50
2.1. Encantamentos e desencantamentos: narrativas sobre a origem da Lagoa dos Negros
Não obstante, aos discursos sobre o desencantamento da Lagoa dos Negros deve ser acrescido o componente mítico, que ao se juntar com esses já citados, estabelecem a narrativa de origem de todas as situações históricas descritas neste trabalho. Trata-se das visões, intuições e trabalhos executados para que a lagoa fosse descoberta e desencantada sob os auspícios daquele a quem os Tremembé desta região atribuem a responsabilidade de tal feito, o velho João Cosmo.
A denominação Lagoa dos Negros faz referência a uma lagoa que teria sido
desencantada pelo pajé João Cosmo no final do século XIX. Apesar de não ser possível
precisar o ano, as narrativas mais antigas reiteram que a ocupação da Lagoa dos Negros tenha ocorrido após 1888, conforme já citado. Entre o período da chegada na Lagoa dos Negros e a expulsão se estabelece um hiato no qual não se tem muitas informações sobre como viveram as famílias no local. No entanto, é possível afirmar que as famílias, que lá se fixaram, viveram tranquilas, até com alguma fartura material, já que momentos críticos e marcantes como secas, doenças e perdas são sempre rememoradas por quem vivencia tais mazelas, como também seus descendentes. Viveram sem sobressaltos até a chegada de um fazendeiro chamado Doca Sales nos primeiros anos da década de 1920.
Desse intervalo de pouco mais de trinta anos acaba-se enfatizando as datas que se intercalam ao período, ou seja, 1888 e 1927, pois são momentos cruciais na história desses Tremembé, ocorrendo o que estou chamando aqui de diáspora. Nestas datas, seja por questões ambientais ou sociais, acontece a dispersão involuntária de vários grupos familiares que posteriormente serão protagonistas na ocupação da Lagoa dos Negros, na primeira data, e de outras áreas, entre elas Queimadas, Pedrinhas, Córrego dos Fernandes, no caso da segunda data, até então lugares não habitados.
No universo dos interlocutores desta pesquisa, há consenso em atribuir a João Cosmo o desencantamento da Lagoa dos Negros. Não só por isso, mas pela sua trajetória, Cosmo se tornou um personagem crucial para o entendimento dos processos históricos que culminaram na constituição das localidades situadas ao redor da Lagoa dos Negros. Primeiro porque sua descendência foi bastante extensa, de modo que em todos os lugares por onde andei durante a pesquisa se encontram famílias que descendem dele. Em segundo lugar, envolve seu ofício
51 ritual; curador de enfermidades e perturbações que afligiam parentes ou conhecidos. A terceira e mais notável de suas características é o dom de encantar e desencantar lagoas. Estas são apenas algumas de suas extensas habilidades ou características, segundo as narrativas dos moradores da região. Comecemos então pelo desencantamento da Lagoa dos Negros.
Inicio com aquela que considero a mais detalhada narrativa sobre este evento, que me foi transmitida por Elias Carneiro do Nascimento, morador da Lagoa dos Negros e neto de uma das discípulas de João Cosmo:
Elias – a minha avó, essa que era discípula dele, contava pra nós que na Almofala ele invocou-se e disse que tinha essa lagoa aqui. Então eles juntaram um povo, a minha avó sendo discípula dele e essas Camilo, quer dizer, elas eram discípulas porque ele trabalhava e elas trabalhavam também, nessas prece que trabalha, baixa caboclo e ele sendo pajé como era. Aí tentaram descobrir a lagoa e juntaram um bocado de gente. Vamos supor, aqui fazia um terreiro, fazia um terreiro e ele botava a mesinha dele ali e fazia o trabalho dele ali. Então, tinha um mestre balizador, ta entendendo? Aquele mestre balizador chegava e apontava; apontava o canto pra onde era. Aí quando terminava o serviço de noite, bem cedo os homem metia a foice no mato abrindo travessão. Trabalhavam o dia todim; era uns trabalhando e outros buscando munição pra comerem, se alimentarem. Trabalhava o dia todim. Quando terminava o dia, ali fazia outro terreiro e ia trabalhar de novo. Aí quando este caboco chegava aí balizava. Quando amanhecia o dia os homens metia a foice no mato que tinha balizado, até chegarem aqui (Elias Carneiro, Lagoa dos Negros, 03/01/2014).
O pano de fundo, lembremos, é o que está escrito no início deste capítulo. João Cosmo teria tido visões ou intuições de que numa certa região, distante pouco mais de 20 km de onde estava na época, havia uma grande lagoa. Naquele momento, a lagoa tinha uma representação simbólica; significava saciedade, alimento, trabalho, enfim, representava a vida, ameaçada pela fome e sede decorrentes da seca. Porém, esta lagoa precisava ser desencantada.
No universo simbólico-religioso dos Tremembé, a manipulação de certos elementos da natureza se dá por intermédio dos encantados33, que apesar de não serem espíritos, tal como no imaginário cristão, vivem num ambiente paralelo que guarda estreita relação com o ambiente onde um dia habitaram em seu estado físico. Somente os iniciados na ciência do
índio podem vê-los e se comunicar com eles. Será a partir dos esforços para desencantar a
lagoa que João Cosmo se tornará reconhecido como o pajé afamado.
33
Segundo Nascimento (2005), os encantados, encantos [ou encante nos termos dos Tremembé] são entidade sobrenaturais, em princípio benéficas, que auxiliam os índios de diversos modos. São entidades vivas, isto é, que já são da natureza ou que, tendo sido humanos, não passaram pela experiência da morte, isto é, não são “espíritos de morto”. Alguns deles foram antepassados dos índios que teriam se encantado, ido para o “reino dos encantados” sem que tenham passado pela experiência da morte. Portanto, continuam vivos, mas para enxergá- los é preciso uma preparação espiritual (NASCIMENTO, 2005, pp. 43-44).
52 O terreiro é parte fundamental no processo de desencantamento segundo a lógica do narrador. Era o lugar sagrado destinado aos rituais em que João Cosmo e alguns de seus
discípulos recebiam instruções sobre o caminho a ser trilhado, já que não havia caminho até
então; tudo era mata. Sua importância não estava associada ao lugar em si, mas naquilo que era realizado, o trabalho, ou seja, o contato com os encantados que lhes dariam a revelação do caminho e outras instruções. Se o dia era de trabalho físico na abertura da mata e busca por alimento, a noite era destinada ao trabalho ritual. Por receber instrução dos encantados, Elias o chama de mestre balizador, aquele que baliza o caminho e mostra a direção.