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A metrópole estaria situada no encontro das cidades com a região (SCOTT, 2010), ou seja, num aglomerado de lugares reunidos nas cidades, cujas funcionalidades são metabolicamente articuladas aos centros metropolitanos (SANTOS, 2012). Ao integrar a metrópole, como o lugar, a cidade não deixa plenamente sua singularidade frente ao movimento global, mas assegura por via de suas formas e conteúdos espaciais elementos representativos da história local, nacional e da formação universal. As rugosidades patrimoniais metropolitanas são, ao mesmo tempo, representativas dos simbolismos concebidos em termos da memória nacional, que articula a universalidade dos processos econômico e sociais concatenados geograficamente no território, do mesmo modo que integra a memória coletiva pelas vivências cotidianas. No limite, no sistema de tempo atual, as rugosidades patrimoniais são consagradas por novas atividades produtivas ligadas à cultura e de uma generalização universal da busca pelo singular.

Nisto, compreende-se a metrópole como fato da metropolização e do fenômeno urbano contemporâneo no mesmo âmbito (reitera-se a permanência e sobreposição da sociedade industrial e urbana). No encontro entre urbanização e metropolização, as cidades tornam-se unidades principais, quantitativa e qualitativamente somadas em regiões metropolitanas. No limite da urbanização e mesmo diante de outras denominações que buscam assinalar a suntuosidade de grandes núcleos populacionais justapostos (megalópolis, megacidades, ou metápolis), tanto o processo de metropolização, quanto a produção do fato metropolitano, ainda respondem e justificam mais plenamente o sistema de aglomeração e de cultura que permeia o urbano em diferentes escalas de tamanho ou localizações do planeta. A diferenciação entre metrópole e metropolização é uma necessidade de explicitação conceitual entre o fato, considerado em sua particularidade histórica e geográfica (metrópole), e o processo, que qualifica a forma e permeia um conteúdo de universalização do fenômeno urbano em escala global (metropolização). Diante da qualificação banalizada de cidade em metrópole, simplesmente pelas condições de aglomeração, torna-se fundamental além do fato social, político-administrativo, econômico, ou cultural, entender o desenvolvimento e os efeitos deste processo (ASHER, 1998). Dialeticamente, esta diferenciação entre metrópole e metropolização é momentânea e ambos conceitos devem ser retomados. Concorda-se com Robert Moraes (2016, p. 23), para quem “a metrópole é uma forma histórica de organização do espaço geográfico.” Ela é, portanto, localizada, podendo ser analisada por múltiplas

dimensões e vários níveis, o que justifica a articulação entre planos e escalas de análise (do lugar, da cidade).

A ideia de metrópole assume diferentes significados ao longo do desenvolvimento histórico, mas pensá-la fora de parâmetros da Modernidade parece pouco fértil, ainda que grandes aglomerados humanos estivessem presentes desde a Antiguidade. Ou até mesmo pela simplicidade de seu sentido etimológico, onde metrópole traduz a ideia de uma “cidade mãe” (LEMOS, 1999), responsável por suas colônias, áreas de influência, exportando seus guerreiros e deuses (ASHER, 1998). Na atualidade, ainda tem sido comum classificar de metrópole aglomerações humanas mais importantes, levando em consideração, entre outras variáveis, a centralidade, a multifuncionalidade assumida, as relações com escalas supranacionais e sua densidade populacional. Para tanto não existe um padrão, coexistindo normativamente metrópoles com pouco mais de vinte mil e outras que ultrapassam os vinte milhões de habitantes. A designação de “metrópoles” aos centros imperiais no capitalismo comercial é, ao mesmo tempo, generalizada ao considerar nestes casos o poder exercido sobre os territórios coloniais naquele período. Se não remetem necessariamente a tríade indústria- urbano-metrópole, associam-se aos preceitos de controle que hoje é uma das variáveis estruturantes de seu sentido ou definição.

Para justificar o entendimento embrionário da atual metrópole, este fenômeno não pode ser confundido com aquele ocorrido em Atenas, Roma, Alexandria, ou qualquer caso na Antiguidade. Choay (2005) ajuda a pensar numa certa permanência, onde realizações e problemas enfrentados neste longínquo passado são os mesmos da atualidade, perseverando a existência de uma razão comum, uma pertinência concreta de experiências semelhantes, do viver, existir e resistir na cidade, mesmo que essas comparações sejam separadas por um largo período de tempo e passíveis de riscos analíticos. Justamente, para a autora, uma das grandes diferenças entre estas aglomerações de antes e as metrópoles de hoje reside que no passado a grande cidade, ou mesmo a Cidade-Estado, era uma exceção, um caso extraordinário, o que “(...) poderíamos, pelo contrário, designar o século vinte como o da era das metrópoles.” (CHOAY, 2005, p. 5).

