2. THEORETICAL BACKGROUND
2.1 T HE LANGUAGE SITUATION IN S HETLAND
Não há evidências que estes benefícios se propaguem além da prática intergeracional (Murphy, 2012), devido à própria metodologia de avaliação, o que sugere a necessidade do seguimento dos participantes, abordagem que só faria sentido num projeto de nível 6 ou nível 7. Apesar disso, os benefícios identificados são recorrentes em vários estudos – como o desenvolvimento de competências sociais e cívicas, resiliência, dissolução de estereótipos e maior compreensão do Outro, diminuição das tensões sociais, redução dos comportamentos antissociais, etc. (Kaplan, 2001) (MacCallum, 2016) (Springate et al., 2008) (Murphy, 2012) (Fuselier, 2015).
Para os mais jovens, os benefícios são: i) uma disposição mais tolerante e positiva para com os mais velhos, ii) maior confiança e autoestima, resultante da atenção sincera e do apoio e aconselhamento por adultos de confiança, iii) possibilidade de desenvolver competências como criatividade, flexibilidade e responsabilidade iv) competências técnicas (exemplo: literacia) e profissionais, v) menor probabilidade de consumo de drogas e incidência criminal, redução do comportamento antissocial, vi) a possibilidade de construir as suas próprias histórias, vii) maior assiduidade e melhor prestação académica, no caso de projetos baseados nas escolas e, em parte, resultante de competências intra e interpessoais mais desenvolvidas, viii) oportunidade de participar na própria aprendizagem e ix) maior consciência cívica e uma cidadania mais ativa. Já para os mais velhos, podem identificar-se os seguintes benefícios: i) redução dos sentimentos de isolamento, ii) autoconfiança, iii) possibilidade de refletir sobre momentos da vida anteriores, iv) uma visão mais positiva das suas vidas, v) maior compreensão e tolerância para com os mais novos, vi) reconhecimento e respeito dos mais novos, vii) desenvolvimento de competências atuais, como as
relativas às novas tecnologias, viii) maior atividade física, ix) manutenção das funções cognitivas, vii) melhor qualidade de vida, ix) transmissão de cultura, tradições, competências, x) sentimento de integração na sociedade e, portanto, maior participação cívica. A estes benefícios, junta-se a reconstrução das redes sociais, uma comunidade mais inclusiva, unida, segura, economicamente sustentável, e dinâmica; o desenvolvimento de um património cultural e linguístico, a criação de uma história comum; a melhoria na resposta a problemas sociais locais; maior participação cívica das instituições locais; melhor utilização dos espaços públicos, maior sentimento de segurança; integração dos séniores na comunidade (Kaplan, 2001) (MacCallum, 2016) (Springate et al., 2008) (Murphy, 2012) (Fuselier, 2015) e, esperamos, dos jovens em risco de exclusão.
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Ao longo deste capítulo justificámos como o desenvolvimento de competências científicas facilita a inclusão social de grupos de risco e, em particular, em que medida a educação informal de ciência é adequada ao desenvolvimento dessas (e outras) competências; contextualizamos a nossa abordagem à educação informal de ciência e definimos, com base nas definições de literacia científica do PISA, as competências transversais e sociais que propomos estarem no centro do PIC (as ‘competências científicas’). Além destas competências, valores e atitudes, propusemos que as situações de aprendizagem informal são locais privilegiados ao encontro de grupos sociais diversos e à criação de laços comunitários. No âmbito dessa diversidade de subgrupos, considerámos a população sénior, uma vez que argumentamos a favor da prática intergeracional enquanto mecanismo desbloqueador da aquisição destas competências, valores e atitudes face à ciência. De seguida, procuraremos responder a todas as questões levantadas pela nossa análise, especialmente no que respeita à adequação da abordagem proposta ao contexto português.
Tabela 1. Benefícios identificados pelos estudos supracitados (22)
Estudos Todos Jovens Séniores Comunidade
Kaplan 2001 [revisão]
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- Melhor prestação académica
- Disposição mais tolerante para com séniores - Maior autoconfiança
- Competências técnicas (exemplo: literacia) - Menor probabilidade de consumo de drogas - Maior consciência cívica e para a cidadania
- Envelhecimento ativo (active ageing) 23
- Maior compreensão e tolerância para com os mais novos, resultando inclusive em relações familiares mais positivas
- Uma visão mais positiva das suas vidas - Maior bem-estar subjetivo
- Melhor qualidade de vida
--- MacCallum 2006 [revisão] - Desenvolvimento de competências sociais - Resiliência - Dissolução de estereótipos - Modelação de competências cívicas - Voluntarismo
- Diversão (Enjoyment) - Exposição à diferença
- Acesso ao apoio e aconselhamento de adultos - Maior consciência cívica e para a cidadania - Possibilidade de construir as suas histórias - Desenvolvimento de competências práticas - Melhoria na assiduidade escolar
- Apoio na construção de carreiras
- Afastamento do crime e comportamentos antissociais
- Combate aos sentimentos de isolamento - Autoestima / motivação
- Ter quem aprecie as suas vitórias
- Possibilidade de refletir sobre experiências de vida - Reconhecimento / respeito
- Aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning) - Desenvolvimento de competências atuais, como as relativas às novas tecnologias
- Maior atividade física
- Transmissão de tradições, linguagem e cultura
- Reconstrução das redes sociais - Sociedade mais inclusiva
- Desenvolvimento cultural e linguístico - Criação de uma história comum - Aprender as histórias dos outros
