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A gente fica fanático também, eu não gostava, mas se estou em casa na hora da novela, eu tô lá na frente, a gente aprende... a olhar. (Jonas, na Nhecolândia)

Mulher toca sino na fazenda Aguapé. Pantanal do Aquidauana, 2005.

Blém, blém, blém... O sino toca para avisar que o jantar está pronto na fazenda Aguapé, no Pantanal do Aquidauana. Apesar de ser final de tarde e ainda ter luz natural, peões, com lanternas em punho, começam a chegar ao comedor, lugar onde se servem as refeições. Dali, vão seguir outro chamado sonoro: o plim- plim107 da TV Globo108, que fica ligada até às 9 da noite ou, mais especificamente,

107 A vinheta da Rede Globo foi criada em 1971, a pedido de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o

Boni, para marcar a passagem entre os programas e intervalos comerciais. Em 1976, Hans Donner fez com que ela “começasse a flutuar livremente pelo espaço”. Eram três peças que, ao se

até acabar a novela do horário nobre – 20 horas –, que lá começa uma hora mais cedo por causa do fuso horário109. Às vezes, a TV é desligada um pouco mais tarde, ao final do futebol, quando há transmissão de jogos de campeonatos importantes. Depois disso, em virtude das restrições do uso de energia elétrica, os motores são desligados. Na maior parte das fazendas visitadas, os motores eram ligados durante algumas horas no período da manhã, na hora do almoço e à noite, totalizando de quatro a seis horas por dia, mas a TV geralmente só é ligada à noite. Com hábitos bem diferentes do dos moradores das grandes cidades, onde são realizadas as pesquisas que mostram o tempo que cada brasileiro passa diante da televisão110, pode-se afirmar, diante dessas circunstâncias, que o pantaneiro assiste entre duas e três horas por dia – quase a metade do tempo daquele que vive no centro urbano111.

Muito importante para a compreensão de como o meio se insere na cultura pantaneira é analisar não só o tempo, mas como é feito esse consumo, como se assiste TV, pois a análise que se pretende fazer aqui não se restringe às mensagens transmitidas pela tela e seus efeitos e reações, mas aborda como essa recepção se articula com o contexto cultural em que vive o peão pantaneiro. É um estudo das relações feitas por meio das mediações – “mediações não são o que está dentro nem o que está fora, mas as conexões do que está dentro com o que está fora; são as relações, as conexões e/ou ainda as interações promovidas” (APOSTOLICO, 2006, p. 49).

Foram adotadas as teorias propostas por Jesús Martín-Barbero, que, em vez de primeiramente analisar a produção e a recepção, para depois considerar as relações da TV com os espectadores, propõe três lugares possíveis para a mediação: a cotidianidade familiar, a temporalidade social e a competência cultural. A primeira é vista como a unidade básica de audiência (grifo no original), o lugar que

encaixarem, deixavam ver o arco-íris, fazendo soar o plim-plim. Pesquisado em: http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/. Acessado em: 26 dez. 2009.

108 Apesar de perder a hegemonia conquistada desde a década de 1970 a cada ano nas regiões

metropolitanas, no Pantanal a TV Globo ainda é líder de audiência, segundo a TV Morena de Corumbá, integrante da Rede Matogrossense de Televisão, afiliada da Rede Globo.

109A diferença de fuso horário é para o sinal da TV que chega de Campo Grande ou Corumbá. 110As pesquisas geralmente são feitas em centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes. 111Segundo o IBGE, em 2004 o brasileiro gastou 4 horas, 53 minutos e 22 segundos assistindo à TV

aberta. Pesquisa realizada pelo Almanaque Ibope em 2005 mostra que as classes D e E assistem 40 minutos a mais, totalizando 5 horas e 11 minutos por dia (Fonte: Correio Brasiliense, 25/1/2005). Em 2006, o IBGE divulgou pesquisa indicando aumento de meia hora no tempo gasto com o consumo de televisão. Em 2009, a instituição francesa Deloitte apontou que o brasileiro gasta três vezes mais tempo conectado à internet do que assistindo TV (Fonte: http://tecnologia.terra.com.br/interna/. Acesso em 27/3/2009).