Entende-se que a metropolização deve ser mais profundamente explorada e situada enquanto momento do modo de produção. Como faz Choay (2005), que estabelece o fenômeno consolidação do capitalismo industrial, no início do século passado, a partir de sua generalização (sociedade industrial). Leitura convergente com a de Lefèbvre (2004; 2012),

explicando que a “sociedade urbana” nasce da industrialização, não sendo, porém, apenas um subproduto dela. E é desta condição que o modo de produção capitalista efetivamente rompe com o modelo de cidade medieval, sobretudo no século dezenove, mas também com a própria sociedade industrial em favor da urbana (sociedade urbana). Onde o trabalho mecanizado e repetitivo passa a moldar a vida cotidiana, numa indissociável relação entre fábrica-casa, e cuja temporalidade do trabalho na cidade ia gradativamente diferindo do campo. No decorrer desta realidade o tempo e espaço iam sendo arrancados na cidade, gerando a angústia e solidão: as pessoas desconhecem umas às outras, as casas funcionam como meros autômatos, máquinas de repouso para um novo dia de trabalho. Esta cidade arranca o homem da terra, expropria a vida em comunidade, para direcionar o homem-máquina no espaço urbano (BENJAMIN, 2006).

No limite do processo de urbanização-metropolização, a cidade metropolizada, capturada plenamente pela órbita vertical dos adventos técnicos e informacionais da globalização (além, portanto, da metrópole industrial pensada por Benjamin), faz destes espaços a própria condição de acumulação. O que para Otília Arantes (2002) se resumiria na cidade como a própria mercadoria, geridas e consumidas a todo momento (ARANTES, 2002, p. 26). Não mais um instrumento intermediário, o cotidiano, os lugares, a cidade e, no limite, a metrópole tornam-se propriamente os fins da reprodução ampliada do capital. Como Arantes (2002), Scott (2010) entende que o motor de crescimento econômico continua sendo as atividades industriais e os serviços que se articulam a esse arranjo. A sociedade urbana- metropolitana ainda está calcada na sociedade industrial, bem como os conceitos de classes sociais na relação capital/trabalho, onde a desigual apropriação dos excedentes produzidos permanece no mesmo curso do passado (SCOTT, 2010). Neste prospecto, Soja (1993, p. 223) demonstra por duas noções a nova realidade metropolitana que intensifica e estende os lucros e o controle sobre a sociedade, reafirmando aspectos centrais da sociedade urbana e metropolitana. A primeira é traduzida pela intensificação: dos lucros, do aprofundamento da divisão social de trabalho, da ampliação de novas necessidades e desejos de consumo, além da concentração e centralização monopolizada de capitais, da legitimação das ideologias dominantes/dirigentes, bem como a fragilização de organizações trabalhistas e movimentos sociais. A segunda pela noção de extensificação: da divisão do trabalho, criação de novos mercados, drenagem de matérias-primas e mão de obra, exploração das condições desiguais do desenvolvimento geográfico por meio de trocas desiguais e das transferências de valor (SOJA, 1993, p. 223). Se a condição colocada pelas ciências, as técnicas e as comunicações

são revolucionárias, esta continua a ser operada em favor das modernizações seletivas, desiguais e perversas (SANTOS, 2001).

Esta concepção da metrópole assenta-se nos preceitos categoriais recentes dos estudos do urbano nas ciências sociais, o que talvez seja resultado do próprio momento por qual este regime de tempo (ultramoderno, pós-moderno, moderno...) vem passando. Independente das terminologias, as formas urbanas constituídas desde a fase industrial do modo de produção capitalista, remetem concomitantemente a emergência de conteúdos ligados à produção de novas mercadorias e a adequação subordinada de novos desejos criados na sociedade por padrões de consumo. As formas possuem relação fundamental, já que “[...] as construções assumem o ‘papel do subconsciente’ [...]” (BOLLE, 1994, p. 65), além de reestruturar áreas inteiras, no sentido de adequá-las aos padrões necessários exigidos pela seletividade do capital. Na visão de Santos (2012, p. 146), “mesmo os objetos culturais tendem a tornarem-se cada vez mais técnicos e específicos, e são deliberadamente fabricados e localizados para responder melhor a objetivos previamente estabelecidos”, sobretudo o setor econômico. Trata-se do mesmo processo que Harvey (2005) designa de transformação da cultura em commoditie, seja pela atividade de turistificação (KRIPPENDORF, 1989), ou pelo modelo de empreendedorismo urbano revelado nas novas modalidades do planejar e gerir a cidade, cuja ênfase é dada no planejamento estratégico (CASTELLS; BORJA, 1996). Outro mecanismo de dinamização dos fluxos dos espaços da mundialização salientado por Santos (2012a) são os sinais de verticalidades estabelecidos pelo sistema global, por meio de adaptações das formas às normas, em que o patrimônio cultural toma centralidade analítica. Ainda segundo Santos (2012a), a otimização da forma geográfica, ou do objeto técnico, pelo estabelecimento de normas jurídicas e financeiras, são capazes, cada vez mais, de competirem em múltiplas escalas num mercado cada vez mais disputado e procurado (SANTOS, 2012a, p. 151).

