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O primeiro elemento norteador desta pesquisa é a abordagem qualitativa (BOGDAN; BIKLEN, 1994; MINAYO, 1994; MARTINS, 2004), pelo fato de se incluir a fonte oral e de considerá-la de extrema relevância para as pesquisas desse tipo. Com o surgimento da História Nova a partir da Escuela dos Annales4 (LE GOFF, 2003, 2005; BURKE, 1992) se abrem possibilidades para se compreender a história em vários contextos a partir da visão de atores antes alheios à História. (retornará a esse assunto no item seguinte).

No final dos anos de 1960 a História oral se inicia de forma tímida e vai se reafirmando nos anos de 1970, época em que ocorre uma das primeiras experiências no Brasil5. Nas décadas seguintes vão se intensificando trabalhos acadêmicos tendo a história oral como fonte e até como defende Thompson como uma metodologia. Para este historiador (2002, p. 22) no seu escrito A voz do passado: história oral, tratando do método e do significado da história, ressalta a utilização da fonte oral pelo historiador, assinalando que:

não é necessariamente um instrumento de mudança: isso depende do espírito com que seja utilizada. Não obstante, a história oral pode certamente ser um meio de transformar tanto o conteúdo quanto a finalidade da história. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria história e revelar novos campos de investigação; pode derrubar barreiras que existam entre professores e alunos, entre gerações, entre instituições educacionais e o mundo exterior; e na produção da história – seja em livros, museus, rádio ou cinema - devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a história um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras.

É o que se faz também neste trabalho “devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a história um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras”, no caso, aos sujeitos que contribuíram de forma primordial para o enriquecimento da História da Educação Cearense através da história da formação dessas primeiras professoras primárias no bairro de Fátima.

4 “A expressão „a nova história‟ é bem mais conhecida na França. La nouvelle histoire é o título de uma coleção de ensaios editada pelo renomado medievalista francês Jacques Le Goff. [...] Mais exatamente, é a história associada à chamada École de a Analles, agrupada em torno da Revista Annales: économies, societés, civilisations. (BURKE, 1992, p. 9). A história nova se contrapões ao legado da história tradicional, privilegiando os documentos como fonte e enaltecendo os grandes heróis.

5 “No ano de 1971 em São Paulo, no Museu da Imagem e do Som (MIS), que tem se dedicado à preservação da memória cultural brasileira”. (THOMPSON, 2005, p. 17).

Completando essa ideia, o professor Rui Martinho no seu texto “A propósito de história oral” (2003, p. 17), ressalta que “[...] a história oral seja uma tentativa de pensar a história vivida, ultrapassando a simples condição de coleta de material para historiadores futuros”. Dessa forma, nessa pesquisa se buscou observar, nas entrelinhas das falas das entrevistadas, fazer uma análise que dialogasse também com as outras fontes pesquisadas. E, nesse momento, se pontua a segunda característica desta pesquisa – estudo de caso.

O estudo de caso também sofreu influências da perspectiva histórica tradicional e também era visto como uma abordagem que estava aquém da Academia, locus em que deveria se trabalhar com a pesquisa pautada na tradição de quem dominava e delimitava o direcionamento das pesquisas que era o destaque aos heróis da história, pois neste contexto a história oral e o estudo de caso não se inseriam nessa perspectiva. Mas com a nova concepção da História Nova em contraponto com a História tradicional se iniciou a pesquisa trazendo tanto estudos de casos como a História oral. Porém, ressalta-se ainda a resistência de pesquisadores sobre o assunto.

Consoante Yin (2005, p. 20) “[...] utiliza-se o estudo de caso em muitas situações, para contribuir com o conhecimento que temos dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais, políticos e de grupo, além de outros fenômenos relacionados.” Dessa forma, vem ao encontro da escolha da análise do grupo das primeiras normalistas formadas no IEC/EN em um mesmo tempo e espaço que se constituiu pelas histórias individuais e ao mesmo tempo coletiva, a partir de suas vivências no curso. Outro fator dessa abordagem e que justifica a escolha da pesquisadora, ainda na perspectiva desse autor (2005, p. 19), é que “o estudo de caso se caracteriza pela capacidade de lidar com uma completa variedade de evidências, documentos, artefatos, entrevistas e observações”.

