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KAPITTEL 3 METODE

3.5 Data og datainnsamlingsprosess

(1) Paula – Davam choque também?

(2) Simone – Davam choque. Há dez anos atrás.

E a música continua...

eu fico louco eu fico fora de si eu fico assim eu fica fora de mim

eu fico um pouco depois eu saio daqui eu vai embora eu fico fora de si

eu fico oco eu fico bem assim

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De repente, ainda desengonçado com a câmera, dei- -me conta de que a música estava alta, então diminuí o volume da televisão.

(1) Paula – Meu marido também ficou internado. Só que ele não precisou tomar choque, não. Ele ficou no hospital psiquiátrico, mas eu podia ficar com ele lá o dia inteiro. Só não ficava de noite.

(2) Simone – ... eu tinha uma filha com dez anos, a mais nova tinha dez anos... ela ia visitar eu... todo dia... ela comprava um tanto assim de doce (gesticulando com as mãos)... me entupia de doce...

(3) Paula – Você chegou a ter que tomar choque? (4) Simone – Cheguei a levar choque.

(5) Paula – Ficar em lugar fechado também?

(6) Simone – Ficar em lugar fechado. Ficar amarrada. (7) Paula – Sem lugar pra fazer xixi, beber água?

(8) Simone – Sem lugar pra fazer xixi, beber água. Sem comer.

(9) Paula – Isso é desumano.

O eletrochoque (ou eletroconvulsoterapia como é chamada) é uma prática médica que ainda hoje é consi- derada um importante instrumento de “atenção” à crise psiquiátrica por muitos psiquiatras. Vimos que o foco da psiquiatria é estritamente a doença e, para ela, a crise é vista como “uma situação de grave disfunção que ocorre exclusivamente em decorrência da doença” (Amarante; Lima, 2008, p.81), ou seja, coloca-se a crise como estri- tamente da ordem do sujeito. Momento esse que pode ser identificado

Como de máxima simplificação de uma relação na qual, por um lado, o sujeito que está por mostrar-se já fez, progressivamente, uma simplificação e reduziu a um sin-

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toma a complexidade de sua existência de sofrimento; por outro lado, o serviço, qualquer que seja ele, equipou-se de modo especular para perceber e reconhecer – oferecendo- -se como modelo de simplificação – o próprio sistema. (Dell’Aqua; Mezzina, 2005, p.162)

(1) Simone – Porque meu marido ficou lá no Paraná porque morreu minha sogra, meu sogro, meu cunhadinho com 21 anos de acidente... e eu fiquei internada... e minha mãe me internou... minha mãe e minha filha de 13 anos... e meu filho de 19 anos... me internou na clínica. Era pra ser lá no “Sayão”.4 Aí o medico foi lá esperar e me levou pro Bezerra.

(2) Simone – Eu queria ficar internada. Eu não queria ficar em casa. Eu queria interná. Por fim, eu queria sair de lá e não conseguia sair de lá.5

É impressionante o poder da psiquiatria na sociedade mesmo com o avanço da luta antimanicomial e da Refor- ma Psiquiátrica. Há como que uma crença absoluta na figura do médico, sobretudo, no âmbito da psiquiatria, enquanto detentor absoluto da verdade e única forma de tratamento à pessoa em sofrimento psíquico. Por isso que ainda hoje práticas como eletrochoque e internação são pouco questionadas por grande parte das pessoas.

(3) Pesquisador – Antes você mesmo queria se internar e depois queria sair de lá...

(4) Simone – Depois queria sair de lá. (5) Pesquisador – Depois que conheceu lá...

(6) Simone – Depois que eu conheci... na hora que eu entrei, assim, parecia um palácio, depois lá no fundo era um lixo.

4 Sayão é o hospital do município de Araras (SP).

5 Transcrição de diálogo de vídeo produzido pelos usuários nas ofi- cinas de imagem.

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(7) Simone – Na frente é um palácio. Par ece que você está no céu.

(8) Paula – O Bruno (marido) também quase morreu lá. (9) Simone – Parece um palácio, parece não – acenando para outra usuária – não parece mesmo?! Depois...

(10) Tânia – Depois parece um presídio.

(11) Simone – Parecia um presídio. Eu fiquei interna- da quatro meses e meu pé ficava assim... – gesticulando com as mãos em torno do pé – aqueles pés tudo cheio de cascão... com a unha tudo comprida... o cabelo, eu tinha um cabelo cumprido que nem o dela e cortaram o cabelo bem curtinho. Só que ia uma mulher fazer a nossa unha (da mão), uma enfermeira muito boazinha ia fazer nossa unha de sábado. Aí depois ela parou de ir lá e aí ficou... tudo jogado. Eu ficava lá lavando meu pé na torneira di- reto... com aquele cascão no pé... meus chinelos ficavam tudo assim – novamente gesticulando – aqueles chinelão no pé... ficava lá que nem uma mendiga. A minha roupa roubaram tudo. Levei um sacolada de roupa... me deixa- vam lá que nem uma mendiga. Vim de ônibus ainda. Meu marido ainda não tinha carro... viemos de ônibus circular da clinica... fedendo... porque nem banho eu queria tomar mais lá... fiquei traumatizada, sabe? Banho gelado, aqueles banho frio, sabe!?. Levava shampoo lá e levavam tudo o shampoo da gente... os paciente roubava tudo o shampoo da gente. Comida, pra comer era aquele bolor, aquele pe- lote – gesticulando círculos com as mãos – macarrão tudo grudeiro. Daí eles levavam comida lá de tarde pra mim lá... janta pra mim lá na clínica porque não podia entrar a noite

De repente, o rosto de Simone quase que some do vídeo. Na verdade, é a câmera que sobe. Com o intuito de filmar as conversações, tinha acomodado a câmera no meu braço ancorado no braço do sofá, com o objetivo de obter uma filmagem com menos tremores (e mais técnica

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se é que isso seria possível). Mas, em virtude do teor e da intensidade da conversa, mobilizei-me de tal maneira que esqueci que estava filmando o making of da sessão de cinema.

Era difícil não lembrar a crítica de Guattari de como os psicóticos são, nessas instituições psiquiátricas, objetos de um sistema de tratamento quase animal, assumindo

uma postura bestial, andando em círculos o dia inteiro, batendo a cabeça contra as paredes, gritando, brigando, aviltando-se na sujeira e nos excrementos. Esses doentes, cuja apreensão e relação com o outro são perturbadas, perdem pouco a pouco, em um tal contexto, suas carac- terística humanas, tornando-se surdos, cegos a qualquer comunicação social. (Guattari, 2000, p.183)