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Forskning og innovasjon

Serge Moscovici (1976) observa que o estudo da representação social se integra no estudo do conhecimento social, relacionando a estrutura cognitiva às circunstâncias sociais em que se processa e com que interage, em um diálogo entre o psicológico (acrescenta-se Amatuzzi (2001): “reação interior”), o cognitivo (a capacidade de, a partir de dados concretos da realidade, analisá-los e acionar saberes históricos escolares) e o social (como um espaço de comunicação), expressos pela linguagem simbólica (que permite contato com as coisas do mundo social, mesmo quando elas não estejam presentes).

A busca da compreensão do vivido supõe a necessidade de, ao entrar em contato com as suas manifestações, captar aspectos do seu percurso, expressões de experiências imediatas. Pode-se constatar que, nos fragmentos discursivos, mesmo que de forma implícita, a memória é convocada como suporte do sujeito na evocação de suas experiências.

De forma não explícita, o “fantasma” da escravidão se faz presente, em sua ausência, mesmo porque certas imagens e ensinamentos escolares sobre o

tema são internalizados e, quando há oportunidade, o “lembrar” vem à tona. Ao que tudo indica, carregado de interpretações e, nesse sentido, os dois fragmentos são expressivos em relação às experiências de Marcela e Eni. Entretanto, apenas fazer emergir o vivido, sem analisar as suas representações sociais, suas imagens e conceitos, é deixar de lado a oportunidade de encontrar o coletivo manifestando-se no particular. Torna-se necessário, assim, buscar os padrões culturais, no contexto concreto dos sujeitos da pesquisa.

Essa busca se fez em função da necessidade de articular as conexões que evidenciem o compartilhamento das representações sociais, a partir de leituras e (re)leituras de trechos extraídos dos enunciados dos respondentes, a fim de se extrair de suas respostas as expressões, padrões lingüísticos e culturais, aspectos significativos do vivido, expressos nas representações sociais por eles elaboradas.

Moscovici (1976), ao discutir a representação social, mostra que ela, como fenômeno, significa uma modalidade de conhecimento, expressão específica de um pensamento social que decorre das relações estabelecidas entre os homens e mulheres e como processo de assimilação da realidade pelo indivíduo. Trata-se, portanto, de uma interpretação que ele, o indivíduo, faz da sua realidade sócio-histórica, sendo, portanto, uma construção de sua historicidade, que se expressa como consciência sócio-histórica de si mesmo e em relação aos outros, na interação social.

Ao propor o conceito de representações sociais, Moscovici (1976) valorizou o senso comum como um tipo de conhecimento legítimo. Para ele, as representações sociais são definidas como

um conjunto de conceitos, afirmações e explicações originadas na vida diária, no curso de comunicações inter-individuais. São o equivalente, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais. Pode-se dizer mesmo que são a versão contemporânea do senso comum (MOSCOVICI, 1976, p.53).

Ao que tudo indica, Moscovici (1976), ao definir as representações sociais, como no trecho citado, e propor uma significação como senso comum, para explicá- lo, de forma mais ampla, possivelmente, queria dizer que, da mesma forma que as massas produzem explicações

compartilhadas sobre determinados fenômenos, assim também as representações sociais são concebidas como sendo “comunicações interindividuais”, ou seja, os indivíduos pertencentes a um determinado grupo social tendem a dividir socialmente um mesmo modo de pensar e agir, o que resulta na construção de uma realidade comum, compartilhada, no âmbito de um conjunto social.

Esse conhecimento socialmente elaborado é incorporado pelos indivíduos, sendo que a percepção social é mediada pelo conhecimento transmitido e assimilado, passando a fazer parte integrante das relações cotidianas dos sujeitos individuais, bem como dos seus modos de pensar e expressar.

Moscovici (1976) propõe a análise dos processos através dos quais os indivíduos em interação

social constroem teorias sobre os objetos sociais que tornam viável a comunicação e a organização do

comportamento. Isso significa que as teorias que os indivíduos criam são construídas por eles no campo das relações sociais. Embora processem tais informações individualmente, nelas existem as marcas sociais, inscritas, expressando-se através de suas interpretações.

