No ano de 1992 se teve o primeiro contato com o Instituto de Educação que atualmente sedia a Escola Normal no bairro de Fátima com o nome de Instituto de Educação do Ceará (IEC) atual Escola Normal1. O fato ocorreu durante o estágio, requisito para o cumprimento da prática de ensino do primeiro curso de graduação de Licenciatura em Filosofia e como estudava no Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE) se interessou em desenvolver essa tarefa nessa instituição devido à proximidade, mas também porque era uma escola que tinha uma proposta diferenciada das outras escolas de ensino médio por ter a missão de formar professores, fato que na época chamou atenção. Neste momento, tinha-se apenas conhecimento elementar sobre esta instituição.
Durante esse estágio se teve contato com uma turma de Sociologia da Educação em torno de 35 a 40 alunos, predominando alunas. Trabalhou-se com a observação da prática docente da professora regente e percebeu-se que alguns alunos não prestavam atenção na aula. Teve-se a oportunidade de ficar um dia sozinha com a turma, momento marcado por vários sentimentos: ansiedade e insegurança, que agora se percebe também como uma deficiência da prática de ensino em nível superior, ressaltando-se o pouco tempo que era destinado à prática de ensino.
Nesse dia, se levou para a sala o estudo de Nidelcof (1982) “Uma escola para o povo”, e com a leitura deste material surgiram diversos assuntos relacionados à educação em que se procurava direcionar à disciplina. É oportuno frisar, em uma das conversas com a professora
1 Para melhor compreensão do leitor e apresentação didática sempre que no texto se julgar necessário uma distinção em relação à referência atribuída à Escola Normal levando em conta o local e data, embora seja uma única instituição se usará nas próximas citações, para o prédio do bairro de Fátima a sigla IEC/EN devido ter recibo a Escola Normal em 1958, vinda do prédio da Praça Filgueiras de Melo juntamente com o Jardim da Infância e a Escola Modelo, medida oriunda também das propostas de reforma do ensino normal tratadas no Decreto-Lei nº 8.530 de 02 de
regente, que ela fez menção à falta de reconhecimento do trabalho do professor e também da atenção dos alunos (futuros professores) em relação às aulas. Fato esse que vem comprovar a permanência de problemas surgidos com o início da história da educação brasileira
(já mencionados) e que se constituem como elementos que acompanham os debates sobre a profissão docente nos dias atuais.
Para discutir um pouco essa questão se traz a contribuição de Arroyo (2002, p. 30), quando destaca que “[...] ser professora ou professor é carregar uma imagem socialmente construída”. Que imagem foi construída sobre a profissão de professor ao longo da história? Para se tentar responder a esta questão, alguns exemplos podem ser citados: mostrar uma imagem do professor como aquele que se responsabilizava por instruir a população por conta própria, sem salário; que ser professor era uma profissão que nascia da vocação, não que esta não seja importante, mas que além deste fator outros são primordiais como o ter domínio dos conteúdos e saber fazer chegar até os alunos; se referindo às professoras das séries iniciais de serem cultuadas e até mesmo eternizadas como tias e não professoras, fato que ainda está muito presente nas escolas. (ARROYO, 2002; FREIRE, 2003)
No tocante à questão da formação do professor que foi por muito tempo ao longo da história deixada à margem ou se tomaram iniciativas provisórias, é como se a profissão “professor” se bastasse a si mesma. Dois autores acirram o discurso em prol da formação do professor, mas que se debruçaram na questão da condição da professora primária ser vista como tia e não como professora.
Freire (2003, p. 28), em sua obra “Professora sim, tia não?” Destaca que “[...] essa atividade exige que sua preparação, sua capacitação, sua formação se tornem processos permanentes [...] formação que se funda na análise crítica de sua prática.” Fato que implica numa postura ética e política que todo professor deve assimilar e praticar, exercício que ajuda a desmistificar aquela imagem apresentada anteriormente. Outro estudo direcionado ao mesmo assunto é o de Novaes (1992) em sua obra “Professora primária: mestra ou tia”. Na conclusão ela assinala professora não e parente postiço! “somente quando as professoras perceberem o quão é importante seu trabalho para a sociedade é somente elas próprias que poderão imprimir um novo sentido à sua prática e às suas lutas profissionais”.
janeiro de 1946 – Lei Orgânica do Ensino Normal (BRASIL, 1946) se retornará a este assunto posteriormente. E quando se reportar a esta instituição no período de 1884-1957, se usará a denominação Escola Normal.
Considera-se que as mudanças ocorridas na esfera da educação já são também resultados dessa consciência ética e política, se percebe a cada dia mais professores interessados na busca pelo reconhecimento da profissão fato que pode ser constatado com as constantes greves e discussões sobre uma educação de qualidade presente nos eventos, escolas, universidades, enfim, há uma presença mais solidificada sobre os profissionais da educação, sobretudo – professores -, mas ainda se tem muitos desafios em que as mudanças encontram resistência, principalmente, na questão já mencionada relacionada ao poder (FOUCAULT, 1998). Esses momentos de estágio proporcionaram o contato com a prática docente e a vivência de uma sala de aula.
