Da mesma forma como foi apontado pelos editores dos jornais de Passo Fundo e Erechim, a diretora-executiva do jornal de Carazinho concorda com a necessidade de se contratar jornalistas específicos para o conteúdo digital, mas também aponta dificuldades operacionais neste sentido.
(...) encontramos dois problemas. O primeiro é a dificuldade de se encontrar este tipo de profissional especializado aqui na nossa região, o
que nos leva ao segundo problema: o custo deste profissional que provavelmente terá que ser trazido de grandes centros (...) para cobrir este custo, o site deveria se auto-sustentar através da comercialização dos espaços, o que hoje, ainda não acontece. (Entrevista oral, 16-11-2008)
J.S (F/2) afirma que não há uma valorização ao site do jornal, começando pela direção e passando pelos funcionários, tanto os jornalistas como os demais departamentos. Para a diretora, os recursos que o site poderia oferecer tanto editorialmente como comercialmente nunca foram difundidos internamente, o que faz com que o site “apenas exista”.
Em relação ao aspecto comercial, a diretora considera que o site poderia se transformar em um importante instrumento de venda, tanto de forma isolada como também no sentido de agregar valor aos demais produtos do grupo. Porém, segundo ela, este potencial passa despercebido pelo setor comercial.
(...) O site deveria ser apresentado aos clientes como um produto a mais do grupo Diário da Manhã, assim como os jornais e as rádios. Quando fôssemos elaborar um projeto comercial, deveríamos incluir o site como mais um espaço de visibilidade para o produto do cliente. Seriam três mídias diferentes com três públicos distintos, mas hoje mesmo que quiséssemos efetuar esta venda, não foi nem criada uma tabela de preços para este tipo de negociação. Se algum cliente quiser anunciar na Internet, os nossos vendedores não estão preparados para corresponder a esta venda. O nosso site, por exemplo, não é “vendido” nem mesmo pelos nossos veículos. Dificilmente encontramos nas páginas do jornal, anúncios divulgando o site. O mesmo acontece nas rádios... (Entrevista oral, 16-11- 2008)
Como prova do potencial comercial da Internet, a diretora revela que aproximadamente 60% dos negócios que fecha atualmente tanto para o jornal como para a rádio, são utilizados o e-mail ou o MSN para o repasse de orçamentos e mídia para agência e clientes. No entanto, reitera que em relação ao papel do jornal junto às comunidades onde atua, a Internet e mais especificamente, o site exerce pouca influência. Segundo ela, o fato dos jornais do grupo estarem localizados no interior do Estado junto a comunidade menores, os vínculos com o público são mais diretos, uma vez que o jornal é parte da comunidade.
(...) não acredito que o site tenha mudado a nossa relação com a comunidade (...) o jornal é muito presente na comunidade por si só, não dependemos de um recurso tecnológico para nos aproximar da comunidade. A única diferença que notamos é que conseguimos manter vínculos com leitores que se mudam da região para outros locais mais distantes ou com leitores de outros lugares que possuam algum vínculo com a região, mas para os leitores que fazem parte das comunidades onde atuamos, o site não exerce uma influência significativa (Entrevista oral 16- 11-2008)
Não há dúvidas que a mudança de um suporte ao outro traz impactos, e principalmente a necessidade de repensá-los em busca de alternativas no sentido de driblar as dificuldades iniciais. Uma destas alternativas pode ser a fusão do modelo antigo com o novo. Os processos de significação não se anulam, eles se acrescentam e muitas vezes se mesclam. Conforme aponta Roger Fidler (1997), ao explicar o fenômeno denominado por ele como “Mediamorphosis”, as sociedades valem-se de distintas tecnologias, a um só tempo. Porém, o que se verificou na produção editorial on-line até agora foram constantes esforços de readaptação dos sistemas antigos e não uma fusão, ou seja, o reaproveitamento dos textos do impresso. Portanto, se formos relativizar tal constatação com o entendimento de Palácios (2005) sobre a constituição de novos formatos midiáticos, este processo de readaptação não implica necessariamente em um aspecto negativo. Pelo contrário, para o autor, o movimento de constituição de novos formatos midiáticos não se dá como um processo evolucionário linear de superação de suportes anteriores por suportes novos, mas como uma articulação complexa e dinâmica de diversos formatos jornalísticos, em diversos suportes, em convivência no espaço midiático, conforme explica: “as características do Jornalismo na web aparecem, majoritamente, como Continuidade e Potencializações e não, necessariamente, como Rupturas com relação ao jornalismo praticado em suportes anteriores”. (PALACIOS, 2005, p.23)
Pablo Bokzkowski (2006) contribui com o entendimento de Palácios (2005), ao apontar que o surgimento de um aparato tecnológico não implica no desaparecimento do cenário dominante. Ou seja, a criação de uma nova tecnologia acontece paralelamente ao desenvolvimento das condições para sua difusão, sendo que os resultados parciais obtidos em uma etapa inicial influem sobre os
acontecimentos que sucedem a uma etapa posterior. Segundo Bokzkowski, “os câmbios culturais e materiais não se realizam em um vazio histórico, mas sim recebem a influência e o legado dos processos que os precederam.” (BOKZKOWSKI, 2006, p.28)
Partindo de tais pressupostos, pode-se perceber que a hora, portanto, é de hibridações tecnológicas e investimentos compartilhados. Similarmente ao que ocorreu no jornalismo impresso, no radiojornalismo, ou no telejornalismo, que passaram por períodos de amadurecimento e busca de linguagens próprias, durante os quais prevaleceram modelos claramente transpositivos, importados de suportes mediáticos anteriores, o Webjornalismo somente agora começa a distanciar-se, paulatinamente do modelo de metáfora, que o caracterizou e, em alguma medida, ainda o caracteriza.
Porém, mesmo com avanços e recuos, os sites de conteúdo local são uma tendência na internet e atraem cada vez mais audiência. O relatório do New Media Report de 1999 (PAVLIK, apud BARBOSA, 2003, p.2) mostra que, nas versões digitais dos jornais norte-americanos, as notícias locais são o conteúdo de maior popularidade, seguida pela procura por informações da previsão do tempo e notícias nacionais. No ano de 2002, os sites da categoria notícias locais/encontros foram os que obtiveram mais rendimentos: US$ 302 milhões contra US$ 72 milhões do ano anterior. E é nesse contexto de crescimento que se supõe que o site do jornal Diário da Manhã esteja inserido.