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4.3 Oppsumering av funn

5.1.3 Tekniske reiskap

Nada de novo, fantástico ou sobrenatural possui existência no pensamento de Feuerbach. Sua filosofia nos ensina o exato oposto: viver em concordância e harmonia com essa vida para que não seja necessário apelar para saídas antinaturais, como um outro plano com uma outra vida que nega os “inconvenientes” dessa vida. A consequência a que se chega ao negar os

pressupostos religiosos – positivar o homem e a natureza – é justamente a de colocar a própria existência divina em dúvida, de se notar que essa nova compreensão de homem e natureza entra em conflito com a antiga compreensão de Deus. A consequência necessária do pensamento feuerbachiano é a de colocar a existência divina a prova, perceber que Deus, homem e natureza possuem similaridades constitutivas. A consequência necessária do pensamento feuerbachiano é o ateísmo.

Por isso, quando a consciência humana se convence de que os predicados religiosos são apenas antropomorfismos, i.e., imagens humanas, ai então já apoderou-se a dúvida, a descrença da crença. E é somente a inconsciência da covardia do coração e da fraqueza da inteligência que, baseando-se nessa convicção, não parte para uma negação dos predicados e desta para a negação da essência substancial deles (FEUERBACH, 2009, p.48).

Feuerbach percebe que com o desenvolvimento da sociedade e com a complexificação das relações humanas, diversos dogmas religiosos foram sendo extintos ou reformulados e os próprios preceitos das religiões vão sendo substituídos por preceitos éticos, práticos e científicos. Dessa forma, a religião – principalmente o cristianismo, por se tratar de uma religião moderna e amplamente conhecida – vai se

remodelando e se pautando em novas referências80, mas cada vez mais é permitido

dizer que, com o passar do tempo, já é socialmente estabelecido um tipo de ateísmo prático.

Que é, pois, o Cristianismo? Se não temos mais nenhum testamento, por onde reconhecemos a vontade, o espirito fundado? Isto significa apenas que já não existe Cristianismo algum [...]. O Cristianismo já não corresponde nem ao homem teórico, nem ao homem prático; já não satisfaz o espírito, nem se quer também satisfaz o coração, porque temos outros interesses para nosso coração diversos da beatitude celeste e eterna (FEUERBACH, 1987, p. 14).

A tarefa de fazer notar na teoria o que na prática já é uma realidade mostra que a grande preocupação aqui está na liberdade humana. Tirar o homem das falsas promessas de um falso deus é a grande tarefa de Feuerbach. O ateísmo é a sua alternativa para um novo despertar humano. “O ateísmo se revela, assim, como o processo de redescoberta da dignidade do homem: para que o homem seja, é necessário destruir sua criação, Deus” (SOUZA, 1994, p.71).

Só quando tiveres suprimido a religião cristã é que tu, por assim dizer, terás direito à república; pois, na religião cristã, tens a tua republica

no céu; por isso, não precisas de uma aqui. Pelo contrário, aqui,

deve ser escravo, para que o céu não seja supérfluo (FEUERBACH, 1987, p.18).

Feuerbach defende uma cisão com Deus para o homem poder dedicar-se à própria vida. Para ele, essa cisão já ocorre na pratica, mas é negada pelo corpus religioso. “O ateu deixa que Deus sucumba honradamente, o deísta ou racionalista, ao contrário, quer que ele subsista sem honra, à tout prix! ” (FEUERBACH, 2009¹, p. 232). Para Feuerbach, o futuro da humanidade se dá a partir do ateísmo. Ainda que o cristianismo consiga exercer uma influência ética e cultural, a sociedade, por diversas vezes, bate de frente ou apenas ignora diversos dogmas cristãos, tornando a religião menos popular ou, pelo menos, com um número cada vez mais reduzido de seguidores devotos. Ainda assim, não podemos negar a relação cultural estabelecida entre moral e religião. Através de testamentos, escrituras e mandamentos, o cristianismo apontou – e ainda aponta – os direcionamentos éticos da humanidade (principalmente nas sociedades ocidentais), de forma que parece ser

80 Como a teologia da prosperidade que usa o desejo capitalista de ganhar dinheiro para estabelecer

uma relação com Deus e assim atrair novos fieis. Cf. CHAGAS, Feuerbach e Marx - Religião e Crítica à Teologia da Prosperidade. 2016.

necessário algum tipo de religiosidade para que haja algum tipo de ética. Em outras palavras, segundo o princípio religioso, se a vontade, leis e mandamentos divinos são excluídos ou desacreditados, a humanidade se tornaria imoral, na medida em que lhe faltaria um regente superior para ordenar seus direcionamentos. O ateu é tido, de maneira geral, como alguém que não possui nenhum tipo de moral, ética ou qualquer orientação que o leve a se relacionar de forma afetuosa com o outro.

De acordo com Feuerbach, se adotamos o princípio de que é o homem quem cria o criador das virtudes, logo é o homem que conhece o que é o bem e o mal, ou pelo menos entende e questiona quais práticas podem ser benéficas. Logo, a presença divina torna-se completamente desnecessária e é possível que se vislumbre uma ética explicitamente humana sem o interesse e o medo impostos pela crença cristã.

