Interessa, neste item, desenvolver uma reflexão acerca do ensino de História em Minas Gerais com a fim de situar, historicamente, os “caminhos da História ensinada”, conforme indica Selva Guimarães Fonseca (1998). Trata-se de fazer um recorte temporal com o objetivo de apresentar, de forma sintética, o que se vem denominando de movimento de reorientação curricular, em especial a partir da segunda metade dos anos 70, e que chega aos dias de hoje trazendo uma série de mudanças qualitativas, tanto na educação em geral quanto, especificamente, no ensino de História e na alfabetização de adultos.
Para que se possa estudar os diversos discursos dos sujeitos desta pesquisa é preciso remetê-los ao contexto mais amplo da discussão das condições de produção dos discursos da História e do ensino de História, a partir de meados dos anos 70.
Parte-se do pressuposto de que os sujeitos da pesquisa, ao vivenciarem os seus processos de escolarização, de forma irregular, com as várias interrupções dos estudos, carregam consigo determinadas marcas de suas experiências com o ensino de História. Nesse sentido, como sujeitos da enunciação, as suas existências nas escolas são anteriores aos enunciados que, hoje, formam as suas respostas dadas aos questionários que responderam para esta pesquisa, ou seja, há uma dimensão de História presente em seus registros escritos. Isto se dá antes mesmo de produzirem o ato de enunciar os seus discursos; esses sujeitos experimentaram as dimensões de historicidade do ensino de História nas escolas que freqüentaram.
Portanto, nesta parte da tese, busca-se registrar as condições de produção dos diversos discursos acerca das inovações no ensino de História que ocorreram nas escolas públicas de Minas Gerais, estaduais e/ou municipais, a partir de finais dos anos 70 e início dos 80, como decorrência de um movimento de reorientação curricular mais amplo, ou seja, em nível nacional.
A sociedade brasileira, nesse contexto sócio-histórico, foi marcada pelo processo de transição da ditadura militar para a democracia, transição esta que atravessou o período de uma década, marcada pelas lutas
pela liberdade democrática, novos movimentos sociais urbanos, lutas por melhores condições de vida e trabalho, reorganização político-partidária, liberdade de imprensa e mudanças no projeto educacional brasileiro.14
Toda essa movimentação política, social e ideológica, promovida pela sociedade civil organizada, coloca em discussão, nas universidades públicas, em especial nos cursos de História, a necessidade de se repensar a produção historiográfica produzida até então, durante a primeira década do regime ditatorial.
Assim, os principais cursos de História (USP, UNICAMP, UFRJ) tomam a iniciativa de promover debates em torno do processo de construção e reconstrução do conhecimento histórico, repensam os temas históricos, incluindo a família, o lazer, a homossexualidade, as mulheres e as classes trabalhadoras.
Além da redefinição temática, ocorrem debates em torno dos pressupostos, das interpretações e da utilização de novas fontes documentais. Trata-se de um período rico em reflexões e repleto de inúmeros questionamentos e confrontações, assim como de revisões das práticas pedagógicas e sociais. Enfim, os modelos explicativos reducionistas, tanto os positivistas quanto os da ortodoxia marxista, foram questionados, em função do reconhecimento de que a realidade social comporta uma multiplicidade de maneiras de captá-la e explicá-la
A efervescência social, política, ideológica e cultural, ao chegar à Universidade, em especial aos historiadores acadêmicos, impõe-lhes uma série de indagações acerca do lugar que ocupam na sociedade e do conhecimento que produzem. As reuniões regionais, os seminários locais, os simpósios nacionais da ANPUH (Associação Nacional de Professores de História), desde 1981, são testemunhos das reflexões e debates acalorados, entre as várias correntes de historiadores em torno de questionamentos do tipo: para qual História trabalhar? Em nome de quem, em nome de que e de onde ele, o historiador, fala?
Trata-se, portanto, de um debruçar-se sobre si mesmo, feito pela comunidade de historiadores, cujas marcas de suas produções e ações se encontram registradas nos vários e grossos anais da ANPUH (Associação Nacional de Professores de História). Ao que tudo indica, em plena ditadura militar, os novos movimentos sociais urbanos e rurais, populares, operários, sindicais, com suas palavras de ordem e barulho ensurdecedor, acabam por abalar as certezas da academia, obrigando certos segmentos intelectuais a encararem sua própria produção historiográfica. Daí, as discussões e questionamentos das premissas do saber histórico, os fundamentos da própria história; a discussão e redefinição de diversas abordagens; as críticas a um esquema fragmentado, de separar as esferas do objeto histórico em político, econômico, social; crítica à tendência de certos historiadores de encarar a história social como uma disciplina especial, etc.
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Consultar: DAGNINO, Evelina (Org.) Os anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1994; SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; FONSECA, Selva G. Caminhos da História ensinada. Campinas: Papirus, 1993.
Assinala-se que, nesse momento, em clima de tensões e posições antagônicas, os professores de História do ensino do 1o e 2o graus conquistam espaço no interior da associação como membros reconhecidos pelo estatuto, com direito à participação (fala e voto) e à apresentação de trabalhos relativos ao seu campo de prática profissional.