Na mesma década, em 1999, se retorna ao IEC/EN para desenvolver o segundo estágio, porém no âmbito da gestão, pois o curso era de Especialização em Gestão Escolar ministrado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Esse novo contato possibilitou o conhecimento do funcionamento, diretrizes, regimentos dos aspectos necessários para o desenvolvimento do trabalho escolar, que mantinha a tradição na formação de professores para as séries iniciais. Os conhecimentos adquiridos ajudaram na escolha de se trabalhar com a formação de professores na monografia final de curso, apresentando a questão da formação do pedagogo frente às exigências do curso superior.
Os dois últimos momentos se correlacionam também por estarem ligados de forma temporal compreendendo o período de (2003-2010). Primeiro, pela ordem cronológica em 2003, se enfatiza a aprovação em concurso público como professor pleno I do estado. Insistiu-se pela lotação nessa instituição, tendo êxito iniciei no ano seguinte permanecendo até o ano de 2010, onde se trabalhou com as disciplinas de Fundamentos Filosóficos da Educação, Sociologia da Educação, Prática de Ensino das Ciências, sobretudo, Estágio Supervisionado. O segundo, no ano de 2010.1 quando estava cursando a licenciatura em Pedagogia na UECE, e na ocasião da disciplina de Prática Docente no Ensino Médio se teve outra oportunidade de usar essa instituição como campo de estágio.
Nesse momento, para surpresa o professor regente dessa disciplina mencionou em sala de aula na UECE que o estágio seria realizado no IEC/EN, porque era a única escola de nível médio que formava professores. Nesse semestre de 2010.1, ainda havia vínculo junto ao IEC como professora orientadora de Estágio e, devido a esta experiência, foi possível contribuir com o desenvolvimento da disciplina Prática docente no Ensino Médio.
Na ocasião foi disponibilizado para a turma da UECE o trabalho monográfico “Da Escola Normal ao Instituto de Educação do Ceará (IEC) uma reflexão à luz da história e da experiência docente no Estágio Supervisionado (2010)2, como referência bibliográfica e ao mesmo tempo usado para a avaliação nessa disciplina por trazer aspectos sobre a instituição IEC/EN e sobre os estágios.
Ainda pontuando experiência na prática docente, enfatiza-se o trabalho nos cursos superiores em instituições privadas e como colaboradora da UFC e UECE na graduação e/ou especialização como também as orientações de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Outro ponto relevante que vem ao encontro desses momentos já destacados é a produção de alguns trabalhos acadêmicos apresentados em eventos científicos sobre formação de professores e ligados à educação em âmbito mais geral.
Somando-se a esse conjunto de fatores, ressaltam-se as duas formações em nível de graduação: 1) Filosofia, que fornecerá categorias, conceitos, a postura ética e questionadora e 2) Pedagogia, que proporcionará conhecimentos para desenvolver os aspectos relacionado à educação em âmbito geral, destacando a formação docente e ensino normal, mediante os debates com os autores. Como também a experiência que se acumulou em pesquisa em todos esses níveis onde se cursou graduação, especialização (Gestão Escolar e Educação a Distância) e mestrado em Filosofia tendo contato, portanto, com a pesquisa latu e stricto senso.
Essas experiências vivenciadas e os estudos dos trabalhos de autores que pesquisaram sobre vários aspectos referentes à Escola Normal desde que fundada (1884) proporcionaram análises sobre o funcionamento pedagógico, administrativo e histórico, representando acúmulo de conhecimentos acerca desta instituição. Assim, ressalta-se que esta pesquisa nasceu da vontade individual e ao mesmo tempo coletiva de “ser no mundo”3, vivenciando como sujeito participante da história dessa instituição enquanto docente e também pelos estudos e conversas com outros pesquisadores e a convivência ativa no desenvolvimento do trabalho escolar. Todo arcabouço contribuiu para se escolher o tema proposto. No ponto seguinte se pontuará a caracterização desta pesquisa.
2 Trabalho publicado em 2014 pela EdUECE, intitulado: “Escola Normal cearense em foco: perspectiva histórica e da prática docente no Estágio Supervisionado”.
3 Cf. dissertação da pesquisadora Considerações à analítica existencial em Ser e Tempo (2004, p. 33). “Ser no mundo” (In-der-Welt-Sein), o mundo na concepção heideggeriana, não é representado pelo conjunto de coisas dadas. Ao contrário, o mundo é o da ocupação. Trata-se de uma conjuntura de significação, de linguagem, isto é, de uma estrutura de sentido historicamente em movimento.