Podemos afirmar que quando a religião torna o homem o anteposto de Deus, torna, ao mesmo tempo, o próprio homem anteposto de si. O homem religioso separa-se do resto da humanidade, corta laços com o outro, pois o único laço necessário deve se dar com Deus. Nesse momento, se depara com a verdade última, aquela verdade que não pode ser discutida, pois está acima da própria racionalidade; a crença nos dogmas religiosos passa a ser indubitável, uma questão de fé. Todas as crenças e condutas humanas são tornadas, na teologia, um ato de fé. Crer em um Deus que possui uma palavra e uma verdade é um ato de fé. “A fé transforma a fé em seu Deus numa lei” (FEUERBACH, 2009, p.246). Por isso, possuir um deus pessoal que rege e julga todas as coisas é possuir uma verdade, mas uma verdade que, em última instancia, não passa de um artigo de fé. Para Feuerbach:
A fé separa: isto é verdadeiro, isto é falso. E somente para si atribui a verdade. A fé tem uma verdade determinada, especial, que por isso está necessariamente ligada com a negação, em seu conteúdo. A fé é por natureza exclusiva. Uma só é verdade, um só é Deus, um só ao qual pertence o monopólio do filho de Deus; tudo mais não é nada, é erro, ilusão. Somente Jeová é o verdadeiro Deus, todos os outros deuses são ídolos nulos (FEUERBACH, 2009, p.246).
A fé em Deus é sempre dotada de um valor absoluto de verdade; não é apenas uma crença ou um “mito” (como os próprios cristãos insistem em tratar erroneamente as religiões mais antigas, com o intuito de descredibilizá-las enquanto religiões tão relevantes e legítimas quanto o próprio cristianismo). A fé está acima do
sentimento religioso ao mesmo tempo em que não está pautada na racionalidade: está acima dos dois. É uma questão de acreditar ou não. A fé faz com que o homem acredite em um ser perfeito e semelhante a si; esse ser, como dissemos, realiza e possui todas as qualidades humanas em nível de perfeição; logo, acreditar em Deus significa acreditar em um ser perfeitamente bom, perfeitamente benevolente e perfeitamente moral. A fé é a premissa necessária para a crença em um ser moral absoluto. Ora, se o homem é um ser moral e suas características são advindas de um ser superior que as possui em perfeição, então, Deus é o ser absolutamente moral. Feuerbach salienta que aqui também ocorre a inversão teológica, pois
Na religião, principalmente na cristã, a qualidade racional de Deus [...] é a perfeição moral. Mas Deus como um ser moralmente perfeito é apenas a ideia realizada, a lei personificada da moralidade, a essência moral do homem posta como essência absoluta [...]; porque o Deus moral exige do homem que ele seja como Ele próprio é: “Santo é Deus, deveis ser santos como Deus” [...] (FEUERBACH, 2009, p.74).
Crer em uma moral divina significa tensionar os laços do homem consigo mesmo; quando o homem acredita num ser moralmente perfeito está acreditando que ele é o ser moralmente imperfeito; quando diz o que deve ser, está dizendo ao mesmo tempo o que não é. A própria fé é um artificio essencialmente moral, ela decide o certo e o errado, o pró e o contra. Quem não tem fé não tem Deus, vive de forma errada, quem não está com Deus está contra Deus. Deus é o modelo, e quem não o segue está vivendo no erro, quem não é santo como Deus é o diabo, está contra Deus e deve ser castigado.
Resumindo, a ideia de um ente moralmente perfeito não é apenas teórica, pacifica, mas ao mesmo tempo pratica, para a ação, que convida para ser imitada; é uma ideia que me coloca em tensão e numa cisão comigo mesmo, porque ao me proclamar o que eu devo ser, diz-me ela ao mesmo tempo e francamente o que eu não sou. E esta cisão é na religião ainda mais martirizante, mais terrível na medida em que ela antepõe ao homem a sua própria essência com um outro ser e, além disso, como um ser pessoal, como um ser que odeia, amaldiçoa e exclui os pecadores da sua graça, a fonte de toda salvação e felicidade (FEUERBACH, 2009, p.74-75).
A fé faz com que o homem desagregue de si mesmo e coloque em seu lugar um ser superior que, ao mesmo tempo que ama, julga e castiga. Acreditar nesse deus significa amá-lo e temê-lo, significa obedecer cegamente seus supostos
mandamentos por amor e por medo de ser castigado. Por isso, “Os atos de fé cruéis da cristandade correspondem, portanto, à essência da fé – da fé como já foi expressa mesmo no mais antigo e sagrado documento do cristianismo, na Bíblia” (FEUERBACH, 2009, p. 255); a fé elege um ser moralmente perfeito e o torna um modelo, levando o homem a caminhar por um caminho impossível, viver sob uma lei inumana.
No cristianismo são as leis morais concebidas como mandamentos de Deus; a própria moralidade é transformada num critério da religiosidade [...]. Sobre a moral paira Deus como um ser diverso do homem, ao qual pertence o melhor, enquanto ao homem só é atribuída a decadência. Todas as intenções que devem ser voltadas para a vida, para o homem, todas as suas melhores energias desperdiça o homem no ser desnecessitado (FEUERBACH, 2009, p.268).
