As oficinas de cultura do Programa Agente Jovem são ofertadas pela Fundação Municipal de Cultura, que apresentava aos participantes um menu de oficinas, como percussão, teatro, dança de rua e audiovisual, a serem escolhidas.
Assim como no caso das oficinas de esportes, não havia, dentro da Fundação, uma dotação orçamentária específica para o Programa, acarretando interrupções na oferta dessas oficinas. Da mesma forma, a sua prioridade era a oferta aos núcleos que estavam nas áreas do Programa BH Cidadania.
Sem oficinas de cultura previstas para o ano de 2007, a própria instituição contratou um oficineiro, tendo em vista a proposta da IAM de realizar, ao final do ano, uma atividade coletiva para a comunidade com a apresentação dos talentos advindos das oficinas de balé, hip hop, teatro e artesanato realizadas pela instituição. Nesse sentido, cabe esclarecer que não se tratava de um oficineiro específico para o
Programa Agente Jovem, envolvendo outras ações desenvolvidas pela IAM.
A oficina de teatro começou em agosto, sendo oferecidas às quintas-feiras no horário de 13h. Os jovens não gostavam desse horário, mas era o único em que o oficineiro estava disponível. Portanto, a oficina ficava condicionada a esse horário, e não às condições de vida dos jovens, que manifestaram ao educador do Programa que esse horário era ruim para eles, pois “era muito corrido!”.
Um elemento de destaque é que, ao contrário das outras oficinas, a de teatro fazia uma articulação com as demais esferas da vida do jovem. No primeiro encontro, o oficineiro fez uma exposição da proposta da oficina de teatro, na qual articulou diversas dimensões da vida dos jovens, as quais sintetizamos em três:
1) perspectiva de futuro – o oficineiro falou aos jovens sobre a possibilidade de profissionalizar-se, pois “quem sobressai tem condições de seguir carreira”;
2) relação com a cidade – o oficineiro comentou sobre a exposição de Oscar Niemeyer que estava acontecendo no Palácio das Artes e no Museu da Pampulha e informou os jovens sobre o festival de teatro que estava acontecendo em Belo Horizonte, em diversas regiões - e sempre acontecia na regional. Salientou que tudo era “de grátis” (sic), o que, no seu entendimento, favorecia a participação dos jovens;
3) relação com as disciplinas escolares – o profissional salientou que, na montagem de um palco, o jovem tinha que calcular diversas dimensões, ou seja, precisava da matemática e da física, por exemplo. Além disso, o teatro trabalhava com
biografias, poesias, narrativas, romances, quer dizer, era necessário que os jovens lessem e tivessem conhecimento da língua portuguesa.
No entanto, percebemos que o ato de fazer essas articulações durante a oficina estava relacionado ao perfil do oficineiro, que sentia necessidade de promover uma visão do todo, mas que, paradoxalmente, não era obrigado a articular a oficina de cultura ao Programa Agente Jovem, conforme relatou:
Eu fui chamado para atender todos os que são contemplados pela IAM. [...] Se há alguma coisa [com os jovens do Agente Jovem], eu converso com a coordenadora ou com o educador, para alguma troca. Eu dou a oficina, sem nenhum compromisso de entender se o Programa está sendo satisfatório ou não. Eu desenvolvo a oficina, eu tenho a liberdade de dar a minha oficina (Ícaro, oficineiro de cultura)
Apesar de o oficineiro fazer essa articulação das diversas dimensões da vida do jovem, com o intuito de despertá-lo para a oficina de teatro, a relação ainda era tuteladora, conforme relatamos no nosso diário de campo:
No primeiro encontro, o oficineiro estabeleceu com os jovens um conjunto de cinco regras, utilizando os dedos para memorizar e pedindo para que os jovens repetissem com ele: 1) eu vou me respeitar; 2) eu vou respeitar o outro; 3) eu vou respeitar o professor (fez uma analogia com o líder e o patrão, ou seja, temos que respeitá-los); 4) eu vou fazer tudo que o professor pedir; 5) eu vou trabalhar. Todos repetiram em coro e em voz bem alta. (Caderno de campo, 23/08/2007)
Assim, como observado nas oficinas temáticas, a ênfase recaía novamente sobre o estabelecimento de normas de conduta e de comportamento dos jovens. A oficina como um momento de expressão cultural e de contato com conhecimentos e linguagens não se constituía como uma possibilidade para o educador e para os jovens. Ao estabelecer essas cinco regras, estabeleceu-se, implicitamente, uma forma de controle do grupo, conforme constatamos:
Em seguida, convidou os jovens para fazer um alongamento e um aquecimento vocal. Com o aquecimento vocal, movimentou a sua face, por meio das vogais “a”, “e”, “i”, “o”, “u”. Os jovens participaram, alguns se sentiram constrangidos, mas houve muitos risos. Quando o riso saiu do controle, chamou a atenção: “Aqui é a oportunidade de fazer isso! Há hora e lugar para esse comportamento.”
