• No results found

T ORGALLMENNINGENS INNRAMMING I 1960

3. M ED GASSEN I BÅNN MOT BILSAMFUNNET

3.3. T ORGALLMENNINGENS INNRAMMING I 1960

Neste capítulo, procurou-se contextualizar as intervenções estatais em favelas, de seu percurso histórico ao contexto atual. Buscou-se destacar as diversas representações sociais que foram, historicamente, atreladas às favelas, e a forma como as ações do Estado pautam-se nestes estereótipos e voltam-se para a favela no singular, o que implica um tratamento homogêneo às favelas.

Por meio de uma descrição do histórico das intervenções estatais em favelas, é possível notar que tem-se, hoje, um cenário no qual as favelas destacam-se como territórios de violência, responsabilizadas pela criminalidade da cidade. Nesse sentido, busca-se a integração das favelas ao restante da cidade, como forma de lidar com o problema da segurança pública.

Ganhou destaque, neste capítulo, o programa das UPPs, para que se aponte as principais características do contexto no qual esta pesquisa foi desenvolvida. Entretanto, embora as UPPs mereçam destaque, por serem apontadas como o programa que inaugura uma nova etapa da vida nas favelas, “abrindo” a favela ao Estado, vale ressaltar que as UPPs vêm acompanhadas de uma intensificação de ações do Estado na favela, e em minha pesquisa de campo, que serviu de base para as análises teórico-empíricas que serão desenvolvidas a partir daqui, volto meu olhar para os diversos representantes do Estado, para o que chamarei aqui de campo burocrático do Estado em ação nas favelas.

38

3 MÉTODO DE PESQUISA

Para atender ao objetivo de investigar como se dá a relação entre o campo burocrático do Estado em ação nas favelas e o espaço social, no contexto da “pacificação”, foi preciso voltar meu olhar para o espaço em si, para os processos de organizar no espaço, para a vida no cotidiano da favela e para a compreensão da dinâmica do campo burocrático do Estado em ação nas favelas. Mas para aproximar o meu olhar disso que se configurou como meu objeto de pesquisa, foi preciso fechar um pouco os livros e subir o morro, com vistas a adquirir um novo conhecimento, agora “permeabilizado por cheiros, cores, dores e amores” (DA MATTA, 1978, p. 24).

Indo ao encontro da perspectiva teórica que fundamenta a pesquisa de tese aqui apresentada, parte-se de um entendimento relacional e processual do objeto de estudo. Busca- se, nesse sentido, a superação da dicotomia objetividade-subjetividade e dos demais dualismos que dela decorrem (ação/estrutura, indivíduo/sociedade). Como consequência, as organizações não são pensadas como produtos acabados, possibilitando que o fenômeno organizacional seja investigado a partir da inclusão de novas dimensões (espaciais, relacionais, ...). Tal opção epistemológica possibilita, ainda, a abertura para um pluralismo metodológico, conforme mostrou Peci (2006).

A discussão em torno da dicotomia objetividade-subjetividade está presente nos debates dos estudos filosóficos e sociais há muitos anos (PECI, 2006), e ganhou destaque na área de estudos organizacionais especialmente a partir da publicação da destacada obra de Burrell e Morgan Sociological paradigms and organisational analysis, em 1979. Na referida obra, os autores propõem que a teoria social em geral, mas especialmente as teorias organizacionais, podem ser analisadas a partir de quatro visões de mundo mais amplas - funcionalismo, interpretativismo, humanismo radical e estruturalismo radical - que se refletem em diferentes pressupostos teóricos sobre a natureza da ciência e da sociedade, e refletem também diferentes escolas de pensamento (MORGAN, 1980). Burrell e Morgan marcam, ainda, que os quatro paradigmas são incumensuráveis (TADAJEWSKI, 2009).

Em texto mais recente, o próprio Burrell (2007) reconhece algumas limitações do modelo, mas ressalta como um de seus pontos positivos o fato de ter sido capaz de destacar que a orientação funcionalista dominante na área não era a única possível. A visão objetivista, inerente ao funcionalismo dominante, levou ao que Vergara (2007, p. 461) denominou de uma “simplificação da vida organizacional” ou ao privilégio da “homogeneidade em detrimento das diferenças”. Duarte e Alcadipani (2013) mostram como o objetivismo dominante na área

39 leva à naturalização de uma compreensão das organizações de forma reificada e neutra, com fronteiras bem definidas, o que, segundo os autores, não dá conta de entender fenômenos organizacionais complexos.

