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7.5 Systemutforming

7.5.5 Ammoniakk

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST surge a partir da perspectiva das lutas históricas dos trabalhadores e trabalhadoras em vários cantos do planeta, a fim de libertar-se da opressão imposta pelos regimes autoritários e conservadores, centralizados em impérios, monarquias, estados absolutistas, repúblicas conservadoras, todas com o mesmo objetivo: manter o domínio social, econômico e político para manutenção das relações de subserviência e dominação, de uma classe sobre a outra.

Os movimentos de rupturas políticas históricas, sobretudo durante o século XX, que organizaram a classe trabalhadora em torno do desafio de superar estados e governos opressores, foram e continuam sendo inspiradores para o avanço do MST, como movimento social que busca, para além da Reforma Agrária, a transformação social do país.

Portanto, a criação do MST não ocorre a partir da naturalidade das relações sociais, ou seja, o MST não surge de uma conjuntura rígida, de um determinado momento histórico, mas das relações contraditórias do próprio

42 sistema político que se hegemonizou em períodos históricos, estruturando-se como sistema com centralidade na acumulação de riquezas, na exploração da força de trabalho, nas relações de dependência política, econômica e social entre países centrais e periféricos, no patriarcalismo e etc. Essa condição imposta gera profundas contradições sociais, de toda a ordem, gerando revoltas, guerras, lutas, novas organizações sociais, movimentos, partidos, que são frutos de processos de resistência e sobrevivência.

Neste contexto, o MST surge através do conjunto histórico de medidas autoritárias e conservadoras, tendo na concentração da terra, na exploração e expulsão de trabalhadores e na violência que trabalhadoras e trabalhadores rurais sofriam (e sofrem) com a escalada sem limites a partir dos interesses do capital e dos capitalistas em dominar por completo a cadeia de produção agrícola, desde o controle da terra e das sementes, passando pela força de trabalho e dos mais diversos meios e modos de produção.

Segundo Morissawa (2001) o primeiro período de evolução histórica do MST se dá entre os anos de 1979 e 1983, período de retomada das lutas massivas pela terra, quando ocorriam ocupações e mobilizações em muitas regiões do país. Este período é a finalização de um processo histórico anterior de mais de vinte anos de governos militares, que construíram uma centralidade na industrialização e modernização capitalista de modelo estado unidense, operando forte desestimulo a agricultura camponesa e familiar ao incorporar um modelo agrícola centrado em três grandes eixos, mecanização pesada, monocultivos de produção, uso intensivo de agrotóxicos e adubação química.

Esse modelo de produção, em grande escala e de caráter agroexportador, difundido e operado por setores da economia militar, mostrou apenas um caminho aos camponeses e pequenos agricultores, sua incorporação às nascentes indústrias das grandes cidades brasileiras, como grande exército industrial de reserva.

Este contexto histórico aprofundou a crise no campo e elevou os índices populacionais nos centros urbanos, ocasionando uma séria crise social e

43 política, que posteriormente deságua nas grandes manifestações pela redemocratização e no fim do regime militar. É justamente neste tempo histórico, que demarcamos como um segundo período de consolidação do MST, em 1984, com a realização do I Encontro Nacional dos Sem Terra, na cidade de Cascavel, estado do Paraná, que nasce formalmente o MST, com a representação de dezesseis estados brasileiros.

O MST surgia, assim, com a vocação de ser um movimento de massa, que passou a realizar lutas de massa e utilizar diversos instrumentos de pressão política e tensionamento, como as ocupações de terras, assembleias massivas, caminhadas, marchas, audiências massivas, ocupações de prédios públicos e etc. (Stédile, 1997).

Preocupado com o enorme desafio histórico que teria pela frente, o MST procurou resgatar as experiências de outras organizações e movimentos de luta pela terra em geral. Tinha clareza que as lutas e as formas de organização não eram feitas a partir de manuais ou cartilhas, mas que deveriam aprender fazendo, com sua própria experiência. No entanto, não deixou de buscar as experiências históricas de outros movimentos camponeses do Brasil e ensinamentos acumulados pela classe.

De certa forma, o MST sempre se considerou herdeiro das ligas camponesas, que foi a organização similar mais parecida que existiram décadas anteriores. As lideranças históricas das ligas foram referencias, buscando aprender pelos erros e acertos com essa experiência de organização de camponeses que marcou as décadas dos anos 50 e 60.

Da soma das origens com as experiências históricas que o MST internalizou, foi possível desenvolver e aplicar alguns princípios que são base de sustentação e organização do MST, e assim, possibilitaram e ainda possibilita que este movimento siga crescendo, com unidade política nacional, apesar das enormes dificuldades.

Procurou-se, em todos estes anos, aplicar os seguintes princípios organizativos:

44 1) Vinculação permanente com as massas: não é possível organizar um movimento social nacional sem trabalho permanente com sua base social e de enraizamento junto às massas. Assim, jamais se deve perder o vinculo direto com o povo organizado.

2) Luta de massa: nunca se deve iludir com as “boas” vontades de governos ou autoridades. A Reforma Agrária somente tem condições de avançar com luta social de massa, pressão política e tensionamento. Não há outro caminho de avanço social senão com o povo organizado e mobilizado em torno de objetivos gerais da luta política, sendo a Reforma Agrária um dos elementos dentro da política geral. As negociações com os governos são importantes, mas fazem parte de uma correlação de forças políticas que somente avançam com pressão social, e se constituem favoráveis na medida em que o povo organizado demonstre força.

3) Divisão de tarefas: todas as atividades dentro do MST sempre foram realizadas pelo maior número de pessoas possível. Dividir as tarefas é descentralizar as ações políticas.

4) Direção coletiva: no MST, todas as instâncias, desde os núcleos de base dos acampamentos e assentamentos até a direção nacional são exercidas coletivamente, na forma de colegiado, sem distinção de poder. O que difere são as tarefas.

5) A disciplina: nenhuma organização social, por menor que seja, funciona se não houver um grau de disciplina, que ajude a garantir os encaminhamentos coletivos. No MST a disciplina é princípio fundamental, tanto do ponto de vista a garantia do método de trabalho como no respeito às decisões coletivas.

6) Formação de quadros: nenhuma organização terá sucesso se não formar e preparar seus próprios quadros. A formação política é peça fundamental para a elevação do nível de consciência da militância. A disciplina para o estudo é central, luta melhor quem consegue aliar o estudo e a formação com as ações concretas.

7) Por último, no MST, sempre se procura exercer a mística. Reforçar os saberes populares, da classe trabalhadora, dos símbolos, da luta, dos

45 mártires, inovando nas linguagens, incorporando a poesia, a música. A mística é muito mais que alguma apresentação cultural, ela parte do sentimento, e alimenta-se da luta e da esperança, por uma sociedade justa e fraterna.

O MST, em seus trinta e dois anos, sobrevive por ter conseguido manter a disciplina organizativa e a garantia dos princípios políticos como algo central em sua essência como movimento social de massa. Combinando luta popular e trabalho de base, a formação política e o cuidado com sua base social e militância e a conquista de assentamentos e aprofundamento na organização da produção e da vida dos camponeses sem terra, são determinantes para que ainda consiga seguir mobilizando trabalhadores rurais e se mantendo como movimento com grande notoriedade na esquerda brasileira e mundial.

1.4 Breve análise sobre a estrutura política, econômica e fundiária