A visita de Eisenhower em alguns países da America Latina foi um fato emblemático desse contexto. Evitando a Venezuela (vide mapa da TIME), o presidente americano começou por Porto Rico e, na sequência, visitou três cidades brasileiras, três da Argentina, Santiago, Montevidéu e, finalmente, retornando a Porto Rico.
Segundo Moniz Bandeira, a visita de Eisenhower à América do Sul ocorreu num momento em que “o aprofundamento da Revolução Cubana solapava o imperialismo e
revigorava a luta de classes no âmbito continental.”281 A TIME fez uma matéria exclusiva
sobre a visita de Eisenhower com foco na recepção dada pelo Brasil e pela Argentina. Mas antes resumiu sua visita pela América Latina da seguinte forma
Milhões de latino-americanos na semana passada cercaram o presidente dos EUA e de braços abertos o receberam com pétalas de flores que grudavam em seu rosado e suado couro cabeludo. Um sorriso de satisfação estava em seu rosto. Ele desfilou pelas imponentes avenidas daquelas cidades exóticas em meio a uma multidão de pessoas estranhas. 282
Apesar da equivalência, a revista optou por registrar “milhões” de pessoas e não milhares (thousands). Assim como a TIME, Eisenhower também era republicano. Havia um interesse comum entre a empresa de Henry Luce e a restauração da imagem dos EUA no mundo e, especialmente, na América do Sul. A presença do presidente dos EUA em meio a cidades exóticas e pessoas estranhas sinalizava para uma nova forma de conquista do
Wilderness:
De um jeito ou de outro ele fazia contato com as pessoas, a radiante personalidade de Dwight Eisenhower tocou os latinos e milhões o aplaudiram. Diante de tão calorosa recepção para o presidente norte-americano, velhas animosidades e suspeitas se dissolveram de forma clara.283
Um dos elementos que impulsionaram o sucesso da chegada de Ike ao Brasil se deu no âmbito da larga publicidade financiada pelas multinacionais, dentre elas “a Esso, a Atlantic, Bank of Boston, Goodyear, Firestone, Radional (subsisdiária da ITT) e outras empresas americanas [que] o saudaram veiculando farta publicidade pelos jornais.”284
Desafiando a inteligência de um leitor bem informado, surpreende o fato de que a existência de animosidades se dissolvesse tão rapidamente diante do “possível” carisma de uma autoridade estrangeira. Segundo a própria revista, o histórico das relações com a região nunca foi amistoso:
281 BANDEIRA, Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976 p.
400. Ver também, BANDEIRA, Moniz. A renúncia de Jânio Quadros e a crise de 1964. São Paulo, Brasiliense, 1979.
282 Millions of Latin Americans last week saw the President of the U.S., arms flung wide in greeting, flower
petals stuck to his pink and sweating scalp, a delighted grin on his face, as he rode down stately boulevards, through exotic cities, among multitudes of strange people. Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
283 And somehow, whenever he made contact with the people, Dwight Eisenhower's radiant personality touched
the Latinos, and the millions cheered. In the warmth of the uproarious welcome for the norteamericano President, old animosities and old suspicions melted perceptibly. Time Magazine, The Presidency: Benvindo,
Eekee! - 07-03-1960.
Estes eram os mesmos latinos cuja inveja de seus prósperos primos do norte tem se inflado por um século, amargamente se recordam de um passado recente dos Yanquis, e também amargamente acusam os EUA de abandoná-los e deixá-los para seu próprio destino.285
Não houve protestos como os que ocorreram na Argentina, ao contrário, a única manifestação de desconforto com a visita foi feita pela UNE que aproveitou a passagem do presidente em frente ao seu prédio, localizado na Praia do Flamengo, para estender uma faixa com a seguinte frase: We like Fideo Castro. 286 A mensagem foi notada por Juscelino que o acompanhava e aproveitou a oportunidade para dizer a Eisenhower que tal manifestação era a prova de que a democracia realmente funcionava no Brasil. 287 Segundo Moniz Bandeira, “Eisenhower, contrafeito, comentou: nós também gostamos dele (Fidel Castro). Ele é que não
gosta de nós.”288
A visão de que o Brasil era um país desorganizado e desprevenido ficou registrada na matéria. Do mesmo modo, o próximo trecho identifica uma postura subserviente de um país que não media esforços para agradar um dos homens mais poderosos do planeta. A recepção dada pelo Brasil ao presidente americano foi comparada a uma comédia
A chegada de Eisenhower ao Brasil quase se transformou em uma comédia pastelão digna dos irmãos Marx. Quando o grande jato presidencial, da Air Force One, pousou no aeroporto de Brasília - a inacabada capital -, uma equipe no chão começou a desenrolar um enorme tapete vermelho, calculou mal a distância, o rolo do tapete chegou à rampa do avião com uma tremenda sobra. Por alguns instantes parecia que o Presidente dos EUA poderia ter o tapete como um obstáculo antes de pisar no solo brasileiro, mas lá embaixo um tripulante salvou a situação rapidamente ao cortar o rolo extra com seu canivete dobrando a borda irregular sob a rampa.289
Segundo a imprensa local, os objetivos da visita de Ike eram “fortalecer a segurança dos Estados Unidos em seu flanco Sul, no momento em que a União Soviética procurava infiltrar-se no continente” e “ajudar o desenvolvimento econômico dos países da
285 These were the same Latinos whose envy of their prosperous northern cousins has festered for a century, who
bitterly recall the bygone days of Yanqui imperialism, and who just as bitterly accuse the U.S. of neglecting them and leaving them to their own destiny. Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