Se a gênese desse processo decorre de fato da Modernidade e se pensado o século vinte como a “era das metrópoles” (CHOAY, 2005), a perplexidade de Richard Rogers e Philip Gumuchdjian (2001) com a dimensão do fenômeno urbano atual é certamente justificável, relembrando que a pouco mais de um século, no ano de 1900, apenas um décimo da população mundial vivia em cidades, considerando que “[...] hoje, pela primeira vez na história, metade de toda população mundial vive em cidades [...]” (GUMUCHDJIAN, 2001,

p. 5)13. Isso equivale a um aumento da taxa de população urbana da ordem de 250 mil pessoas

por dia, concentrando graves problemas sociais e ambientais14 (ROGERS E

GUMUCHDJIAN, 2001). Ao mesmo tempo que captura as pequenas e médias cidades circunvizinhas, tornando-as potencial de renda especulativa da terra e geração de valores, a metrópole se estende aos limites dos territórios exercendo seu controle e poder. No caso, Sevcenko (1995) é ilustrativo ao demonstrar que mesmo havendo um centro pulsante, não significa que a metrópole circunscreva exclusivamente a esta ou aquela região e grupo de cidades. Ao contrário,

[...] A interface temporal tem uma vigência onímoda. A sede de uma grande empresa agrícola, em plena zona rural, conectada por telecomunicações com os menores movimentos da bolsa de valores internacionais, com a principais redes informativas e com os mais avançados laboratórios tecnológicos, compartilha de uma intensa experiência metropolitana. O mesmo ocorre com os grandes condomínios fechados instalado fora das grandes cidades, por exemplo. Assim como as lutas por reformas agrárias encontram seu correlato nas reivindicações dos sem-teto nas metrópoles. Ademais, aparelhos de rádio, TV e bancas de jornais e revistas não tem raízes, e as informações, assim como os desejos, não param nas fronteiras. [...] Outra forma mais ilustrativa e dramática de propor essa visão, usando de uma imagem grandiloqüente, é dizer que ao invés de terem se tornado uma aldeia global, como sugeriu McLuhan, o que se passou com as sociedades humanas no planeta foi terem- se transformado numa única e imensa megalópole mundial (SEVCENKO, 1995, p. 196).

Dialeticamente, a pressão psicológica negativa exercida pela metrópole (SIMMEL, 1997), é sanada numa perspectiva funcional do planejamento, quando há certo nível de

13 Num balanço sobre as cidades atuais, realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na reunião da Rio

+ 20 (2012), há previsão de que mais de 70% da população mundial viverá em cidades até 2050. “Cerca de metade da humanidade vive hoje em cidades. Populações urbanas cresceram cerca de 750 milhões em 1950 para 3,6 bilhões em 2011. Até 2030, quase 60% da população mundial viverá em áreas urbanas” (ONU, 2012).

14 “As cidades estão produzindo uma instabilidade social desastrosa e levando a um declínio ambiental adicional.

