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1   INTRODUCTION

1.7   T HE OBJECTIVE OF THIS THESIS

A escola "Campo do Saber" foi escolhida para essa análise por se localizar na região de nossa atuação profissional como extensionista rural, sendo o único estabelecimento escolar da comunidade. No início do ano 2011, apresentamo-nos à direção da escola e à coordenadora pedagógica, a fim de discutir sobre o tema da pesquisa em linhas gerais e negociar a adesão da instituição como lugar de investigação. A equipe da direção escolar mostrou interesse e nos convidou para apresentar a proposta de pesquisa na primeira reunião subsequente, ocorrida em 03 de março de 2011, em uma das salas da escola. Durante a reunião, foi dada a oportunidade para a pesquisadora se apresentar em relação à sua trajetória acadêmica e profissional, bem como explicitar os aspectos relacionados ao objeto de estudo e às suas motivações e contribuições, além de levantar as expectativas de adesão dos(as) professores(as) dos anos iniciais do Ensino Fundamental à pesquisa.

Nessa reunião, estiveram presentes alguns professores(as) do Ensino Fundamental, a diretora, a vice-diretora, a coordenadora pedagógica, o secretário da escola, a merendeira e a assistente de serviços gerais.

Após a apresentação, foi perguntado ao grupo quem desejaria participar do estudo. É fato que a adesão a uma pesquisa acadêmica não é uma tarefa fácil e

imediata. Necessita de um processo de “sedução” no sentido de clareza,

objetividade e singularidade na exposição dos objetivos, a fim de que haja uma confluência de interesses estabelecidos em regime de contrato pedagógico. Sendo assim, alguns dos professores(as) presentes expuseram dúvidas sobre os

procedimentos da pesquisa, o que oportunizou esclarecimentos a respeito da observação participante e da entrevista. Assim que dirimidas as dúvidas, foi obtido o consentimento para que a pesquisa fosse realizada e aproveitamos o ensejo para levantar o número de turmas, alunos e professores(as). Houve adesão dos professores(as) das turmas iniciais do Ensino Fundamental, objeto da pesquisa, ficando pactuado que a permanência da pesquisadora na escola se daria durante todo o primeiro semestre letivo (14/03 a 21/06) do ano de 2011.

Temos como indicativo o ano de 2011 para a descrição da realidade nos aspectos históricos, econômicos, geográficos, políticos e sociais, precisando elementos que possam contribuir para compreender as relações entre a escola e a complexidade do meio rural. Desse modo, recorremos aos seguintes instrumentos apontados por Minayo (2004) para a pesquisa ser realizada: a observação participante, a entrevista semiestruturada, além da análise de documentos para contextualizar as questões em estudo, explicitando suas vinculações mais profundas e complementando as informações construídas através da observação participante e da entrevista semiestruturada.

O acompanhamento sistemático das atividades escolares – por meio da

observação participante – permitiu a inserção da pesquisadora no âmbito mais

restrito, e não menos complexo, da escola: a sala de aula. As observações realizadas nas 04 (quatro) turmas das séries iniciais do Ensino Fundamental estiveram centradas no registro descritivo das situações de ensino, dos sujeitos envolvidos, dos espaços comuns, das atividades intra e extrassala, em reconstruções de diálogos, como também no registro analítico composto por nossas impressões e relações dos fatos presenciados com leituras e (re)circunscrição permanente de nosso foco de estudo.

A inserção na sala de aula constituiu-se momento rico nesta pesquisa, pois possibilitou o contato direto com as práticas pedagógicas cotidianas, além da viabilização da interação direta com os sujeitos envolvidos. Participar da vida daquela escola durante um semestre letivo (de 14 de março a 21 de junho de 2011) também afetou quem estava realizando esta pesquisa de modo singular, provocando reflexões de práticas realizadas em atuação anterior, bem como lhe possibilitou rever os próprios princípios de sua profissão.

O exercício de observar as práticas pedagógicas, durante a pesquisa, traduziu-se num momento rico, ao mesmo tempo que nos imprime limitações. A dinâmica da sala de aula é multirreferencial, o que provoca a ressignificação do

olhar do observador – mesmo carregando um objetivo para a pesquisa previamente

assegurado –, pois nesse espaço estão vivas questões sociais, culturais,

econômicas, biológicas, históricas e físicas. Ao mesmo tempo, a observação convidou a uma autorreflexão da própria prática do(a) observador(a), de suas posturas e decisões em particular, provocando um diálogo com sua essência enquanto pessoa que vive no mundo e se compromete consigo mesma e com questões que dão sentido à própria vida dele(a), dentre elas, a democratização da Educação e o desenvolvimento rural.

As reflexões provocadas pela realização desta pesquisa acham guarida nas palavras de Freire (1996, p. 16, grifo nosso), uma vez que, segundo ele, esse fato

expressa a dimensão formativa da investigação: “Pesquiso para constatar,

constatando, intervenho, intervindo, educo e me educo. Pesquiso para conhecer o

que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade”.

A observação participante, nesse contexto, contribuiu para que fosse possível entender os elementos constituintes da organização do trabalho pedagógico, com ênfase nos saberes que são expressos pelos(as) professores(as) durante as aulas. Para iniciar o procedimento de observação em sala de aula, foram necessários alguns pactos junto aos professores(as). O primeiro acordo foi em relação aos contatos iniciais com as turmas nos primeiros dias do ano letivo. Esse contato se daria de forma que o(a) pesquisador(a) fosse apresentado(a) e já identificado(a) como “observador”, a fim de que os alunos tivessem bem clara a posição dele(a) naquele espaço.

