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abordaremos a seguir.

2.3.2 – A Teoria do Déficit Auditivo

 

Os estudos sobre a Teoria do Déficit Auditivo têm sido bastante aprofundados em razão do aperfeiçoamento dos instrumentos para a pesquisa médica, como os testes para a avaliação do processamento auditivo e os aparelhos de ressonância magnética.

De acordo com Perusso (2002) e Boscariol (2010), a análise da integridade das funções do Sistema Nervoso Auditivo Central (SNAC) é de difícil avaliação, pois estas são difíceis de serem analisadas separadamente em razão de suas complexidades. Por isso, os aspectos relacionados à possível presença de um déficit são analisados a partir do comportamento do processamento da informação auditiva (PERUSSO, 2002; BOSCARIOL, 2010; GALETTI, 2011; BELLIS, 2011).

O processamento da informação auditiva inicia-se no Sistema Auditivo Periférico (SAP) e é transmitido ao Sistema Auditivo Central (SAC). O SAP é composto pelas estruturas externas, começando na orelha externa e chegando ao nervo auditivo. Suas funções incluem detectar o sinal acústico, condução do som e transformação dos sinais sonoros em informações neuro-elétricas (PERUSSO, 2002; BOSCARIOL, 2010). O SAC se inicia no núcleo coclear, o qual pode ser considerado o ponto de partida de uma complexa análise do estímulo sonoro (PERUSSO, 2002; BOSCARIOL, 2010).

Figura 7. Sistema Auditivo Periférico (SAP).

Fonte: Kandel; Schwartz; Jessell (2000, p. 591)

De acordo com Boscariol (2010), durante o processamento da informação auditiva, o sinal acústico é enviado ao complexo olivar superior pelos axônios pós-sinápticos e pelos axônios dos núcleos cocleares. Estas informações são projetadas ao colículo inferior do mesencéfalo através dos lemniscos laterais de ambas orelhas (BOSCARIOL, 2010). Os axônios dos lemniscos enviam sinais das orelhas ao colículo e este envia seus axônios ao Núcleo Geniculado Medial do Tálamo. Os axônios deste núcleo geniculado se dirigem ao córtex auditivo primário no giro de Heschl (GUYTON, 1991; KANDEL; SCHWARTZ; JESSELL, 2000; PERUSSO, 2002; BOSCARIOL, 2010; BELLIS, 2011). O giro de Heschl, com o lobo temporal que se estende de sua parte posterior até o final da fissura de Sylvius, e a fissura de Sylvius com a ínsula constitui as áreas auditivas corticais (GUYTON, 1991; KANDEL; SCHWARTZ; JESSELL, 2000; BOSCARIOL, 2010; BELLIS, 2011).

De acordo com Boscariol (2010), o córtex auditivo pode ser considerado o ponto de chegada das vias auditivas no lobo temporal. “Vias corticocorticais e corticotalamocorticais estabelecem conexões com diversas áreas do cérebro, em especial com o lobo frontal, e conexões inter-hemisféricas são estabelecidas por meio do corpo caloso” (BOSCARIOL, 2010, p. 38). Ainda segundo a pesquisadora, a porção do sulco do corpo caloso que recebe as vias auditivas do lobo temporal e da ínsula pode ser considerada a região específica das respostas auditivas.

Conforme Perusso (2002), o processamento da fala é realizado pelas áreas de associação, fazendo usos de informações advindas de processamentos de análise e síntese fonêmica e dos sequenciamentos dos fonemas. Portanto, o processamento auditivo central se constitui a partir de operações sucessivas e simultâneas que ocorrem em todo o sistema auditivo (GUYTON, 1991; KANDEL; SCHWARTZ; JESSELL, 2000; BELLIS, 2011).

A figura 8 ilustra esta trajetória:

Figura 8. Processamento Auditivo.

Fonte: Guyton (1991, p. 183)

O processamento auditivo central transcende a função/capacidade para ouvir, sendo responsável também pela detecção, localização e lateralização do som, discriminação e reconhecimento dos padrões auditivos e dos aspectos temporais da audição, como integração, discriminação, ordenação e mascaramento temporal (PERUSSO, 2002; GALETTI, 2011).

Perusso (2002) também considerou que o processamento auditivo central compreende habilidades como memória, atenção seletiva, fusão ou síntese biaural, separação biaural,

aglutinação, fechamento, sequencialização e figura-fundo. Neste panorama, a presença de um déficit em qualquer um (ou mais de um) dos componentes e/ou habilidades auditivas citadas pode ser considerado como um distúrbio no processamento auditivo central.

De acordo com Santos; Barreiro (2005) e Galetti (2011), o comportamento do processamento auditivo pode ser avaliado com tarefas auditivas específicas, como testes de processamento auditivo temporal para avaliar a resposta temporal para a ordenação, discriminação, resolução e integração; testes de escuta dicótica para analisar o efeito de estímulos diferentes apresentados de forma simultânea às duas orelhas; testes de interação binaural para avaliar a habilidade do SNAC durante o processamento de informações díspares e complementares apresentadas às duas orelhas; testes monoaurais de baixa redundância para avaliar o fechamento auditivo, a análise de figura-fundo, e a discriminação auditiva frente a sinais sonoros distorcidos ou ausentes.