oferece uma situação de reconhecimento, “onde os indivíduos se confrontam como pessoas e onde encontram alguma possibilidade de manifestar suas ânsias e frustrações” (DURHAM apud MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 295). A temporalidade social é a que permite a medição entre o tempo do capital – o da produção, o tempo que se mede – e o tempo da cotidianidade, o que se repete, feito não de unidades contáveis, mas sim de fragmentos (PIRES DO RIO apud MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 297). E a competência cultural é a mediação que articula toda a vivência cultural que as pessoas acumulam durante sua vida, não só pela educação formal, mas também por meio das experiências cotidianas, atuando por intermédio dos gêneros televisivos, que constituem uma mediação fundamental entre as lógicas do sistema produtivo e as do sistema de consumo, entre a do formato e a dos modos de ler, dos usos (PIRES DO RIO apud MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 301). É essa dinâmica que permite que a TV supere as diferenças sociais que a atravessam, tornando possível que tanto um cidadão urbano, que sabe ler e escrever, portanto, letrado, quanto um peão pantaneiro, analfabeto, assistam à programação, distinta em seus vários gêneros.

Esse entendimento, por meio da cotidianidade, passa por um conceito fundamental, o do habitus, que permite pensar a inscrição das estruturas sociais nas práticas cotidianas. O termo foi usado por Certeau a partir de Bourdieu e, posteriormente, Marcel Mauss. Panofsky também usou essa ideia em textos em que sublinhava a importância teórica e prática do habitus na sociedade medieval (CERTEAU, 2008, p. 332). Certeau defende uma inversão de perspectiva que desloca a atenção do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos para o que chama de criação anônima, aquela que surge da prática mediante o uso desses produtos. Assim, a “análise das imagens difundidas pela televisão (representações) e dos tempos passados diante do aparelho (comportamento) deve ser completada pelo estudo daquilo que o consumidor cultural ‘fabrica’ durante estas horas e com essas imagens” (CERTEAU, 2008, p. 39). Tendo em vista o que Martín- Barbero chama de habitus de classe, é possível observar como os modos de ver se manifestam na organização do tempo e do espaço cotidianos, pois eles atravessam os usos da televisão:

(...) de que espaços as pessoas veem televisão, privados ou públicos, a casa, o bar da esquina, o clube de bairro? E que lugar

ocupa a televisão na casa, central ou marginal? Preside a sala onde se leva a vida “social”, ou se refugia no quarto de dormir, ou se esconde no armário, de onde a retiram para ver algo muito especial? (2006, p. 302).

Jonas e Claudete assistem novela. A TV fica no quarto do casal. Pantanal da Nhecolândia, 2005.

No Pantanal da Nhecolândia e suas proximidades, ver TV é algo especial. Aparelhos de televisão não estão em todo canto como nas casas da cidade: nas fazendas pantaneiras, eles ainda têm lugar de destaque. Nas casas dos patrões, nas sedes, está na sala. E na varanda dos fundos, perto da cozinha ou dentro dela, para os empregados. Nos galpões dos peões é rara a presença dela. Se a fazenda tem escola, geralmente é ali que fica a TV, pois fora dos horários de aula a escola se transforma em um local de reuniões e eventos, como se fosse o centro comunitário do lugar. Por isso, para os solteiros, assistir TV é um acontecimento marcado para depois do jantar, já que os aparelhos também não estão perto da mesa em que são servidas as refeições. Faustino, capataz de fazenda no Pantanal da Nhecolândia, conta112:

Antes não tinha nada, cê jantava e se cê quisesse ficá conversando um pouquinho, cê ficava, mas aí acabava o movimento, hoje em dia não, janta, vai assisti novela, pra mim ta sendo quase a cidade, porque o que ta passando na cidade, a pessoa sai daqui vai pra lá,

ta tudo sabeno, não adianta falar – fulano tá lá no mato, não sabe negócio de TV, não sabe o que é... Num são todas fazenda que ta tendo, mas a maior parte ta tendo.