Outro acordo com os professores(as) estabeleceu que a observação, em

cada turma, seria realizada em dias consecutivos – 02 (dois) ou 03 (três) dias por

semana – para que a continuidade de cada aula fosse registrada durante a

observação. O caderno de registro das observações ficou disponibilizado aos professores(as) desde as primeiras observações, aliviando os possíveis desconfortos que esse procedimento de pesquisa pudesse gerar, tanto no observador quanto no observado. Observar diretamente a prática pedagógica dos

professores(as) implicou apreender os comportamentos e acontecimentos no momento e da forma como se produzem, entendendo que a observação possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado (LÜDKE; ANDRÉ, 1986). A oportunidade de observar as práticas pedagógicas incide em reconhecê-las como portadoras de um teor ideológico, as quais constroem e reconstroem ideias sobre o mundo, além de representarem a cultura e a identidade do professor frente a diretrizes, normativas e princípios estabelecidos a partir das políticas educacionais.

Outro procedimento adotado foi a entrevista semiestruturada (ver Apêndice 1). A escolha desse procedimento se deu em razão de ele possibilitar a interação social entre entrevistado e entrevistador (LÜDKE; ANDRÉ, 1986; GIL, 2007). Na entrevista semiestruturada, as questões seguiram uma formulação flexível na qual os sujeitos entrevistados tiveram liberdade para imprimir o ritmo e a sequência da dinâmica que se seguiu naturalmente, como também para aprofundar trechos das oralidades expostas em momentos particulares da entrevista.

Optamos por realizar as entrevistas após as observações diretas em sala de aula, pois, nesse caso, haveria a possibilidade de aprofundar, esclarecer, elucidar e examinar questões que emergiam do nosso olhar inicial sobre as práticas pedagógicas.

O procedimento da entrevista já havia sido negociado com os professores(as) durante a apresentação do objetivo e da operacionalização da pesquisa na escola. Desse modo, dada a proximidade do encerramento do primeiro semestre letivo, construímos, segundo a disponibilidade dos professores(as), um calendário, agendando cada entrevista, ficando acordado que esse momento se realizaria na própria escola. Nessa construção, reiteramos o objetivo da pesquisa e o caráter confidencial do momento, a fim de que os professores(as) se sentissem à vontade para fazê-la. As datas agendadas incidiram nas duas últimas semanas do primeiro semestre letivo. Como esse foi um período de realização de avaliações, o horário de aulas durou até a hora do intervalo.

Percebemos que o momento de entrevista foi tranquilo tanto para o entrevistador quanto para os professores(as). Atribuímos isso à informação prévia

da presença do(a) pesquisador(a) na escola durante todo o semestre, bem como à enfática exposição do objetivo da pesquisa e seu caráter confidencial. As entrevistas ocorreram na própria escola, num momento de privacidade em que estavam somente entrevistador e docente. Os docentes consentiram o uso do gravador para registro da conversação continuada, embora alguns deles tenham pedido para esclarecer quais questões seriam abordadas na entrevista, antes mesmo que ela começasse.

No processo de construção da entrevista semiestrutrurada, foram estabelecidos 05 (cinco) eixos de análise organizados não em perguntas, mas em pontos e temas, em face do conjunto, a fim de que os professores(as) pudessem discorrer sobre o tema proposto, sem a prefixação de respostas ou condições. Para analisar as perspectivas e saberes dos docentes na construção do currículo e o modo como esses elementos se contextualizam com as características socioculturais dos alunos de uma escola pública rural, foram organizados os eixos de questões (ver roteiro anexo), correlacionados entre si:

1) Trajetória de Vida do Docente;

2) Experiências Profissionais e Saberes; 3) Aspectos da Rotina Pedagógica; 4) Aspectos Legais do Ensino no Rural; e 5) Informações sobre o Contexto Rural.

Considerando-se que o momento de cada entrevista é único, as conversas enunciadas durante as entrevistas possibilitaram a construção de rede de significados e referências, conforme será visto posteriormente. Para a análise dos dados construídos a partir da observação direta e da entrevista, adotamos os seguintes passos:

1) Leitura de cada registro das práticas pedagógicas dos docentes, acrescentando detalhes não inseridos no momento do registro, enriquecendo-os com algumas reflexões sobre o observado;

2) Após a leitura detalhada dos registros, foram selecionadas algumas passagens que consideramos mais representativas das questões observadas em sala e que integram o objeto de estudo;

3) Ouvimos atentamente cada entrevista para, na sequência, serem realizadas as transcrições na íntegra;

4) Após as transcrições das entrevistas, procedemos às inferências nas falas dos sujeitos, as quais resultaram na interpretação dos dados, de modo dialógico com a revisão de literatura;

5) Em seguida, identificamos os aspectos tanto nas falas dos docentes pesquisados quanto na observação de suas práticas cujas correspondências serviram para compormos os eixos norteadores das discussões sobre os saberes e perspectivas desses professores(as). A partir desse momento, passaremos a descrever o cenário de nossa investigação, bem como os sujeitos que dela participaram.