Há pesquisadores que têm creditado a presença do déficit apenas ao componente temporal do processamento auditivo, originando a teoria do déficit do processamento auditivo temporal. Segundo Romero, Capellini e Frizzo (2015, p.439), a American Speech and

Hearing Association (ASHA) definiu o processamento auditivo temporal como

a percepção do som ou da alteração do som dentro de um período restrito e definido de tempo, ou seja, refere-se à habilidade de perceber ou diferenciar estímulos que são apresentados numa rápida sucessão, sendo dividido em quatro categorias: ordenação ou sequencialização temporal, resolução, discriminação ou acuidade temporal e integração ou somação temporal.

Ainda segundo as pesquisadoras, a percepção temporal do som depende de respostas comportamentais e o lobo temporal, em conjunto com o complexo olivar superior, são os responsáveis pela percepção dos padrões sequenciais e pela codificação da informação sonora temporal (ROMERO; CAPELLINI; FRIZZO, 2015). Na figura a seguir, a trajetória do processamento auditivo temporal:

Figura 9. Processamento Auditivo Temporal

Fonte: Cunha; Luc-Puel (s.d.)24

De acordo com os pesquisadores, um distúrbio e/ou disfunção no processamento auditivo temporal pode comprometer o desenvolvimento da fala, implicando em atrasos sintáticos que se refletem na compreensão e construção das frases durante a comunicação (FORTUNATO-TAVARES et al, 2009). Além disso, os pesquisadores também afirmam que um distúrbio neste componente pode comprometer o processamento da informação de maneira a promover alguns dos comportamentos típicos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) (ROMERO; CAPELLINI; FRIZZO, 2015).25

Os ditos sintomas do déficit do processamento auditivo costumam ser referidos à dislexia disfonética ou fonológica em razão dos problemas e dificuldades no processamento do som. Desta forma, o déficit do processamento auditivo é considerado como fator primário e causa do déficit do processamento fonológico, a qual é considerada como a teoria mais difundida e estudada acerca do fenômeno da dislexia (ALVES et al, 2011).

      

24  Disponível  em http://www.cochlea.eu/po/exploracao‐funcional/metodos‐objetivos/vias‐auditivas.  Acesso 

em 18.11.2015.  

2.3.3 -A Teoria do Déficit no Processamento Fonológico

 

O processamento fonológico pode ser definido como operações mentais realizadas pelos indivíduos durante o processamento das informações advindas da estrutura fonológica da linguagem oral, ou seja, significa a capacidade e as habilidades necessárias para reconhecer e interpretar os sons da linguagem e manipulá-los durante a comunicação (LOPES, 2004; SALGADO, 2010; SEABRA; CAPOVILLA, 2011).

O processamento fonológico pode ser compreendido em três componentes: a consciência fonológica, a memória de trabalho fonológica e o acesso ao léxico mental.

A consciência fonológica é definida como a habilidade metalinguística de se refletir sobre os sons da fala e manipular seus segmentos de forma consciente (CARDOSO- MARTINS, 1999; PESTUN, 2005; PAULA; MOTA; KESKE- SOARES, 2005). De acordo com Pestun (2005), as habilidades metalinguísticas da consciência fonológica se desenvolvem gradualmente à medida que a criança vai interagindo, participando e experimentando as situações de uso da linguagem.

A consciência fonológica pode ser subdividida em diferentes níveis ou componentes de acordo com a concepção dos pesquisadores. Freitas, Alves e Costa (2007) subdividiram a consciência fonológica em consciências silábica, intrassilábica e fonêmica. Já Capovilla, Dias e Montiel (2007) subdividiram a consciência fonológica em discriminação, segmentação e manipulação da fala e consciências suprafonêmicas e fonêmicas.

Os componentes ou níveis da consciência fonológica mais citados e estudados pelos pesquisadores são a consciência silábica (habilidade para compreender a segmentação das palavras em sílabas); a consciência segmental ou fonoarticulatória (habilidade para pensar sobre os sons da fala e relacioná-los aos movimentos articulatórios adequados e necessários para produzi-los); a consciência intrassilábica ou suprafonêmica (habilidade em isolar uma determinada sílaba dentro de uma palavra); a consciência fonêmica (habilidade para segmentar as palavras em fonemas); e a consciência fônica (habilidade para reconhecer as unidades fonológicas na produção oral) (BAJARD, 1994; MALUF; BARRERA, 1997; LOPES, 2004; MARCHETTI; MEZZOMO; CIELO, 2009; VIDOR-SOUZA; MOTA; SANTOS, 2011; ALVES, 2012).

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