2. LITERATURE REVIEW
2.1 D EFAULT PREDICTION LITERATURES
Na Segunda Extemporânea, Nietzsche critica a pretensão da história a tornar-se ciência. Como o cristianismo, o senso histórico, teologia dissimulada, rejeita o devir, considera vão tudo o que acontece, desespera quanto ao futuro de toda existência terrestre. Essa dissolução das possibilidades futuras da vida é relacionada aqui ao poder dissolvente da ciência, que retira ao homem moderno seu ponto de apoio, submergindo- o no rio do devir: certas aquisições do conhecimento científico, como a ausência de diferença fundamental entre o homem e o animal, parecem-lhe verdadeiras, mas mortais (II CE, 9). O abalo intelectual da ciência retira do homem toda crença numa realidade
constante e eterna, ameaçando destronar a religião e a arte, com graves prejuízos para a construção do futuro humano (II CE, 10). Nesse momento, Nietzsche parece pensar que certos conhecimentos, embora verdadeiros, não devem ser incorporados à cultura, sob pena de dissolver os alicerces que a sustentam.
Contudo, um texto singular, não publicado por Nietzsche, aponta, por assim dizer, para a virada rumo à “filosofia científica” de Humano, demasiadamente humano. Trata- se de Verdade e mentira no sentido extramoral, escrito em 1973.
Nietzsche examina ali as relações do conhecimento com a ilusão, através da introdução de algumas considerações sobre a linguagem. Segundo nos diz, apenas a condição de prisioneiro da crença na verdade em si dos objetos da nossa percepção, esquecendo-se enquanto sujeito criador, permite ao homem viver com segurança. Contudo, a natureza jogou fora a chave com que o fechou na sua própria consciência, escondendo-lhe seu caráter efêmero e fortuito. A linguagem, com seu poder metafórico, encontra-se na raiz desse desconhecimento.
Segundo sua hipótese, a linguagem teria nascido de um acordo necessário à vida em comum, com o qual inventou-se uma designação constantemente válida e obrigatória das coisas. Ora, paradoxalmente, essa denominação, que não se funda em nada de real, é o primeiro passo na aquisição daquilo que chamamos de nosso instinto de verdade. O intelecto do qual o homem se orgulha não passa de um meio de conservação para um organismo mais fraco, que necessita do disfarce para sua sobrevivência. Ao mostrar-se verídico, portanto, ele nada mais faz senão empregar as metáforas habituais, ou seja, mentir segundo convenções obrigatórias. O desrespeito a essas convenções, causando prejuízo ou desagrado, é aquilo que se nomeia como mentira. Uma apreciação de ordem moral encontra-se na definição do verdadeiro, considerado respeitável e tranqüilizador, ou seja, em conformidade com o costume. Contudo, nascendo de “metáforas temerárias” _ primeiro, pela transposição de uma excitação em imagem, segundo, pela uma remodelação da imagem em som _ a linguagem não é senão uma armação móvel de metáforas que se desdobram e ampliam, designando apenas as relações das coisas aos homens, sem nada poder apreender da natureza ou das coisas enquanto tais. No decorrer de um longo uso, essas correlações parecem estáveis e canônicas, fazendo-nos esquecer que nós próprios as inventamos. A legislação da linguagem constitui assim as primeiras leis da verdade.
Portanto, prossegue Nietzsche, todo conceito nasce da identificação do não-idêntico: uma palavra se torna conceito quando, deixando de servir de lembrança a uma experiência única, adapta-se a inúmeros casos mais ou menos semelhantes entre si. Essa operação retira da experiência o seu frescor original: enquanto a metáfora intuitiva escapa à classificação, a abstração conceitual é pálida e fria, não persistindo senão como um resíduo metafórico. Contudo, dessa maneira pode o homem edificar uma ordem estável, um mundo de leis com graus, leis, privilégios, subordinações, que se transforma numa instância reguladora a determinar sua conduta. Assim, Nietzsche antecipa o conceito da lei como instância reguladora, que terá grande importância em seu pensamento. Ao conhecer, não desvelamos leis intrínsecas à natureza: essa legalidade suposta reside em propriedades que nós mesmos levamos às coisas, pelas imposições da vida em comum. O conceito é a identificação do não-idêntico, impondo a lógica a um material que não encontra nela a sua origem. Construindo um andaime conceitual que atua como instância reguladora, o homem se mostra, sim, admirável, diz Nietzsche, mas por seu gênio de arquiteto, e não por seu instinto de verdade.
Nietzsche mantém aqui o privilégio da intuição sobre a razão, presente em outros escritos desta época. Enquanto o homem do conceito é um escravo da necessidade, o homem intuitivo dela se liberta pela leveza da invenção. Encontramos uma contraposição semelhante em outro texto não publicado, A filosofia na época trágica
dos gregos, onde compara a filosofia, regida pela imaginação, e a razão, guiada pela
lógica, a dois viajantes, que adotam formas diferentes para transpor uma torrente em seu caminho: enquanto a filosofia salta com leveza sobre as pedras, ainda que afundem depois de sua passagem, a razão primeiramente constrói fundamentos para suportar seu passo. A análise das diferentes posições de Heráclito e Parmênides, com a declarada preferência de Nietzsche pelo primeiro, ilustra esta oposição. Todavia, ela não persiste, ao menos nesses termos, em sua obra posterior: a filosofia trágica do último Nietzsche é antes, como veremos no oitavo capítulo, um conhecimento criador do qual o poder artístico é constitutivo do que uma predominância da intuição artística sobre o pensamento racional.
Por hora, entretanto, o que desejamos ressaltar é que em Verdade e mentira no
sentido extra-moral já se apresentam elementos importantes desenvolvidos em Humano, demasiadamente humano: a concepção de uma gênese histórica do
ou adequação com a essência real dos objetos no mundo; o intelecto como meio de auto-conservação e não como órgão que desvenda a realidade; o conceito como identificação do não-idêntico.