286 BANDEIRA, op cit., p. 400. 287 Ibid., ibidem.
288 Ibid., ibidem.
289 Eisenhower's arrival in Brazil almost turned into a slapstick comedy worthy of the Marx brothers. When the
big presidential jet, Air Force One, set down at the airport of the unfinished capital city of Brasilia, a ground crew began unrolling a huge red carpet, miscalculated the distance and arrived at the ramp of the plane with a dismaying roll left over. For a moment it looked as though the President of the U.S. might have to hurdle the carpet before he set foot on Brazilian soil, but an enterprising MATS ground crewman saved the situation by quickly cutting off the extra roll with his pocketknife, tucking the ragged edge under the ramp. Time Magazine,
América Latina, no interesse deles e no próprio interesse dos Estados Unidos.”290
Para a TIME, o presidente dos Estados Unidos estava sendo tratado como um deus, fato que lhe chamou a atenção ao admitir que nunca em toda a sua vida havia recebido tamanha recepção.
Juntos, os dois presidentes desfilaram através de um selvagem e bem humorado carnaval de boas vindas dos 750.000 cariocas felizes. "Bem-vindo, Eekee! [Bem- vindo, Ike!]" Foi ouvido em toda parte. O ar quente de verão estava cheio de pétalas de flores e papel picado (um truque que os brasileiros aprenderam assistindo noticiários nos EUA), e as figueiras ao longo da Avenida Rio Branco pareciam mastros recobertos de serpentina e confete. Muita música - desde Deus Salve America ao coro de "Aleluia" de Handel, com um forte agradecimento por meio das músicas de carnaval e sambas - ecoava em cada esquina. O Rio palpitava de emoção. Ike disse: "É a recepção mais impressionante que eu já tive em uma cidade."291
A foto acima foi tirada da janela do escritório da TIME na Avenida Rio Branco,
290 BANDEIRA, op cit., p. 400 apud Diário de Notícias, RJ, 23-02-1960.
291 Together the two Presidents rode through a wild, carnival-mood welcome by 750,000 happy cariocas.
"Benvindo, Eekee! [Welcome, Ike!]" was heard everywhere. The warm summer air was filled with flower petals and ticker tape (a trick the Brazilians learned from watching U.S. newsreels), and the Ficus trees along Rio Branco Avenue looked like maypoles under their drapery of serpentine and confetti. Music — from God Bless America to Handel's "Hallelujah" chorus, with a strong obbligato of carnival songs and sambas — rang out at every corner. Rio throbbed with happy emotion. Said Ike: "The most impressive entrance to a city I've ever had." Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
no Rio de Janeiro. Desse ponto, foram também registradas fotos como as passeatas da Família e o dia da ‘vitoriosa’ Revolução de 1964. Em ambas as ocasiões, o contingente de pessoas presentes foi calculado pela revista em 500.000 pessoas. Finalmente, após toda a recepção, Ike reconheceu, segundo a TIME, a importância da Operação Pan-americana e reforçou a ajuda dos EUA.
O plano do Brasil de assistência mútua para o desenvolvimento latino-americano - Operação Pan-Americana - tem o seu apoio caloroso e um lembrete de que os EUA estão fazendo sua parte.292
Kubitschek era o grande representante da Operação Pan-americana e, assim como todos os parceiros do cone sul, tinha conhecimento do receio norte-americano de que a Revolução Cubana se alastrasse pelo continente. O Departamento de Estado se via na obrigação de rever vários pontos da doutrina econômica.293 Para que o diálogo pudesse fluir entre os dois países na esfera econômica, uma das partes teria que ceder. Os Estados Unidos insistiam com o Brasil de que a estabilização monetária “era uma condição sine qua non a concessão de empréstimos aos países da América Latina e rechaçava a estabilização dos preços das matérias-primas, por eles exportadas.” 294 Segundo Moniz Bandeira, “sob o pano
de fundo da Revolução Cubana, o encontro dos Presidentes do Brasil e dos Estados Unidos permitiu-lhes o reajuste de algumas posições.”295
O encontro entre ambos foi produtivo e favorável a Kubitschek que indagado por Eisenhower se estaria disposto a uma retomada do diálogo com o FMI, respondeu-lhe que sim. Tal resposta motivou o presidente americano que ao retornar aos EUA sua primeira ação seria conversar com Per Jacobson, Presidente do FMI. Na sequência dos eventos, o embaixador brasileiro, Walther Moreira Sales era convidado para uma reunião de negociações e um empréstimo de US$47.700.000 dólares era liberado em maio de 1960.296
Sua passagem por São Paulo não foi menos calorosa do que no Rio de Janeiro
Do Rio, o Presidente voou para São Paulo onde, apesar de uma garoa constante, 500.000 pessoas nas ruas lhe acenavam com seus guarda-chuvas e jogavam papel
292 Brazil's mutual-assistance plan for Latin American development — Operation Pan America — got his warm
endorsement and a reminder that the U.S. is doing its part. Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
293 SCHLESINGER, Arthur, Mil Dias, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, vol. I, p 177. 294 BANDEIRA, op cit., p. 400.
