KAPITTEL 1 TEMA OG PROBLEMSTILLING
1.1 Tema og problemstilling
Com o fim das Cruzadas e da lepra, os doentes vené- reos foram os primeiros a ocupar os antigos leprosários. Posteriormente, juntaram-se a eles os loucos, devassos, libertinos, cujo agrupamento desses indivíduos passou a configurar um espaço moral de exclusão. A terapêutica utilizada para com os doentes venéreos nos auxilia a com- preender um pouco das próprias terapêuticas utilizadas em relação à loucura no século XIX. Vista antes como impureza do que doença de fato, a doença venérea traz uma ideia de purificação que vai potencializar a aliança entre a medicina e a moral, sobretudo, em relação à loucura.
[...] se é preciso cuidar do corpo para eliminar o contágio, convém castigar a carne, pois é ela que nos liga ao pecado e não apenas castigá-la, mas pô-la à prova e mortificá-la, não recear deixar nela vestígios dolorosos, porque a saúde transforma muito facilmente nosso corpo em ocasião para o pecado. (Foucault, 2008, p.86)
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O filme Contos proibidos do Marquês de Sade, de Phi- lip Kaufman (2000), traz um pouco desse universo do século XVIII em que a relação entre a medicina e a moral se intensifica; o conflito entre ciência e religião propicia uma mudança de discurso em relação à miséria; e ganha importância o ideal do trabalho (com a emergência das casas de trabalho).
A obra é baseada na história do aristocrata francês e escritor libertino Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade, que foi perseguido pela monarquia do Antigo Regime, pelos revolucionários de 1789 e pelo próprio Napoleão, em razão de suas críticas à moralidade dos bons costumes da sociedade da época, como se nota em um trecho recortado do filme.
Caro leitor: Tenho um conto picante para lhe narrar retirado das páginas da história. A mais pura verdade. Mas garanto que estimula os sentidos. É a história da senhorita Renard, uma jovem aristocrata adorável cujas tendências sexuais passaram do encantador ao bestial. Quem não sonha satisfazer seus desejos entregando-se a cada um deles? Devido à sua origem nobre, a senhorita Renard tinha imunidade para fazer o que quisesse infligindo dor e prazer com igual deleite até que um dia ela se viu à mercê de um homem tão perverso quanto ela. Um homem cuja habilidade na arte da dor excedia a dela própria. Quão facilmente, querido leitor, uma pessoa passa de predador à presa. E quão rapidamente o prazer é tirado de uns e dado a outros. (filme Contos proibidos do Marquês de Sade)
A senhorita Renard é, na primeira cena do filme, guilhotinada em praça pública sob o excitado olhar do protagonista, o Marquês de Sade.
Em seu romance 120 dias de Sodoma, Sade conta a história de nobres devassos que abusam de crianças rap-
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tadas em um castelo de luxo em meio a um clima marcado por violência, coprofagia,1 mutilações e assassinatos. A
instituição a posteriori do termo médico (e psicanalítico) “sadismo” vem, aliás, do nome do marquês, e faz refe- rência à “perversão sexual em que a satisfação está ligada ao sofrimento ou à humilhação a outrem” (Laplanche; Pontalis, 2001, p.465).
O filme apresenta um enredo ambientado no ano 1794. Internado no Sanatório de Charenton e contando com a ajuda da enfermeira e admiradora Madeleine, que enca- minha seus manuscritos para fora do sanatório, o marquês publica seus textos e mobiliza a ira da sociedade moral da época. Seu romance Justine faz Napoleão enviar Dr. Royer-Collard, alienista notável do Hôtel-Dieu, ao sana- tório para avaliar a instituição e curar o nobre devasso, ou melhor, puni-lo com vistas a adequá-lo aos bons costumes. A cura é aqui compreendida enquanto da ordem da moral, uma forma de correção.
No Sanatório Charenton, coordenado por um jovem abade, há uma multiplicidade de internos: homens, mu- lheres, homossexuais, jovens, velhos, loucos, não loucos e indivíduos doentes que desenvolvem uma série de ativi- dades como pintura, canto, teatro conjuntamente. Nesse ambiente, o marquês tem acesso a livros, boa alimentação, vinhos e demais privilégios que não teria em uma prisão e que o possibilita dedicar-se intensa e inteiramente à sua escrita picante tão odiada e, ao mesmo tempo, tão adorada pela sociedade da época.
Para o doutor alienista, tais práticas seriam decorrentes de uma postura idealista e caberia a ele o dever e a missão com a sociedade de:
1 Coprofagia é a prática de ingestão de fezes. Os termos latinos copro e fagia significam, respectivamente, fezes e ingestão.
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pegar as aberrações de Deus e aqueles que ele abandonou e tratá-los com a mesma força e o mesmo rigor usados para treinar um cão feroz ou um cavalo selvagem. Pode não ser agradável, mas é um ato de misericórdia. (trecho do filme
Contos proibidos do Marquês de Sade)
Já para o abade, anjos e demônios poderiam habitar o mesmo homem; o fundamental seria “nos guardar de nossa própria corrupção”. O abade que resiste à tentação do amor pela enfermeira Madeleine enlouquece ao final do filme quando da morte de sua amada.
A instituição passa ao longo do filme por duas trans- formações com a vinda do Dr. Royer Collard. A primeira ocorre quando se abolem as atividades de dança, teatro e pintura tidas como terapêuticas pelo abade e se institui uma série de violências como no caso do marquês que, depois de ter sua língua cortada, é morto.
A segunda fase inicia-se quando o mesmo abade torna- -se mais um dos internos da própria instituição que co- ordenava e que agora se encontra sob administração do médico alienista. O sanatório é, então, transformado em uma casa de trabalho onde “os doentes têm que trabalhar para seu próprio sustento” (trecho filme). Ironicamente, o filme termina com o sanatório em plena atividade, com sua gráfica produzindo a todo vapor exemplares de Justine para serem exportados para toda a Europa.