As três etapas necessárias para escrever uma história literária, explicitadas por David Perkins selecionar os eventos de maneira cronológica para em seguida colocar um enredo e formar uma história são utilizadas por Manuel Bandeira. A antologia corresponde à etapa na qual o historiador organiza os poemas representativos daqueles poetas que se destacaram no enredo, ou seja, apesar de ser colocada posteriormente, a seleção final é justificada pelo texto inicial. Em sua autobiografia afirma que alguns contemporâneos tiveram essa mesma interpretação: “não faltou quem visse no meu livro, em contrário do que foi minha intenção, uma antologia precedida de prefácio” 204. Não obstante negar, é isso que ele faz.
A antologia segue a mesma ordenação cronológica do ensaio e inicia com os sonetos religiosos e os poemas satíricos de Gregório de Matos: “Buscando o Cristo Crucificado um pecador com verdadeiro arrependimento”, “Implorando de Cristo um pecador contrito perdão dos seus pecados”, “Despede-se o Poeta da Bahia, quando foi degradado para Angola” e “Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os seus membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia”. Gregório de Matos não tem com quem disputar porque, dos primeiros escritores, a dúvida sobre a autoria dos
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poemas de Anchieta os desqualifica, Prosopopéia, de Bento Teixeira, e Ilha da maré, de Botelho de Oliveira, são poemas cujo valor está relacionado à naturalidade do autor e ao tema nativista, e não à qualidade estética. O que distingue o ensaio é que Bandeira contempla na antologia os sonetos religiosos, possibilitando que o leitor recupere o tema que foi abordado com a poesia jesuítica e mantenha o início da história quando os poetas tinham a produção vinculada à política e à religião.
O sentimento nativista e o indianismo aparecem com os árcades e representam um marco para o sentimento coletivo que assinalaria a produção dos românticos. Dos seis árcades, três figuram com poemas na seleção final. O soneto em decassílabos, “Temei penhas...”, de Cláudio Manuel da Costa e as oito liras de Marília de Dirceu: “Tu não verás, Marília, cem cativos”, de Tomas Antônio Gonzaga, descrevem a colônia, não o espaço bucólico do arcadismo. Esse critério não é o motivo central para a eleição dos textos, pois Glaura, de Silva Alvarenga, não é mencionado apesar de Bandeira elogiá-lo por sua naturalidade com a paisagem “brasileira” e pelo pouco repertório arcádico. É sua popularidade que dá a vitória a Marília de Dirceu.
Em relação ao indianismo, O Uraguai, com o episódio lírico da morte de Lindóia, é lembrado em detrimento ao Caramuru, apesar de Bandeira, no ensaio, ter deixado evidente sua preferência pelo épico de Santa Rita Durão. Se o assunto, a língua e a intenção patriótica fossem parâmetros para a seleção, seria o poema de Durão e não o de Basílio que apareceria. No ensaio, o historiador destaca O Uraguai, não apenas pela beleza das paisagens, fino sentimento, correção e brilho da forma, mas por sua originalidade e inovação. As escolhas dos poemas árcades reforçam a preferência pelos autores cujo tema é a natureza do futuro país.
No Romantismo, dos primeiros românticos somente é lembrado Gonçalves Dias. O lugar de precursor do movimento não dá a Gonçalves de Magalhães a entrada na antologia. Tal como Gregório de Matos, Dias é destacado individualmente. Ele é, dentre todos os poetas, o que mais
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espaço recebe, sendo apresentados: “A canção do exílio”, “I-Juca- Pirama” e “Não me deixes”, perfazendo um total de dezenove páginas. O épico é apresentado na íntegra com seus dez cantos deixando explícita a importância desse poema para a nossa história. Bandeira havia esclarecido, no ensaio, que esses dois textos marcam o ápice do nativismo e do indianismo, elementos constituintes da poesia nacional.
“Não me deixes”, por sua vez, inicia a vertente lírica. Composto de seis estrofes de quatro versos em que se intercalam decassílabos e hexassílabos, essa composição poética apresenta uma temática que se define por um sentimentalismo exacerbado, em que o eu-lírico expressa sua dor por causa do distanciamento amoroso. Os poetas do segundo momento romântico são continuadores dessa tradição e responsáveis por caracterizar o sentimento coletivo da jovem nação. Bandeira não enfatiza os nacionalistas, mas os intimistas. Os poetas românticos lembrados são Álvares de Azevedo com “Se eu morresse amanhã”, “Lembranças de morrer” e “Fragmento de um canto em cordas de bronze”; Junqueira Freire, com “A profissão de frei João das Mercês Ramos”, “Nem sempre” e “Louco”; Fagundes Varela, com “Névoas”, “Juvenília” e “Cântico do calvário”; Casimiro de Abreu, com “Meus oito anos” e “Amor e medo”, que remetem à poesia lírica, cujas temáticas existenciais, como a infância, o amor, as dificuldades da vida e a morte, estão presentes.
