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Já o corpus da tese de doutorado de Belinda Mandelbaum (2004) 84 não é formado por relatos de situações do cotidiano da pesquisadora, mas por transcrições de entrevistas e sessões de atendimento clínico. Sua produção não acontece a qualquer hora, em qualquer lugar; mas em uma instituição pública de saúde, em horários agendados previamente, com clientes/pacientes escolhidos por apresentar características especificadas em seu projeto de pesquisa. Além disso, seu objeto de estudo não é a menopausa, mas sim “[...] o impacto do desemprego nas dinâmicas familiares e as respostas que esse tecido de relações deixa surgir diante desse trauma.” (p.20).

Assim como a Psicologia Social das pesquisas de Lane, essa tese busca unir investigação com intervenção – tanto que considera que

o modo de lidar com o registro, de transformar a experiência vivida em discurso escrito, já é teoria, e não apenas um detalhe externo sobre o qual operar-se-ia a construção teórica posterior. Em psicanálise, assim como em todos os campos em que procuramos e oferecemos significados aos fatos, a escuta já é teoria. (MANDELBAUM, 2004, p. 170).

No entanto, para isso, articula atores e utiliza técnicas bastante diferentes. Em primeiro lugar, ela parte de um referencial teórico psicanalítico e, sendo assim, fala de Freud, de sofrimento psíquico, de traumas, de sintomas etc. Fala de relações entre “o real” (sic.) e a vida psíquica, ou seja, de relações entre condições materiais – como o desemprego – e o “[...] desdobrar sem fim de versões pessoais em cujo interior atuariam como vetor principal essencialmente forças advindas do campo pulsional – a dimensão do desejo [...]” (MANDELBAUM, 2004, p. 10).

84 Essa tese de doutorado foi defendida no Programa de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e foi orientada pela Prof a.Dr a. Sylvia Leser de Mello.

Em segundo lugar, Mandelbaum (2004) realiza entrevistas e atendimentos clínicos com grupos e famílias de desempregados, buscando criar um espaço de “escuta” capaz de lidar com suas dores e histórias. Sendo assim, seu compromisso não é propriamente com a transformação da sociedade, como no caso de Lane, mas com as demandas daqueles que aceitam participar de sua pesquisa.

Como as sessões de atendimento aconteciam em um Centro de Referência em Saúde do Trabalhador85, desde as entrevistas iniciais, Mandelbaum (2004) percebeu que as famílias de desempregados esperavam que seu estudo se inserisse dentro da sistemática de trabalho do Centro. Em suas palavras,

[...] as famílias insistiam em querer ver o contato comigo como fazendo parte do trabalho do Centro. Por isto, cada vez mais, fui estabelecendo o atendimento às famílias aprofundando as pontes e tentando integrar o trabalho com os demais profissionais do Centro [...] Como fruto desse processo, encontrei-me semanalmente em reuniões com esses profissionais e o resultado foi, inicialmente, a estruturação de um grupo de famílias, um espaço no qual diferentes famílias que tinham em comum a vivência do desemprego pudessem trocar experiências e refletir juntas sobre a condição que vivem, buscando eventualmente, de forma coletiva, alternativas de enfrentamento. (MANDELBAUM, 2004, p. 30).

Algumas das famílias que participaram das entrevistas iniciais foram convidadas a participar desse grupo, enquanto outras foram convidadas a integrar uma etapa posterior do trabalho, voltada para um atendimento focal.

Segundo a autora, tanto durante o trabalho grupal quanto durante o focal, eram discutidas questões relacionadas ao mundo do trabalho e suas ressonâncias nas dinâmicas familiares, aceitando o que fosse “mais emergente” para cada uma das famílias que participaram da pesquisa. Sendo assim, a despeito de ter um tema central, as sessões estavam organizadas de modo a propiciar um espaço aberto de escuta, no qual as famílias podiam trazer para a discussão suas principais demandas. Entretanto, as estratégias de análise dessas duas etapas da pesquisa eram distintas: o processo grupal foi abordado enfocando o processo que a pesquisadora viveu junto às famílias. Para isso, ela apresentava a transcrição inteira de cada uma das sessões de acordo com a ordem em que ocorreram e, em seguida, as discutia (como exemplificado no quadro 3).

