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O núcleo do Agente Jovem na Vila Heliópolis, ao contrário de outros núcleos visitados na pesquisa exploratória, funcionava em espaço próprio da instituição.

Um primeiro aspecto que nos chamou a atenção foi a organização do local. O espaço era simples, mas muito limpo e organizado. No entanto, por se tratar de um local onde era executado um programa voltado para o público jovem, não havia nada que lembrasse um espaço para jovens: faltava o colorido e a movimentação de jovens, expressa pelas músicas, pelos risos, pelas conversas altas.

Os jovens queixaram-se, algumas vezes, das restrições que lhes eram impostas, como utilizar vestes curtas, entrar pedalando bicicletas ou conversar alto. No entanto, não havia nenhum questionamento explícito. Todavia, ao mesmo tempo, burlavam o instituído, mantendo essas práticas: as jovens, freqüentemente, estavam vestindo minissaias, top, roupas decotadas, assim como os jovens, algumas vezes, “esqueciam” e entravam pedalando as suas bicicletas.

Freqüentemente, havia a presença de crianças brincando no pátio e dentro da brinquedoteca (que era voltada para crianças de até sete anos de idade) e de mães que movimentavam o setor social da instituição, que contava com um guichê para atendimento localizado à frente do seu portão de acesso. Essa movimentação para saber sobre os cursos ou escrever cartas para os padrinhos era uma rotina dentro da instituição.

Ao lado da brinquedoteca, ficava a biblioteca. No entanto, a maior parte do acervo era de livros infantis. Os dois espaços contavam com a presença de uma monitora responsável pelas atividades e por garantir a organização do local.

Próximo à biblioteca, havia um banheiro que fazia divisa com a sala da coordenadora da instituição. Ao fundo, numa pequena sala multiuso, ficavam guardados os instrumentos musicais, e eram desenvolvidas as aulas de percussão e de música oferecidas pela IAM à comunidade.

Nos dias e horários em que não aconteciam essas atividades, o Agente Jovem utilizava o espaço para realizar as oficinas temáticas. Entretanto, quando todos os jovens estavam presentes, o espaço ficava pequeno, dificultando a locomoção deles, que ficavam, apenas, sentados nas cadeiras postas em círculo.

Ao lado dessa sala, havia uma outra maior e espelhada, onde aconteciam as aulas de dança de rua e de balé oferecidas à comunidade e os eventos da instituição. O Agente Jovem só utilizava essa sala quando estava disponível.

Do lado esquerdo ao setor social, localizavam-se duas pequenas quadras: uma destinada ao futebol e outra ao vôlei. O acesso à quadra era por meio de um portão. Segundo o relato do educador, era o espaço do Curumim60, onde nas segundas-feiras

era realizada a oficina de esporte do Agente Jovem. Esse espaço contava, ainda, com uma pequena sala e um pequeno refeitório, utilizados apenas pelos profissionais e crianças e adolescentes atendidos pelo Curumim.

Próximo a esse espaço, havia uma outra sala muito abafada e barulhenta, pois fazia divisa com as quadras. Por ser um pequeno galpão, com telhas de amianto e onde, na parte da tarde, “batia” sol, era um local abafado e quente, com dois ventiladores para tentar amenizar o calor. Esse espaço era utilizado pelo Agente

Jovem, sobretudo nas quintas-feiras, quando os demais espaços da instituição estavam ocupados com outras atividades.

Ao lado desse local ficava o acesso para o interior da instituição. Dentro havia uma cozinha, onde era servido o lanche dos funcionários. Mais à frente havia uma sala com aproximadamente seis computadores, onde acontecia o curso de informática. Havia, ainda, um pequeno espaço para pesagem das crianças em situação de desnutrição acompanhadas pela instituição, que dava acesso a uma cozinha maior e onde, nas terças-feiras, acontecia o curso de padaria para a comunidade, do qual alguns jovens do Agente Jovem participavam.

A Instituição contava, ainda, com dois outros espaços: a creche e o que eles chamavam de “predinho”, onde funcionavam as atividades da Oficina, do curso de artesanato e de alfabetização de jovens e adultos.

60 O Curumim é um projeto socioeducativo do governo estadual voltado para crianças e adolescentes de 6

Com relação aos recursos audiovisuais, a instituição tinha TV e vídeo, que eram utilizados em algumas oficinas temáticas, e um data show, utilizado apenas em eventos.

Sabemos que a arquitetura de um local não é isenta de sentidos. Conforme discutem Dayrell, Leão e Reis (2007), em um espaço educativo sua estrutura e forma de ocupação não são neutras e revelam, de algum modo, o projeto político-pedagógico, implícito na proposta que se pretende implantar.

Nesse aspecto, percebemos que a dinâmica da instituição limitava o trânsito dos jovens, ficando estes circunscritos aos espaços onde estavam acontecendo as atividades do Programa. A exemplo, quando chegavam, os jovens ficavam sentados no pátio, ou na rua, esperando até que o educador os chamasse para entrar na sala ou na quadra. Enquanto isso, alguns conversavam em pequenos grupos, e outros aguardavam sozinhos.

O fato de não ter um espaço específico destinado às ações do Programa, ao qual os jovens pudessem dar identidade, revela o pouco investimento do Agente

Jovem, revelando uma concepção de programa “pobre” para jovens pobres (DAYRELL, LEÃO, REIS, 2007). Daí o improviso de as oficinas temáticas e de cultura serem realizadas nas salas que não estão sendo usadas por outra atividade da instituição.

Além disso, o fato de circunscrever as atividades do Programa apenas em ambientes como sala de aula e quadra revela uma ação educativa implementada de maneira transmissiva, aos moldes do modelo escolar.