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T IDSMESSIGE BEGRENSNINGER

In document Regulære utslipp til sjø (sider 79-82)

Especificamente centrados nos mercados financeiros, os estudos que por analogia podemos designar em conjunto como “incrustação cultural”25 têm mostrado que em lugar de

uma racionalidade individual, estrita e universal, a ação dos participantes é orientada por sistemas de crença e rituais e tem em consideração as expectativas associadas ao desempenho de papéis sociais. É o caso do estudo etnográfico conduzido entre o final da década de 1980 e princípio da década de 1990 de Abolafia (2001) sobre as culturas dos mercados de ações, obrigações e de títulos de futuros em bancos de investimentos de Wall Street, no qual analisou a forma como os contextos organizacionais (que inclui incentivos estruturais e regras institucionais) criam formas locais de interesse individual e racionalidade, o que designa por estratégias de oportunismo e de híper-racionalidade.

O autor chama a atenção para o facto de que os traders iniciam a sua atividade no quadro de uma realidade institucional pré-existente que inclui: a) incentivos estruturais criados pela regulação e pela política interna das organizações (que incluem reduzidas possibilidades de progressão na carreira, compensação baseada na performance, anonimato recíproco, entre outros); e b) as regras institucionais que definem a identidade dos indivíduos e os padrões apropriados de ação e que incluem uma autonomia expressa numa relação adversarial entre traders26 e uma identidade empreendedora; o uso estratégico da manipulação de outros traders;

a procura do risco associado a benefícios elevados; e a riqueza como medida de estatuto, ou seja, não apenas o dinheiro em si mas o prestígio que confere dentro da comunidade27.

25 Note-se que Abolafia (1998: 84), designa a sua abordagem por “markets as cultures” o que é uma

resposta à designação “markets as networks” (Baker, 1984) e, dentro da chamada perspetiva institucionalista, à designação “markets as politics” (Flistein, 1996)

26 O próprio autor considera que estas regras institucionais e incentivos estruturais são específicas do

contexto organizacional e que a autonomia e relação adversarial que caracteriza os traders de obrigações over-the-counter não ocorre da mesma forma no trading floor de interação presencial da New York Stock Exchange (NYSE) onde a interação presencial e onde a confiança e as relações próximas são valorizadas. Note-se também que, como refere Preda (2007b), os procedimentos e estratégias de trading foram consideravelmente afetados pelas tecnologias computorizadas de

trading desde a etnografia de Abolafia realizada entre o final de 1980 e o princípio de 1990.

27 O autor refere a ideia de “deep play” de Geertz, para se referir aos ganhos simbólicos que resultam

As estratégias que os traders desenvolvem são assim condicionadas pela socialização e aprendizagem no quadro de incentivos estruturais e regras institucionais, aspetos que resultam da continuação dessas estratégias:

These rules have come to have external force in the lives of traders. They are experienced as objective standards of behavior, even though they are derived from habituation to the most salient strategies. (Abolafia, 2001:28).

Esta problematização responde diretamente às questões orientadoras deste capítulo: o problema ordem de mercado é nesta perspetiva considerado a partir da relação entre um autointeresse oportunista potenciado por regras formais e informais, que, por sua vez, também contém os mecanismos de controlo e manutenção da estabilidade:

Though market forces certainly exist, the behavioral realities of power, trust, and legitimacy are also present. A complex system of formal and informal restraints is invoked to inhibit the use of power, to maintain trust, and to restore legitimacy, when necessary, to exchange relations” (Abolafia, 2001: 99).

A questão do cálculo é colocada na caracterização da estratégia que o autor designa por racionalidade local28 para se referir a um tipo de racionalidade limitada (bounded rationality)

em que para além das técnicas analíticas, os traders usam elementos de julgamento intuitivo e vigilância no seu processo de decisão. A rapidez e a incerteza associada às decisões de trading implica a necessidade de desenvolver uma capacidade intuitiva de decisão que se aprende por “exposição” continuada e não por “transmissão”.

