3. The Sickness unto Death and Narrative Identity
3.1. The Sickness unto Death, selfhood and despair
3.1.3. The process of becoming a self – self-consciousness and
Os colaboradores conquistaram posições de destaque em suas áreas de trabalho, tornando significativa a diferença de renda entre eles e suas esposas. Com isso, eles acabaram tendo condições de sustentar suas famílias com tranquilidade, sem depender do dinheiro de suas companheiras. 47% delas recebem até cinco salários mínimos e apenas 7% acima de vinte salários (figura 5, p. 72) A instauração desse domínio financeiro pelo homem no lar é
fator de grande influência na interrupção do trabalho feminino. Mesmo Clara, Mel e Ana, que atuavam em suas áreas e eram bem-sucedidas profissionalmente, tinham uma discrepância financeira relevante e o trabalho se tornou dispensável frente à maternidade, ao casamento ou a problemas de saúde.
Pedro, marido de Clara, por exemplo, não enxergava sentido em a mulher continuar trabalhando, receber o pouco que ganhava e não poder cuidar integralmente do filho, não poder viajar quando decidissem, entre outras liberdades. Ela, ao contrário, era feliz com sua renda – “eu ganhava bem,” e conformada com os limites que sua profissão exigia: “o contato maior [com o filho] era no fim de semana. (…) Eu via, mas eu pensava assim: ainda dá para contornar, entendeu?” Mesmo assim, Clara cedeu às pressões do marido para que ela deixasse sua profissão. Pedro relatou: “Não é desmerecendo não, mas o tanto que ela estava ganhando não justificava. Eu disse: „não justifica esse tanto que você está ganhando. Não justifica a gente ter todos esses problemas por causa disso.‟”
Vitor propôs a saída de Mel do emprego para se mudarem. Ela estava grávida e dificilmente conseguiria outro emprego na cidade onde iriam morar. Mel saiu do emprego, pois precisava acompanhar o marido; no entanto, a justificativa de Vitor se sustentava na questão financeira: poderia receber uma mesada sem sair de casa: “recebi uma promoção e deveríamos mudar de Goiânia, onde o meu salário permitia pagar a ela mais do que ela recebia trabalhando em três ou quatro empresas com consultorias.”
Laura e Davi trabalhavam na mesma empresa, sendo Laura subordinada a Davi. Quando engravidou, Davi acreditava que não seria bom que os dois trabalhassem no mesmo local; logo, a diferença de salário e de posição na empresa definiu a saída de Laura. “Quando a gente descobriu a gravidez, ele falou: „prefiro que você saia da empresa. (…) Agora você será a esposa do Davi, eu sou o diretor.‟” Rodrigo também tem uma discrepância significativa de ganhos em relação à mulher, como relatada por Ana: “meu salário, na verdade, nunca
contribuiu para nada, mas para minha autoestima, ele é importante.” A diferença dos outros casais é que essa diferença salarial entre ambos não influenciou a saída de Ana do emprego. Rodrigo sempre incentivou a mulher a trabalhar, até porque acredita que ela somente se sente realizada trabalhando.
A disparidade de renda entre os membros dos casais é nítida desde o início de suas vidas conjugais, como no caso de Isabel e Felipe, que resolveram casar-se e mudar de cidade, ela com dezessete e ele com dezenove anos. Felipe teve, ainda muito jovem, uma proposta de emprego que o deixava apto a assumir as despesas de uma casa, enquanto ela era apenas uma estudante. “Saí de casa aos 19 anos para trabalhar em outro estado [casado e sustentando uma mulher].”
Os sentimentos de poder e orgulho permeiam as vivências dos colaboradores, já que são os provedores de suas casas. Como são eles que sustentam a casa, as rotinas das esposas giram em torno de que os mesmos trabalhem sem preocupação com outros afazeres, o que lhes proporciona um espaço para focarem em suas atividades profissionais. Davi, marido de Laura, relata: “não poderia exercer meu trabalho se não pudesse contar com ela para cuidar de nossa casa e de nossa filha.”