Toda moral baseada na religião possui um fundamento nulo, imoral. Por isso, Feuerbach afirma que “quando a moral é fundada sobre a teologia, o direito sobre instituição divina, então pode-se justificar e fundamentar as coisas mais imorais, mais injustas, mais vergonhosas” (FEUERBACH, 2009, p.270). Nesse sentido, podemos afirmar que o cristianismo possui um diferencial com relação às outras religiões, foi ele que trouxe a lei moral para a religião, isto é, “[...] o objeto da atividade humana num objeto da fé. A fé é no cristianismo o princípio, o fundamento, da ética“ (FEUERBACH, 2009a, p.238). O cristianismo promove um deus mais moral
que a maioria dos outros deuses, um ser absoluto que ao mesmo tempo em que rege e julga o mundo, é um exemplo moral, uma meta ao homem, um desafio, “[...] Deus é o que o homem quer ser – a sua própria essência, a sua própria meta, representada como ser real. ” (FEUERBACH, 1987, p. 76).
[...] o cristão não pode imaginar uma moral, uma vida ética e humana sem Deus; por isso faz ele a moral derivar de Deus, assim como o poeta pagão derivava as leis e os tipos da arte poética dos deuses da poesia, e o ferreiro fundidor pagão derivava os truques de seu oficio do deus Vulcano (FEUERBACH, 2009a, p.238).
Porém, mesmo sendo uma religião que traz novas concepções, a religião cristã não foge à regra das anteriores, uma vez que continua fazendo de seu deus um reflexo de seus próprios valores e necessidades; “Os cristãos não atribuíam ao seu Deus nenhum sentimento que fosse contrário aos seus conceitos morais, mas os sentimentos e afeições relativas ao amor, à misericórdia eles atribuíam a eles
sem hesitar e deviam atribuir. ” (FEUERBACH, 2009, p. 82). Feuerbach afirma que “a moral é a condição, o meio para a felicidade [...]. Basta que te comportes passivamente, basta que creias, que gozes” (FEUERBACH, 2009, p.155), mas devemos perceber que Deus é mais que um exemplo ao homem, ele também possui a sua verdade, a sua lei, ele é capaz de julgar, de condenar e de perdoar erros morais, ou seja, os cristãos atribuíram a seu deus uma lei, uma penitência – para quem descumpra a lei – e o perdão, “por isso, ao ser Deus encarado como um ser que perdoa pecados, é ele posto não como um ser amoral, mas como um ser não moral, como um ser mais do que moral, em síntese, como um ser humano” (FEUERBACH, 2009, p. 76).
Feuerbach elenca a fé como um dos componentes mais fundamentais para a ética na religião cristã. A fé é a certeza não-racionalizável, não-comprovada da existência de Deus e, por conseguinte, da lei de Deus. O autor explica que, para o pensamento cristão, através da fé o homem torna-se legítimo, pois é somente o conhecimento e a crença em Deus que o torna virtuoso. A fé é em si um dos motores para que o homem siga o exemplo e a palavra de Deus; sem a fé, Deus torna-se nulo, inválido, incoerente. Devemos atentar, todavia, que quando o cristianismo pauta-se em fatos irracionais e sobrenaturais como os da fé, abre espaço para uma verdade que não pode ser contestada; contestar racional e logicamente um dogma cristão significa agir contra o cristianismo. A fé não é mais que um instrumento de intolerância;
A fé é, portanto, essencialmente partidária. Quem não é a favor de Cristo é contra Cristo. A meu favor ou contra mim. A fé só conhece inimigos ou amigos, nenhuma imparcialidade; ela só se preocupa consigo mesma. A fé é essencialmente intolerante – essencialmente, porque com a fé está sempre necessariamente ligada a ilusão de que a sua causa é a causa de Deus, a sua honra é a honra de Deus. O Deus da fé é em si somente a essência objetiva da fé, a fé que é objeto para si mesma. Por isso se identifica também no espirito e na consciência religiosa a causa da fé com a causa de Deus (FEUERBACH, 2009, p.253).
Feuerbach é um dos primeiros filósofos a tratar da questão do fundamentalismo religioso (tema de grande relevância atual); segundo o autor, quando a teologia cria esse ser que não é mais o homem e sim seu antagônico, e o homem passa a tentar ser Deus, ele começa a defender uma moral cega, sobremundana e abre espaço para subjugar e ser subjugado; abre espaços para as
maiores atrocidades e crueldades:
A religião é o relacionamento do homem com sua própria essência – aí está a sua verdade e redenção moral – mas com a sua própria essência não como sendo sua, mas de um outro ser diverso dele, até mesmo oposto – aí está a sua inverdade, a sua limitação, a sua contradição com a razão e a moral, aí está a fonte desgraçada do fanatismo religioso, aí o princípio supremo, metafisico, dos sangrentos sacrifícios humanos; em síntese, aí está a base de todas as crueldades, de todas as cenas horripilantes na tragédia da história da religião (FEUERBACH, 2009, p.203).
O autor salienta o caráter “fundamentalista” da religião. Deus não age de forma benevolente para qualquer um; as ações divinas são voltadas exclusivamente para os religiosos, para os que tem fé. Nesse ponto podemos notar uma forma de benefício advinda da aplicação prática da lei moral divina. Ora, só será digno dos céus aquele que obedece aos mandamentos e vive de acordo com o exemplo de cristo. Deus, por sua vez, beneficiará àqueles que vivem de acordo com a sua vontade, concedendo uma vida mais suave ou até mesmo realizando desejos que escapem do natural.