Apesar do aumento global da riqueza, que ultrapassa em muito o aumento da população, cresce o grau de pobreza e o número de pobres no mundo.” (Rogers e Gumuchdjian, 2001, p.7). Assim também explica Milton Santos (1979, p. 222), que a tecnocracia e a modernização são as responsáveis por uma organização urbana concentrada e apoiada por uma argumentação técnica à difusão geográfica e social do crescimento. “O resultado, entretanto, é o contrário: pobreza urbana difundida por toda a parte, pobreza concentrada nos pontos de crescimento.” De tal maneira, a concentração espacial da população, em pontos específicos do planeta e cujos padrões são difundidos de forma particular (a depender das singularidades regionais) e globalmente (já que este modelo é necessário a reprodução ampliada do capital) na segunda metade do século XX é dado na forma e no conteúdo de metrópoles, qual seja, uma aliança entre o Estado e as hegemonias monopolistas do mercado internacional, sendo esta última preponderantemente decisória na modernização tecnológica e determinante de outras obrigações. Portanto, já que “[...] a modernização completa do aparelho de Estado não é possível, a realização das tarefas atinentes à modernização do país é cada vez mais atribuída a uma administração paralela, formada de organismos mais ou menos autônomos e dependentes da autoridade centralizadora do governo [...]” (SANTOS, 1979, p. 222).

compactação15 que potencializa a melhor oferta de serviços públicos (água, esgoto, energia,

resíduos, transporte, limpeza), reduz impactos ambientais, além de usos mistos do território com o fortalecimento da diversidade social, que fogem ao modelo tradicional de zoneamento e facilitam à população o acesso de bens e consumo, além de encontros não programados, provocados pela condição do caminhar e o trabalhar nas proximidades da habitação (JABAREEN, 2006). Essa condição é potencializada quando a relação com as formas urbanas e seus conteúdos associam-se a uma memória social significante para os grupos e classes. Mais que isso, permitam a reprodução prática da vida em conformidade com seus valores, considerando a alteridade das relações e a afirmação da própria identidade neste processo.

Esse elo entre a cidade e a cultura, que não se separa de outras categorias do social, converge nas possibilidades concretas de transformação pela simples existência do ser no urbano, com a condição de produzir formas e conteúdos significantes que o represente na sua luta diária pela sobrevivência. “A cidade é, portanto, a condição especial da realização dos valores de liberdade, de igualdade, de fraternidade, de solidariedade. A cidade produz o estímulo intelectual. A cidade produz a inteligência.” (SOUZA, 1999, p. 16). A realização desta cidade deve contrapor aquele espaço do esquecimento do qual Lefèbvre (1991; 2006) entende como o da fetichização (desconhecimento de que ele implica relações sociais) na escala da metrópole, que afugentam a memória e causam estranheza não apenas pelo descompasso entre o tempo de vida e da cidade em constante aceleração, mas também pelos conflitos com as novas manifestações e padrões estabelecidos no cotidiano por esse movimento.

Neste plano, o papel das rugosidades patrimoniais é central pelas condições de reencontro da sociedade com sua produção material e intangível. Porém, a crescente disseminação dessa consciência ao longo do século vinte, trouxe um despertar político e econômico (por processos já salientados no plano de atividades modernas), catalisado em ações de preservação e divulgação dos bens culturais em todo planeta, que como outros fragmentos urbanos, ganharam novos status e relações com os grupos sociais. Destas relações, importante lembrar a convivência entre atração (por exemplo pelo turismo, pela infraestrutura que passa a moldar um “novo ambiente”, pela centralidade e mobilidade) e repulsa

15 Em grande parte das metrópoles em países subdesenvolvidos a forma urbana é qualificada pelo espraiamento,

ou “sprawnling” em língua inglesa. Em estudo deste modelo por diversas variáveis funcionais e indicativos (mobilidade, gastos energéticos, relações sociais, custos), Jabareen (2006) conclui ser um dos menos eficientes cultural e ambientalmente.

(gentrificação causada pela valorização do solo urbano e aumento dos custos de vida, relações conflitantes entre antigos e novos usuários e moradores). Fator que desencadeia transformações na dinâmica das cidades, com núcleos salvaguardados, ou fragmentos e conjuntos de bens que alcançam alguns quilômetros quadrados de proteção e, em outras situações, a quase totalidade de objetos e atividades que agora configuram o crescente patrimônio cultural urbano-metropolitano. Se se generaliza o urbano, a metropolização enquanto processo, capaz de permear os mais distantes rincões do planeta, também o fenômeno da patrimonialização (JEUDY, 2005) abrange porções e conjuntos cada vez maiores.