A vigilância diz respeito à noção segundo a qual, existindo poucas diferenças de acesso à informação relevante sobre o mercado, os traders têm de estar particularmente atentos a oportunidades de diferenças de informação. Existe assim um esquema rotinizado que é copiado e imitado pelos novos traders e que prescreve: a) processos de ordenação da informação e que privilegia certas fontes e interpretações em detrimento de outras; b) processos de verificação na rede de relações de como os outros participantes interpretam uma dada informação; e c) processos que definem qual o valor de um determinado instrumento financeiro.

28 Enquanto no seu livro de 1996 a expressão utilizada é “hiperracionalidade”, opta-se aqui pela

designação “racionalidade local” que o autor utiliza no seu capítulo do livro “The Laws of the Markets” de 1998 e que nos parece que ter um sentido mais autoevidente.

Partindo de uma perspetiva bourdieusiana29 mais atenta à relação entre a origem e

trajetória social dos indivíduos e as disposições que mobilizam numa dada racionalidade financeira, Godechot (2000, 2005, 2008) procurou caracterizar a pluralidade de estratégias, as suas sequências, computações e associações, utilizadas por operadores financeiros (traders e comerciais). A sua conceptualização é particularmente inovadora por considerar as diferentes formas de racionalidade a partir das disposições adquiridas na socialização. Assim, enquanto que atores mais bem situados, quer na estrutura organizacional, quer no volume e estrutura do capital que possuem, estariam mais dispostos a recorrer a qualquer técnica em função da sua rentabilidade, os restantes têm preferências mais rígidas em função da estrutura do capital que possuem30. Para além da dimensão disposicional, Godechot concede alguma atenção aos

constrangimentos organizacionais na produção e organização daquilo que designa por bazar da racionalidade, ou seja, o conjunto de estratégias diferentes de apropriação do lucro no contexto de uma sala de mercados e da forma como essas estratégias estão de certo modo enquadradas na divisão funcional e hierárquica da organização. Um dos exemplos é a separação entre centros de lucro e centros de custo, isto é, a divisão intencional entre as partes da organização que são diretamente responsáveis pela geração de lucro e aquelas que servem de suporte e cujo contributo é indireto. Esta divisão está associada a diferentes mecanismos de incentivo, como no caso da atribuição de um salário mais elevado e variável em função do desempenho para os primeiros. A dimensão organizacional que Godechot refere, à semelhança de outros autores da

29 Segundo a recolha bibliográfica realizada trata-se do único autor que situado claramente nesta

perspetiva tem estudado sistematicamente temas financeiros. Não se tratando de um autor rigorosamente enquadrável na categoria dos “mercados como instituições” parece-nos que o seu trabalho permite mais pontes para a discussão da racionalidade e dos papéis sociais com autores desta categoria do que com qualquer outra perspetiva que se enquadra na sociologia dos mercados.

30 A preferência por arbitragem matemática, análise económica ou análise técnica seria motivada pelos

aspetos com os quais os operadores teriam maior afinidade e para os quais teriam mais capital e disposições. Assim, na sala de mercado que estudou, os indivíduos que preferem a arbitragem matemática ou a análise técnica distinguem-se dos que preferem a análise económica pelo menor volume de capital de que dispõem. Entre estes, aqueles que possuem maior capital cultural (e que terão realizado um maior investimento no seu percurso escolar) encontram-se maioritariamente em posições que fazem maior uso de competências matemáticas, enquanto que aqueles que provêm de uma origem mais popular ou da pequena burguesia económica, (têm, por comparação com os anteriores, mais capital económico) procuram as posições mais vantajosas do ponto de vista económico e usam mais a análise técnica.

perspetiva “institucional”, implica considerar a forma como o “governo das pessoas”, que inclui desde os processos de recrutamento à organização espacial das diversas funções na sala de mercado, se efetua de modo a que a pluralidade de papéis, estratégias e disposições, estejam organizacionalmente orientadas para a prossecução coletiva do lucro31. Também em

proximidade com Abolafia, o autor relata o caráter lúdico da atividade de trading associado à presença de metáforas masculinizadas32 como a caça (em contraste, por exemplo com a

atividade comercial, associada a um universo de sedução e à presença maior de mulheres) e de como a competição entre os vários indivíduos, impulsiva e ao mesmo tempo racional, se orienta para ganhos económicos e simbólicos que se refletem numa hierarquia social.

