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“Vinha eu da filosofia e, pelos caminhos da linguagem, me deparei com a aventura da comunicação. E da heideggeriana morada do ser fui parar com meus ossos na choça-favela dos homens, feita de pau a pique, mas com transmissores de rádio e antenas de televisão.” (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 27)

Peão ouve rádio enquanto cozinha em acampamento de comitiva. Pantanal da Nhecolândia, 2005. “Uma nova época do ouvir está anunciada.”

(KAMPER apud BAITELLO, 2005, p. 108)

Vozes69 que anunciam, vozes que quebram distâncias, vozes que agregam, vozes que enviam recados, vozes que apontam caminhos, que alegram, que integram... O rádio não é só meio, é mediador cultural: opera social e culturalmente, por meio dos diversos gêneros radiofônicos (MARTINS, 2002, p. 80). Passados mais de cem anos da sua invenção70, um pouco mais de oitenta de sua operação como

69 O termo aqui engloba os efeitos sonoros acrescidos às vozes dos interlocutores do rádio, que,

apesar “de serem vozes de pessoas, em virtude da intensidade e da força imaginativa (...), ganham um valor próprio e se transformam em personagens” (LOPES, 1988, p. 131).

70 Considera-se aqui a invenção do rádio por Roberto Landell de Moura, mesmo período em que

meio de comunicação71, o rádio continua sendo um poderoso instrumento de mobilização social, entre tantas outras funções que pode desempenhar. E, ao comunicar, entreter, educar, politizar, alienar e catequizar, também cria vínculos, interações, sincroniza os tempos de cidadãos que moram em grandes cidades, como mostrou Menezes (2007) e também os que moram no Pantanal sul-mato- grossense, como se pretende mostrar aqui.

O poder de mobilização que o rádio teve em diferentes sociedades é incontestável. Estão aí exemplos como o da propagação do nazismo na Alemanha, a criação da imagem populista dos governantes na ditadura brasileira e até mesmo a criação de um momento de pânico nacional, com cidades sendo esvaziadas por causa da transmissão de A guerra dos mundos, feita por Orson Welles inspirado no livro homônimo de H. G. Wells, na rádio Columbia Broadcasting System, a CBS, nos Estados Unidos, na noite de 30 de outubro de 1938. O rádio era o meio de comunicação mais usado naquela época e, ao transmitir de forma ficcional a invasão da terra por marcianos, foi tão convincente que gerou medo e muita confusão, levando moradores a abandonarem suas casas em busca de refúgio72.

É claro que essas situações só podem ser colocadas em um mesmo patamar para comparação em virtude da mobilização pelo rádio. O primeiro exemplo estava relacionado com a proximidade da guerra e a eficácia do uso da comunicação, sobre a qual Hitler, no livro Minha luta, já anunciava que tinha sido a palavra falada, e não a escrita, a responsável pelas grandes transformações históricas e “salientava a necessidade da propaganda ser popular e de se equiparar ao nível intelectual da capacidade de compreensão dos mais ignorantes” (LENHARO apud HAUSSEN, 1988). O segundo, que diz respeito ao caso brasileiro – e de demais países latino- americanos –, tem a ver com o populismo, discurso político usado na época do surgimento e sedimentação do rádio. Era um período em que se construía uma cultura e identidade nacionais: o País estava se industrializando, a população do campo migrou e, com a migração, trouxe a hibridação das classes populares, uma nova forma de se fazerem presentes na cidade. Nesse contexto, o populismo fez uso da eficácia do rádio – um meio acessível aos públicos não letrados, vale lembrar

71Alguns estudos indicam que a instalação da primeira rádio no País ocorreu em 1919, com a Rádio

Clube de Pernambuco. A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, considerada a primeira oficial do Brasil, é de 1923.

72 Dados disponíveis em: http://www.pucrs.br/famecos/vozesrad/guerradosmundos/index2.htm.

– como forma de apelo às tradições populares e à construção de uma cultura nacional:

o papel decisivo que os meios massivos desempenham nesse período [1930-1950] residiu em sua capacidade de se apresentarem como porta-vozes da interpelação que a partir do populismo convertia as massas em povo e o povo em Nação (MARTÍN- BARBERO, 2006, p. 233).

