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In document From Aid to Partnership (sider 109-114)

JÂNIO VEM AÍ!

Apesar das investigações do Departamento de Estado realizadas durante os anos 1950, a TIME acompanhou de perto os passos iniciais de Jânio rumo à presidência. Um primeiro movimento de análise se orientou pelo aspecto físico de Jânio Quadros. Sua forma de se vestir e seus trejeitos tinham destaque nas reportagens que cobriram o início da corrida presidencial. Aos poucos a revista vai se atentando ao discurso de campanha e a partir dele investiga e, muitas vezes, ironiza as propostas de Jânio.

Ao mesmo tempo, as inúmeras contradições advindas das atitudes pessoais de Jânio Quadros continuaram a dificultar o mapeamento de sua personalidade. Saber quem de fato ele era seria de suma importância para que a revista pudesse informar aos seus leitores se o Brasil estaria ou não alinhado aos Estados Unidos e, numa escala próxima, ao Século Americano.

Esse capítulo irá apresentar o percurso inicial que a TIME fez na “procura” por Jânio Quadros. O slogan “Jânio vem aí” era provocador, e a TIME não queria esperar pela chegada de Jânio, ela mesma resolveu partir ao seu encontro antes que ele chegasse.

3.1–ANTECEDENTES (RUNNING START)

Há cerca de um mês antes do lançamento oficial da candidatura de Jânio Quadros à presidência da República pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN), a TIME publicou a primeira matéria cobrindo a corrida eleitoral para 1960, ou seja, um ano e meio antes do pleito. Para Skidmore, Jânio era um corpo estranho que despertara para a política em fins dos anos 1940 e início dos anos 1950. Sua personalidade carismática confundia a opinião pública “por não estar definitivamente identificado como um líder anti-Vargas (embora ninguém o considerasse jamais um getulista).”313 Se, de um lado esse corpo estranho era visto pela ótica

da política, do outro lado, a TIME iniciava sua “busca” por Jânio lançando seu olhar no aspecto físico e estético de Quadros:

Enérgico, magro com um espesso bigode e um óculos de armação grossa - um homem que as colunas sociais brincam como “a pessoa mais mal vestida do Brasil em 1958” - na semana passada se tornaria o candidato preferido para presidente em 1960. Seu nome: Jânio Quadros.314

A revista apresentava aos seus leitores um candidato caricato, estranho, feio e mal vestido. No entanto, era esse candidato que detinha a grande preferência do eleitorado e, portanto, merecia certa atenção não apenas da revista, mas dos EUA. Segundo Skidmore “a atração que poderia exercer sobre os eleitores da classe trabalhadora sustentava-se mais no desafio aos padrões de vestiário da classe média (ele costumava usar camisa esporte e aparecia frequentemente despenteado).”315

Jânio Quadros foi sucedido por Carvalho Pinto no governo do Estado de São Paulo em 31 de janeiro de 1959. Apresentado como reformista pela TIME, seu poder político foi comprovado ao indicar o seu sucessor ao governo do Estado de São Paulo

O reformista Quadros, nominalmente um membro do Partido Trabalhista Brasileiro mas, na verdade, um solitário político, construiu rapidamente uma imagem agressiva (hound's tooth record) como governador de São Paulo, cujo mandato se encerrou em 31 de janeiro. Com essa característica, nas eleições de outubro passado ele ganhou um assento de deputado federal e, ao mesmo tempo elegeu o seu próprio candidato para governador de São Paulo em meio a uma dura oposição.316

313 SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2000.12ª edição, p. 231 314 An intense, rail-thin man with a bush of a mustache and thick-framed spectacles — a man society columnists

joshed as Brazil's "worst dressed of 1958” - last week became front runner for the presidency in 1960. His name Janio Quadros. Time Magazine: Brazil: Running Start, 09-03-1959.

315 SKIDMORE, op cit. p. 233

316 Reformer Quadros, nominally a member of the Brazilian Labor Party but actually a political loner, built a

hound's tooth record as Sao Paulo's Governor in a term that ended Jan. 31. On that record, in last October's elections, he won a federal Deputy's seat and at the same time pushed his own candidate into Sao Paulo's governorship over stiff opposition. Time Magazine, loc. cit.