As mulheres, por sua vez, têm baixa autoestima e frustração pessoal como sentimentos norteadores, uma vez que ficam limitadas em sua atuação para além da criação dos filhos e dos cuidados com a casa. Desacreditadas de si mesmas, passam a apreciar o sucesso dos maridos. A descrição de Laura revela tanto sua admiração pelo marido quanto o orgulho desse marido pelo que ele consegue realizar. “Ao chegar lá em casa, ele falou: „Olha, eu sou esse profissional, eu exerço essa função, (…) eu tenho condições de sustentar a Laura, de conseguir dar para ela o padrão de vida que ela viveu até agora.‟”
Seguros de que darão conta de arcar com as despesas da família, os colaboradores acabam provocando a interrupção do trabalho de suas esposas com um discurso de que o
dinheiro que o homem ganha é do casal como relata Davi: “entendo que meu salário é sim parte dela.” Um discurso que não se concretiza, visto que começam a interferir no que e no como a mulher deve gastar. Felipe descreve: “sustentar minha família não é problema nenhum. (. . .) Fico sem entender porque ela precisa gastar tanto com sapatos, bolsas, badulaqueiras e salão de beleza. (. . .) A desvantagem de Isabel não trabalhar é a dependência financeira.” Vitor também narra como é sustentar uma família e de sua interferência nos gastos da esposa: “não vejo problema quanto a sustentar minha família; ao contrário, sinto-me muito realizado. (. . .) Acabo sendo mais criterioso e, algumas vezes, sendo mais duro para controle de custos, cortes de cinema, jantares, roupas etc.” E reconhecem que a vida financeira das esposas poderia ser outra se tivessem o próprio dinheiro, como Vitor descreve: “Se ela estivesse trabalhando, provavelmente isso não aconteceria, pois ela iria utilizar seus recursos da forma que quisesse, sem minha interferência.”
Pedro também deixa claro na entrevista o quanto sustentar a mulher é um ato que tem condições. Foi o colaborador que literalmente forçou a interrupção do trabalho de sua esposa e, na época, colocou o cartão de crédito à disposição dela. No entanto, tiveram uma rápida separação e ele ficou apavorado em ter que continuar dando pensão à mulher, que não trabalhava mais. “Graças a Deus eu dou conta de sustentar nossa família. (. . .) Como estávamos separados (. . .) imagina eu pagando as contas dela e ela, por exemplo, ela arrumando um namorado.”
Rodrigo, que sempre teve um poder financeiro diferenciado, é o único da pesquisa que, além de não ter provocado a saída da mulher do emprego, não vê problemas em sustentar as ostentações da esposa. “Sempre aprendi em minha casa que tudo dentro da casa era de todos. Não me importo em ser o provedor de todos em casa, mesmo porque tenho uma boa função e sou muito bem pago pelo meu trabalho.” No entanto, Ana não se sente bem em gastar um dinheiro que não é seu! Ou seja, vivenciam a mesma situação dos outros casais,
pois ela sente-se sem a liberdade de ir e vir. “Os cartões são de conta conjunta, (. . .) eu tenho liberdade, mas dentro de mim existe esse obstáculo. Eu estou muito mais contida agora e isso me incomoda. (. . .) A gente vai se restringindo muito.”
A diferença de renda entre homens e mulheres, na pesquisa, acaba por determinar a maneira de funcionamento de suas casas. Para as mulheres, é evidente a diferença do salário delas em comparação com seus maridos; no entanto, como sentem prazer vinculado ao trabalho, essa diferença não seria motivo para a interrupção de seus trabalhos. Os maridos, com exceção de Rodrigo, começam a desconsiderar as atividades profissionais das mulheres comparando seus salários e confrontando com o que as mulheres estão deixando de fazer, como cuidar dos filhos e da casa, viajar ou ajudá-los em suas rotinas, a fim de facilitar o crescimento de ambos. As mulheres, impotentes diante das pressões advindas dos maridos e das circunstâncias da maternidade, acabam por abrir mão do que estão fazendo. Acreditam tratar-se de um estado temporário, visto que não imaginam a dificuldade de retornar ao trabalho remunerado.
A realidade de ficar sem trabalhar começa a incomodar essas mulheres, com exceção de Isabel, visto que nem todos os ganhos vislumbrados são realidade. Uma das grandes dificuldades vividas pelas mulheres é gastar o dinheiro de seus maridos, uma vez que os colaboradores não permitem a elas o direito de gastar como gostariam, mesmo sabendo a importância de suas mulheres para a realização do trabalho deles. Passam a controlar as despesas da casa e da própria esposa. As colaboradoras podem gastar condicionalmente, ou seja, podem gastar desde que não seja com supérfluos, na visão de seus maridos. Nunca se sentem no direito de gastar como gastavam quando trabalhavam e tinham seus próprios salários. Enfim, a maternidade tirou-lhes o direito de ganhar e de gastar.