É na metrópole que se comprova a força, diversidade e expressividade do patrimônio cultural na sociedade contemporânea. É nela que se processam intenções, estímulos e a busca por aqueles bens mais distantes de seu arranjo, sobretudo o patrimônio natural-cultural de longínquas cidades, vilas e espaços reconhecidos e valorizados. Mesmo o patrimônio que em tese é a negação do urbano, por meio do mito da natureza intocada, não se efetiva na prática, onde aspirações e comportamentos continuam próximos aos da cidade (DIEGUES, 2001, p. 7). Conjectura ratificada em pesquisa na região sudeste do Brasil por Scifoni (2006) acerca do tombamento da serra do mar e do seu papel paisagístico na conformação de uma barreira entre setores periféricos da metrópole e as praias do litoral norte paulista, estas últimas frequentadas por segmentos abastados da população residente na RMSP. Na região centro-oeste sobre a dinâmica turística e do patrimônio natural na Chapada dos Veadeiros, uma das áreas mais exuberantes do cerrado brasileiro, Costa et al. (2015) revelam que mesmo numa região de

difícil acesso, em que Brasília guarda o aeroporto mais próximo16, com cerca de quatrocentos

quilômetros de distância, a visitação de turistas internacionais, de São Paulo e Rio de Janeiro predominam massivamente, além de moradores de diversas capitais estaduais e estrangeiros de distintas nacionalidades. “[...] O ‘isolamento’ de outrora, de um parque pouco acessível e

16 “Um dos maiores desafios ao turismo na Chapada dos Veadeiros refere-se aos custos e dificuldades de acesso

e deslocamento para visitação ao Parque. Grande parte dos turistas são oriundos da região Sudeste, o que implica em uma viagem cara: deslocamento aéreo até Brasília e necessidade do uso de carros ou jipes para se chegar até São Jorge e seus principais pontos atrativos. Contudo, com a redefinição econômica do país, nos últimos anos, a popularização do transporte aéreo civil, a expansão dos aeroportos e rodovias, as promoções de operadoras aéreas, agências de turismo e de locadoras de automóveis favorecem frequentes e intensos fluxos à localidade. Ainda que alguns comerciantes locais entrevistados reclamem do baixo movimento de turistas, informações da Secretaria de Turismo mostram que, na última década, multiplicaram-se hotéis, pousadas, campings e em toda região, além do aumento gradativo do número de lojas, restaurantes, cafés, bares e estabelecimentos comerciais diversos.5 Proprietários no entorno do Parque utilizam o potencial de suas terras ao turismo, cobrando pela entrada e visitação ao cerrado; eles munem a área de infraestrutura de acessibilidade e sinalização, caso da Cachoeira dos Cristais e Vale da Lua.” (COSTA; et al., 2015, p. 3).

distante das grandes cidades, é invertido pelo seu encadeamento na rede turística nacional e internacional.” (COSTA et al., 2015, p. 8). A pesquisa ainda constatou que, embora distante dos grandes centros urbanos e metropolitanos, a conversão da área em Parque Nacional pelo IPHAN e Patrimônio da Humanidade pela Unesco, a transformou num reduto de novos moradores que se refugiam das mazelas urbanas das grandes cidades, em busca de uma vida “mais natural”, porém levam ao novo habitat uma carga cultural calcada na experiência urbano-metropolitana, que reflete nas relações sociais e que evocam ao olhar paisagens de bancos, hotéis, restaurantes, comércios e serviços diversificados no entorno.

A patrimonialização da natureza natural supõe a emergência da cultura do estético que a alinha à natureza social. Essa cultura traduz-se em consumo visual e representa empoderamento (às avessas) massivo da e na natureza natural, cuja consciência ou imaginários são reproduzidos no contexto do discurso de fuga das novas angústias ou tormentos urbanos. A natureza natural ativada como recurso patrimonial entra na esfera de um consumo gradual, que se diferencia em intensidade e em exposição de produtos, em relação às ações transformativas industriais tradicionais de grande porte e impacto imediato, as quais resultam no mundo tecnificado de objetos. Ao fazer-se paisagem de uso e consumo coletivo, a natureza natural constitui-se em atributo pela vida de grupos seletos, hibridiza vida natural orgânica e relações culturais mediadas pelas artes da renda e do lucro via encantamento concretizado in loco.” (COSTA et al., 2015, p. 3).

Apesar deste entendimento – que não é o reducionismo do natural pelo cultural, mas pressupõe uma relação metabólica e crítica entre ambos (LEFEBVRE, 1975 [1969]; 1979; SMITH,1984a; COSGROVE, 2004 [1989]; SANTOS, 2012d [1996]; PAES LUCHIARI, 2001; EAGLETON, 2005), classificar os bens patrimoniais em “histórico”, “natural”, “cultural”, justifica formalmente seu valor mais pujante segundo uma ótica determinada, como aqueles descritos aos monumentos por Riegl (2014 [1903]), ou das instituições estatais de preservação que estabelecem critérios lógico-formais para incluir objetos em suas políticas