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In document Regulære utslipp til sjø (sider 83-90)

Na segunda vertente, mais atenta à dimensão política dos mercados, existem alguns trabalhos de pendor mais historiográfico, dedicados a temas como as redes internacionais da finança (Swedberg, 1990), a influência das ligações partidárias na procura de parceiros de transação de títulos financeiros na Inglaterra do século XVIII (Carruthers, 1990) ou sobre a estrutura social da liquidez (1999). As estruturas regulatórias têm também sido alvo de atenção especialmente no quadro da crise financeira de 2007 como é o caso de Halliday & Carruthers

34 Uma crítica importante à ideia de consenso nos mercados e que é referida também por um dos nossos

entrevistados é que se todos os intervenientes tiverem a mesma opinião acerca da evolução do preço de um ativo não existiria troca possível.

(2009) e também Fligstein & Goldstein (2010), que destacam a influência que atores institucionais como bancos, agências de rating e o governo federal americano tiveram na configuração do mercado de crédito imobiliário.

Mas o tema que tem sido de longe o principal agregador de investigação empírica neste domínio é o do controlo empresarial35, ou seja, o das alterações nas estruturas de governação

das empresas ligadas a uma mudança na relação de forças entre gestores por um lado e acionistas e investidores por outro36. Apesar de ser relativamente periférico face ao nosso objeto

de estudo e de ser mais rigorosamente enquadrado no cruzamento entre a sociologia das organizações e a sociologia económica, este tema é, ainda assim, pertinente quer do ponto de vista das questões do cálculo e coordenação nos mercados financeiros, quer da discussão do papel dos analistas financeiros nestes mercados.

O controlo empresarial tem sido um domínio particularmente útil como terreno de aplicação do conceito de “conceções de controlo” no âmbito da proposta teórica que Neil Fligstein designou por “mercados como política”37 e que se tem focando no papel do Estado na

construção dos mercados38, argumentando o autor, num sentido reminiscente de Polanyi, que a

emergência e manutenção dos mercados não pode ser dissociada dos processos de reconfiguração dos próprios Estados na sua relação com as lutas entre grupos com interesses divergentes para impor quadros regulatórios que lhes sejam favoráveis (Fligstein, 1996: 657). Importa por isso caracterizar esta proposta em traços gerais, explicando o que se entende por instituições, conceções de controlo e campo organizacional neste domínio teórico, antes de

35 Veja-se que nos dois livros editados por Karin Knorr-Cetina e Alex Preda em 2005 e 2012 que

procuram compilar as várias tendências da sociologia dos mercados financeiros, os textos que cabem nesta perspetiva são quase exclusivamente centrados no problema do controlo empresarial.

36 Esta tendência é uma das dimensões do processo de cariz societal designado por financeirização: a

crescente importância de motivos, mercados e atores e instituições financeiras na operação de economias domésticas e internacionais. (Epstein 2005: 3).

37 A metáfora dos mercados como política tem, segundo o autor um duplo sentido: sublinhar o papel

dos Estados na construção e manutenção dos mercados e sublinhar a dimensão conflitual de luta pelo poder entre grupos e empresas pelo controlo dos mercados.

38 O texto de Luísa Oliveira “A (in)sustentável leveza do Estado na construção dos mercados” insere-

se nesta perspetiva ao procurar mostrar que os mercados (no caso os mercados internacionais regulados pela Organização Mundial do Comércio) não são uma ordem espontânea, mas o resultado de um processo de institucionalização, envolvendo disputa política e negociação (Oliveira, 2012).

avançar para as questões do controlo empresarial onde se integra esta abordagem com contributos de outros autores.

A ideia central de instituição nesta perspetiva refere-se às regras partilhadas, sejam leis ou consensos, mantidos por tradição, acordo explícito ou tácito, que permitem a organização da cooperação e competição nos mercados e a estabilidade necessária à sua manutenção. Mais detalhadamente o autor considera como instituições relevantes os seguintes tipos: i) direitos de propriedade; ii) estruturas de governação, que definem relações de competição e cooperação, tais como leis e práticas informais; iii) regras de troca, que definem quem pode transacionar com quem e em que circunstâncias se processam as transações; iv) e conceções de controlo. Importa dar alguma atenção à ideia de conceções de controlo na medida em que permite fazer a ligação com a noção de molduras de perceção avançada anteriormente a propósito das redes e embeddedness. Fligstein define a conceções de controlo como:

Understandings that structure perceptions of how a market works and that allow actors to interpret their world and act to control situations. A conception of control is simultaneously a worldview that allows actors to interpret the actions of others and a reflection of how the market is structured. (Fligstein, 1996:658).