Estes trabalhos de pendor etnográfico apontam em dois sentidos aparentemente contraditórios. Por um lado, o carácter ritualístico e simbólico que enquadra algumas atividades nos mercados financeiros como o trading demonstra que a racionalidade dos agentes não se orienta estritamente para a maximização de benefícios económicos, mas também ganhos simbólicos que se refletem numa hierarquia social de prestígio. Por outro, quer os incentivos estruturais e normas institucionais (Abolafia, 2001), quer a organização das pessoas e o universo simbólico do trading (Godechot, 2005) orientam os cursos de ação para um modelo de competição individualista33 próximo da noção de homo economicus. Ou seja, resolvendo a

contradição, a questão aqui não é de que a racionalidade financeira não se possa caracterizar nos termos de uma agência individualista e de maximização económica, mas a de que é precisamente a existência de condições (simplificando, objetivas e simbólicas) como estas avançadas por Abolafia e Godechot, que permitem a existência de modalidades de decisão próximas das de um homo economicus.

O outro aspeto que importa destacar é o carácter convencional do conhecimento a que ambos os autores dão alguma atenção e que remete para a questão do cálculo como ancorado nas perceções acerca dos outros participantes. Assim, Abolafia fazendo referência a White

31 É curioso como partindo de uma grelha teórica completamente diferente Godechot sublinha

dimensões presentes nos estudos da performatividade. É o caso desta questão da organização da pluralidade que se encontra desenvolvida na noção de organização heterárquica (Stark; 2000, 2009) e do papel da teoria na configuração das estratégias que é central para a maior parte desses estudos.

32 Sobre o universo marcadamente masculino e das mitologias associadas ao trading ver: Klaes et al.,

(2007).

33 Mais uma vez note-se a proximidade com os estudos da performatividade a propósito da produção

(1981) refere que um dos elementos do que designa “script for vigilance” é a inclusão das crenças dos outros participantes nas estratégias dos traders:

(...) they work hard, through sorting and checking, to stay apprised of what others are hearing and thinking. This is shown by their constant recharting of the yield curve, an indicator that reflects what others have most recently been willing to pay for bonds at a range of interest rates and maturities. Market rivals make buy and sell decisions by watching each other. (Abolafia, 2001: 25).

Mais genericamente, Godechot refere que ainda que alguns traders tenham inclinações keynesianas como preferências pessoais, adotam raciocínios de associação da economia neoclássica (por exemplo associando uma subida do endividamento público a uma queda dos preços dos ativos) e que, ainda que tenha encontrado uma pluralidade de opiniões a este nível, essa adoção do saber mais convencional cresce com os anos de experiência e com o salário auferido34 (Godechot, 2005). A proposta de Godechot é especialmente original porque, além

do fenómeno local, considera a estrutura social a nível societal por intermédio das disposições produzidas pela origem e trajetória dos indivíduos (ou seja, incorporando a ideia de classe como proposta por Bourdieu). Já a proposta de Abolafia é coerente, mesmo na terminologia, com as dos autores da orientação mais política dos mercados como instituições que se irá abordar de seguida. No seu caso, a racionalidade é local, mas os fatores que identifica a nível microssociológico, postos em evidência pela sua abordagem dos mercados como culturas, dependem também de fatores macrossociológicos:

Groups within the market, based on such factors as markets segment, region, or the buy or sell side of the market, compete for the ability to define the culture. Those groups with the most power will have the greatest influence in reconfiguring of rules, roles, and rationalities. (Abolafia, 1998:77).

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