No campo teórico das representações sociais, germinam outras formulações mais particularizadas, fruto do desenvolvimento da pesquisa empírica na área e de elaborações específicas, como a Teoria do Núcleo Comum, proposta por Jean Claude Abric (1994).

De acordo com Moura,

Os trabalhos de Abric partem de uma hipótese sobre a estrutura das representações sociais que se apresentaria hierarquizada, organizada em torno de um cerne mais estável e resistente, o seu núcleo central. Segundo este autor, o estudo de representações sociais exige uma abordagem multimetodológica que envolve tanto o levantamento do conteúdo da representação, como o estudo da relação entre os elementos, sua hierarquia e importância relativa e a

determinação do núcleo central e dos elementos periféricos da representação (MOURA, 1996, p.32, (grifo do autor)).

A respeito da perspectiva inaugurada por Jean-Claude Abric (1994)26, a teoria do núcleo central, Sá a compreende como “complementação da grande teoria”, formulada por Serge Moscovici, em 1961. De acordo com Sá,

[...] ela (teoria do núcleo central) se ocupa mais especificamente do conteúdo cognitivo das representações, mas concebendo-o como um conjunto organizado ou estruturado, não como uma simples coleção de idéias e valores. A proposição de que o conteúdo da representação se organiza em um sistema central e um sistema periférico, com características e funções distintas, é certamente a sua principal contribuição(SÁ, 1998, p.77).

Nas palavras do próprio Abric (1994), citadas por Moura: “[...] Toda representação é organizada em torno de um núcleo central, constituído de um ou mais elementos que dão à representação o seu significado” (MOURA, 1996, p.32).

Em outro artigo, Abric define que

O núcleo central — ou núcleo estruturante — de uma representação assume duas funções fundamentais:

- Uma função geradora: ela é o elemento através do qual se cria, ou se transforma, o significado dos outros elementos constitutivos na representação. É através dele que os outros elementos ganham um sentido, um valor.

- Uma função organizadora: é o núcleo central que determina a natureza dos elos, unindo entre si os elementos da representação. Neste sentido, o núcleo é o elemento uniformador e estabilizador da representação (ABRIC, 1998, p.31).

Como esclarece Abric (1998), em torno do núcleo central, organizam-se os elementos periféricos, concebidos como constitutivos do essencial do conteúdo da

26

A autora Maria Lúcia Seidl Moura refere-se à obra de Jean-Claude Abric intitulada Pratique Sociale et Representations, Paris, Presses Universitaires, 1994.

representação, ou seja, são os componentes mais acessíveis, mais vivos e concretos da representação.

Nascimento-Schülze, em seu estudo sobre as representações sociais da natureza e do meio ambiente, analisa dados obtidos através da técnica de “evocação livre de palavras” (Abric) e apresenta pistas acerca da orientação teórica desse pesquisador:

[Abric] propõe a Teoria do Núcleo Central das representações como abordagem complementar à Teoria das Representações Sociais. Considera que cada representação possui, na sua estrutura, uma hierarquia de conteúdos que podem ser considerados em termos de elementos centrais e periféricos que contribuem para a organização de uma representação. [...] Quando se leva em conta o fato de que os conhecimentos socialmente compartilhados estão fortemente relacionados à memória e práticas sociais do grupo, o núcleo representacional central, que poderia ser comparado ao protótipo desse pensamento compartilhado (NASCIMENTO-SCHÜLZE, 2000, p.69).

Importa aqui atentar ainda para o fato de que o núcleo central, tal como definido por Abric (1994), constitui o sistema complementar das representações sociais. Transcreve-se de Moura a citação que ela registra, extraída do próprio Abric (1994):

[O núcleo central] [...] é diretamente ligado e determinado pelas condições históricas, sociológicas e ideológicas. Ele é nesse sentido fortemente marcado pela “memória coletiva” do grupo e pelo sistema de normas ao qual ele se refere (MOURA, 1996, p.33).