85Esse Centro de Referência é uma instituição pública que oferece atendimento clínico (por meio de serviços de orientação, diagnóstico e tratamento) a trabalhadores com problemas de saúde decorrentes do trabalho.

Quadro 3: Exemplo de análise do processo grupal.

[logo após a transcrição integral do sexto encontro]

Estão presentes Rosa, Pedro, Lucio, Silva, Lurdes e Maria, Laís, Margaret e eu, que inicio a sessão: „como hoje é nosso último encontro, gostaríamos de conversar sobre o que foi o grupo para cada um de vocês, ter um retorno do trabalho que fizemos juntos‟. Na verdade, inicio encerrando, pedindo, antes do fecho final, algo assim como uma avaliação. Minha fala foi dura demais. Para um grupo de pessoas que, no princípio, concordaram em participar muito mais por uma demanda feita pelo Centro de Referência do que uma opção pessoal; para pessoas que tinham que, num curto espaço de tempo – seis semanas –, preencher o espaço do grupo com expectativas de características muito difíceis de serem sustentadas na medida certa- uma vez que a expectativa maior deles, a de arranjar trabalho ou verem suas reivindicações jurídicas atendidas, tende a ofuscar todo o resto; e, por outro lado, a falta de familiaridade com um trabalho subjetivo mais concreto, com um trabalho propriamente com a

subjetividade –, todos esses elementos estabelecem coordenadas que tornam a apropriação da experiência que vivemos no grupo uma tarefa difícil. Leva tempo e, se no encontro anterior, pudemos nos sentir, em alguns momentos, trabalhando como um grupo que toma para si a tarefa de refletir

com seriedade as questões que iam emergindo, e não apenas como uma reunião de singularidades, agora, mal eles se vincularam mais fortemente ao grupo, eu o finalizo. E de um modo em que me distancio deles, por que não me incluí na avaliação.

Fonte: MANDELBAUM, 2004, p. 146, 147, grifos nossos.

Nessa análise, a pesquisadora não falava simplesmente das famílias que atendia, falava também de seus sentimentos diante delas, questionava seus próprios procedimentos, se colocava, a todo o momento, como parte do processo grupal.

Já no atendimento a Pedro (o único que compareceu regularmente às sessões focadas), ela realizava um trabalho de síntese, capaz de “capturar” (sic.) o modo de ser do participante junto a sua família em uma situação de desemprego. Nas palavras da autora, “[...] mais do que uma síntese do processo, o que [esperava] apresentar é uma descrição do modo de funcionar de Pedro diante dos desafios que sua situação existencial coloca para ele.” (MANDELBAUM, 2004, p. 159). Como o foco não estava mais no processo, a cronologia das sessões não foi seguida e as transcrições dos atendimentos foram apresentadas somente nos anexos. O quadro 4 ilustra essa análise.

Quadro 4: Exemplo de análise de atendimento focado.

[...] Pedro é dependente dos outros, como supõe que seu filho é dependente da não separação dele de

Laura. Mas, contrapõe a essa realidade de dependência – principalmente no caso de sua relação com Laura – uma certa superioridade moral, que ele põe em ação com o intuito de amplificar algo assim como uma força gravitacional e atrair sua companheira com maior intensidade para o seu campo particular: „... eu tento normalizar e não complicar mais. Se eu for embora, ela vai pôr a culpa em mim, que eu larguei a família. Tenho que agüentar, para tentar normalizar a família naquele padrão, não deixar as crianças tristes. Comigo estamos tendo o maior cuidado, casa arrumadinha, comida pronta. Queria ver outro, ela ia encontrar em porta do bar, jogando sinuca, baralho... [Ela] tem que agradecer a Deus por ter encontrado eu, estou sendo bom demais. Se eu arrumei uma família, foi para levar... agora viver essa desigualdade, um querendo passar por cima do outro... tem que ser calmo. Ela pode tirar pelas amigas dela que têm marido, nenhuma faz o que eu faço‟ [...] Talvez seja o

orgulho de Pedro que a situação de desemprego arranha. Talvez sejam suas expectativas de formação: será que Pedro cresceu sentindo que deveria substituir o pai como provedor para a sua família? Ou toda a história do imaginário das famílias brasileiras, no qual o homem ocupa o lugar

do patriarca– „o ramo do homem é manter a casa. Não é lugar ficar em casa...‟ –, contribui para