São, portanto, formas de observação e interpretação, estruturas cognitivas, partilhadas por vários atores dentro de uma mesma ou em várias organizações e que dizem respeito a princípios de organização interna, táticas de cooperação e competição e a hierarquia de status das firmas de um dado mercado (Fligstein, 1996: 658). Esta definição torna visível a proximidade da noção de “conceções de controlo” com outras estruturas cognitivas de mediação que designámos, seguindo Preda (2007a) como molduras de perceção. No entanto, apesar da proximidade com as ideias de White, Baker e Podolny sobre a forma como os agentes se observam uns aos outros e os consensos que daí emergem, nesta perspetiva esses consensos além de poderem ser transversais às organizações e restritos a determinadas áreas funcionais, emergem no decurso de lutas políticas em que cada grupo ou firma procura afirmar a sua visão do mercado39. A criação deste tipo de consensos (por exemplo acerca de uma conceção de

controlo) e sua capacidade de influenciar, através da ação dos estados mas não só, os outros tipos de instituições referidas, i.e., direitos de propriedade, estruturas de governação e regras de troca, é que permite a estabilidade de uma dada ordem de mercado.

39 O próprio Fligstein refere que o processo teorizado por White, de que as estruturas de mediação

emergem através de empresas que se observam mutuamente com o objetivo de diferenciar os seus produtos, é essencialmente económico, enquanto na sua proposta esse processo é fundamentalmente político.

A utilização do conceito de campo por Fligstein está mais próxima do sentido utilizado por Bourdieu (2005) do que a de outros autores desta corrente, na medida em que comporta igualmente uma estrutura hierárquica de posições de poder em que os atores dominantes (ou atores incumbentes, na designação mais comum), sejam firmas ou atores transversais às organizações, procuram conservar a sua posição de domínio face a atores desafiadores que procuram alterar o status quo institucional através da institucionalização das suas conceções de controlo. Assim, tal como frisa Fourcade (2007:1024), enquanto para a maior parte dos autores que se inserem na perspetiva “mercados como instituições” os consensos emergem da interação entre os atores, na perspetiva de Fligstein, mais atento à dimensão política e conflitual, atores especialmente competentes e poderosos conseguem estabilizar um dado campo ao conseguir que outros atores concordem com a sua definição de um dado domínio social, ou seja, conseguem impor uma conceção de controlo sobre um dado campo organizacional. Esta tensão entre consenso e conflito é bem resumida na frase de Fourcade: “The field is thus primarily a game whose rules actors both tacitly abide by and struggle to alter” (2007:1022).

Os estudos sobre o controlo empresarial têm procurado explicar a alteração observada na última década do século XX em que as empresas americanas passaram a adotar um modelo de negócio mais centrado na maximização do valor acionista, de forma a gerar mais receitas para os seus acionistas em detrimento dos interesses de outros atores (Fligstein & Shin, 2005; Dobbin et al, 2003; Zuckerman, 1999, 2000). Antes desta alteração o campo do controlo empresarial encontrava-se estabilizado e dominado pela figura do gestor de empresas até que um choque exógeno (uma das principais fontes de instabilidade de um campo estável nesta literatura) potenciador de alterar a estabilidade do campo criou as oportunidades para outros agentes procurarem impor conceções de controlo alternativas. Esse choque exógeno, argumenta Fligstein (2015), foi propiciado durante a década de 1970, com uma crise económica caracterizada por elevadas taxas de inflação e de juro, que afetou a capacidade de as grandes empresas norte-americanas produzirem crescimento, lucros, ou valorização acionista. Consequentemente:

Outside challengers, principally different kinds of institutional investors who used the capital markets to raise funds to upset sitting management teams and reorganize corporations, invaded the market for corporate control. This invasion shifted those in control of the field of corporate control from managers to institutional investors.” (Fligstein, 2015: 241) 40.

40 Jung & Dobbin (2012), assim como Zorn et al. (2012) pelo contrário, apontam as alterações nos

planos de pensões como o principal fator de alteração do poder dos investidores institucionais, apesar de concordarem nos impactos desta alteração sobre as estruturas de controlo empresarial.

