Categorizar o presente e, às vezes, predizer futuras trajetórias é o objetivo de toda pesquisa social. (BAUER; GASKELL, 2002, p. 22).
Pesquisa quantitativa versus qualitativa
É comum, quando se fala em pesquisa, associar imagens vinculadas ao cientista e a seu laboratório. A imagem do laboratório expressa uma concepção de ciência conhecida como “tradicional”, cujos pressupostos básicos são a neutralidade, a objetividade, a experimentação e a generalização. Contudo, a pesquisa não pode ser compreendida, exclusivamente, como um conjunto de técnicas utilizadas para o conhecimento da vida, porque é um recurso ligado a diferentes modos de produzir o conhecimento e a história de suas legitimações. Em sua essência, a pesquisa “é uma atividade que fala da vida e das suas múltiplas formas de expressão, inscrevendo-se no nosso cotidiano e não se restringindo às regras e as controladas situações de laboratório”. (TITTONI; JACQUES, 1998, p. 73).
Ao se referir aos modelos de investigação, Thompson (1995) registra que “existe uma tentação de tratar os fenômenos sociais em geral e as formas simbólicas em particular, como se elas fossem objetos naturais, passíveis de vários tipos de análise formal, estatística e objetiva”. (p. 357).
Com relativa freqüência se aceita a ruptura entre quantitativo e qualitativo como sendo a separação de técnicas: de controle, de um lado, e de compreensão, de outro. Contudo, Jovchelovitch (2008) nos alerta dizendo que as “questões metodológicas pertinentes à investigação não devem se limitar simplesmente a procedimentos técnicos e nem a questão de
decidir entre aplicar um questionário ou conduzir entrevista em profundidade”. (p. 283). Continua afirmando que “o acesso ao domínio simbolicamente estruturado da pesquisa social demanda procedimentos diferentes dos desenvolvidos nas ciências naturais” (p. 209).
Buscamos também em Bauer e Gaskell (2002) elementos sobre a questão do quantitativo versus qualitativo, os quais assinalam:
[...] é incorreto assumir que a pesquisa qualitativa possui o monopólio da interpretação, com o pressuposto paralelo de que a pesquisa quantitativa chega a suas conclusões quase que automaticamente. [...]. O que a discussão sobre pesquisa qualitativa tem conseguido foi desmistificar a sofisticação estatística como único caminho para se conseguir resultados significativos. [...]. No nosso ponto de vista, a grande conquista da discussão sobre métodos qualitativos é que ela, no que se refere à pesquisa e ao treinamento, deslocou a atenção da análise em direção a questões referentes à qualidade e à coleta dos dados. (p. 25).
O enfoque qualitativo defende que é necessário compreender as interpretações que os atores sociais possuem do mundo, pois são estas que motivam o comportamento que cria o próprio mundo social. A discussão sobre a metodologia das ciências sociais procura mostrar que o acesso ao domínio simbolicamente estruturado da pesquisa social demanda procedimentos diferentes dos desenvolvidos nas ciências naturais. (JOVCHELOVITCH, 2000).
Os seres humanos, que interpretam e são interpretados, constituem parte do mundo social, “são parte da história, e não apenas observadores ou espectadores dela; tradições históricas, e a gama complexa de significado e valores que são passados de geração a geração, são em parte constitutivos daquilo que os seres humanos são”. (THOMPSON, 1995, p. 360).
Pelo exposto até aqui na revisão dos autores consultados, é possível formular a seguinte questão: Como ficaria, então, a construção do conhecimento científico num campo onde a referência não é o imaginário do laboratório, mas o campo das ciências sociais? (TITTONI; JACQUES, 1998, p. 73). É o que passaremos a abordar a seguir.
Algumas condições hermenêuticas da investigação sócio-histórica
O campo de investigação que preocupa os cientistas sociais é, simbolicamente determinado e coloca em evidência questões temporais, contextuais e de identidade entre sujeito e objeto do conhecimento que não podem ser simplesmente acomodadas aos procedimentos das ciências naturais. A análise das formas simbólicas pode ser conceitualizada, mais apropriadamente, em termos de um marco referencial metodológico que
Thompson (1995) descreveu como “hermenêutica de profundidade” (HP). Este referencial coloca em evidência o fato de que o objeto de análise é uma construção simbólica significativa, que exige uma interpretação. O processo de compreensão e interpretação deve ser visto, portanto, não como uma dimensão metodológica que exclui radicalmente uma análise formal ou objetiva, mas, antes, como uma dimensão que é, ao mesmo tempo, complementar e indispensável a eles.
