3.1 Risikovurdering og forebyggende tiltak
3.1.4 Temperatur i belegg
A cidade ideal é a cidade produtiva e competitiva, globalizada, conectada a redes internacionais de cidades e negócios. Concebida e pensada como empresa que se move num ambiente global competitivo, o governo desta cidade se espelha no ‘governo’ da empresa; gestão empresarial, marketing agressivo, centralização das decisões, pragmatismo, flexibilidade. Cada cidade deveria aproveitar as oportunidades e fazer valer suas vantagens competitivas no mercado de localização urbana. 28
28 Este texto é citado por FERREIRA (2000, p. 15) e faz parte de um Manifesto em prol de uma Rede
A economia global, com seu receituário que favorece o crescimento desigual e combinado, produziu impactos no espaço construído das cidades, pois, ao ampliar as zonas de exclusão social, onde está concentrada a maioria da população, privilegiou alguns locais da cidade, que se tornaram “ilhas de primeiro mundo num mar de pobreza”.
A cidade de sociedades capitalistas periféricas reflete a marginalidade e dualidade resultantes do princípio de perpetuar a subordinação do desenvolvimento à manutenção da ordem elitista vigente, combinando o atraso com o moderno. Seu problema é, portanto, o mesmo da sociedade subdesenvolvida: a subordinação absoluta à lógica dos negócios, por meio da histórica superexploração do trabalho e depredação do meio ambiente (FERREIRA, 2007, p. 127).
Com o objetivo de competir com outras cidades e utilizando as estratégias de marketing, que vendiam a ideia da revalorização de regiões que foram abandonadas pelas empresas de produção industrial ou da criação de novas centralidades, algumas empresas do setor imobiliário,29 balizadas pelos modelos de países desenvolvidos, buscando se adequar aos parâmetros das “cidades globais”, investiram na construção de “edifícios inteligentes”, reconhecidos por causa dos seguintes equipamentos: “elevadores computadorizados, ar condicionado central, sistemas informatizados de controle de energia elétrica, iluminação, segurança patrimonial, segurança contra incêndio, sonorização ambiental, circuito fechado de TV e no mínimo com 1.000 m2 de vão livre por laje” (FRÚGOLI JR, 2000, p. 188).
Contando com o aparato institucional e o apoio da mídia, os planejadores deveriam elaborar um marketing agressivo para “vender” a ideia de que a intervenção na infraestrutura se destinava ao bem maior da população, quando, na realidade, o que se buscava era uma reestruturação do espaço, a partir dos padrões internacionais de serviços high tech, esquemas de segurança e equipamentos culturais. Tudo para atender à demanda dos usuários solváveis. A grande maioria da população pertencia à categoria dos insolváveis, pois era incapaz de ter acesso aos produtos de alta qualidade, que ficavam dispostos em lugares estratégicos da
29 Trata-se da Braco S/C Ltda, a Bratke-Collet e F. Collet S/C Ltda, que na década de 80, investiram na
Avenida Luiz Carlos Berrini. Na década seguinte, A Panamby Empreendimentos Imobiliários e uma construtora que integra a Bunge e Born, a Aflalo & Gasperini, bem como a empresa londrina de consultoria Richard Ellis Property Consultants, apostaram na criação e expansão do polo terciário da Marginal do Rio Pinheiros (FRÚGOLI JR., 2000, p. 175-196).
cidade. A cidade só se tornaria “atraente” se fosse inserida na escala global e se apresentasse como uma grande vitrine para a exposição dos mais variados produtos (VAINER, 2000).30
Além desses ajustes espaciais e tecnológicos, de locais destinados à “alta” cultura e boa estrutura de mobilidade, também constituem as “cidades globais”: a concentração do poder econômico e financeiro, o critério da flexibilidade do capital e os processos de segregação social (SASSEN, 1998). Com efeito, a concentração de investimentos públicos para a consolidação do quadrante sudoeste, um cartão postal de São Paulo que serviu de base ideológica para sustentar o propalado caráter global da cidade, exigiu altos investimentos do setor público – vide os projetos de extensão da Avenida Faria Lima e a construção da Avenida Água Espraiada, atualmente Avenida Jornalista Roberto Marinho – o que prejudicou as outras regiões da cidade (FERREIRA, 2007; CARLOS, 2001).
