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4. DATA AND VARIABLES SELECTION

4.1 T HE DATA SET

Não se trata, na Gaia ciência, de tocar finalmente no objeto da paixão do conhecimento, que continua tão inatingível quanto antes. Aqueles que chamam a si mesmos de realistas, por acreditar que o mundo é tal como lhes aparece, pretendem uma impossível sobriedade: são ainda seres apaixonados quando comparados a peixes. Não se pode olvidar a própria humanidade e animalidade no conhecimento _ repete Nietzsche várias vezes nesse livro. É impossível subtrair daquela nuvem ou naquela montanha o acréscimo humano que nelas colocamos (GC, 57).

Já em Aurora, Nietzsche apontava como o próprio homem impede-se de enxergar as coisas por que coloca a si mesmo no caminho. Contudo, onde mais poderia colocar-se? Onde quer que esteja, verá o mundo através de sua própria imagem refletida; até mesmo as sombras que o impedem de ver provêm de um Deus que ele próprio criou e destruiu. Existe, pois, a possibilidade de que o conhecer nada mais faça do que oferecer àquele que conhece a sua própria imagem travestida.

A outra perspectiva consiste em saber-se embriagado, mas procurar ultrapassar a embriaguez (GC, 57). Contudo, seria preciso fazê-lo sem pretensões a uma total sobriedade. A abstinência é impossível: enquanto seres vivos, não seca a fonte da qual bebemos, nem dela podemos prescindir. O engano sobre a vida é necessário à vida, insiste Nietzche, sempre e mais uma vez.

Uma novidade se destaca, porém, na Gaia ciência, cujas implicações convém examinar, tanto para o conhecimento quanto para a moral. Trata-se da consideração da questão do valor, aqui relacionada àquelas dos gostos nobre e vulgar, da exceção e da regra.

Estas reflexões sobre a exceção e a regra chegam também à dimensão do conhecimento. O homem do conhecimento _ a exceção _ acorda de um sonho apenas para a consciência de que sonha, devendo todavia continuar sonhando para não sucumbir. Age como mestre de cerimônias da dança, para prolongá-la: pela ligação de todos os conhecimentos pode-se talvez manter a universalidade do sonho e a mútua compreensibilidade entre todos os sonhadores (GC, 54). Ou seja, fazendo com que o sonho não seja apenas a “exceção” de cada um, vivência única e intransmissível, que tornaria impossível a partilha, ele zela pela universalidade que asseguraria a compreensibilidade mútua dos sonhadores.

Fazem parte do sonho os erros fundamentais do ser vivo, mais uma vez reiterados por Nietzsche: que existem coisas iguais, que existem coisas, matérias, corpos. Desses erros, incorporados por sua utilidade para a conservação da espécie _ que o homem do conhecimento não pode abolir, embora deva apontá-los _ nascem as normas que definem o verdadeiro e o falso, mesmo quando se trata da lógica mais pura.

Esse não poder acordar do sonho, ou seja, esta obrigatoriedade em seguir certas convenções que o perpetuam, ressurge quando Nietzsche aponta o perigo da loucura, entendida como capricho no ver e no ouvir. “O oposto no mundo dos loucos não é a verdade e a certeza, mas a universalidade e a obrigatoriedade de uma crença: os homens necessitam de entrar em acordo sobre muitas coisas e submeter-se a uma lei da concordância, não importando se tais coisas são verdadeiras ou falsas” (GC, 76). Recorde-se que em Verdade e mentira no sentido extra-moral Nietzsche já apontava as leis da linguagem como fundamento desse acordo.

Os “investigadores da verdade”, quanto mais se refina a sua mente, enjoam-se do ritmo monótono instituído por tal obrigatoriedade. Contudo, são a exceção; “a estupidez virtuosa é necessária, para que os fiéis da grande crença geral continuem sua dança” . Mais uma vez, Nietzsche reitera: a exceção não pode pretender tornar-se regra, assim como a vigília não pode invadir o sonho; os “investigadores da verdade” destruiriam as

regras necessárias à vida ao tentar impor-lhes a exceção que eles próprios representam (GC, 76).

Se Nietzsche reconhece a impossibilidade de acordar do sonho ou de romper com a regra, onde reside então a alegria da Gaia ciência? Quais as novas possibilidades nela apontadas para o conhecimento?

No aforismo 58, intitulado Somente como criadores!, o filósofo nos diz que a nomeação e a avaliação das coisas são roupagens estranhas a elas com as quais as vestimos, nelas se enraizando até se tornarem seu próprio corpo. Não basta apontar esta ilusão para destruir a suposta realidade que ela cria _ e aqui voltamos à impossibilidade de acordar do sonho. Contudo, uma possibilidade se coloca: criando novos nomes e avaliações, a longo prazo podemos criar novas coisas. Ou seja, se compreendemos o processo pelo qual se produz aquilo a que chamamos realidade, percebemos que o conferir nome e valor, sendo constituinte do processo mesmo, não pode ser elidido, e sim utilizado criativamente para a produção de uma outra “realidade” _ talvez tão arbitrária quanto a primeira, mas ordenada segundo valores mais nobres. Afirma-se, portanto, a ideia de que o conhecimento não deve depreciar-se em virtude do seu caráter necessariamente ficcional, mas alegrar-se com ele, pela produção de ficções novas e mais elevadas. Aqui, a nosso ver, a gaia ciência se aproxima de uma nova formulação da sabedoria trágica, ao mesmo tempo próxima e distinta daquela do Nascimento da

tragédia.

Para essa recriação, é invocada novamente uma preciosa aliada: a arte. A compreensão de que o erro é condição da existência sensível, logo do conhecimento, seria insuportável “se não tivéssemos inventado este culto ao não verdadeiro que é a arte.” A retidão que se exerce na prática da ciência, levando a reconhecer a inverdade geral que assim se revela, pode resultar “em naúsea e suicídio”. Em Humano,

demasiadamente humano, já citado aqui, Nietzsche, constatando este mesmo problema,

encontrara como saída um conhecimento purificador. Agora, diferentemente, a arte é a força contrária à retidão do homem do conhecimento, que o levaria, na ausência de tal oposição, a recair na moral. “Necessitamos de toda arte exuberante, dançante, zombeteira e venturosa, para não perdermos a liberdade de pairar acima das coisas, que o nosso ideal exige de nós” (GC, 107). Já em Humano, demasiadamente humano,

exigia-se tal liberdade; a diferença aqui é que não poderíamos dispor dela se nos privarmos da arte no exercício mesmo do conhecimento.

Portanto, a questão do valor é ressaltada na concepção de uma gaia ciência: criar novas coisas através de novas avaliações e nomes, tendo a arte como “boa vontade de aparência”.