– disse. Após essa fala, os jovens aquietaram-se. (Caderno de campo, 23/08/2007)
A proposta da oficina era que fosse montado um esquete com os jovens do Programa, para compor uma apresentação para a comunidade no encerramento das atividades da IAM, em 2007. Para 2008, o projeto era montar uma peça com base na biografia de Milton Nascimento, escrita no livro Travessia. O oficineiro contou um pouco da história para os jovens, o que, a nosso ver, não despertou muito interesse. Zíbia disse baixinho que era seu pai que ouvia Milton, demonstrando que isso nada tinha a ver com a sua realidade ou gosto.
O oficineiro fez uma analogia com a vida de cada um e com a sua própria, criança pobre do interior da Bahia que veio para BH e ajudava seus pais vendendo cocada e que, se não fosse a sua determinação, não chegaria aonde chegou. Se ele chegou, Milton chegou, todos poderiam chegar.
Apesar da proposta e da performance do oficineiro, que com seus gestos despertava risos e prendia a atenção dos jovens, nem todos aderiram à oficina de teatro. Alguns alegaram timidez, outros diziam que não gostavam. Apenas 12 jovens quiseram, de fato, participar da oficina, sendo a maioria aqueles mais participativos na oficina temática. Entretanto, isso não era regra. Hermann, que era extremamente tímido, estava participando.
No entanto, essa seleção foi feita pelo próprio oficineiro, conforme depoimento:
No início aqui, eu fiz quase um mês de oficina aqui com eles, com todos, e eu percebi os que não queriam e os que queriam. Os que não queriam estavam influenciando os que queriam a não fazer nada, a atrapalhar a minha aula. Então, nós tivemos uma reunião com o educador para definirmos, e nós conseguimos ficar com 12 adolescentes. E estamos conseguindo fazer o trabalho. (Ícaro, oficineiro de cultura)
Para os outros jovens que não aderiram à oficina, o educador fez a proposta de que lessem o livro O jovem Martin Luther King, que, segundo ele, era para favorecer a
leitura e a dicção dos jovens, pois, na sua opinião, eles não aderiram porque tinham dificuldade em se expressar.
A cada encontro, o educador distribuía cópia de um capítulo do referido livro para que os jovens lessem, primeiro em silêncio e depois, em voz alta, sendo que cada um lia uma frase, e outro ia completando, e assim sucessivamente. Ao término do capítulo, o educador parava e abria para comentários, que ficavam circunscritos a comentários como “bom!” e “engraçado!”. Assim a leitura prosseguia. Não era suscitada nenhuma discussão, por exemplo, étnico-racial, a partir dos elementos que o texto apresentava. A atividade parecia uma forma de ocupar o tempo dos jovens que não aderiram à oficina de teatro.
No final do ano, num domingo foi feita a apresentação de encerramento das atividades da IAM. O espetáculo contava a história de um anjo que veio à Terra com a missão de colocar um manto sobre uma criança muito especial e que, na sua busca por essa criança, acabou descobrindo que todas são especiais. A apresentação envolveu todas as oficinas da IAM: teatro, música, dança de rua, percussão e balé.
O produto da oficina de teatro do Agente Jovem foi uma pequena apresentação, no início, falando sobre o espírito do Natal. A apresentação envolveu apenas quatro dos 12 participantes. Chamou-nos a atenção o fato de que nenhum outro jovem do Programa estava presente na apresentação, incentivando os colegas. Apenas o educador estava presente.