Por isso é o ateísmo positivo, afirmativo; ele dá novamente à natureza e à humanidade a importância, a dignidade, que o deísmo lhes roubou; ele dá vida à natureza e à humanidade, das quais o deísmo sugou as melhores forças (FEUERBACH, 2009a, p.315). Poderíamos nos perguntar, por conseguinte, como é possível uma revalorização humana? A partir de que parâmetros poderíamos caminhar para um abandono da religião e o começo de uma nova sociedade, o começo de um novo homem? A problemática fundamental apontada por Feuerbach é a da cisão. Ao procurar um outro ser, o homem separa-se de si, do outro e do mundo.

Se concebermos um ser diferente do homem como princípio e ser supremos, então a distinção do abstrato e do homem permanecerá a condição permanente do conhecimento deste ser; então jamais chegaremos à unidade imediata conosco mesmos, com o mundo, com a realidade; reconciliamo-nos com o mundo mediante o outro, um terceiro, temos sempre um produto, em vez do produtor; temos um além, se já não fora de nós, pelo menos em nós; encontramo-nos sempre numa cisão entre a teoria e a pratica, temos na cabeça uma outra essência diferente da que está no coração; na cabeça, “espirito absoluto”, na vida, o homem; além, o pensamento, que não é nenhum ser; aqui seres, que não são noumenos, que não são pensamentos; em cada passo na vida, estamos fora da filosofia, em cada pensamento da filosofia, fora da vida. (FEUERBACH, 1987, p.18)

É necessário que haja uma total reformulação das relações humanas, culturais e políticas; uma “tomada de consciência” que faça com que o homem se desprenda de forma absoluta do cristianismo. Feuerbach segue sua defesa de uma

reapropriação humana do sentimento religioso, ou seja, uma substituição – não beatificada – das necessidades e esperanças que foram postas em Deus, para a comunidade humana.

Para o lugar da fé, entrou a descrença; para o lugar da Bíblia, a razão; para o lugar da religião e da Igreja, a política; a terra substituiu o céu, o trabalho substituiu a oração, a necessidade material o inferno, o homem o cristão [...]. Se, na pratica, o homem entrou para o lugar do cristão, então também no plano teórico o ser humano deve substituir o divino (FEUERBACH, 1987, p.16).

Reapropriar o sentimento religioso, retomar a essência divina para o homem, fazer o homem ser autônomo, um ser que basta a si mesmo, significa, acima de tudo, trazer a religião, Deus e a filosofia para o mundo. Feuerbach traz como norte de seu pensamento uma filosofia materialista, que se pauta, principalmente, na realidade da ideia. Deus é um ser abstrato e torna-se nulo pela falta de efetividade na realidade material. Um ser que só pode ser comprovado pela afetividade, pela abstração e pensamento é um ser existente apenas na afetividade, abstração e pensamento, é um mito, um ser vazio, sem realidade no mundo. Ao pensarmos no mundo material, podemos notar que sua existência não se dá por meio de uma crença, ou seja, se ninguém acreditar na existência do mundo, ele ainda continuará a existir. Porém, o mesmo não acontece com Deus. Diversos deuses são tidos como “mitos” ou perderam seu valor de existência pelo fato de não serem mais cridos e venerados.

Portanto, de acordo com essa via de pensamento materialista, só o real existe, só o concreto tem valor de verdade e o abstrato é apenas um desdobramento de uma base anterior, material. Deus só pode existir na medida em que houver algum ser que possa pensá-lo, mas essa existência torna-se aqui, nula, pois é uma existência puramente abstrata, dependente de uma materialidade. Feuerbach salienta que:

Deus é um ser abstrato; particulariza-se, determina-se, realiza-se no mundo e no homem; é assim concreto, só assim se nega a essência. Mas porque é que eu não devo então começar com o concreto? Porque é que o certo e garantido por si mesmo não deve ser superior ao que é certo mediante a nulidade do seu contrário? (FEUERBACH, 1987, p.84)

Não nos é permitido pensar as coisas de outro modo a não ser como ocorrem na realidade efetiva. O que na realidade está separado, também se não deve identificar no pensamento. Excetuar o pensamento, a Ideia – o mundo inteligível dos neoplatónicos – das leis da realidade efetiva é o privilégio do arbitrário teológico. As leis da realidade são também leis do pensamento (FEUERBACH, 1987, p.90).

Serrão indica que esse tipo de filosofia pretende escapar de esquemas predeterminados da subjetividade e encarar o real como ele próprio. A partir disso, é possível notar uma conjunção do projeto ateísta com o materialismo, pois na medida em que estruturas religiosas e subjetivas são negadas, dá-se espaço para uma nova apreensão da realidade que se baseie na sensação. Quanto mais se nega o pensamento abstrato, mais se chega ao entendimento de verdade em Feuerbach.

Sendo a apreensão do real tanto mais verdadeira quanto menor a intervenção de estruturas subjetivas de mediação ou de esquemas predeterminados, a multifacetada ontologia da existência requer que a concreção se coloque também ao pensamento como seu critério de verdade. É necessário que o pensamento não perca o contato com o real, que seja ele mesmo coincidência de ser com ser, pensamento concreto (SERRÃO, 2007, p.148).