pressionar nele uma atitude quase que de „prestar contas emocionais‟, na relação com Laura e seu

filho, de todas as limitações que a vida maior impôs sobre ele? Se a vida o rebaixa – „eu fico em casa, varro, lavo, cuido do menino. Quando ela chega, eu estou mal, não é a minha área, é de mulher, fico sem jeito‟ – para resgatar um equilíbrio narcísico pessoal, Pedro precisa rebaixar a companheira: „ela deve ter problema. Só fala gritando. Isso ofende... Eu fico com as crianças e ela diz que eu não ajudo. Acho que eu vou voltar para a minha mãe. É erro da parte dela‟. As próprias potencialidades dela – ou o que ele reconhece como potencialidades nela – o ameaçam: „hoje ela foi fazer bico... fora de casa, ela faz tudo, conversa. Dentro de casa não se dispõe. As amigas chamam, ela vai com o maior prazer, vai com elas comprar no supermercado... e reclama em casa. Acho que ela tem problema‟. E começa a denegri-la. Ela o trai para receber alguns trocados de volta. Como uma mulher de rua. E, desse modo, internamente, Pedro resgata uma superioridade necessária para ele, para poder sobreviver sem ter que enfrentar a sua condição de ser absolutamente dependente dela.

Fonte: MANDELBAUM, 2004, p. 161- 165, grifos nossos.

Nesse trecho da análise, podemos observar que a pesquisadora enfoca as relações emocionais que estruturam a vida psíquica de Pedro e que, ao mesmo tempo, são estruturadas pela história familiar e pelo campo sócio-econômico-cultural em que ele está inserido. Essas relações são, segundo ela,

[...] detectáveis em ambos os casos através da fala dos sujeitos implicados, desse campo em que incidem dinâmicas pulsionais, elaborações simbólicas, processos transformadores dos significados das palavras, juízos de valor e também determinismos de um para além das palavras, de um estado de coisas suscitado pelos processos sócio-econômicos. (MANDELBAUM, 2004, p. 170).

Assim, para a pesquisadora, Pedro sente-se humilhado. Humilhado por não ter um emprego, por depender financeiramente da esposa, por ter de realizar trabalhos “de mulher”. E, possivelmente, esse sentimento esteja relacionado com sua crença no papel de substituto do pai como provedor do lar ou com o imaginário das famílias brasileiras, em que o homem ocupa o lugar do patriarca. Ou seja, possivelmente esse sentimento esteja relacionado com sua história familiar ou com o contexto social em que ele está inserido.

Após descrever o processo grupal e o modo de funcionar de Pedro, Mandelbaum (2004) optou por fazer um terceiro tipo de registro, que, segundo ela, funcionava como uma síntese dos dois primeiros. Tal como fez com o grupo, passou a descrever passo a passo uma das sessões realizadas com um casal (Roberto e Leonor); mas, desta vez, trazendo para essa análise as ressonâncias de todas as 16 sessões das quais o casal participou, fazendo, assim, ao mesmo tempo, uma análise não cronológica do modo de funcionar do casal, tal como ilustrado no quadro 5.

Quadro 5: Exemplo da análise do atendimento ao casal.

Roberto e Leonor têm por volta de 40 e poucos anos, ela alguns mais do que ele. Essa diferença é visível: ele tem um porte mais jovem e uma certa beleza na qual ganha destaque um par de olhos bem azuis, entre sedutores e perturbadores. Encará-lo não é fácil. [...] Dizem que olhos azuis costumam ser perigosos. No caso de Roberto, o perigo dos olhos azuis parece recair sobre ele próprio. “Olhem- me”, parece dizer ele. E todo esse não-dito se acumula, e então Roberto retira o olhar, recuando, incapaz de sustentar o que ameaçadoramente, como em erupção de ondas, é posto em movimento através do olhar. Leonor transparece, em gestos e fala, um modo de ser mais pragmático, batalhador. [...] a proposta de um trabalho terapêutico com o casal foi recebida com entusiasmo por parte de Leonor, que viu no atendimento a única tentativa para mudar o modo de ser de Roberto e, assim, salvar seu casamento. Roberto parece ter aceito a proposta de um modo passivo e silencioso, sem expressar qualquer repercussão em si a partir dela. Como propusemos anteriormente, vamos agora acompanhar o passo a passo de uma sessão do casal – que ocorreu no período final do processo terapêutico -, levando em consideração, para a sua compreensão, elementos advindos de todas as sessões anteriores.