Isto enfraquece a ideia embutida no conceito das “cidades globais” de que o surgimento de novos “centros financeiros” seja uma consequência não provocada das novas dinâmicas econômicas, uma espécie de tendência natural imposta pela “nova economia global”, às quais as cidades devem se adaptar (FERREIRA, 2007, p. 137).
Mônica Carvalho e David Harvey (2014) argumentam que o esforço ideológico das elites em moldar São Paulo, dentro dos parâmetros das “cidades globais”, a exemplo de Londres, Paris ou Tóquio corrobora com o aumento das desigualdades sociais e da segregação urbana, considerando que a política urbana global importada para São Paulo, avaliava como contraproducente a redistribuição dos recursos para os bairros e regiões mais vulneráveis, pois esses seriam menos dinâmicos, do ponto de vista dos interesses do capital, que os polos de crescimento empresarial (CARVALHO, 2000; HARVEY, 2014).
Esse fenômeno que molda a cidade e seus territórios, segundo os interesses das elites, não é algo que surge com a globalização, mas perpassa a história do Brasil e pertence à nossa herança cultural, marcada pelo culto da aparência, da fachada e da dissimulação. O princípio da alteridade e o direito ao usufruto dos espaços públicos sempre existiram enquanto projeto político ou norma jurídica, mas foram socialmente negados para a maioria
30 Em função dessa equação, durante a Assembleia Constituinte de 1987, o Plano Diretor, imposto de cima para
baixo, foi utilizado como uma estratégia de controle sobre a aplicação da função social da propriedade (MARICATO, 2012, p. 160).
da população. O resultado, conforme assinalamos, foi o aumento da segregação espacial, econômica e étnica.
O solo urbano na cidade capitalista é disputado por seus diferentes usos: industrial, comercial, serviços e habitacional. Na medida em que é produzido e trocado como mercadoria, a valorização imobiliária afasta os setores de menor poder aquisitivo das regiões mais bem servidas de equipamentos e benfeitorias (VÉRAS, 1995, p. 15).
O solo urbano que poderia ser apropriado com uma finalidade mais comunal e para usufruto coletivo se tornou um bem incorporado à esfera da circulação capitalista. Esse processo, denominado por Harvey de “acumulação por espoliação”, não poupa nem a dimensão simbólica de alguns espaços e nem os eventos que ali ocorrem. Nada parece escapar à voracidade do capital.
A ação especulativa nas cidades – permeada por processos de espoliação – não diz respeito apenas à propriedade fundiária e ao espaço edificado, mas também à sua dimensão simbólica, que constitui um dos fundamentos da valorização dos primeiros, de modo que sua funcionalização econômica se tornou um fator chave do atual regime de acumulação (PEREIRA, 2014, p. 320).
Em sua análise sobre esse processo, Ferreira (1997) aponta o patrimonialismo como um dos principais instrumentos políticos que torna eficaz a reprodução dessa “promiscuidade” nas relações público-privado. No caso de São Paulo, a ação pública continua sendo direcionada para a cidade formal, enquanto os que moram de forma precária, e afastados dos grandes centros, são tratados com descaso. Essa situação, resultante da “Máquina de Crescimento Paulistana”, aprofunda a fratura social urbana. Fernando Serapião, no jornal Folha de São Paulo31, analisa essa fratura ao chamar a atenção para o abandono do espaço público, que está se tornando uma verdadeira “terra de ninguém” (SERAPIÃO, 2015). O enorme fosso entre o espaço dos incluídos, que gozam das benesses que as “cidades globais” proporcionam, e aquele onde cresce a cidade informal e clandestina só poderá ser superado se os setores públicos e os privados, ao invés de se unirem apenas para obterem vantagens financeiras e corporativas, procurarem investir na construção da cidade como espaço coletivo pertencente a todos, e não apenas como um negócio lucrativo.
Entretanto, para que a cidade-empresa se torne eficiente economicamente, ela precisa atuar no mercado de modo competitivo, ágil e flexível. Para tal empreita, são necessárias algumas estratégias de desmobilização política dos movimentos e associações populares, sobretudo daqueles que defendem o direito à cidade para amplas parcelas da população.