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A cosmovisão do totalitarismo coletivista já não é mais tão presente e abrangente em nível mundial como a do liberalismo individualista, mas já existiu e deixou traços profundos na história e ainda exerce forte influência em nós, talvez não como um macrossistema, mas

em microssistemas, representados em organizações, associações, instituições, cooperativas e outras mais.

A concepção do ser humano

Na cosmovisão do totalitarismo coletivista que existiu na fase do “socialismo real” nos países da “cortina-de-ferro”, o ser humano não constitui uma unidade autônoma em si mesma, mas é apenas “parte” do todo. Aqui o que vale é a totalidade, o coletivo, a organização, a instituição, o partido, o Estado. Esse “todo” sempre terá preponderância sobre as partes; logo, a pessoa humana está subordinada a um conjunto maior que lhe dá sentido. (GUARESCHI, 2004).

Os valores

Os valores e as justificativas que dão sustentação à concepção do ser humano do totalitarismo coletivista começaram a ganhar forma durante o século XVIII a partir das propostas dos grandes pensadores e criadores da sociologia, que se opunham à doutrina liberal e, ao mesmo tempo, propunham a reformulação da sociedade. Em conseqüência dessas idéias surgiu o “social”, que acabou se constituindo como uma alternativa aos excessos da competição urbano-industrial do capitalismo nascente. (PINHO, 1977, p. 71).

O “social” foi se constituindo, então, como uma “força”, que veio para se opor ao liberalismo, o qual pregava a total liberdade dos indivíduos, de modo a cada um se dar a liberdade de alcançar seus objetivos e resolver seus problemas por conta própria, sem se importar com os outros. Essa forma de pensar e organizar os indivíduos instituída pelo liberalismo teve como conseqüência um grande problema social, no sentido de que poucos passaram a ter acesso a tudo que desejassem; em oposição, a maioria da população não tendo acesso aos mínimos recursos para suprir as suas necessidades básicas.

A realidade colocava em evidência, de maneira brutal, a oposição entre o interesse individual e o interesse social: de um lado, um pequeno grupo de indivíduos enriquecia-se cada vez mais; de outro, a crescente classe operária vivia miseravelmente. (PINHO, 1977, p. 72).

Na Inglaterra e na França os pensadores socialistas sugeriam o socialismo como a saída para se contrapor aos defeitos da organização individualista e capitalista da sociedade preconizando a substituição da sociedade liberal por uma organização coletiva, baseada no sentimento de fraternidade e de ajuda recíproca dos membros da sociedade. Tendo, então,

como base as inúmeras experiências já existentes na época, de entreajuda e de auxílio mútuo, o “social” foi sendo aos poucos instituído na sociedade. Filósofos e pensadores sociais, numa postura crítica em relação à ordem econômica e social então vigente, não só denunciavam em suas obras literárias as causas dos problemas sociais, mas propunham transformações nos modelos alternativos de sociedades, bem como nos conceitos originais de governo, propriedade privada, trabalho, família e educação. (MLADENATZ, 2003).

As implicações dessa ideologia, que propunha uma nova sociedade, a qual contestava a propriedade privada, entendia dever ser a posse dos bens coletiva, trouxeram para a Inglaterra do nascente capitalismo motivos de sobra para a preocupação das classes dominantes. O movimento associacionista europeu que passou a se constituir então como uma reação ao liberalismo, ao individualismo e aos demais aspectos que caracterizavam a situação econômico-social imperante revelou-se por meio de três principais manifestações: a) o sindicalismo na área do trabalho; b) o socialismo na área política e socioeconômica; c) a criação das cooperativas como forma de organização dos operários atingidos pelas péssimas condições de trabalho e de vida. (DRIMER; DRIMER, 1981, p. 19).

Então, diante dessa realidade, na qual poucos tinham tudo e a grande massa da população não tinha nada, foi proposta a possibilidade de se instituir um “coletivo” que pudesse dar conta dessas diferenças. Várias foram, então, as sugestões no sentido de se viabilizar essa mudança. A mais abrangente foi a proposta da organização de um Estado com todos os poderes necessários para a realização da tarefa de “equilibrar o que estava em desequilíbrio”, isto é, retirar dos que tinham muito para dar aos que não tinham nada. Guareschi (2004) nos alerta que, se, por um lado, esta proposta trouxe benefícios à grande massa desassistida social e economicamente, por outro essa mesma sociedade transformou o Estado, por assim dizer, numa entidade possuidora de tamanho poder que ela passou a ser pensada e organizada como se fosse uma grande máquina e numa perspectiva de um poder absoluto, incontestável.

Tipos de sociedade

Essa maneira de pensar levou a que alguns passassem a chamar aos valores que dão sustentação a essa cosmovisão de “sociologismo”, além de “coletivismo” ou “totalitarismo”. Foi o mesmo que se deu em relação ao valor que dá sustentação à cosmovisão do liberalismo

individualista, que poderia ser chamado de “psicologismo”5, visto que o indivíduo é o centro de tudo e explica toda a realidade.

