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TABELL 27. DRIFTSTID I PROSENT FORDELT PA FANGSTFELT 1982-1988

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TABELL 27. DRIFTSTID I PROSENT FORDELT PA FANGSTFELT 1982-1988

Já a Psicologia Social da tese de doutoramento de Alessandra Daflon dos Santos (2008)86 não é Psicanálise, é História. Neste trabalho, a pesquisadora toma como ponto de partida a publicação de uma revista de Psicologia – a Rádice87 – para contar-nos a história da

Psicologia no Rio de Janeiro e no Brasil. Em suas palavras:

o objeto de investigação desta tese é a revista Rádice, produzida por psicólogos, estudantes de psicologia, artistas e jornalistas durante a segunda metade da década de 1970, no Rio de Janeiro. O trabalho partiu da vontade de saber como a revista foi possível e como foi, para o grupo de colaboradores, produzi-la. A idéia que sustenta este trabalho é a de que existem movimentos instituintes no campo da

86 Esse trabalho foi orientado pela Profa. Dra. Ana Maria Jacó Vilela e defendido no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2009, venceu o II Concurso Brasileiro de Teses de Doutorado, Dissertações de Mestrado e Artigos oriundos de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC, Monografia), de Iniciação Científica e de Estágios de Graduação em Psicologia, na modalidade “tese de doutorado”.

87 Segundo A. D. Santos (2008), a Rádice foi produzida entre 1976 e 1981 e caracterizava-se por levar aos seus leitores temas variados e polêmicos que não eram abordados nas revistas de Psicologia da época, tais como a repressão política, o tratamento desumano oferecido por hospitais psiquiátricos, as terapias corporais e a regulamentação da profissão.

psicologia, e que a Rádice é um deles. Meu objetivo é apresentar a trajetória desta revista-acontecimento irradiadora de idéias, pensamentos e discussões que marcaram determinado momento histórico da psicologia no Rio de Janeiro e, porque não dizer, no Brasil. (A. D. SANTOS, 2008, p. 10).

Para atingir esse objetivo, A. D. Santos (2008) leu e releu todos os exemplares da Rádice e realizou entrevistas com pessoas que participaram de sua produção. Ao ouvir os depoentes, percebeu que os relatos sobre a revista confundiam-se com a vida de cada um: “a cada encontro uma “nova” Rádice surgia através dos afetos e da forma como cada um foi marcado por aquela experiência.” (p. 17). Os questionamentos suscitados através desses encontros instigaram a pesquisadora a investigar a relação tempo-memória-subjetividade – sendo “o tempo, sempre o do presente; a memória vista como marcas impressas no corpo a partir das experiências vividas; a subjetividade entendida como o modo singular de ver, pensar e perceber o mundo, efeito das experiências e dos encontros ao longo da vida.” (p. 17).

Para a autora, uma história que leva em conta essas singularidades não pode ter a pretensão de ser “a oficial”. Afinal, segundo ela, verdades são elementos transitórios, que dependem do momento em que são produzidas. Sendo assim, a história (ou as histórias) sobre a Rádice que ela apresenta em sua tese teria(m) sido inventada(s) e partiria(m)

[...] de uma interrogação contemporânea, no presente, que implica o questionamento sobre a psicologia e a formação, o envolvimento com instituições representativas da profissão, a constituição de novas práticas. Essas questões ganham destaque na medida em que, hoje, pensamos a psicologia como prática social, possível no campo das resistências, buscando formas de escapar aos modelos há muito naturalizados. A psicologia deve ser um instrumento de interpelação e análise das relações sociais e históricas e nossas implicações com o mundo. Ao abrir a Rádice o que nos fez apaixonar foi perceber nela tal afirmação, da psicologia como resistência: a Revista torna-se, assim, um instrumento de atualização das questões do presente. (A. D. SANTOS, 2008, p. 22).

Após delimitar a revista como objeto de sua tese de doutoramento, A. D. Santos (2008) iniciou um movimento de “rasgá-la” (sic.) em pedaços para compreender sua organização, os temas abordados e o lugar das pessoas envolvidas na sua produção. Para isso, elaborou mapas com resumos dos conteúdos de cada número e fez uma extensa lista com todos os nomes que aparecem nos expedientes, especificando os números e seções em que apareceram, suas “funções” e mudanças e o tipo de material com o qual contribuíram (se foram artigos, resenhas, notas etc.).

