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A assistência dos seriados faz parte da cultura televisiva brasileira desde os primeiros anos da televisão no país, embora possamos observar uma acentuação na sua disponibilidade e popularidade pelo público brasileiro nos últimos anos.

Baracho (2007) ressalta que, assim como na televisão dos Estados Unidos, a TV brasileira também foi estruturada como forma de entretenimento. Na década de 1950, (além de produções que emergiram do teatro) filmes e seriados americanos faziam parte da programação das primeiras redes, como a TV Tupi, a TV Rio, a TV Record e a TV Excelsior. Freire (2014) destaca que em 1958 a produtora norte-americana Screen Gems já havia vendido dois programas norte-americanos para exibição no Brasil, o All Star Theater e o The Ford Television Theater. Em seguida, outras séries norte-americanas seriam vendidas no país pela empresa, como The Adventures of Rin Tin Tin, Tales of the 77th Bengal Lancers e Jungle Jim. Neste período surge a expressão “enlatado”, para designar essas produções que teriam “baixos valores de produção e raízes profundamente estadunidenses” (MOREIRA, 2013, p.1).

Ainda na década de 50, a televisão brasileira inicia a produção de programas de dramaturgia. Santos (2003) afirma que o teleteatro e as telenovelas eram os produtos de maior destaque. As novelas acabariam por assumir um lugar de relevância no cenário cultural brasileiro, enquanto os primeiros seriados produzidos no país possuíam temáticas semelhantes as dos Estados Unidos. Alô Doçura, estrelado por Eva Wilma e John Herbert, era uma sitcom nos moldes de I Love Lucy. O Capitão 7 era um super-herói similar aos dos quadrinhos americanos, e o Vigilante Rodoviário apresentava as aventuras de um policial e seu cachorro, semelhantes as apresentadas em The Adventures of Rin Tin Tin. Seriados nacionais produzidos pela Rede Globo a partir da década de 70 trariam às telas brasileiras uma realidade mais próxima do público no país, como Malu Mulher, Carga Pesada, Plantão de Polícia, e posteriormente Armação Ilimitada, Mulher, etc. Mas a utilização de seriados norte- americanos se manteve frequente. A Rede Globo utilizou fortemente os “enlatados” nos anos 80 e 90, exibidos diariamente na Sessão Comédia e Sessão Aventura, como Family Ties, Golden Girls, Small Wonders, Benson, Perfect Strangers (curiosamente adaptado à realidade brasileira, o primo Balki, que vinha de uma ilha no Mediterrâneo se tornou o mineiro caipira Zeca), ALF, 21 Jump Street, McGyver, Magnum P.I., Beverly Hills, 90210, Fantasy Island, Love Boat, Charlie's Angels, entre outros. Recentemente, outras emissoras também têm recorrido mais fortemente à exibição dos seriados norte-americanos em sua grade de

34 programação. Ramos (2012) apresenta que a Record e o SBT são os canais que mais exibem séries estrangeiras no país.

Mas para que uma cultura das séries estivesse plenamente estabelecida, seria necessária um amplo aumento da circulação destas produções no Brasil. Isso se deu a partir dos anos 90, com a popularização da TV por assinatura no país. Como mostra Santos:

Com o crescimento do número de assinantes da televisão a cabo no país, em fins dos anos 1990, seriados como Seinfeld (NBC, 1989-1998), Friends (NBC, 1994-2004), ER (NBC, 1994-2009) e Sex and the City (HBO, 1998-2004) fizeram sucesso entre a audiência e abriram caminho para investimentos nesse segmento por parte das emissoras pagas, de forma que, hoje, canais como Sony Entertainment Television, AXN, Warner Channel, Universal Channel, FOX, FX, entre outros, e até mesmo o canal aberto Record apostam nos seriados como a principal atração do horário nobre. (SANTOS, 2011, p. 01)

Com a popularização da internet no Brasil, o fenômeno foi ampliado. Sites de cultura popular como Omelete, Série Maníacos, e comunidades como os Seriadores Anônimos, agregam conteúdo sobre seriados e permitem uma maior interação entre membros da audiência. Outros, como o Séries Online, disponibilizam as produções para serem assistidas. Curi (2012) destaca a importância da internet nesse fenômeno de participação da audiência brasileira. Mesmo com acesso aos programas através da televisão por assinatura, os fãs perceberam que tinham acesso aos programas com atraso em relação aos espectadores norte- americanos e de outras partes do mundo. Utilizar a internet para fazer o download das séries diminuiu uma lacuna de dias ou semanas para algumas horas. Os fãs que não tinham o domínio do idioma original podiam contar com a assistência de outros fãs, que colaborativamente, criam legendas para os episódios.

Em parte como uma reação ao compartilhamento de arquivos dos fãs, a indústria televisiva reage e passa a oferecer estreias globais de seus programas, as day-and-date, no mesmo dia e data. O primeiro episódio da série spinoff21 de Walking Dead, Fear the Walking Dead, por exemplo, foi exibido pelos canais AMC em mais de 125 países. A estreia simultânea do seriado quadruplicou a audiência em horário nobre da rede AMC na América Latina, atingindo a décima-primeira posição no Brasil, apesar de estar disponível em apenas

21 O spinoff é um termo utilizado pela indústria do entretenimento para designar uma obra derivada de outra obra já existente, e que foca em um detalhe específico da obra original. Por exemplo, a série de televisão Joey foi um spinoff da série Friends, focada na vida do personagem Joey Tribianni.

35 30% dos provedores de TV por assinatura nacionais.22 Já a chegada do Netflix ao Brasil permitiu que todas as produções originais do provedor de conteúdo sob-demanda atingissem o público brasileiro na mesma data em que são lançados nos Estados Unidos. É a partir da solidificação desta empresa no mercado da indústria do entretenimento que uma cultura emergente de assistência televisiva começa a consolidar a forma como os seriados são assistidos.

22 Disponível em: http://variety.com/2015/tv/ratings/fear-the-walking-dead-premiere-powers-amc-global-to- record-ratings-1201580619/

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