Sessão do dia 07/10/2003:

Roberto: vocês receberam o recado da semana passada? Margaret: sim.

Leonor: é que eu estou mudando para a sub-prefeitura do Cambuci. [... continua a transcrição integral da sessão]

Roberto começa nos perguntando „vocês receberam o recado da semana passada?‟ O casal tinha faltado na última sessão, deixando um recado. Margaret diz que sim, Leonor explica: „é que eu estou mudando para a sub-prefeitura do Cambuci‟. Na dinâmica deste casal, quase sempre é assim: Leonor

explica tudo, justifica tudo e até propõe tudo. Foi assim desde o primeiro momento em que nos vimos, quando estabelecemos a proposta de trabalho. Ela, como dissemos, entusiasmou-se com a possibilidade de participarem de um atendimento de casal porque, casada com Roberto há 14 anos, sempre ele „teve problemas de emprego, ficando por volta de um ano e meio em cada lugar... é bom funcionário, mas sempre o perseguem e acaba sendo mandado embora. Não sei se ele não atura, não tem paciência...quando você pensa que ele vai ficar bom, ele perde o emprego‟ [...].

Fonte: MANDELBAUM, 2004, p. 170-176, grifos nossos.

É interessante notarmos que, em boa parte da tese, Mandelbaum (2004) refere-se a sua pesquisa como um trabalho de Psicanálise. Ela justifica seus procedimentos dizendo que é assim que se faz na Psicanálise e usa conceitos e termos típicos dessa área do saber. Entretanto, no primeiro capítulo da parte II, posiciona seu trabalho como um estudo de Psicologia Social, tal como podemos ver no trecho a seguir:

ser desempregado é um aspecto do real ou uma condição da vida psíquica? A pergunta é tola, porque nada mais faz do que ressaltar a fronteira entre o território particular de cada um, sua assim chamada vida interior, e o coletivo do qual todos nós fazemos parte, a assim chamada vida exterior. Toda vez que lidamos com singularidades em Psicologia Social, preocupamo-nos em estabelecer o hífen entre o individual e o coletivo, entre o singular e o plural, visando, como diz Adorno, integrar o homo

oeconomicus – o homem que é o resultado da ação das instituições e engrenagens nas quais se suporta e se limita seu intercâmbio com outros homens, sua socialização, em cujo interjogo dá-se o essencial das trocas responsáveis pelo comércio da adaptação -, e o homo psychologicus que, a partir de Freud, Melanie Klein, e outros seguidores, ressalta as intensidades de uma demanda pulsional, de um além do campo do racional, pressentindo

em qualidades emotivas, entre o amor e o ódio, a partir das experiências de amparo e desamparo e da inerente tolerância a lidar com angústias, com os determinantes de uma economia subjetiva na qual se daria o comércio essencial do processo de colorir emocionalmente a si mesmo e ao mundo em que se está. (MANDELBAUM, 2004, p. 189).

O uso da primeira pessoa do plural na frase “toda vez que lidamos com singularidades em Psicologia Social, preocupamo-nos em estabelecer [...]” (MANDELBAUM, 2004, p. 189, grifos nossos) é um dos indicativos do posicionamento supracitado. Sendo assim, podemos dizer que o que a pesquisadora faz é não somente Psicanálise, mas é, também, Psicologia Social. No entanto, não é qualquer Psicologia Social, é uma que coloca o hífen entre o individual e o coletivo, entre o singular e o plural, entre o homo oeconomicus e o homo psychologicus. É uma que vincula teorias sobre a vida humana à vida concreta, atende a demandas e busca diminuir o sofrimento psíquico dos que dela participam. Nesta Psicologia Social, os sentimentos da pesquisadora – como o incômodo gerado pelos (sedutores e perturbadores) olhos azuis de Roberto – fazem parte do material de análise. Assim como também o fazem figuras paternas, equilíbrios narcísicos, imaginários populares, dinâmicas pulsionais, elaborações simbólicas, processos transformadores dos significados... Em suma, a Psicologia Social dessa tese é Psicanálise.

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