A terceira característica desta pesquisa se refere à questão do instrumental elaborado

para trabalhar com a fonte oral. No caso, se optou pela entrevista semiestruturada (cf. Anexo A

- Roteiro de entrevista) e em alguns momentos, pela livre expressão verbal caracterizados pelo depoimento da fala livre dos participantes. Esses momentos foram gravados e transcritos no final do semestre de 2012, primeiro semestre de 2013 e fevereiro de 2014. Aponta Minayo (1994) que a entrevista privilegia a obtenção de informações por meio da fala individual, a qual revela as condições estruturais, sistemas e valores, normas, símbolos e também transmite representações de determinado grupo.

Como quarta e última escolha que caracteriza esta pesquisa são apontados os sujeitos. Totalizando 16 participantes, dentre os quais: 06 (seis) normalistas e por serem de 2 (duas) turmas distintas são denominadas na pesquisa por N1 e N2 da 2ª turma e N1 a N4 da 2ª turma.

O marido de uma normalista (in memorian) por ter participado dos encontros com as colegas de turma de sua esposa desde o tempo do curso, prática que acontece até hoje. Também porque esta normalista teve experiência no magistério após a conclusão do curso e até fundou um escola dando contribuições relevantes para este trabalho.

O diretor do arquivo público intermediário porque em uma das visitas a este lugar se teve a oportunidade de conversar com ele sobre a pesquisa e por coincidência ele ressaltou que conhecia o bairro de Fátima na época acrescentado alguns dados relevantes que serão mostrados e também foi quem falou sobre a família do coronel Pergentino Maia, possibilitando também a entrevista futura com o neto deste coronel.

O neto do coronel Pergentino Maia por seu avô ter sido proprietário de terras no bairro de Fátima onde tinha várias propriedades, dentre elas o sítio “Canadá”1 de características bem similares e também bem próximo ao sítio onde se construiu o prédio que abrigou a Escola Normal, de Aplicação e Jardim da infância vindas da Praça Filgueiras de Melo em 1958. Outro fator por sua família ter doado o terreno para a construção da Igreja de N. Sra. de Fátima, trazendo contribuições para se pensar como era entrono do prédio e também o processo de urbanização do bairro.

A diretora atual do IEC/EN pela necessidade de atualização de dados relevantes desta pesquisa; 02 (dois) funcionários desta instituição que são os mais antigos e serão denominados

F1 e F2, um com mais de 20 e outro com mais de 15 anos de serviço.

Por fim, na seção 7 desta pesquisa “Retorno das normalistas ao prédio da escola normal

após 54 anos” momento que também foi filmado e produzido um vídeo de 48 min. (se retornará a este assunto), participaram 7 (sete alunas) mas somente 3 (três) das que foram entrevistas as demais, isto é, 4 (quatro) se tornaram participantes da pesquisas somente neste momento. Sendo essas normalistas também da 3ª. turma e amigas da anteriores. Infelizmente não foi possível fazer a entrevista na época e somente apareceram no dia 11 de julho de 2014, data em que aconteceu este encontro, porém compartilharam deste momento tão importante, para elas e para a pesquisadora possibilitando um encontro de histórias e memórias que foram registrados neste trabalho.

No tocante à questão desses sujeitos, primordialmente, referente às normalistas, não se tinha ideia de como localizá-las devido à distância temporal que separa a conclusão do curso de 1958-1960 para o ano de 2011.1, quando se obteve aprovação no curso de Doutorado, iniciando no semestre seguinte. Mas um fato inusitado ajudou na localização dessas normalistas que se tornaram sujeitos dessa pesquisa, quando folheando um jornal me deparei com o convite apresentado no Jornal O Povo (21/10/2010):

Foto 1 – Convite para Comemoração dos 50 Anos de Formatura Fonte. Jornal O Povo de 21 de outubro de 2010.

