraná. Pretende-se com este proporcionar a formação que supere os fundamentos e as prática anti-dialógica e prescritora do receituário técnico do agronegócio e promotora da invasão cultural (na perspectiva freireana) hegemônicas dentre os profissionais das ciências agrárias escolarizados na educação bancária das escolas técnicas e universidades, para a práxis da e do militante técnico – pedagogo – educador em agrocologia coerentemente engajados nos processos de emancipação humana dos povos do campo (Tardin; Guhur, Rezende, 2015).

41 brasileira, o que tem aberto oportunidades de avanço em universidades “periféricas” (ou em campi periféricos de universidades centrais), sobretudo com o avanço dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo e cursos superiores de Agroecologia.

Por este viés, o MST se torna elemento central para diversas pesquisas, pois contribui, a partir “autoridade histórica e moral” com o avanço do conhecimento e criação de novas áreas de pesquisas e cursos formais que são necessários para pensar a sociedade contemporânea, seus conflitos territoriais, ambientais e políticos, expondo à pesquisa e a universidade ao desconforto necessário a partir das contradições da sociedade capitalista e suas formas de controle.

1.3 O MST visto do lado de cá: a contradição da criação do MST e