A TIME ainda identificava Jânio dentro dos moldes do PTB, pois foi por esse partido que ele venceu as eleições para deputado federal pelo Paraná. Segundo Mario Victor, o apoio do PTB à candidatura e a vitória de Carvalho Pinto causara intenso protesto de um dos líderes udenista, Juracy Magalhães (aspirante à candidatura). Mesmo assim, seus protestos de nada adiantaram, pois “em princípios de janeiro de 1959, Juracy Magalhães sofreu a sua primeira derrota. Jânio Quadros foi considerado candidato pelo Diretório Nacional da UDN, nessa ocasião, Carlos Lacerda dissera ser preferível o nome de Jânio Quadros a fazer barganha com qualquer partido. Claro que o líder udenista se referia ao PTB. Para Juracy Magalhães, todavia, a advertência de Carlos Lacerda era um paradoxo de causar inveja ao próprio Oscar Wilde. Jânio era um candidato trabalhista!”317

Do mesmo modo, todos os partidos políticos desde meados de 1959 vinham trabalhando nomes nesse cenário. A UDN saiu na frente anunciando o candidato de sua preferência, Jânio Quadros que, segundo o articulador Carlos Lacerda, caberia ao próprio Jânio aceitar ou não a indicação. No trecho seguinte, a TIME expõe seu conhecimento sobre a trajetória política da UDN. A expressiva vitória desse partido nas eleições de 1958 foi digna de nota para a revista:

Durante o mês político de Outubro outro fato pareceu digno de nota, a conservadora União Democrática Nacional (UDN) deixou de ocupar aquilo que parecia ser um perpétuo segundo lugar para fazer sete governadores vencedores, sete senadores e 74 deputados, com a maior votação de sua história - cerca 3.000.000.318

Carlos Lacerda era amigo pessoal de um dos editores da TIME, Andrew Heiskell

que inclusive lhe hospedou quando esteve no exílio em 1954, na cidade de NovaYork. Em seu livro de memórias, Lacerda narrou o contato que teve com os inúmeros eletrodomésticos que encontrou no apartamento do amigo. Dos EUA, Lacerda acompanhou os fatos do Brasil pós- Getúlio e manteve intenso contato com outros editores de TIME.319

Lacerda e a UDN formavam uma unidade comum na concepção da revista. O projeto político ideológico de ambos alinhava-se aos interesses norte-americanos, do mesmo modo, o combate que travavam contra o comunismo. Durante o período que cobre a corrida presidencial, Lacerda foi muito citado nas reportagens que analisamos. Logo após a vitória de

317 VICTOR, Mario. Cinco Anos que abalaram o Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965, p. 40. 318 In the other October political development of note, the conservative National Democratic Union (U.D.N.)

broke out of perpetual second place to back seven winning Governors, seven Senators and 74 Deputies with the highest vote in its history—some 3,000,000. Time Magazine, loc. cit..

Jânio, o olhar da revista se afastaria de Lacerda para ser retomado nos arredores da renúncia. Os olhos da revista também acompanhavam os passos da UDN, conforme trecho seguinte:

Na semana passada, a maior parte do U.D.N. marchou em campanha com Jânio, mesmo ele não tendo ligações com o partido. A marcha foi liderada pelo jornalista Carlos Lacerda, líder dos deputados da UDN na Câmara e ardoroso inimigo de longa data de Quadros (certa vez ele chamou Quadros de "sujo por dentro e por fora”). 320

Apesar das relações estarem rompidas desde a época em que Jânio era governador, Lacerda “considerava inevitável a vitória de Quadros nessas eleições e acreditava que a única maneira para UDN alcançar o poder seria apoiar a candidatura de Jânio para presidência.321 Dentro da UDN houve algumas críticas a indicação de Jânio, em especial do líder bahiano Juracy Magalhães, que logo em seguida acabou consentindo.

As relações entre Jânio e Lacerda serviram como baliza para as opiniões que a revista emitia. O perfil de Lacerda, muitas vezes, mesclava o lado temperamental com o lado ardiloso. Seus desafetos também foram expostos no corpo das reportagens, Juscelino era um deles:

Por mais que ele não gostasse de Quadros, Lacerda também não gostava do Presidente Juscelino Kubitschek e do seu Partido Social Democrata (PSD). Quando soube que o presidente da U.D.N. Juracy Magalhães estava negociando uma aliança com o PSD de Kubitschek e que lançaria o próprio Magalhães candidato a presidente em 1960, Lacerda conversou com Quadros e estampou a manchete em sua Tribuna da Imprensa: Jânio – da UDN322

No subitem da matéria intitulado “Candidatos e a escolha do povo” tem-se, de forma subliminar e com outro termo, uma breve sugestão ao Populismo. Além da mobilização nacional em torno do nome de Jânio Quadros, a introdução do ‘povo’ no corpo da reportagem foi inevitável. Para a TIME, Jânio apresentava inúmeras contradições. No trecho seguinte, demagogia e populismo se fundem, Jânio aparece como “arrogante”, mas quando se dirige ao povo, ele é “simples”, se parece e é aceito pelos humildes:

A U.D.N. de São Paulo por sua vez prometeu o apoio a Jânio Quadros. Em todo o país os membros da UDN tais como Senadores, deputados, chefes de partido,

320 Last week most of the U.D.N. marched into Janio's camp, even though he has no links to the party. Leading

was Publisher Carlos Lacerda, U.D.N.'s fiery Chamber of Deputies floor leader and long an enemy of Quadros (he once called Quadros "dirty inside and out"). Time Magazine, loc. cit.