A alteração das relações de força no campo do controlo empresarial foi acompanhada de uma mudança na própria conceção dos objetivos das empresas e em especial do papel das equipas de gestão e do âmbito dos seus mandatos. Isto porque os atores (sobretudo os investidores institucionais) - que, aproveitando um contexto de oportunidade excecional, vieram, à semelhança de um movimento social41 (Fligstein, 2011), pôr em causa o domínio da

conceção vigente da firma - tinham formas próprias de encarar a função das empresas e conceções próprias de como torná-las rentáveis. Um fator importante (Dobbin & Jung, 2010; Jung & Dobbin, 2012; Fligstein, 2015) na articulação desta nova conceção de controlo foi a emergência da agency theory (Jensen & Meckling, 1976)42 na economia, que identificou como

problemática e causa da estagnação empresarial da década de 1970 a descoincidência de interesses entre os donos das empresas e os seus agentes (os executivos). Adotando as prescrições da agency theory os grupos desafiadores propunham reformular as estruturas de governação das empresas ligando os interesses dos administradores aos dos acionistas, por exemplo através da indexação do pagamento de bónus ao valor das ações ou do pagamento parcial em capital da empresa. Esta nova conceção de controlo incentivava as administrações a focarem as empresas num core business, vendendo as áreas de negócio periféricas e privilegiando as fusões com empresas do mesmo sector, procurando reduzir a diversidade das suas atividades, assim como a reduzirem os seus custos com o trabalho (Fligstein & Shin, 2005). A pressão para as administrações das empresas se conformarem com a nova conceção de controlo através da de-diversificação e corte de custos foi reforçada com as alterações regulatórias que passaram a permitir as aquisições hostis, uma vez que as empresas cuja cotação das ações fosse entendida como substancialmente abaixo das expectativas dos investidores passaram a poder ser alvo de aquisição não solicitada. Zorn et al. (2004) quantificaram estas alterações a nível do peso dos investidores institucionais no capital das empresas e do aumento das aquisições hostis. Na sua amostra verificaram que nos EUA a percentagem média de ações controladas por investidores institucionais, que era de pouco mais de 20% em 1980, cresceu

41 Fligstein refere um conjunto de literatura que analisa as organizações e os movimentos sociais como

instâncias de ação coletiva e argumenta que, apesar se tratarem de categorias tipológicas diferentes, se tratam do mesmo tipo de fenómeno: ação coletiva estratégica orientada para o controlo de um campo de ação estratégica.

42 Note-se que o papel da teoria, que aqui tem um carácter ideológico no sentido em que procura

articular uma dada conceção de mercado com os interesses de determinados grupos, é algo que é central nas teorias da performatividade, que serão referidas no capítulo seguinte.

quase três vezes em 20 anos e que as aquisições hostis entre 1980 e 1990 representaram um terço do total de aquisições deste período. Acrescentam ainda que, no final dos anos 1990, houve uma grande diminuição das aquisições hostis, uma vez que as empresas se conformaram com a nova conceção de controlo vigente e passaram elas próprias a fazer o trabalho de vender as áreas de negócio não relacionadas com o seu core business e cortar custos. A emergência e consolidação desta “finance conception of control” (Fligstein, 2002) ancorada na agency theory e que privilegia o valor acionista teve ainda outras consequências importantes para o nosso objeto de estudo. Designadamente, uma crescente importância das áreas financeiras das empresas e da ligação entre as empresas e os investidores, consubstanciada na crescente influência dos diretores financeiros (Chief Financial Officers) e no desenvolvimento de profissões especializadas na gestão das relações públicas das empresas com os investidores, como os Investor Relations, procurando interagir com os analistas financeiros no sentido de gerir as expectativas dos investidores (Zorn, 2004). Como referem Fligstein & Shin (2005) os gestores passaram a ver as suas empresas segundo as mesmas grelhas de leitura que os investidores e os analistas financeiros. Este aspeto é também referido por autores da área da gestão como zu Knyphausen-Aufsess et al. (2011) que referem, num trabalho sobre a influência dos analistas financeiros nas estratégias empresariais, que estes são um elemento central da cadeia de comunicação entre empresas e investidores e foram sendo cada vez mais ouvidos e interpelados pelas equipas de gestão e pelos departamentos de estratégia empresarial (zu Knyphausen-Aufsess et al., 2011:1154). Por conseguinte, passou a existir um forte incentivo a uma maior correspondência entre as áreas de negócio das empresas e as categorias utilizadas pelos analistas – aspeto que é coerente com o argumento sobre o “desconto de ilegitimidade” referido anteriormente – valorizando a importância dos analistas financeiros como destinatários, ou principal audiência (Zuckerman, 1999) das decisões dos gestores de empresas. Todos estes aspetos sublinham a relevância, enquanto elementos de mediação, quer das grelhas de avaliação, quer daqueles que, no quadro da divisão do trabalho nos mercados financeiros, estão particularmente envolvidos na sua produção e reprodução. Retomamos assim o ponto em que concluímos a parte sobre redes e embeddedness que é bem exemplificativo de algumas semelhanças e diferenças mais profundas entre as duas perspetivas. As respostas às questões da ordem e cálculo acabam por envolver nos dois casos o recurso à ideia de mediação, ou seja, num sentido mais abstrato, a ideia de que a ordem e o cálculo nos mercados são possibilitados por mecanismos de produção, filtragem e interpretação de informação. Mas se do ponto de vista dos autores mais próximos da “structural sociology” ligada à análise de redes, esses mecanismos são, por um lado, um dado adquirido, ou, em alternativa, o resultado não