A pesquisadora também estabeleceu modos diferentes de ler a revista: primeiramente, procurou criar uma ideia geral sobre cada número lendo integralmente os exemplares, sem

preocupar-se em fazer anotações e análises. Em um segundo momento, já preocupada com registros, concentrou-se na leitura dos editoriais e da sessão “Geralmente”, pois esses dois espaços da revista apresentavam dados sobre o momento histórico em que os exemplares foram produzidos, além de permitirem que a pesquisadora relacionasse um número com o outro por meio da construção de mapas comparativos que indicavam as especificidades estruturais de cada publicação.

As entrevistas (ou depoimentos) não seguiram um roteiro pré-estabelecido, A. D. Santos (2008) apenas pedia para o depoente falar sobre sua formação, sua trajetória e seu encontro com a Rádice. Nesses encontros, a pesquisadora sempre levava, além do gravador, exemplares da revista (ou “instrumentos para suscitar memórias”, como gosta de chamá-los). Quando o depoente era um ex-colaborador da Rádice, ela tinha o cuidado de fazer um levantamento prévio (a partir do corpo da revista e dos expedientes) de tudo o que ele havia feito.

A escolha dos depoentes obedeceu a diferentes critérios: ao esmiuçar a revista, a pesquisadora localizou pessoas que se destacavam pela quantidade de trabalho, observada no número de notas e matérias. “Nem todos foram localizados; aos que conseguia encontrar, pedia indicação de novos nomes para novos depoimentos. Para mapear os possíveis depoentes entre os que leram a revista e participaram dos simpósios e festas, [contou] com a colaboração de antigos professores e amigos.” (A. D. SANTOS, 2008, p. 23). Esses depoimentos não foram analisados ou interpretados formalmente, foram instrumentos que fizeram a pesquisadora “vibrar” (sic.).

Para construir o argumento de sua tese, A. D. Santos (2008) não se limitou ao conteúdo da revista. Pelo contrário, cada temática, autor ou evento abordado na Rádice servia como um ponto de partida para a autora falar de política, história, repressão, Reich, formação profissional etc. No primeiro capítulo, por exemplo, ela busca contextualizar o surgimento da revista descrevendo fatos que marcaram a história do Brasil, como a ditadura militar, a emergência de movimentos sociais, a exigência da anistia, as transformações nas universidades brasileiras, a situação precária (e desumana) dos hospitais psiquiátricos etc. Já o capítulo 2, dedicado a uma fase mais propositiva da Rádice, fala da história e da obra de Wilhelm Reich, do papel da imprensa alternativa como difusora do pensamento da esquerda brasileira, das denúncias de tortura, da criação do Sindicato dos Psicólogos no Rio de Janeiro e da mobilização contra as propostas de reformulação do currículo mínimo dos cursos de Psicologia. Por fim, no capítulo 3, a autora nos conta histórias sobre os encontros e simpósios “alternativos” realizados na época, sobre os Ciclos Reich, sobre as criticas às sociedades de

psicanálise “oficiais”, sobre a criação do Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições (IBRAPSI) e sobre a transformação da revista Rádice no jornal “Luta e Prazer”. O quadro 6 exemplifica a estratégia argumentativa da autora, na qual o tema de uma matéria serve como disparador para a construção de uma História.

Quadro 6: Exemplo da estratégia argumentativa utilizada por A. D. Santos (2008)

Em 1979, na Rádice no 9 uma grande matéria sobre a proposta de um novo currículo para os cursos de

psicologia no Brasil contava a história dessa proposta, seu início em 1976, quando o Conselho Federal de Educação (CFE) abriu um processo de reformulação do currículo mínimo da psicologia e a constituição em 1977, de uma comissão do Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação e Cultura (DAU/MEC), com o mesmo propósito. A denúncia desses acontecimentos, visto como ato autoritário, pois não houve uma convocação ampla de todos os interessados, gerou intensas mobilizações, reunindo estudantes, professores e profissionais de psicologia. Essas mobilizações, que se estenderam por todo o país, além de terem tido um caráter singular, tiveram como efeito o arquivamento da proposta. A partir da vigência da Lei 4.119 de 27 de agosto de 1962, que regulamentou a profissão de psicólogo e os cursos de formação em psicologia, foi fixado, o currículo de psicologia, através do Parecer no 403 do Conselho Federal de Educação (CFE). [...] O primeiro