295 Ibid., ibidem.
picado encharcado em seu carro.297
Segundo dados do IBGE, a população da cidade de São Paulo, em 1960, estava registrada em torno de 3.781.446298, ou seja, cerca de 13% dos habitantes estava na avenida pela qual desfilou o presidente dos Estados Unidos, o suficiente para lotar dez estádios de Futebol como o do Morumbi. Os números da TIME além de expressivos se juntavam a uma festa que parecia contar com poucos convidados.
Na visita do presidente norte-americano à Argentina, houve uma inversão completa das boas-vindas recebidas no Brasil, tanto que um incidente ocorrido em diferente ocasião, com o presidente do México, foi lembrado:
Sua recepção em Buenos Aires contrastou com a simpatia do Brasil. Três semanas antes, o presidente do México, Adolfo López Mateos havia sido vaiado e apedrejado pelos comunistas e peronistas durante uma visita oficial, fato que preocupou o presidente da Argentina, Arturo Frondizi, obrigando-o a tomar medidas drásticas para evitar que se repetisse tamanha violência ou descortesia.299
A situação da visita na Argentina por pouco não se assemelhou a visita de Nixon à Venezuela pouco tempo antes, na ocasião, Ike precisou ser retirado às pressas do aeroporto antes que o pior viesse a acontecer.
Assim que ele chegou ao aeroporto Ezeiza de Buenos Aires, Ike estava cercado por um cordão de soldados com baionetas. O desfile agendado na cidade foi cancelado e Ike precisou ser levado para a embaixada dos EUA em um helicóptero da Marinha dos EUA. Na manhã de sua chegada, cinco bombas explodiram em Buenos Aires, e em uma rua escura um bando de comunistas queimaram um boneco de palha envolvido numa bandeira americana, e gritavam: "Viva Fidel" e "Morte a Ike!"300
Na próxima imagem os destaques foram a falta de papel picado, uma comitiva reduzida e uma forte escolta da cavalaria. O título da foto ilustra bem a passagem de Ike pela
297 From Rio the President made a flying trip to booming São Paulo, where, in spite of a steady drizzle, 500,000
cheered him in the streets, waving their umbrellas and throwing soggy ticker tape on his car. Time Magazine,
The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
298 Ver Censo de 1960 disponível em http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-
%20RJ/CD1960/CD_1960_SP.pdf (acessado em 08/2012).
299 His welcome in Buenos Aires was in some contrast to Brazil's let-out friendliness. Three weeks earlier,
Mexico's President Adolfo López Mateos had been booed and stoned by Communists and resurgent Peronistas during an official visit, and worried Argentine President Arturo Frondizi took drastic steps to avoid a repetition of violence or discourtesy. Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
300 As soon as he arrived at Buenos Aires' Ezeiza airport, Ike was surrounded by a cordon of soldiers with fixed
bayonets. The scheduled parade into the city was canceled, and instead Ike was whisked to the U.S. embassy in a U.S. Marine helicopter. The morning of his arrival five bombs were exploded in Buenos Aires, and on a dark street a mob of Communists burned a straw puppet wrapped in an American flag, and shouted: "Viva Castro!" and "Death to Ike!" Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
capital argentina: Cortejo de Eisenhower em Buenos Aires: Um protesto, um largo sorriso e
um rugido.
Ao final e já nos EUA, Eisenhower fez um balanço positivo de sua viagem e tomou o Brasil como referência:
(...) a maioria dos latino-americanos pareceram concordar com o acórdão de Kubitschek do Brasil: "Estou plenamente convencido de que estamos prontos agora para entrar numa nova fase de entendimento e cooperação com os nossos amigos e aliados da nação norte-americana. "301
As concessões que foram sendo feitas aos países latino-americanos tinham como objetivo acalmar os ânimos locais. Eisenhower, já nos Estados Unidos, pediu a CIA que desse início ao treinamento dos exilados cubanos e “aceitou o plano de Douglas Dillon para a criação de Fundo de Progresso Social (500 milhões de dólares), que os Estados Unidos apresentariam a reunião do Comitê dos 21 em Bogotá (agosto).”302 O objetivo do Plano era
claro: isolar Cuba.303
301 (…) most Latin Americans seemed to agree with the judgment of Brazil's Kubitschek: "I am fully convinced
we are now entering a new phase of understanding and cooperation with our friends and allies, the North American nation." Time Magazine, The Presidency: Benvindo, Eekee! - 07-03-1960.
302 SCHLESINGER, Arthur. Mil Dias, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, vol. I, p 225-229. 303 BANDEIRA, op cit, idem.