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2.7 Sårbare barn i barnehager

2.7.3 Systematisk avdekking av vansker

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2. LAGOA DOS NEGROS: DE “TERRA DESENCANTADA” À TERRA

DESAPROPRIADA

Lagoa dos Negros atualmente é um assentamento federal localizado há aproximadamente 30 km ao sul da sede do município de Itarema, numa região limítrofe com o município de Acaraú. O local liga os Tremembé que saíram de Almofala em direção aos sertões em uma “comunidade de memória” estruturada em relações de parentesco, vizinhança e pela participação em uma história comum de ocupação territorial (SILVA, 1999, p. 150). O local constitui-se como o centro irradiador da diáspora27 que levou famílias que haviam se fixado na Lagoa dos Negros desde as últimas décadas do século XIX, a avançarem nas matas e ocuparem terras relativamente próximas, em decorrência do esbulho da terra e da violência sofrida. Com o passar do tempo, esses lugares foram constituindo um perímetro de ocupação territorial composto por localidades, cujos descendentes destas famílias permanecem lá até hoje (ver mapa 2).

Os diferentes desdobramentos das ocupações que surgiram a partir da Lagoa dos Negros levaram também a um conjunto heterogêneo de situações socioeconômicas, ambientais, fundiárias e culturais, refletindo nos modos de existência, nos valores e ideologias norteadoras destas coletividades e, sobretudo, no potencial de politização das referências identitárias e de seus processos históricos. Em outras palavras, compartilhando de narrativas históricas comuns quanto à sua origem, essas coletividades se projetaram sob diversos modos de organização sócio-territorial e identitária: índios Tremembé, assentados ou sem terra e simplesmente agricultores. No entanto, o que se observa é que práticas cotidianas, tradições rituais e comportamentos são amplamente compartilhados constituindo “modos de reprodução

da vida” comuns (PEREIRA, 2010). Cumpre assinalar que das categorias supracitadas, a de agricultor se transversalizava em todas as situações históricas pesquisadas. Por isso a

perspectiva teórica aqui assumida considera todos as atores sociais fazendo parte de um mesmo campo intersocietário, embora os discursos e a ação política por vezes estabeleçam diferenciações.

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Para esclarecimento, os termos diáspora, migração e dispersão são empregados neste trabalho em seu sentido literal, dando conta de movimentações forçadas por várias razões tratadas no decorrer do texto.

47 Mas esse já é um capítulo intermediário na história destas coletividades. Ele existe a partir de um contexto que precede ao desencantamento e ocupação da Lagoa dos Negros e, posteriormente, de Telhas, Queimadas, Pedrinhas entre outras. Tudo começa mesmo em Almofala!

A narrativa mítica de origem desses lugares remonta ao antigo aldeamento de Almofala e a um período marcado por eventos ambientais e sociais ocorridos entre as duas últimas décadas do século XIX, que motivaram a dispersão de muitas famílias de seus antigos locais de habitação e posterior reagrupamento.

Uma das referências mais recorrentes na memória dos Tremembé dessa região é a da seca ocorrida entre 1887 e 1888, conhecida como a seca dos três oito,28 que teria afugentado grande parte dos Tremembé que se encontravam situados na praia de Almofala, forçando uma migração para o sertão do Acaraú. Como hábito comum entre as populações indígenas, as famílias pautaram seu caminho pelas margens de córregos e rios da região, procurando se estabelecer em locais privilegiados no que se refere ao acesso à água e alimentos através da caça e da coleta.

Essa região, no interior do município de Acaraú29, era marcada por uma densa vegetação, entrecortada por córregos30, lagoas e pela presença abundante de uma fauna silvestre. Não por acaso, esse é o cenário que motivou o estabelecimento dos Tremembé, fugindo das adversidades do local onde viviam.31 Como mostrou Valle (1993), é esse um ambiente da mata nativa, das caças, dos perigos inerentes à convivência com os animais silvestres (onças e cobras) que legitima o discurso nativo de que essa terra foi achada pelos índios, pois eles foram os primeiros a desbravarem o local.

A saída de Almofala em decorrência do fenômeno da seca é confirmada na fala de Antonio Félix, já falecido e que na época desse depoimento era a principal liderança de Queimadas, onde relata o episódio da chegada de seus pais e avós na Lagoa dos Negros:

Minha família, do meu pai, do meu avô, do meu bisavô eles vieram de Almofala. Quando foi em 1888 foi uma seca muito horrorosa. Ai eles destacaram de lá pelos

28

A Seca dos três oito também é narrada por algumas famílias do Córrego João Pereira. Ver Valle (1993) e Silva (1999).