currículo foi elaborado a partir da experiência dos centros de formação já existentes no país e das discussões provocadas pela proposta de currículo publicada em 1954 na revista Arquivos Brasileiros

de Psicologia (ABP), com a colaboração de professores renomados nacionalmente. A proposta apresentava matérias comuns [...], que envolviam conhecimentos instrumentais como fisiologia e estatística, e os conhecimentos de psicologia – psicologia geral e experimental, psicologia da personalidade, psicologia social e psicopatologia geral. Definia, ainda, para a formação do psicólogo, duas matérias chamadas “fixas” (Técnicas de Exame e Aconselhamento Psicológico e Ética Profissional) e três “variáveis”, definidas pelos estabelecimentos de ensino de acordo com suas necessidades e possibilidades, mas que deveriam observar e atender às características da atividade do psicólogo nas áreas tradicionais, como a escola, a empresa, a clínica. [...] No ano de 1976, o Conselho Federal de Educação (CFE) encarregou a conselheira Nair Fortes Abu-Mehry de apresentar um anteprojeto para a reformulação do currículo mínimo da psicologia, que [...] havia sido estabelecido pelo Parecer no 403 de 1962. Em 1977, foi constituída pelo Departamento de Assuntos Universitários

do Ministério da Educação e Cultura (DAU/MEC) uma comissão, presidida por Samuel Pfromm Netto, com o mesmo objetivo – reformulação do currículo. [...] As críticas ao processo de reformulação do currículo e aos argumentos expostos acima foram intensas, gerando a mobilização de professores universitários, estudantes, profissionais psicólogos e diversas entidades representativas, como os sindicatos em todo o país. [...] Pela primeira vez uma unanimidade na psicologia brasileira: todos contra o “pacote pfrometa”, que propunha a psicologia como uma entidade repressiva, psicologizando os problemas sociais. Rádice (1979) aponta uma série de enganos, na proposta, que vão desde a formulação do documento, passando pela definição de psicologia, estabelecimento de uma psicologia tecnocrática ligada á produção, incremento do consumo e repressão, e, ainda, o desconhecimento das diferenças regionais e da autonomia universitária, além de deixar de mencionar a prática da pesquisa. [...] As mobilizações não pararam e na seção “Psicologia nos Estados” [da revista

Rádice], são relatadas reuniões, debates, assembléias e organizações de novas comissões partidárias em diferentes regiões do país. [...] A preocupação com o caráter científico da formação do “novo profissional” surgiu em períodos anteriores ao de 1970. Esch e Jacó-Vilela (2001) ressaltam as propostas do psicólogo polonês radicado no Brasil, Waclaw Radecki, o projeto apresentado pelo psiquiatra espanhol Mira y López e, ainda, o projeto substitutivo a esse apresentado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em 1957.

Neste trecho de sua tese de doutoramento, A. D. Santos (2008) toma como ponto de partida a matéria da Rádice sobre a proposta de um novo currículo para os cursos de Psicologia para falar da história da formação na área. Para isso, recorre a outros historiadores, a documentos oficiais, personalidades, órgãos governamentais, periódicos acadêmicos, acontecimentos, comissões etc. (Fig. 2). Ela “volta” ao ano de 1954 – quando foi publicada a primeira proposta curricular (antes mesmo da regularização da profissão) – passa pela década em que a Rádice circulava em bancas, festas e diretórios acadêmicos e “aterrissa” nos dias de hoje, nos fazendo refletir (ainda que implicitamente) sobre a formação profissional que queremos.

Figura 2 – Atores evocados para falar da história da formação em Psicologia

Para que essa Psicologia Social que nos faz “viajar no tempo” exista, é preciso “rasgar revistas em pedaços”, transportar gravadores, carregar “instrumentos para suscitar memórias”, construir mapas comparativos... É preciso “inventar” uma história que não tem a pretensão de ser a única história possível. É preciso “vibrar”.

Rádice no. 9 1976 - CFE abre processo de

reformulação do currículo mínimo de Psicologia 1976 - Constituição da DAU/MEC Mobilização contra a reformulação Lei 4.119 de 1962 1954- Arquivos Brasileiros de Psicologia Professores renomados nacionalmente Pacote pfrometa Matérias “fixas” e ”variáveis” Waclaw Radecki Mira y López Preocupação com o caráter científico da formação do “novo profissional ” Crítica à Psicologia tecnocrática Autonomia universitária Arquivamento da proposta de reformulação Nair Fortes Abu-Mehry

Repressão

Consumo

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