321 CHAIA, Vera. A liderança política de Jânio Quadros (1947-1990). Ibitinga – SP, Humanidades, 1991, p.

155.

322 As much as he once disliked Quadros, Lacerda dislikes President Juscelino Ku-bitschek and his Social

Democratic Party (P.S.D.) more. When he learned that U.D.N. President Juracy Magalhaes was negotiating an alliance with Kubitschek's P.S.D. that would make Magalhaes President in 1960, Lacerda conferred with Quadros, bannerlined the news in his Tribuna da Imprensa: JANIO — U.D.N.'S. Time Magazine, loc. cit.

intelectuais e jornais se alinharam. Quadros arrogantemente aceitou: "Vou precisar de apoio do partido para a campanha, e ainda mais para governar o Brasil depois."323

Uma vez nomeado, Quadros partiu para o Rio de comboio. Já pela manhã, as pessoas que o viam passando saudavam “Viva ao nosso próximo presidente", ele acenava para todos e com uma timidez encantadora, coçava a cabeça de vez em quando.

Jânio Quadros poderia ser considerado um populista? Segundo Skidmore, a própria dificuldade para responder essa questão revela muito sobre o conflito político da época, no qual o próprio Quadros era a peça principal. Segundo Skidmore “(...) até 1959, em sua carreira paulista, Quadros demonstrou certas características de estilo populista, apresentava-se como um candidato dinâmico de grande presença, que estimulava o público levando-o a confiar nêle. Oferecia, assim, ao cidadão comum do eleitorado urbano a esperança de uma transformação radical através da força redentora de uma única personalidade lider (...) Mas o conteúdo da mensagem de Quadros, antes de 1959, não o classificaria como um populista. Dirigia seu apelo aos eleitores das classes média e média-baixa, para as quais sua capacidade de administrador honesto e eficiente em São Paulo parecia quase miraculosa.”324

O debate com o outro candidato e com o ex-presidente foi apresentado. A crítica de Quadros a sucessão presidencial incluía a não indicação do nome Juscelino, o qual acenava para a possibilidade de uma reeleição, algo tido como inconstitucional para a época.

Ele conversou com políticos de todos os partidos, inclusive com325 Kubitschek, de quem ele discordou por causa da busca de um segundo mandato inconstitucional. O Ministro da Guerra e Marechal, Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott, era apenas outro candidato na disputa. 326

Logo após as movimentações em torno do seu nome, Jânio viajou para o exterior e ficou ausente do Brasil durante seis meses. Em sua ausência incumbiu um grupo de políticos amigos para articular o lançamento de sua candidatura à presidência ainda naquele ano (1959). Segundo Chaia, “a ausência de Jânio do cenário político brasileiro era uma estratégia política, afim de que as instruções fossem feitas pelo staff administrativo. Com essa atitude, Jânio procurava preservar a sua imagem de um político que não transigia e não negociava (...)

323 Candidate And The People's Choice. Sao Paulo's U.D.N. at once pledged its support to Quadros. Across the

nation U.D.N. Senators, Deputies, party chiefs, intellectuals and newspapers swung into line. Quadros loftily accepted: "I will need party support for the campaign, and even more to govern Brazil afterwards." Time Magaizne, loc. cit.

324 SKIDMORE, op cit, p. 232.

325 Thus nominated, Quadros went to Rio by train. When morning commuters cheered Viva our next President!"

he started to wave, then, with charming sheepishness, scratched his head instead. He conferred with politicians of all parties, including (...)Time Magaizne, loc. cit.

326 Kubitschek, whom he warned against seeking an unconstitutional second term; 2) War Minister and Field

Porém, era Jânio Quadros quem os orientava em suas ações.”327 No trecho abaixo, a TIME

cita que Jânio faria uma viagem de três meses (e não de seis):

Nesta semana, com uma típica astúcia política, Quadros planejou embarcar em um cargueiro para o Japão (54 dias em torno do Cabo da Boa Esperança), em uma viagem que vai mantê-lo afastado por três meses, o suficiente para evitar a exposição excessiva pré-eleitoral, o suficiente para garantir-lhe uma recepção triunfal ao retornar328

Durante esta pré-candidatura, portanto, esta pré-campanha, Jânio não deixou de expressar sua opinião sobre o cenário internacional, para ele era “vital a ajuda financeira e técnica dos Estados Unidos, porém afirmava que não era nem contra e nem a favor dos Estados Unidos, mas a favor do Brasil e das nações do centro e sul americanas.”329

327 CHAIA, op cit, p.154.

328 This week, with typical political canniness, Quadros planned to board a freighter to Japan (54 days around the

Cape of Good Hope) on a trip that will keep him away for three months—enough to avoid excessive pre-election exposure, enough to guarantee him a triumphal welcome when he returns. Time Magazine, loc cit.

In document From Aid to Partnership (sider 109-114)