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Até 1985 Itarema era distrito de Acaraú 30

Para se ter ideia, a maior parte dos nomes das localidades neste perímetro de ocupação faz referência aos córregos e lagoas que passam por elas: Córrego dos Fernandes, da Onça, da Volta, das Telhas, do Amargoso, Lagoa dos Negros, Lagoa de Santana, Lagoa de Santa Rosa, entre outras.

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Será justamente essa abundância de recursos naturais, aliado ao poder econômico e político das famílias tradicionais de Acaraú, os motivos para invasão e espoliação das terras habitadas pelos Tremembé desta região sertaneja.

48 matos, caçando raiz de pau para comer, saíram lá da Almofala aí encostaram na Lagoa dos Negros (Patrício, 2010, p. 27).

Somente a título de contextualização histórica, convém lembrar que as secas, além de um fenômeno ecológico cíclico, constituem também fatos de um capítulo da história ambiental e social do Ceará e do Nordeste. No Ceará, particularmente, a seca de 1888 obviamente não afetou só o litoral onde viviam os Tremembé. O último quartel do século XIX foi demasiadamente hostil para os cearenses que sofreram com duas das mais terríveis secas de sua história: 1877-1879 e 1887-1888 (ALBUQUERQUE Jr., 1994), coincidindo, portanto, com as narrativas dos indígenas sobre o episódio.

A necessidade de migrar e se estabelecer em outras paragens não afetou somente os Tremembé de Almofala, mas a população cearense de um modo geral, que por sua vez, já vinha reincidindo nesta prática desde 1877, acentuando-a a cada período de estiagem.32 O trabalho de Almeida (2008) sobre os ideais sociais, raciais e econômicos que sustentaram a agricultura no Maranhão do século XIX é bastante ilustrativo do que acontecia no Ceará e no Nordeste neste período. O autor nos mostra a partir de jornais e relatórios de província da época que uma grande quantidade de cearenses migrou para o Maranhão fugindo do flagelo da seca (ALMEIDA, 2008, pp. 133-134).

Portanto, o fenômeno da seca dos três oito acabou se configurando como o marco histórico da primeira (das duas) diáspora vivida pelos Tremembé. A lembrança da escassez marca a narrativa dos pais e avós de Antonio Félix, nascido pouco depois da expulsão de seus pais da Lagoa dos Negros, que tenta reproduzir o sofrimento dos antepassados em busca de alimento na expressão caçando raiz de pau pra comer.

Embora ressaltem a seca, e certamente ela teve papel decisivo, outros fatores possivelmente contribuíram para a expulsão de famílias inteiras da região de Almofala. Depois das secas, o mais notório deles foi a invasão das dunas sobre a antiga povoação, encobrindo inclusive a igreja de Nossa Senhora da Conceição e obrigando as famílias mais próximas da praia a se mudarem para outras localidades. Esse dilema foi narrado pelo Padre Antonio Tomás em 1892:

Seguindo o mesmo teor da vida, já por ali haviam passado sucessivamente muitas gerações desde as remotas eras do seu povoamento até a última década do século

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A recorrência de períodos de estiagem possibilitou que o sertanejo cearense criasse uma espécie de numerologia das secas, de modo que os anos terminados em certos números são tradicionalmente de bons invernos ou de grandes secas. Por exemplo, os anos terminados em 4 e 9 são considerados de grandes chuvas, enquanto os que terminam em 3 e 5 geralmente são de pouquíssima pluviosidade. Ouvi de uma idosa Tremembé de Queimadas que nesse ano de 2014 teríamos um bom inverno.

49 passado, quando sobreveio a catastrophe que, destruindo a aldêa, fez fugir os seus últimos moradores para longinquas paragens, à cata de novos abrigos, como um bando de passaros bravios aos quaes houvessem desmantellado os ninhos. Hoje nada mais resta de todo aquele gracioso conjuncto senão uma vaga e saudosa lembrança na memória de poucos. O ameno e ubertoso sitio em que se ostentava a risonha povoação cobri-o de safaro e extenso areal continuamente revolvido pela impetuosidade dos ventos. Em torno nenhuma sombra de arvore, nenhuma habitação de vivos. Tudo ahi é solidão e abandono, desolação e tristeza! (Ramos, 1981, p. 139).

Pode-se imaginar que o fenômeno relatado pelo padre desencadeou o deslocamento forçado em direção ao continente, empurrando as habitações e imprensando aquelas que já estavam um pouco mais distantes da praia. Embora não se tenha informações detalhadas sobre essa questão podemos supor que isso tenha forçado rearranjos territoriais que favoreceram a saída de algumas famílias de Almofala para outras localidades. Até aqui observamos apenas fatores ambientais e sociais que impuseram o processo migratório.