Essas idéias e valores que buscavam contemplar o social em oposição ao individualismo foram se materializando na sociedade por meio de experiências denominadas de “totalitarismos”. Podemos citar como exemplo o nazismo, o fascismo, o stalinismo, assim como, em geral, todos os Estados que se estruturam a partir de um “partido único”. São chamados de totalitários, coletivistas, porque, em princípio, não aceitam as diferenças, não aceitam que possa existir alguma coisa além do coletivo, do “partido único”. (GUARESCHI, 2004).

Esses “traços” nazistas, fascistas, absolutistas, etc. não se materializam apenas em modelos de sociedade; também podem ser identificados no cotidiano das nossas práticas sociais, sempre que tivermos dificuldade de aceitar o “diferente”. Quando, por exemplo, os pais, professores ou quaisquer outras pessoas assumem a postura de impor suas idéias como sendo as verdadeiras, as únicas, aquelas que todos devem seguir sem questionar, revelam essa postura autoritária, que por conseqüência, passa a servir também de modelo na formação de outras pessoas totalitárias, discriminadoras, racistas.

Essa “união” das pessoas por meio de um regime autoritário não se constitui de forma espontânea, natural, como muitas vezes se tenta passar; ao contrário, concretiza-se pela ideologia criada pelos governantes e difundida junto à população em intensas campanhas dos meios de comunicação, pela educação e por todas as instituições dominantes, que exercem seu papel de influenciar as pessoas. O apelo à emoção e à paixão é agregado a intensa campanha publicitária; assim, impede-se que as pessoas pensem e reflitam sobre aquilo que está acontecendo com elas.

Nessa cosmovisão as pessoas não conseguem a liberdade que leva à autonomia, pois os comportamentos e as relações predominantes impedem que isso se realize. A liberdade e a responsabilidade só são alcançadas por elas quando têm a possibilidade de participar ativamente do planejamento e das decisões em que estão envolvidas.

Guareschi (2004) nos mostra como essas idéias e valores que propunham uma sociedade que buscava contemplar o social em oposição ao individualismo foram se materializando, se instituindo na sociedade. Vejamos alguns exemplos: a) “massificação” – as

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Psicologismo: o psicologismo é uma das tendências culturais mais acentuadas atualmente nos países capitalistas. “Podemos definir brevemente o psicologismo como aquela compreensão dos fenômenos e processos sociais que os reduz e explica como a simples adição de processos puramente psicológicos”. MARTIN-BARÓ, 1988, p. 23).

pessoas não passam de peças manipuladas, executoras de tarefas sem nenhuma autonomia; b) o “anonimato” – as pessoas continuam a ser apenas “peças”, de modo que não há espaço para a individualidade e elas não possuem identidade nem subjetividade própria reconhecida e aceita; c) “burocracia” – todos reconhecem a importância da burocracia para organizar uma instituição, um grupo ou uma sociedade, contudo ela pode ser um problema quando transforma as pessoas “em argolas de uma corrente, caixinhas de uma escrivaninha, prateleiras de uma estante”. (GUARESCHI, 2004, p. 50).

Numa estrutura social com as características indicadas as pessoas ficam em segundo lugar, pois

o que importa é a ordem, a organização, a regulamentação. A vida e a subjetividade das pessoas não importam tanto; elas têm de se subordinar às rotinas propostas e estabelecidas. Tudo está pré-determinado, e às pessoas nada mais resta do que obedecer às regras estabelecidas. Tudo está previsto, dispensa-se a criatividade, a iniciativa, a inovação. (GUARESCHI, 2004, p. 50).

Muitos países e instituições desapareceram em função da burocracia, pois “não é fácil manter o equilíbrio entre a necessidade de originalidade, criatividade, reconhecimento da subjetividade das pessoas, por um lado, e a indispensabilidade de certa organização e regulamentação, por outro lado”. (GUARESCHI, 2004, p. 50). Percebemos aqui que o que há de exagero na cosmovisão do liberalismo é o que falta no totalitarismo e vice-versa.

Chegamos ao final da análise de duas grandes cosmovisões: a do liberalismo individualista e a do coletivismo totalitário. Cada uma se apresenta com características próprias, pois no liberalismo individualista a ênfase está colocada no “indivíduo”, que é o centro de tudo; nada poderá atingi-lo; a competição é o mandamento principal. Por sua vez, no coletivismo totalitário a ênfase está colocada no “social”, no grupo, no partido; as pessoas são anuladas em função desse coletivo, que se sobressai a tudo e a todos; o todo é a realidade maior.

Diante do exposto, podemos nos questionar: Haveria uma alternativa a tais cosmovisões ou estamos condenados a nos submetermos a essas “forças” que se impõem a nós, sem que tenhamos chance de nos libertaremos de tais amarras? Entendemos que sim, que existe a possibilidade de que outra dimensão possa estar sendo constituída no mundo contemporâneo, e é sobre esta que passaremos a colocar os elementos que constituirão o próximo passo.

O comunitarismo solidário, que também podemos chamar de “pensamento comunitário”, na contemporaneidade poderá se constituir como uma prática social- comunitária que se coloca não como tentativa apenas de junção das duas grandes cosmovisões - liberalismo individualista e totalitarismo coletivista -, mas como um campo onde novas formas de relações sociais poderão se constituir, formando uma nova proposta de sociedade.

1.2.3 O pensamento comunitário na contemporaneidade: como o marisco, entre o mar e o