Se quisermos apreender o caráter social e histórico dos fenômenos psicossociais e compreender os contextos de sentido em que são produzidos, é necessário adotar uma postura hermenêutica que vai além das imposições profundamente arraigadas e legadas pela tradição comportamentalista. O comportamentalismo, para Jovchelovitch (2008), “restringiu a psicologia ao estudo do comportamento observável, separando das estruturas da ação e campo das experiências simbolicamente construídas”. (p. 283).
No campo simbolicamente determinado, o cientista cultural precisa aprender a falar a língua que interpreta, mas deve, necessariamente, aproximar-se de tal interpretação de uma perspectiva histórica específica. E ao fazer isto não poderá deixar de levar em consideração a totalidade da interpretação que ali já está presente: o pesquisador entra no que poderia se chamar de “círculo hermenêutico”. Isso propiciará as condições para se atingir o consenso entre os participantes dessa relação, o qual será, então, fluido e dinâmico, pois se aceita que é resultado de uma interpretação que evolui e continua a evoluir, contínua e historicamente. Essa orientação consensual que buscará apreender a realidade social constitui, portanto, o “interesse prático das ciências hermenêuticas – cuja finalidade é estabelecer as normas comuns que tornam a atividade social possível”. (BAUER; GASKELL, 2002, p. 32).
A preocupação em restabelecer o entendimento mútuo torna-se uma questão fundamental a ser atingida. Ainda Bauer e Gaskell afirmam que a compreensão hermenêutica apresenta-se como aquela que buscará restaurar os canais rompidos de comunicação. Esse processo se dá em duas dimensões: a primeira, “no elo entre a própria experiência de vida de alguém e a tradição à qual ele pertence”; a segunda, “na esfera da comunicação entre diferentes indivíduos, grupos e tradições”.
Thompson (1995) refere que o estudo das formas simbólicas é fundamental e, inevitavelmente, um problema de compreensão e interpretação. “Formas simbólicas são construções significativas que exigem uma interpretação; elas são ações, falas, textos que, por serem construções significativas, podem ser compreendidas”. (p. 357). Continua o autor referindo que o mundo sócio-histórico não é apenas um campo-objeto que está ali para ser observado:
Ele é também um campo-sujeito que é construído, em parte, por sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas, estão constantemente preocupados em compreender a si mesmos e aos outros, e em interpretar as ações, falas e acontecimentos que se dão ao seu redor. (THOMPSON, 1995, p. 358).
Compreender, portanto, segundo o mesmo autor, é algo que nós, como seres humanos, fazemos a toda hora, inevitavelmente, e os procedimentos mais especializados de interpretação empregados pelos analistas sociais consideram como dadas e trabalham sobre as bases preestabelecidas da compreensão cotidiana. Assim, quando os analistas sociais procuram interpretar uma forma simbólica, eles “estão procurando interpretar um objeto que pode ser, ele mesmo, uma interpretação, que pode já ter sido interpretado pelos sujeitos que constroem o campo-objeto, do qual a forma simbólica é parte”. (p. 359). Outro aspecto em razão do qual a hermenêutica mantém sua importância hoje é o fato de que os seres humanos são parte da história, não apenas observadores ou espectadores dela: “tradições históricas, e a gama complexa de significado e valores que são passados de geração a geração são parte constitutiva daquilo que os seres humanos são”. (p. 360).
Portanto, a visão de mundo do pesquisador e dos atores sociais está implicada em todo o processo de conhecimento, que vai desde a concepção do objeto até o resultado do trabalho. Pesquisador e pesquisado se constituem por meio das relações sociais, “que tanto podem ser reprodutoras como podem ser transformadoras das condições sociais onde ambos se inserem; desta forma, conscientes ou não, sempre e pesquisa implica em intervenção, ação de uns sobre os outros”. (LANE, 1994, p. 18).