No caso de A guerra dos mundos, aconteceu o que se chamou de “decodificação aberrante”, resultado da junção dos gêneros de rádio e televisão, o que multiplica as formas de recepção. Landi afirma que o ouvinte pode captar as diferenças de gênero e aceitar como verdadeiro tudo aquilo que está inserido no contexto noticioso e, como ficcional, tudo o que está dentro do gênero do radioteatro. E lembra que o noticioso, em seu caráter de espetáculo, tem a possibilidade de uso de diversos códigos para decifrar cada gênero, de misturá-los e confundi-los.

Os gêneros são um dispositivo por excelência do popular já que não são somente modos de escrita, mas, também, de leitura, um lugar do qual se lê, se olha, se decifra e se compreende o sentido de um relato (LANDI apud HAUSSEN, 1988).

O conhecimento sobre esses modos de leitura divergentes, os lugares de onde se lê, é um dos motivos que impedem que se generalize o rádio como meio de manipulação, que não encontra nenhum tipo de resistência, como pensavam os estudiosos de comunicação quando ele surgiu e teve o crescimento vertiginoso que teve. Por isso, os primeiros estudos sobre esses meios estavam focados em saber como eles manipulavam suas audiências, pois a súbita expansão do rádio, do cinema e da televisão levou a crer que eles substituiriam as tradições, as crenças e solidariedades históricas por novas formas de controle social. Canclini (2008, p. 253) mostra que, quando as ondas sonoras começaram a envolver multidões, essas já estavam homogeneizadas:

A rigor, o processo de homogeneização das culturas autóctones da América começou muito antes do rádio e da televisão: nas operações etnocidas da conquista e da colonização, na cristianização violenta de grupos com religiões diversas – durante a formação dos Estados nacionais –, na escolarização monolíngue e na organização colonial ou moderna do espaço urbano.

Esse pensamento encontra ressonância também em Martín-Barbero (2006, p. 52), para quem a cultura de massas surge um século antes do que a maioria dos manuais para estudiosos de comunicação costuma apontar: “por volta de 1835 começa a ser gerada uma nova concepção do papel e do lugar das multidões na sociedade e ela traz o ‘medo das turbas’ e o desprezo das minorias pelo ‘sórdido povo’”. E mostra que o primeiro esboço do conjunto, que dá origem ao conceito de massa, vem de Tocqueville: se antes a ameaça estava fora – as turbas ameaçando a sociedade com sua barbárie –, agora está dentro, dissolvendo o tecido das relações de poder, erodindo a cultura, desintegrando a velha ordem, dando os primeiros passos para o início da democracia moderna.

Esse é um aspecto muito importante para se analisar de que forma o rádio se insere na cultura do peão pantaneiro, pois ainda hoje persiste o pensamento de que o rádio e outros meios considerados de massa são os agentes de homogeneização das “sociedades rurais”, distantes geograficamente dos grandes centros, de culturas ditas “isoladas” e “puras”, como a pantaneira. Já se demonstrou no primeiro capítulo as mesclas que ocorreram no Pantanal ao longo dos últimos séculos. E, no final dos anos 1960 e início dos 1970, quando o programa Alô Pantanal, que se vai analisar aqui, começou a ser transmitido, muitas mudanças estavam em trânsito na região. Os donos das fazendas já não eram os únicos senhores a quem os peões se reportavam, pois os peões já não eram propriedade dessa ou daquela fazenda, como afirmou Belkiss Rondon.

Muitos peões passaram a receber salário e eles mesmos faziam suas compras na cidade, o que aumentou o trânsito entre a cidade e o Pantanal. Os filhos dos peões, a exemplo do que acontecia com os filhos dos proprietários, também foram estudar na cidade, pois nem sempre havia uma escola pantaneira por perto. As escolas pantaneiras, como são voltadas para a alfabetização, são de responsabilidade dos governos municipais. Nas fazendas visitadas, três tinham escolas: Tupanciretã, Baía das Pedras e Aguapé. Todas estão vinculadas ao município de Aquidauana, que ao todo tem sete núcleos escolares. Na fazenda Tupanciretã, a 180 km da cidade, está o Núcleo Escolar Cyriaco da Costa Rondon. Funciona com uma sala multisseriada do 1º ao 5º ano, com um total de 14 alunos, muitos deles vindos de outras fazendas – as filhas do peão Jonas, da fazenda Fazendinha, estudam ali. Elas vão de trator na segunda-feira e só voltam para casa

no final de semana, pois o acesso é muito difícil, porque está localizada em uma planície de fácil inundação.