Na antologia fica evidente, pelo espaço que Bandeira dedica aos textos relacionados à nação, sua preferência pela corrente existencial. Depois de Gonçalves Dias, praticamente são escolhidos aqueles em que predominam o sentimento pessimista e o tom desesperado, influência das leituras de Byron e Musset. Essa tradição certamente marca a produção do poeta Manuel Bandeira. Do ponto de vista formal, prevalecem as quadras e os decassílabos, ou seja, sem o rompimento das formas fixas.
De Castro Alves, além de “Vozes d’África” e “Navio negreiro”, ambos de caráter abolicionista, Bandeira ainda destaca os poemas “Crepúsculo sertanejo” e “Adormecida”, nos quais a natureza remete,
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respectivamente, ao sertão pátrio e ao erotismo. Tal tema não foi abordado no ensaio, mas o regional foi tratado com Olavo Bilac em “Caçador de esmeralda”.
Os parnasianos também surgem na antologia como um grupo. O sentimento pessimista permanece e predomina no soneto. Assim, Bandeira reforça o que tinha deixado implícito no ensaio, ou seja, a importância dessa escola para a nossa poesia. O número de poetas da segunda geração romântica só pode ser equiparado ao dos parnasianos. O primeiro poeta é Luís Delfino com: “In her book” e “A primeira lágrima”. Machado de Assis, com “Círculo vicioso” e os poemas “A mosca azul” e “Uma criatura”. Luís Guimarães, com “Visita à casa paterna” e “O esquife”. Alberto de Oliveira, com “Vaso grego” e “Taça de Coral”, e o poema “Aspiração”. João Ribeiro, com “Simples balada”. Raimundo Correia, com “Banzo” e os poemas “Ser moça e ser bela” e “Plenilúnio”. Vicente Carvalho, com “Velho tema” e com, “Pequenino morto” e “Sugestões do crepúsculo” e José Albano, com “Sôneto”. Olavo Bilac é o autor que apresenta mais variedade; pois, com “Via-láctea”, há a lírica amorosa. O nacionalismo reaparece com a miscigenação da cultura em “Música brasileira”, a exaltação da língua, em “Língua portuguesa” e no tema da terra, em “Caçador de esmeraldas”. Esses aspectos do poeta não foram mencionados no ensaio.
Os simbolistas não formam um grupo, e sim uma dupla: Cruz e Sousa e Alphonsus Guimarães. O que os aproxima são tanto as formas fixas, com as quadras e os decassílabos, quanto o sentimento mórbido ligado à poesia litúrgica. O poema “Monja negra” e os sonetos “Ódio sagrado”, “Triunfo supremo”, “Supremo verbo” e “Caminho da glória” representam o introdutor do movimento no Brasil. Entretanto, é Alphonsus Guimarães que possui mais poemas na antologia, são seis: “Ó cisnes brancos, cisnes brancos...”, “Ismália”, “Vila do Carmo”, “Catedral” e os sonetos “Como se moço e não bem velho eu fosse” e “Hão de chorar por ela os cinamomos”.
Augusto dos Anjos não é caracterizado dentro de um estilo literário, seus poemas marcam a divisão entre o século XIX e o século
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XX. São lembrados: “As cismas do destino” e os sonetos, “Último credo”, “Lamento das coisas” e “O último número”. Nesses últimos poemas permanece o pessimismo, e o misticismo dá lugar ao cientificismo.
Os poemas selecionados no período anterior ao Modernismo constituem uma memória na qual o sentimento contraditório de arrependimento e rebeldia de Gregório de Matos, evolui para o sentimento dos árcades, de revolta e amor pela terra. Gonçalves Dias surge como o grande poeta da nação, mas pela abundância de poetas da segunda fase romântica, Bandeira aponta a mudança do sentimento nacional para preocupações existenciais. Os parnasianos permanecem com a temática intimista e retomam o soneto, aspectos que caracterizam o passado poético recuperado por Bandeira. Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães mantêm o apuro formal, porém apresentam um sentimento místico que Augusto dos Anjos substitui pela cientificidade. Nesse sentido, a antologia serve como pódio em que são colocados os poemas representativos dos vitoriosos do enredo. Essa memória serve como influência para os modernistas e, consequentemente, sugere as influências do poeta Manuel Bandeira.
4.2 Presente como construção da história