O conhecimento de senso comum
Outro fator a que o pesquisador deve estar atento em seu trabalho investigativo está relacionado à produção do conhecimento de senso comum. Os seres humanos nascem num mundo que é, ao mesmo tempo, cultural e simbólico; ao nascer na sociedade e na cultura, também nascem no conhecimento de senso comum, que se impõe e envolve a todos, sendo transmitido de geração a geração por meio das instituições, de experiências diárias de comunicação e da memória coletiva. Por isso, as pessoas aprendem tudo o que se refere ao pensamento social, às cerimônias coletivas, à linguagem, etc. É pelo conhecimento de senso comum que vamos conhecendo e aprendendo, consciente e inconscientemente, quais são os tipos de alimentos que podemos ou não comer, o que é considerado bom ou ruim; a entender os significados dos gestos e das palavras, como crenças, mitos, relações interpessoais. “Estes
fenômenos formam um enorme panorama das realidades sociais e ficam impressos em nosso conhecimento de senso comum”. (MARKOVÁ, 2006, p. 191).
Historicamente, o conhecimento popular, as crenças e os mitos do conhecimento de senso comum têm sido tratados, implícita ou explicitamente, como sendo inferiores ao conhecimento científico e associados com falta de racionalidade ou, até mesmo, com irracionalidade. (MOSCOVICI, 2005; JOVCHELOVITCH, 2008). Diferentemente, o conhecimento científico produzido pelas ciências naturais tem sido associado com o poder da razão e da racionalidade. (MARKOVÁ, 2006, p. 194).
Entretanto, Moscovici questiona se essas teorias de senso comum produzidas pelos homens e que circulam no mundo social seriam “menos elaboradas ou menos válidas do que as dos cientistas e peritos”. O próprio autor nos dá a resposta dizendo que “as primeiras são plausíveis e satisfazem o intelecto do mesmo modo que as segundas, embora sob as mesmas palavras não se encontrem as mesmas coisas”. (MOSCOVICI, 2005, p. 16). Ainda argumenta que o conhecimento de senso comum e o conhecimento científico são essencialmente diferentes, mas, ainda assim, tipos complementares de conhecimento porque estão baseados em tipos diferentes de racionalidades, na medida em que cada um se estrutura com base num tipo específico de lógica e em métodos diferentes de pensamento. Portanto, “são irredutíveis entre si, e um não pode substituir o outro.” (MOSCOVICI, 2003, p. 198).
Os produtos do conhecimento de senso comum existem em todas as partes ao nosso redor, no discurso, nas atividades humanas, nos textos, na linguagem, no folclore e na literatura. Esses produtos, que incluem diferentes tipos de conhecimento, são baseados e desenvolvidos segundo uma racionalidade dialógica. “Seu investimento não está no conhecimento de objetos e de fenômenos isolados, mas sim de objetos e fenômenos que se relacionam entre si”. (MARKOVÁ, 2006, p. 200-201).
Relações dialógicas entre saberes pressupõem o reconhecimento da diversidade e a rejeição efetiva da representação hierárquica do conhecimento. Certamente, existem muitos obstáculos no caminho das relações dialógicas entre saberes, mas Jovchelovitch (2008) enfatiza que não devem impedir esforços teóricos e empíricos em direção ao diálogo. “O estudo da diversidade e da comunicação entre saberes convoca-nos à comunicação de uma psicologia social da esperança, comprometida com a construção de futuros”. (p. 295-296).
O reconhecimento da diversidade e da legitimidade de diferentes tipos de saber não conduz à aceitação incondicional de todos os saberes. É necessário aceitar que o erro e a ilusão são parte integral da realidade humana e uma possibilidade inerente a todas as formas
de saber. É indispensável, portanto, que haja a capacidade humana para a crítica, para corrigir erros, para aprender com a experiência de outros. (JOVCHELOVITCH, 2008, p. 298).
Embora de forma sucinta, acreditamos que os pressupostos expostos contemplam e justificam sua importância para a pesquisa realizada junto aos médicos cooperativados da Unimed. A seguir, relatamos o caminho percorrido para que pudéssemos alcançar os objetivos propostos para esta investigação.