Springate 2008 [revisão]
- Maior compreensão do Outro - Diminuição das tensões sociais - Amizade entre os participantes - Diversão (Enjoyment) - Maior autoconfiança
- Aquisição de competências diversas - Aumento da autoestima
- Sugestão de melhoria na aprendizagem e prestação académica
- Maior atividade física
- Redução de sentimentos de isolamento - Maior interação social
- Maior valorização pessoal
- Coesão social
- Melhoria na capacidade de resposta a problemas sociais
- Maior participação das instituições
Murhy 2012 [dissertação de Mestrado]
- Diversão (Enjoyment) - Maior compreensão do Outro24
- Voluntarismo
- Empowerment de grupos excluídos - Amizade entre os participantes
- Redução de comportamentos antissociais
- Acesso ao apoio e aconselhamento de adultos - Aquisição de competências práticas
- Maior tolerância e compreensão do Outro
- Desenvolvimento de competências como criatividade, flexibilidade, autoconfiança e responsabilidade - Maior assiduidade
- Melhor prestação académica
- Oportunidade de participar na própria aprendizagem
- Transmissão de cultura, tradições e competências - Aquisição de competências atuais
- Redução dos sentimentos de isolamento - Maior sentido de bem-estar
- Sentimento de integração na sociedade - Maior participação na sociedade
- Melhor utilização dos espaços públicos - Maior sentimento de segurança - Maior participação pública e cívica - Maior participação dos atores sociais na comunidade
Fuselier 2015
- Maior compreensão do Outro - Eliminação dos estereótipos - Sentimento de realização pessoal
- Aquisição de conhecimentos e competências práticas
- Melhoria das atitudes face à proteção ambiental
- Maior consciência ambiental - Perceção mais positiva dos séniores - Autoconfiança
- Tendência para uma cidadania mais ativa - Melhores competências de comunicação
- Aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning) - Benefícios físicos e sociais (bem-estar)
- Maior autoconfiança
- Manutenção das funções cognitivas
- Maior sentido de comunidade - Integração social dos séniores - Apreciação do conhecimento partilhado
22 Não há evidências de que estes benefícios se estendam além do projeto, o que requer uma investigação mais aprofundada e um seguimento dos participantes (Murphy, 2012).
23 A potenciação da qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem, permitindo-lhes participar na sociedade de acordo com as suas necessidades e interesses, com enfâse na importância da saúde física, social e mental das pessoas mais velhas (Murphy, 2012) e, argumentamos nós, considerando as suas limitações socioeconómicas e culturais.
III – ESTRUTURA CONCEPTUAL DA ANÁLISE EXPLORATÓRIA
Se conseguimos fundamentar, no presente capítulo, que i) a compreensão pública da ciência é um fator fundamental na definição da problemática da inclusão social de jovens em risco de exclusão, especialmente atendendo ao contexto socioeconómico atual; ii) o desenvolvimento das competências necessárias a uma cidadania informada e ativa pode ser traduzido no desenvolvimento das competências a que chamámos científicas; iii) os sistemas sociais perpetuam ciclos de exclusão relativamente aos mesmos subgrupos da sociedade, através do construto de ‘capital’ (financeiro, social, cultural, científico, ou todos eles); iv) programas de desenvolvimento das competências sociais e transversais a supramencionadas são necessários à quebra destes ciclos de exclusão e à equidade no acesso ao conhecimento (e, consequentemente, à inclusão); e que v) a prática intergeracional pode ser um fator desbloqueador da aquisição destas competências, atitudes e valores por parte de jovens, inclusive com benefícios de envelhecimento ativo para estes séniores, então perguntamos:
A. Como planear/organizar um projeto intergeracional de ciência no contexto português? B. Quais os fatores que relevam para o sucesso ou insucesso de nossa abordagem?
C. Que oportunidades existem na aplicação da prática intergeracional à comunicação de ciência? Para responder a estas questões, essencialmente exploratórias, propormos uma análise qualitativa de entrevistas realizadas às equipas de projetos que se posicionem no domínio da intervenção social intergeracional através da ciência. Uma vez que nos interessa o desenvolvimento destas atividades com jovens de zonas de intervenção prioritária, não iremos focar a nossa análise em projetos de comunicação de ciência dirigidos a jovens, pois as iniciativas de comunicação de ciência tendem a reproduzir os ciclos de exclusão e preservar o acesso aos grupos dominantes através da estreita representação social (25) (Dawson, 2018). Em vez disso, e na ausência de programas intergeracionais de ciência que objetivem a inclusão de jovens de risco, vamos focar a nossa análise em i) projetos intergeracionais, ii) projetos de comunicação de ciência para séniores, iii) projetos de intervenção comunitária baseados na formação e na ciência, iv) projetos intergeracionais de ciência, nos moldes em que eles existem; identificaremos ainda v) projetos de comunicação de ciência dirigidos a jovens que se destaquem por um ou outro aspeto relevante para o nosso programa.
25 Ainda que este estudo tenha sido realizado no Reino Unido, argumentamos que as iniciativas de comunicação de ciência em Portugal são largamente influenciadas pelo modelo inglês e, portanto, verificam os mesmos vícios. De facto, em Portugal, um estudo realizado sobre os públicos que visitam os centros de ciência revelam uma amostra “altamente escolarizada, com uma percentagem de respondentes diplomados (58.5%) muito superior à da totalidade da população” e que “a maioria dos respondentes trabalhadores são especialistas das profissões intelectuais e científicas (40.9%)” (Garcia et al., 2016).