Crianças deixam a escola pantaneira na fazenda Tupanciretã, de propriedade da família Rondon, 2005.

As fazendas ficavam menores por causa da divisão de terras entre herdeiros, proprietários vindos de outros estados e países. Eles chegavam mudando costumes, tradições e trazendo novas formas de relacionamento e novas relações de trabalho. Quando o rádio chegou ao Pantanal, umas três ou quatro décadas antes, algumas dessas transformações já estavam em andamento, e o Pantanal não era tão isolado assim.

A onda da integração chega ao Pantanal

Ao contrário do que queria o marechal Deodoro da Fonseca73, na região do Pantanal foi o rádio, e não o telégrafo, que colocou em prática o “tão sonhado” projeto de integração nacional pela comunicação (MACIEL, 1999). O que estava por trás da iniciativa do Império – tão personificada na figura de Cândido Rondon, que acompanhou de perto a abertura de picadas na mata para a instalação da rede – era o sonho de um país integrado pelos fios telegráficos, pois com eles seria possível

73Deodoro da Fonseca era inspetor de fronteiras e seguia a determinação do Império em integrar e,

principalmente, proteger o território nacional, já que em 1864 as tropas de Solano Lopes invadiram o sul de Mato Grosso, expondo a fragilidade das fronteiras do País (ZAREMBA, 2003, p. 186).

integrar a nação, vencer a distância geográfica e redimir o interior do País do seu atraso material e cultural: “as terras indígenas, acreditavam articuladores políticos, seriam incorporadas e os índios transformados em ‘brasileiros’” (ZAREMBA, 2003, p. 188, grifo nosso). Tais intenções fizeram do telégrafo um dos índices para aferir o progresso e o avanço civilizador no País. Laura Antunes Maciel cita o seguinte trecho proferido pelo marechal Rondon em uma conferência em São Paulo na década de 1920:

(...) onde quer que chegue o telégrafo (...) ali far-se-ão sentir os benéficos influxos da civilização. Com o estabelecimento da ordem, obtida pela facilidade com que os governos podem agir [para] distribuir o bem público e a justiça, virá fatalmente o desenvolvimento do homem e das indústrias (apud MACIEL, 2001).

Entre 1900 e 1906, o “progresso” chegava ao Pantanal, por meio da construção da linha telegráfica entre Cuiabá e Corumbá, alcançando as fronteiras do Paraguai e da Bolívia. Representava mesmo um avanço – naquela época, uma viagem entre Cuiabá, a capital de Mato Grosso, e o Rio de Janeiro, capital do País, demorava trinta dias (ZAREMBA, 2003, p. 188). A iniciativa resultou no incentivo da instalação da rede telefônica de Cuiabá, cuja empresa de telefonia contabilizava duzentos assinantes em 1913; nessa data a cidade nem mesmo tinha rede de energia elétrica (MACIEL, 2001). Na parte sul do estado, foi a partir da linha traçada pela rede para a instalação do telégrafo de Rondon74 que se abriu a principal estrada – única, até então – para o Pantanal da Nhecolândia, a estrada Parque Pantanal, antiga rodovia da Integração. Apesar de ter sido aberta tantas décadas depois, o nome dado traz o mesmo ideal: o da integração.

No entanto, por trás da integração que se pretendia na época do Império, estava a necessidade de reforçar e proteger as fronteiras do País, ameaçadas pela recente Guerra do Paraguai, e também a de tomar posse do território, recém- demarcado. Mas ele não era, assim, tão atrasado, como se pensava do lado oposto do continente, na capital Rio de Janeiro. Antes da Guerra, essa região da fronteira se voltava para o comércio e integração com os países da bacia do Prata, como foi citado no capítulo anterior. E após o término dela, com a instalação do Arsenal da Marinha em Ladário, ao lado de Corumbá, a navegação internacional é retomada e

74A casa onde funcionou a estação de telégrafo ainda existe e está situada no Porto da Manga, às

surge na cidade “uma burguesia mercantil mais identificada com os países da Bacia do Prata do que com a própria nação e governo representado pela distante capital, Rio de Janeiro” (FONSECA, 1998, p. 84). O porto de Corumbá atraía a atenção de comerciantes de várias nacionalidades:

(...) a tendência de crescimento de um circuito mercantil dinâmico, abastecedor da grande e distante região de Mato Grosso – corredor de mercadorias e matérias-primas –, e a oferta de terras baratas ou até mesmo gratuitas – oferecidas pelo Estado como incentivo oficial à colonização – correspondeu aos fatores determinantes de um significativo fluxo de estrangeiros e nacionais, na fronteira sul mato- grossense (CORREA apud TONIAZZO, 2007, p. 83).