intencional das interações dos agentes condicionadas por uma dada morfologia das redes de relações e, por outro, a solução ao problema funcional da incerteza, no caso dos autores ligados à ideia de mercados como instituições, esses mecanismos não só são muitas vezes intencionais e centrais nos conflitos entre grupos como podem até, do ponto de vista funcional, não gerar equilíbrios eficientes. A perspetiva dos mercados como instituições parece estar especialmente vocacionada para o estudo deste tema uma vez que as grelhas de avaliação podem ser pensadas, quer como sistemas de crenças (enfatizando a dimensão cultural dos mercados) (Abolafia, 2001; Smith, 1989), quer como conceções de controlo (sublinhando a dimensão política dos mercados) (Fligstein, 1996). Num estudo sobre as categorias utilizadas na classificação de fundos de investimento americanos, Lounsbury & Rao (2004) referem que atores incumbentes (dominantes no seu campo) conseguem forçar a manutenção de categorias, mesmo quando a sua ambiguidade e variabilidade interna deveriam levar à sua substituição. Esta linha de argumentação segue de perto a abordagem política que entende que os atores incumbentes preservam a sua posição ao implementarem e garantirem um dado sistema de crenças e práticas associadas para manter a estabilidade dos mercados e a sua posição de domínio.

A orientação para os sistemas de classificação enquanto interfaces cognitivas que estruturam as perceções dos agentes de mercado presente na abordagem de Lounsbury & Rao aproxima-se dos estudos que tomam a informação e cognição nos mercados como seu objeto (Preda, 2007a). Exemplo disto é o trabalho de Carruthers & Stinchcombe (1999) que argumenta que a liquidez nos mercados financeiros não emerge da ausência de regulações, mas sim de mecanismos institucionalizados de estandardização:

Our central argument is that this standardization is a social and cognitive achievement, and that buyers, market makers, and sellers all have to share a deep conviction that the ``equivalent'' commodities in a large flow of (say) financial instruments are really all the same. (Carruthers & Stinchcombe. 1999: 353-354).

A produção destas interfaces cognitivas – “organizational work to simplify, stratify, homogenize, and standardize the asset” (Carruthers & Stinchcombe, 1999: p.378) – emerge daqui como um objeto de análise situado no cruzamento da sociologia do conhecimento e da sociologia dos mercados, espaço que, apesar de largamente ocupado pela corrente “performativista”, abrange autores de diversas perspetivas teóricas. Zuckerman (1999), por exemplo, refere que uma vez que o valor dos ativos financeiros é inerentemente incerto, a sua avaliação é necessariamente um exercício interpretativo e que, logo, os preços dos ativos financeiros refletem as teorias de avaliação prevalentes entre os agentes de mercado (Carruthers & Stinchcombe, 1999:1431). Assim sendo a sociologia dos mercados, especialmente em mercados mediados e de elevada incerteza como é o caso dos mercados financeiros, deve estar

atenta ao papel que as próprias teorias desempenham nas atividades de avaliação43. Importa

ainda referir que esta orientação, quase transversal da sociologia dos mercados para o estudo dos sistemas de classificação e avaliação, sobretudo a partir do final da década de 1990, tem sido recentemente organizada com a inclusão de contributos de outras áreas disciplinares como a economia das convenções (Órlean, 2006, 2011, 2012), ou a sociologia económica das convenções (Thévenot, 2002) sob a designação de “valuation studies” ou “sociology of worth” (Beckert & Aspers, 2011; Lamont, 2013; Stark, 2000;)44.

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