Na casa dos peões casados, geralmente a TV está no quarto – poucas têm sala, e, quando têm, são usadas como quartos. Camas servem de sofás e abrigam a família após o jantar. É na cama, ao lado da mulher Claudete e dos filhos – quando não estão na escola113–, que Jonas assiste à novela de todos os dias. Ele revela:

Sabe que eu gosto mais de rádio do que de TV (...) era só rádio ligado, o dia inteiro, ficava ali, conversando, se tinha pilha continuava, se não tinha ficava na mesma, mas TV é uma grande coisa, aqui distrai a gente de muita coisa, agora eu assisto novela114.

Poucos confessaram o gosto pela novela, ao contrário, durante as entrevistas realizadas na fase de pesquisa, muitos peões afirmaram que assistem apenas ao noticiário na TV. Mas raramente eles se levantavam ou saíam da frente da TV com o início da telenovela. Uma pesquisa feita pela Rede Globo mostrou que 40% da audiência da novela das 20 horas é masculina (HAMBURGER, 2005, p. 64). No Pantanal, onde há poucas mulheres, esse número deve ser bem maior. Vale dizer que mesmo os que, como Jonas, ficaram fanáticos pela TV continuam grudados nos seus aparelhos de rádio. Mas o rádio fica ligado durante os afazeres: nos preparativos para a lida no galpão, na cozinha, no curral, durante o almoço na comitiva, na rede ou ao lado da cama antes de dormir. O rádio só é desligado durante a cavalgada, no momento do trânsito entre um local e outro.

Em meio à sonoridade a que estão acostumados – a literatura oral, os sons da natureza e dos animais, os sinos que marcam o tempo do acordar, do almoço, do jantar –, a televisão traz mais esse ritual, esse marco de tempo. E ainda traz a magia da imagem – “foi a mais importante revolução virtual: tem as imagens que o rádio não possui e é capaz de fixar hábitos na rotina das pessoas” (PIZA apud TONIAZZO, 2007, p. 29). Cabe esclarecer que não se trata de considerar a TV como um meio que acrescentou imagens à sonoridade do rádio, como de fato aconteceu nos primórdios da TV, mas à sua capacidade de sedução – o mundo que aparece na tela da televisão vem dominado pela instantaneidade, seja uma transmissão ao vivo

113 As três filhas do casal estudam na escola pantaneira Cyriaco Rondon, da fazenda Tupanciretã,

distante três horas de trator na época da seca, e só voltam para casa nos finais de semana.

ou não, ela sempre traz a sensação de imediatismo, de proximidade com os fatos, mesmo que eles estejam acontecendo do outro lado do planeta. Para Martín- Barbero, essa preponderância do verbal na TV latino-americana ainda acontece hoje, apesar de todo o desenvolvimento técnico e expressivo, em virtude da

(...) necessidade que se tem de subordinar a lógica visual à lógica do contato, dado que é essa que articula o discurso televisivo sobre o eixo da relação estreita e a predominância da palavra em culturas tão fortemente orais (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 296).

Laços sociais e conexões criados a partir da TV

Assim como o rádio cria vínculos entre as pessoas, como visto no capítulo anterior, a TV também cumpre esse papel. Para o pesquisador francês Dominique Wolton115, a principal função da televisão é a criação de laço social:

Em que a televisão constitui um laço social? No fato de que o espectador, ao assistir à televisão, agrega-se a esse público potencialmente imenso e anônimo que a assiste simultaneamente, estabelecendo assim, como ele, uma espécie de laço invisível. É uma espécie de common knowledge, um duplo laço e uma antecipação cruzada. “Assisto a um programa e sei que outra pessoa o assiste também, e também sabe que eu estou assistindo a ele” (1996, p. 124).