(Arquivo pessoal da pesquisadora. Foto tirada em 26 de janeiro de 2012).

No convite estava escrito:

Convidam-se a todas as concludentes do ano de 1960 do curso Normal do instituto Educacional Justiniano de Serpa (Bairro de Fátima), a comparecerem no dia 27 de outubro de 2010, às 19h a missa de Ação de Graças, na Igreja São Vicente (Av. Desembargador Moreira, 2211) em homenagem aos seus 50 anos de formatura. Após a celebração eucarística, as formandas reunir-se-ão no Restaurante Serigado (Av. Barão de Studart, 825).”

A primeira observação em relação ao convite foi a data de 50 (cinqüenta) anos comemorada em 2010, portanto a turma se formou em 1960 tendo o curso iniciado em 1958, já que a duração do Curso Normal era de 3 (três) anos. Esse foi um dos momentos mais significativos e de contentamento dessa pesquisa, também um presente para a pesquisadora. No convite, havia os números de telefones e nome da responsável, o que possibilitou o contato e a explicação sobre o interesse em realizar uma pesquisa cujo tema seria a turma delas que comemoravam seus 50 (cinquenta) anos de formação naquele ano de 2010. Depois de conversas

pelo telefone, foi realizada uma visita em que se conseguiu acesso a uma lista6 de normalistas que mantinham contato todos os anos para celebrarem a amizade que permanecia entre elas.

Na sequência desses contatos foram acontecendo as entrevistas que foram marcadas em suas residências. Deixaram em suas falas e entrelinhas marcas e impressões que ajudaram a ressignificar e tornar público as suas histórias como as primeiras professoras formadas pela tradicional Escola Normal no bairro de Fátima. Foram momentos inspirados em lembranças que se entrelaçavam entre o individual e coletivo sinalizando para os sentimentos de alegria, quando se reportavam para as brincadeiras, amizades; preocupação, sobretudo, nos períodos de provas oral e escrita; satisfação quando mencionavam as aulas e professores que ficaram marcados em suas memórias e a importância e encantamento em estudarem na IEC/EN, embora muitas já tenham vindo do prédio anterior da Praça Filgueiras de Melo.

A localização e acesso aos nomes da lista possibilitaram um achado relevante para a pesquisa nas visitas ao IEC/EN, as pastas individuais das normalistas com documentos pessoais, por exemplo, o histórico escolar da 3ª. turma, por conseguinte, também dos diários de classe. Fonte que permitiu comprovar que a turma era composta por 50 (cinqüenta) normalistas, conteúdos, nomes de professores, por exemplo.

Vale ressaltar que em outro documento, no livro Registro de diploma, localizado em uma das visitas a esta instituição, conforme foto abaixo, se teve acesso a um dado importante atestando que no ano de 1960 foram diplomadas 190 normalistas representadas em 4 (quatro) turmas, tendo seus diplomas assinados pelo diretor João Hippolyto de Azevedo e Sá:

6 Embora na lista constasse 14 (quatorze), se conseguiu entrevistar 6 (seis), pois uma que reside na Inglaterra, outra em São Paulo mas se conseguiu entrevistá-la, uma que faleceu, outras que se encontravam enfermas, outras que ainda trabalhavam, portanto, problemas que causaram impedimento para entrevistá-las.

Foto 2 – Livro de Registro de Diplomas Fonte. IEC/EN. Arquivo pessoal da pesquisadora.

(Foto tirada em 13 de dezembro de 2011).

No assunto a seguir de mostrará considerações sobre o embasamento teórico, incluindo a revisão da literatura localizada sobre o objeto pesquisado e também os lugares visitados em busca das fontes.