Como uma tentativa de síntese da dicotomia objetividade subjetividade reforçada na obra de Burrel e Morgan e, portanto, rompendo com a incomensurabilidade paradigmática por eles proposta, pode-se destacar a perspectiva teórica de Pierre Bourdieu (WACQUANT, 2012; PECI, 2006). O autor sofreu influências de diversas perspectivas teóricas, dentre as quais se destacam a fenomenologia, o estruturalismo e o marxismo (PECI, 2006), e sua perspectiva própria, derivada das diversas influências, chegou a ser denominada de estruturalismo construtivista ou construtivismo estruturalista (MISOCZKY, 2006). O estruturalismo construtivista de Bourdieu é descrito por Wacquant (2012) como uma combinação entre abordagens fenomenológica e estruturalista, que possibilita uma investigação social integrada e coerente. Sobretudo, a perspectiva de Bourdieu “afirma a primazia das relações” (MISOCZKY, 2006, p. 80) e possibilita uma perspectiva relacional e processual de análise (SETTON, 2002).

Os avanços trazidos por Bourdieu para as diferentes áreas sob sua influência podem ser entendidos como reflexo de sua inquietude diante do estado do conhecimento que dominava em sua época. Conforme Everett (2002), Bourdieu era inconformado com a natureza dualística do pensamento sociológico e com a necessidade de escolher entre o foco na estrutura ou na agência, no micro ou no macro, no qualitativo ou no quantitativo. Para Bourdieu, o dualismo dominante na área era problemático, tendo em vista que o foco exclusivo em um ou em outro leva necessariamente a contradições lógicas. Na visão do autor, “de todas as oposições que dividem artificialmente a ciência social, a mais fundamental, e a mais danosa, é aquela que se estabelece entre o subjetivismo e o objetivismo” (BOURDIEU, 2011a, p. 43).

Rompendo com os dualismos, a abordagem proposta por Pierre Bourdieu apresenta-se como uma alternativa conciliadora para se pensar o mundo social (e mais tarde as organizações que também o compõem), na medida em que se propõe a superar dicotomias como objetividade/subjetividade, ação/estrutura, e indivíduo/sociedade (PECI, 2003). Produzida com esse viés integrador, a perspectiva teórica de Bourdieu tem como marcas fundamentais o pensamento relacional e o uso da reflexividade (SWARTZ, 2008).

Nesse sentido, a perspectiva teórica de Bourdieu pode ser transposta a área de estudos organizacionais, de forma a prover uma visão processual para se pensar os fenômenos

40 organizacionais. Segundo Langley e Tsoukas (2010), a visão processual é aquela visão de mundo que olha para os processos, muito mais do que para substância, como as formas básicas do universo, priorizando atividades, mudanças e novidades, em detrimento do produto, da persistência e da continuidade. Pettigrew (1997, p. 338) explica que a noção de processo pode ser compreendida como “a sequence of individual and collective events, actions, and activities unfolding over time in context”. Portanto, os estudos processuais preocupam-se em analisar ou explicar essas sequências de ações coletivas ou individuais, tendo em vista que a realidade social não é estática, mas sim um processo dinâmico (PETTIGREW, 1997). Pettigrew (1997) ressalta, ainda, a importância do contexto para uma análise processual. O autor explica que quando o interesse de investigação está no processo, o contexto no qual ele está inserido, que molda o fluxo de eventos e que por sua vez é moldado por ele, também merece ser investigado. Assim, assumir uma visão processual das organizações significa entendê-las “como processos ou práticas de organização (organizing), os quais se mostram heterogêneos, difusos e complexos, em constante fluxo e transformações” (DUARTE e ALCADIPANI, 2013, p. 4).

Neste sentido, uma visão processual também possibilita a retomada da dimensão espacial nos estudos organizacionais. Ao apresentar o seu conceito de espaço social, Lefebvre (2007), não por acaso, adota como ponto de partida a crítica à dicotomia entre sujeito e objeto advinda da lógica cartesiana, e denuncia o pressuposto de identidade entre o espaço mental e o espaço real, que cria um abismo entre a esfera mental e as esferas física e social. Assim, o conceito de espaço social, que tem origem no pensamento de Lefebvre, no qual esta tese se baseia, está também inserido nesta mesma perspectiva teórica, na medida em que compreende-se o espaço como um conjunto de relações e formas, no qual o social e o material estão imbricados (LEFEBVRE, 2007).

Seguindo esta perspectiva epistemológica é possível compreender as organizações enquanto processos de organizar - aproximando-as do dinamismo que é marca dos campos-, e com isso possibilitando que se recupere a relação entre as organizações e o espaço, em que ambos são, ao mesmo tempo, produto e produtor, inacabados, processuais. Pautando-me nessa perspectiva teórica, este capítulo tem como objetivo descrever as estratégias metodológicas que foram adotadas para atender ao objetivo de pesquisa proposto. Para tal, serão descritos os métodos de coleta de dados e os métodos de análise de dados utilizados ao longo da pesquisa, bem como o meu processo de inserção no campo.

41