Como se escreve um bom conto, é a pergunta que não quer calar. Algumas predisposições, metas e resultados já foram abordados, mas nunca é demais lembrá-los. Sensibilidade aguçada e capacidade de transformar uma cena, um objeto ou um acontecimento corriqueiro num grande evento são importantíssimas. Mas é necessário ir além, é preciso contar isso de maneira intensa. É preciso construir um bom início, fazer uma boa intriga , e lev{-la ao clímax e ao desenlace com mestria. Não importa o tema, o como é contada uma
história sempre falará mais alto do que o que é contado. Se assim não fosse, nada mais haveria a se escrever sobre o amor, por exemplo.
O importante é traçar uma meta e tentar não se desviar do objetivo proposto. Dizer o mínimo possível, deixar o resto para o leitor (a sugestão ficará na sua mente). Não esquecer-se de que finais previsíveis são chatos, enfadonhos, não despertam aquela emoção. Um final inquietante sempre leva a pensar, e é isso que causa modificação no ser humano. Em suma, não pode sobrar nem faltar nada em um bom conto, ele tem de ter a medida exata entre o caminho que percorre o cérebro e o coração do homem.
Em sua dissertação de mestrado, intitulada O eloquente silêncio: das oficinas de criação literária à conquista da competência para o conto, Cíntia Moscovich traz um outro lado sobre a produção contística existente: é possível ensinar essa arte a alguém? Por tudo que já foi dito até aqui, é possível pensar que o conto é uma modalidade literária que exige um manuseio raro, uma técnica elaborada, um grau de percepção apurado.
Isso se adquire, de acordo com a história que aqui foi sendo apresentada, com muita leitura, muita troca de experiências, muita bagagem de vida e, sobretudo, com muita dedicação e afinco a essa difícil tarefa que é escrever contos. Mas sempre é preciso começar, e oficinas literárias, hoje em dia, são um bom caminho para exercitar o dom e desenvolver a técnica.
Por esse motivo, o trabalho desenvolvido por Cíntia Moscovich11 é
relevante a esse estudo. Ele abre a porta e introduz o universo das oficinas de criação literária, mais especificamente a que vem sendo ministrada desde 1985 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Ali, a cada oficina, através de uma seleção, pessoas são convidadas a exercer a escritura do conto, não sem antes, é claro, estudar
11 FACCIOLI, Cíntia Moscovich. O eloquente silêncio: das oficinas de criação literária à conquista da
competência para o conto. Dissertação (Mestrado em teoria da Literatura) – Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2000.
diversas técnicas narrativas que lhe garantam uma maior apropriação e competência para essa modalidade narrativa. Desnecessário dizer que quem nunca antes tenha escrito alguma coisa não se inscreve para ser desafiado a tarefa tão complicada. Seria missão quase impossível. Ali, num ambiente fraterno, mas muitas vezes competitivo, alguns se destacam, e outros veem seus sonhos se desvanecerem. Não é fator determinante que a passagem pela oficina seja garantia de sucesso, mas as estatísticas comprovam que grande parte do que está sendo publicado no Rio Grande do Sul hoje é material (ou gente da melhor qualidade) oriundo da oficina.
Mas o que se aprende de tão importante nessa oficina? Primeiramente, desmistifica aquela única ideia romântica da inspiração, do santo que baixa e o escritor que incorpora, de uma fúria que invade e cria coisas belas, etc. Hoje sabe-se que não é bem assim, ou melhor, não é só assim. É necessário suar muito a camiseta, é imprescindível que a transpiração excede a inspiração múltiplas vezes. Ali, aprende-se que reescrever é tudo. E que, em boa literatura, menos é mais.
A princípio, essa metodologia pode causar um bloqueio para quem está acostumado ao deixar fluir, ao escrever sem muito pensar. A angústia da folha em branco é um dos maiores medos de qualquer escritor. Ainda que seja somente uma promessa dele. Diante da perturbadora frase e agora? , é preciso perseverar. Sorte, então, de quem tem um norte a seguir, uma proposta a executar. Por esse motivo a oficina é dividida em dois blocos ou dois semestres. No primeiro toma-se contato com coisas básicas referentes ao narrador, tempo, espaço, construção de diálogo, parágrafo e uso exagerado do adjetivo, entre outras coisas. Tudo isso é testado através da criação de um personagem que acompanha o aluno a cada encontro, sempre numa perspectiva diferente, a fim de construir uma base sólida para o que virá pela frente. De posse de nomenclaturas (aprendidas na prática) como narrador onisciente seletivo, narrador-intruso, narrador-câmera, narrador neutro (tipologia de Norman
Friedman12), primeira pessoa, fluxo de consciência, monólogo interior, entre
outras, o aluno é convidado a ir criando suas histórias.