Corumbá, portanto, era um importante entreposto da fronteira, realizando comércio com o Uruguai, Argentina e países da Europa e, até 1930, foi o terceiro maior porto da América Latina. Ali atracavam navios com bandeiras inglesas, portuguesas, francesas, entre outras. Traziam vinho, cimento, telhas; levavam carne, couro, erva-mate. Corumbá chegou a ter 25 bancos internacionais, entre eles o City Bank, e a libra esterlina, moeda oficial da Inglaterra, também era moeda corrente (CORREA apud TONIAZZO, 2007, p. 86). Portanto, profundas transformações econômicas e sociais estavam acontecendo depois da Guerra do Paraguai na área incluída naquela que o Império acreditava precisar dos “benéficos influxos da civilização”. A mais forte delas foi o incessante fluxo de estrangeiros, principalmente paraguaios, conforme mostra Nelson Werneck Sodré, que alega que se podiam fixar limites territoriais, mas não barreiras:

O fim da luta, em vez de acarretar uma delimitação permanente, um divórcio entre os grupamentos de origem brasileira e de origem paraguaio-guarani, contribuiria para entrelaçá-los, confundi-los cada vez mais (SODRÉ, s/d, p. 105).

A integração tão sonhada da região com o restante do País só aconteceria, efetivamente, por meio das redes – primeiro, a ferroviária, cujos trilhos partiam de Bauru e chegavam até Corumbá, onde faziam interligação com a rede ferroviária boliviana – e, depois, das emissoras de rádio e televisão. O rádio, portanto, não chegou ao Pantanal modificando uma cultura “pura”, intocada, que estaria ali preservada do contato com a população urbana. Quando o rádio chega ao lugar, já encontra ali um cenário de mestiçagens muito forte.

Corumbá: cenário mestiço para as transmissões radiofônicas

“Deste lado é Corumbá. Além da cansação, nós temos cuiabanos, chiquitanos, pau-rodados e turcos. Todos por cima de uma pedra branca enorme que o rio Paraguai borda e lambe.” (Manoel de Barros, 1985, p. 13)

Peão passeia em Corumbá em intervalo de viagens de comitiva, 2005.

Foi nesse cenário, marcado pelas mesclas de culturas e relações comerciais internacionais, que o rádio surgiu na região do Pantanal. A Rádio Difusora Matogrossense, de Corumbá, está entre as mais antigas do País: foi fundada75 em 1934, apenas 11 anos após a instalação da primeira emissora de rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, de 1923. A empresa hoje faz parte do Grupo Pantanal de Comunicação, que tem um jornal semanário, a Folha da Região, uma agência de comunicação e uma rádio de frequência modulada que integra a Rede Bandeirantes de Rádio, a Band FM. Desde 1980, a Rádio Difusora Matogrossense, que produz o Alô Pantanal, está sob o comando de Uriel Raghiant e Caibar Silva Pereira. A emissora opera em ondas médias, AM, na frequência de 1.360 khz, com

75Fonseca (1998, p. 62). Vera Lúcia Leite Lopes (2003, p. 251) também cita que a primeira rádio de

um transmissor de 2.500 watts, o que permite alcance em um raio de 250 km, “graças às características da região pantaneira (plana e alagada), que facilitam a propagação das ondas eletromagnéticas” (FONSECA, 1998, p. 87).

Não foram localizados registros sobre a programação da Rádio Difusora Matogrossense na época76 nem sobre a capacidade técnica dela nos primeiros anos. A trajetória da emissora na cidade não deve, portanto, diferenciar-se do que aconteceu no restante do Brasil, onde a radiodifusão começa com cunho nitidamente educativo e, nos primeiros anos, segue os padrões de difusão cultural comuns na Europa: “os pioneiros estavam distantes da realidade da maioria da população e pensavam a cultura a partir de pressupostos europeus” (BITTENCOURT, 1999, p. 13). No início, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro transmitia óperas diretamente do Teatro Municipal. As emissoras eram associações entre amigos e, portanto, recebiam o nome de sociedade, de clube: “as primeiras emissoras tinham sempre em sua denominação os termos clube ou sociedade, pois na verdade nasciam como clubes ou associações formadas pelos idealistas que acreditavam na potência do novo meio” (ORTRIWANO, 1985, p. 14).