Fechine (2008) destaca algumas dessas teorias, sobre os modos de ver TV, ao fazer uma abordagem semiótica na transmissão direta da TV. A autora descreve a teoria de John Ellis, que propõe dois regimes de visão ou de fruição: o regime do olhar fixo – fitar, contemplar e dar olhadela, que acontece quando a TV está ligada, mas o espectador sequer para diante da tela, ele apenas monitora a televisão enquanto faz outras atividades, dedicando a ela uma atenção intermitente ou esporádica –; e o regime do “olhar” – o espectador é completamente absorvido pelo que vê na TV. O primeiro modo é chamado pela autora de atividade primária e o segundo, de atividade secundária. Como opera em “tempo real”, o simples fato de

115 Dominique Wolton é doutor em sociologia e diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas

em Paris. Em eventos no Brasil, defendeu as teorias publicadas em livros, algumas consideradas polêmicas, como a que considera a TV uma propiciadora de modernização nas sociedades menos favorecidas. Mas, neste trabalho, já se discutiu que o acesso à mídia ou equipamentos não torna ninguém mais ou menos moderno (PINHEIRO, 2006, p. 30).

ver TV cria o contato – “vejo o que os outros estão vendo no momento em que eles estão vendo” (FECHINE, 2008, p. 109).

Para o peão pantaneiro, que se desloca até um lugar específico para ver TV, o estar junto tem realmente um duplo sentido: ele está em um mesmo espaço físico assistindo televisão, compartilhando com outras pessoas esse momento e, por intermédio dela, compartilha essa experiência com milhões de outros telespectadores, em lugares distintos. E aí, se cria um espaço simbólico, vivido coletivamente por meio da transmissão. Fechine (2008, 109) descreve:

É sincronizando o ‘passar do tempo’ do meu cotidiano (esfera privada) com o de grupos sociais mais amplos (esfera pública) que a TV instaura um sentido de ‘estar com’ ou ‘fazer juntos’ que se manifesta unicamente na copresença que essa similaridade da programação (todos veem a mesma coisa) e essa simultaneidade da sua transmissão (ao mesmo tempo) propiciam.

E, assim que a TV é desligada, a duração é interrompida, o contato, desfeito. No Pantanal, principalmente para os peões solteiros que vão voltar para o galpão, a TV ganha “ares” de cinema, pois, para eles, ir ver TV é como o ato de ir ao cinema para o morador das cidades, e essa experiência é comunitária, possibilita uma vinculação social diferenciada, mais duradoura que quando assistem em casa, sozinhos, isolados. Dificilmente se faz outra atividade enquanto a TV está ligada. Seja entre os solteiros ou casados, a televisão no Pantanal ainda reúne as pessoas, como fazia logo após sua chegada aos lares brasileiros, nas décadas de 1960 e 1970, quando ela reinava na sala. E como ainda acontece nos bairros populares, nas periferias das grandes cidades e no interior, onde existe apenas um aparelho em cada residência. Nesse sentido, ver TV é um ato social que permite o encontro, a troca de opiniões sobre o que se vê na tela, pois todos estão no mesmo espaço e, por mais que tenham opções de canais116, veem a mesma programação, pois é um só aparelho para todos, o que implica a escolha de uma única sintonia. E ali, juntos, aplaudem, vaiam, vibram, silenciam.

116 No período em que a pesquisa foi realizada, em todas as fazendas visitadas o sinal da TV era

captado por antenas parabólicas que podiam captar o sinal direto de transmissoras do Rio de Janeiro ou São Paulo ou da retransmissora da TV Morena de Corumbá.

Foi em uma situação similar a essa, assistindo a um filme com professores da universidade e moradores da periferia de Cali, que Martín-Barbero (2002) teve uma ruptura epistemológica que o levou a reforçar algumas das teorias já citadas aqui. Eles riam do filme grotesco que estava na tela enquanto todos os espectadores permaneciam em total silêncio. O fato é narrado na introdução de Ofício de cartógrafo: depois de quase ter sido expulso da sala de cinema, passou a observar não o filme, mas a reação das pessoas que estavam no cinema. Percebeu que o filme que eles viam não tinha nada a ver com o que ele via. A partir do episódio, para o pesquisador mudou o lugar de onde se formulam as perguntas – um ponto fundamental de todo o trabalho de Martín-Barbero, que busca, então, uma aproximação etnográfica e um distanciamento cultural que permita ver com as pessoas e contar às pessoas o já visto. Esse deslocamento metodológico permite traçar um novo mapa para as mediações, em que se rediscutem conceitos como hegemonia e o papel do que é “popular” no processo comunicacional:

Um mapa que sirva para questionar as mesmas coisas – dominação, produção e trabalho, mas a partir do outro lado: as brechas, o consumo e o prazer. Um mapa que não sirva para a fuga, e sim para o reconhecimento da situação a partir das mediações e dos sujeitos (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 290).