No segundo semestre juntam-se aos ensinamentos aprendidos técnicas de intertextualidade (plágio, pastiche, paródia), assim como a alegoria e os símbolos. É hora então de trabalhar, aliar a prática à teoria e escrever contos, concomitantemente com o estudo de diversas teorias (sobretudo Ricardo Piglia) e leituras de alguns dos melhores contos da literatura nacional e estrangeira. É hora de partir de uma idéia, gerar conflitos, trabalhar o desenvolvimento, atingir um clímax. É o momento de transformar um texto em um conto. É o instante de ousar, de criar, de se maravilhar. É tempo de mostrar o produto final ao grupo. É o cenário onde se é avaliado. Ovacionado ou criticado, uma coisa é certa: tudo leva ao crescimento. Atingir a competência para o conto não é tarefa das mais simples, mas quando alcançada, tem-se então (não de repente, mais que de repente) um novo contista. Criou-se a competência para o conto. E poucas coisas são tão belas nessa vida quanto o próprio nascimento, como o adentrar nela para aqui dar a sua contribuição, deixar o seu legado para a posteridade.
Por que é importante toda essa narração sobre a metodologia empregada na oficina? Porque o aluno aprende que o se pensava sabido, de repente, é tido como um longo caminho a percorrer. Aprende na prática, pela própria experiência que conto NÃO é tudo aquilo que o escritor chama de conto. O gênero tem metodologia própria, é uma das mais difíceis artes de criação, e é um processo em que desde o primeiro momento (como no caso da oficina) se tem um fio condutor a ser seguido para atingir um determinado fim. E isso não se faz de maneira aleatória, como se fosse um tiro no escuro:
12
Point of view in fiction: the development of a critical concept. In: STEVICK, Philip. The Theory of the
Esta idiossincrasia que remete às noções de justeza das medidas, a virtude vivendo no seio do equilíbrio, é que faz a quintessência do conto. O gênero depende deste balanço, do mérito que habita o médio. Sem tal harmonia, o efeito pretendido não se faria sentir: ao fim de um conto bem realizado − e este gran finale representa o clímax, sempre imprevisível e, paradoxalmente, eternamente inevitável, pelas circunst}ncias inadi{veis de causa e efeito − o leitor sente a tentação de voltar ao início para rever, em plenitude, o que era apenas iluminação. Vem daí, desse movimento de redescoberta constante, um dos traços distintivos e muitas particularidades do conto, o de sua circularidade, o fim resgatando o começo, o desenvolvimento servindo de ponte entre os dois extremos. Talvez por isso − por essas armas que o escritor deve tecer e que o leitor competente deve deslindar, sentindo-se, inclusive compensado por tais descobertas − aconteça a comentada dificuldade de escritura e de leitura do conto que se preze como tal. Um conto é uma estrutura armada de maneira inteligente , que pede e convoca a participação intelectual de seu leitor, sem que se o substime ou superestime. O ideal, conforme aponta Piglia, resumindo o que pregaram seus predecessores, é que o ponto médio entre ocultação e revelação seja mantido, introduzindo-se o leitor nesta gramática do silêncio representada pelo conto.13
Até porque, se fosse um tiro no escuro, ou na lua, se não tivesse suas artimanhas particulares, o conto não interagiria e muito menos atingiria seu alvo: o leitor. O conto é o gênero literário que melhor possibilita essa quase comunhão de almas, porque um se completa no outro, escritor e leitor. Sem um, não há o outro. Como tudo na literatura é controverso, também é possível que haja quem escreve − e h{ − sem se importar com o destino final. Mas esses, que são a minoria, perdem o que de mais delicioso há na criação literária: o saber que, em algum instante, o mundo parou e não se quis descer, pois a história lida
13
FACCIOLI, Cíntia Moscovich. O eloquente silêncio: das oficinas de criação literária à conquista da competência para o conto. Dissertação (Mestrado em teoria da Literatura) – Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2000. p.67.
pulsava viva de tal maneira que nada mais importaria. Se há uma competência para o conto, para a escritura dele, também há uma competência para a sua leitura. O eloquente silêncio entre o que não é escrito e o que é sentido produz seres humanos muito melhores. Por isso o ser humano lutou desde os tempos da caverna, porque precisava desesperadamente fazer parte do mundo, conversar com ele, deixar registros, caso contrário enlouqueceria. Para essa pequena parcela da humanidade que se formou, o chamado círculo literário, não é o dinheiro que move o mundo. Graças a Deus que não. São as palavras. E estas, respeitando Mário de Andrade e toda a contribuição que deu à literatura, não podem ser simplesmente alinhadas como numa grande produção industrial. Elas precisam de uma partitura, de um regente e de uma orquestra que as executem. No caso do conto, por tudo que foi falado até agora, fica provado que quando bem entendidas as regras do jogo, elas viram música aos olhos e alimentam a alma.