A década de 1930, quando a Rádio Difusora Matogrossense começa suas transmissões, é considerada a época de afirmação do rádio como meio de comunicação de massa do Brasil. A autorização para transmissão da propaganda, a difusão do samba e da marchinha e o sistema elétrico de gravação de discos foram algumas das características que permitiram um caráter mais popular ao rádio (BITTENCOURT, 1999, p. 17). Depois vem o período que é considerado os anos de ouro do rádio brasileiro e, com ele, a radionovela. E aqui, um detalhe interessante: a primeira radionovela foi Em busca da felicidade, transmitida pela Rádio Nacional em 1942. O autor – o dramaturgo Oduvaldo Vianna – começou a escrever radionovela no período em que viveu e trabalhou na Rádio El Mundo, em Buenos Aires. Quando voltou ao Brasil, resolveu lançar o gênero no País. A radionovela, portanto, já de origem, vem incorporada com outras referências culturais.

O radiojornalismo também começa nesse período e vem marcado pelo modelo americano, principalmente com o boletim Américas em guerra, que foi desenvolvido pelos norte-americanos em formato de radioteatro, utilizando sonoplastia e efeitos sonoros. Ele era transmitido pelas rádios brasileiras em

76Essas informações não fazem parte dos objetivos da pesquisa, mas acredita-se que podem ampliar

português (BITTENCOURT, 1999, p. 22). Não é propósito deste trabalho analisar a trajetória do rádio no Brasil, mas essa contextualização é importante, porque emissoras de rádio do interior, como a de Corumbá, seguiam as emissoras dos grandes centros e as da capital do País. Um exemplo disso é demonstrado por Vera Lúcia Leite Lopes em sua dissertação de mestrado Rádio A Voz D’Oeste: construção e cidadania. Em Cuiabá, capital mato-grossense, a comunicação acontecia apenas pelas linhas do telégrafo. Voltando do Rio de Janeiro, maravilhado com o rádio, o cuiabano Deodato Monteiro trouxe alguns componentes e montou um aparelho receptor. Ouvia as notícias e corria para a janela de sua casa, gritando a todos que passavam os últimos acontecimentos. Ganhou o apelido de boateiro (LOPES, 2000, p. 23). Em 1934, ele funda a Rádio Sociedade de Cuyabá, que não teve sucesso. A primeira emissora oficial do estado, a Rádio Clube A Voz D’Oeste, viria somente em 1939, cinco anos após a emissora de Corumbá.

A popularização do meio rádio se deu principalmente a partir de 1947, com a invenção do transistor, que tornou o rádio acessível, de fácil manuseio e de baixo custo para a população (BUFARAH, 2003, p. 151). Mas bem antes disso já havia aparelhos de rádio no Pantanal, como fica claro na descrição feita por Renato Alves Ribeiro (1984) sobre a Fazenda Taboco, no Pantanal do Aquidauana:

Quando comprei o primeiro rádio a bateria para o Taboco77, lá por

1941, aquilo foi uma grande novidade. O pessoal vinha em casa ouvir o rádio. E havia lá no Retiro Mangabal uma boa senhora, já idosa, que gostava de tocar violão e cantar (...) ela não se fazia de rogada para cantar nas reuniões do pessoal (1984, p. 31).

Abílio Leite de Barros, proprietário de terras e autor de crônicas sobre o Pantanal e sua gente, conta que no início, quando o rádio chegou às fazendas pantaneiras, ele ficava ligado a enormes baterias, pois não havia energia elétrica. Conta também que os peões chegavam a fazer uma montagem com pilhas, unindo umas às outras, para melhorar a capacidade dos aparelhos. Segundo ele, na década de 1940 o rádio já era bem popular entre os peões e uma mostra disso era a constante inclusão de pilhas na lista de pedidos deles para os patrões78.

77A Taboco, no Pantanal do Aquidauana, é uma das mais antigas fazendas do Pantanal: foi fundada

entre 1820 e 1830.

Longe dos jornais e revistas, de ouvido colado no rádio

O peão que vive hoje no Pantanal, portanto, cresceu ouvindo rádio, um aparelho que “desemboca músicas e falas estranhas”79, no dizer do poeta Manoel de Barros. Falas estranhas como as vozes que transmitem jogos de futebol e ajudam a

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