É com esse mapa, noturno, que permite ver o que não está dito que, ao final da pesquisa que estava sendo realizada naquela sala de cinema da periferia de Cali, se pôde perceber o uso social da telenovela feito por aquela gente:

(...) do que falam as telenovelas, e o que eles [os pesquisadores] dizem para a gente, não é algo que esteja de uma vez dito nem no texto de telenovela nem nas repostas às perguntas duma pesquisa. Trata-se de um dizer tecido de silêncios: os que tecem a vida dessa gente “que não sabe falar” – e muito menos escrever – e aqueles outros com os quais está “entretecido” o diálogo da gente com o que acontece na tela (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 29, tradução nossa).

Para ele, a telenovela fala mais a partir dos intertextos que formam suas leituras do que a partir de seu texto. E as pessoas desfrutam mais da telenovela quando a contam do que quando a assistem, porque, ao contar, misturam o episódio às suas próprias vidas. Esse exemplo torna claro também que a mediação não acontece apenas naquele momento em que o espectador está diante da TV, é um processo atemporal.

A oralidade pantaneira diante da mediação televisiva

Acredita-se que, principalmente em sociedades orais como a pantaneira, a mistura do conteúdo da telenovela com fatos cotidianos também acontece com outros formatos televisivos, como o telejornal. E essa característica é bastante acentuada no Pantanal por causa da cultura oral do pantaneiro. Viu-se que, ao contar um causo, o narrador vai incorporando à memória coletiva relatos com a sua própria história e retira dela, pelo esquecimento, o que não quer ou não tem interesse em dar continuidade. Assim como essa literatura oral atualiza a cultura do pantaneiro por meio dos causos, a TV se apropria do que lhe interessa. E usa artifícios, como os narradores, para dar destaque ou esconder o que é ou não conveniente. O que se vê na TV é resultado de um processo de seleção, a escolha de uma ou mais versões, a edição de determinados acontecimentos, num jogo constante de memória e esquecimento. Assim como os narradores pantaneiros, a mídia televisiva é mais do que simples relatora dos fatos, age como ator fazendo uso da montagem. Na afirmação de Martín-Barbero e Rey (2004, p. 100):

A visibilidade que mídias como a televisão oferecem é quase sempre paradoxal: não responde a um ideal de total transparência, mas é o resultado mais ou menos ambíguo da interseção entre informação e desinformação, verdade e artifício, montagens ritualizadas e espontaneidade.

Ao analisar a mediação por meio da cotidianidade, a TV deixa de ser vista como a corruptora das tradições familiares para estabelecer uma concepção que vê na família um espaço fundamental para a leitura de codificação da televisão. O próprio discurso televisivo se apropria disso, colocando na tela sempre personagens com os quais grande parcela do público possa se identificar:

(...) os rostos da televisão serão próximos, amigáveis; nem fascinantes, nem vulgares. Proximidade dos personagens e dos acontecimentos: um discurso que familiariza tudo, torna “próximo” até o que houver de mais remoto e assim se faz incapaz de enfrentar os preconceitos mais “familiares” (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 297).

Claudete, mulher do peão Jonas, adora as telenovelas da Globo e não perde um capítulo da novela Belíssima117, que mostra triângulos amorosos, traições e cenas de muita sedução gravadas em Atenas, São Paulo e Rio de Janeiro. Ela afirma que agora coisas da cidade estão no Pantanal:

Antes a gente não tinha uma TV, aí você não sabia como era o mundo lá fora, você achava que não podia fazer uma coisa e às vezes pode (...) achava que não tinha condições de fazer algumas coisas e às vezes tem. De primeiro eu achava que o marido falava, você escutava e ficava quieta, hoje em dia não, você vê que tem direito de muitas coisas118.

Detalhe da TV no quarto do casal Jonas e Claudete, com cena da novela, 2005.

Pela telinha, portanto, o telespectador se conecta, passa a fazer parte do todo

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