A necessidade fundamental do diálogo nos dias atuais está subentendida no trecho da música Parabolicamará, descrito acima. Nas primeiras linhas, percebe-se claramente a referência a um passado idílico, comunitário, quando o que predominava nas pessoas de todos os cantos era a sensação de pequenez diante da vastidão e da inatingibilidade do mundo. O perto era o “ali defronte”, às vistas, bem conhecido, experimentado e provavelmente distinto de outros lugares, por sua vez não visitados, curiosos e, às vezes, assustadores. A clara separação entre o aqui e o lá produzia uma percepção de pertencimento definida, uma sensação de segurança, familiaridade e conforto. Outras noções de identidade concorrentes com essa, mais amplas, por mais óbvias que fossem, como a própria identidade nacional, não carregavam sentido para muitos, há pouco mais de sessenta anos. Até muito pouco tempo a atuação social de homens e mulheres se dava na proximidade (BAUMAN, 2005).
A última linha do trecho aponta, no entanto, para uma mudança radical nessa paisagem. Principalmente a partir da segunda metade do século XX, com a emergência e difusão crescentes das tecnologias de comunicação e da informática, novas formas de conexão tornaram as pessoas e as coisas, inicialmente, mais próximas, depois, quase fundidas. “Lá trás dos montes, dende casa”. Foi praticamente o início do fim do “de lá”. Hoje, espaço e tempo são noções em redescoberta.
O processo cantado por Gilberto Gil, de ampliação em âmbito mundial de uma rede de contatos, de aumento da interdependência de diferentes regiões umas com as outras, de expansão dos mundos e possibilidades pessoais e diminuição, portanto, dos tempos e das distâncias, é a globalização (BAUMAN, 2003), que acentuada no período em questão, provocou uma ruptura com as formas de organização social em vigor até então desde o final do século XIX (SANTOS, 2003).
Segundo Santos (2003), o período histórico compreendido entre os anos 60 do século XX até o final desse século foi marcado, entre outras coisas, pela desregulamentação da vida
econômica, social e política. Caracteriza esse momento histórico a perda da capacidade de regulação da economia pelos Estados, decorrente do avanço das empresas multinacionais, a precarização das relações de trabalho, a digitalização e mercantilização da informação, abrindo um horizonte infinito para a reprodução do capital, a retração das políticas sociais, o enfraquecimento dos laços de classe, do sentimento de lealdade nas organizações operárias etc.. Enfim, foi um tempo no qual as categorias e instituições que definiam muito bem a fase anterior começaram a perder sentido.
Um aspecto com grande influência nessas transformações foi que a própria noção de tempo começou a passar por uma mudança de significado. Ao lado do tempo cronológico, “caracterizado pela sequência cronológica de eventos e pela disciplina do comportamento humano em função de um cronograma predeterminado” (CASTELLS, 1999, p. 157) e do tempo glacial, que descreve a relação entre o homem e a natureza como um processo de longo prazo, emerge no período o tempo intemporal, “uma perturbação sistêmica na ordem sequencial dos fenômenos, voltados à instantaneidade” (Ibid, p. 157.). O tempo intemporal é o tempo de transações comerciais e financeiras instantâneas, que elimina a “continuidade das sequências e dá origem a um timing não diferenciado, destruindo assim o conceito de tempo” (Ibid, 157.). Como coloca Bauman (2008), esse novo tempo não é cíclico e nem linear, significados atribuídos a ele por outras sociedades, mas “pontilhista” (o autor aqui toma emprestado a terminologia de Michel Maffesoli, 2000), marcado por rupturas e descontinuidades, que são pulverizadas em multiplicidades de “instantes eternos” (BAUMAN, 2008, p. 46), com um “potencial infinito para se expandir e uma infinidade de possibilidades esperando para explodir” (Ibid, p. 46.). Se por um lado elimina a noção de projetos de longo prazo, por outro abre as possibilidades da emergência do acaso e do não pré-determinado.
Do ponto de vista do indivíduo, para Lipovetsky (2004) esse período testemunhou também a conquista da liberdade em relação aos caminhos já traçados pela tradição e pelas instituições e a busca por suas escolhas, um tipo de emancipação em relação a seus papéis sociais, “uma nova forma de sedução ligada à individualização das condições de vida, ao culto do eu e das felicidades privadas” (Ibid, p. 64). Aos poucos, o mundo se tornou mais plural, diverso e complexo, e novas demandas surgiram e precisam ser levadas em conta. Para o autor, entretanto, a vida próxima ao século XXI já não mais permitia essa sensação de “descontração” (Ibid, p. 64), de carpe diem, diante da insegurança que veio a reboque da autonomia, e da solidão e abandono nas quais a emancipação se transformou. As
responsabilidades de construção de um ambiente seguro para se viver, antes compartilhadas com diversas instituições (o Estado, Religiões, empresas etc.), foram agora relegadas exclusivamente aos indivíduos, resultando em incerteza, medo, ansiedade e isolamento. À medida que tentam construir segurança para si, se concentram na autopreservação, encontram como caminho a separação em relação aos outros (a proteção do eu em relação ao outro), alimentando o ciclo vicioso de individualização, desconfiança e autoproteção (BAUMAN, 2003). Com isso, a sensação resultante é de que a capacidade de conversa entre pessoas de países, classes sociais e econômicas, grupos políticos e gerações diferentes está diminuindo (BOHM, 2005). Elas trancam-se em suas comunidades, suas casas, seus carros, seus quartos, suas mentes e se tornam cada vez mais e mais isoladas (YANKELOVICH, 2001).
O que se tem como resultado desse processo é uma contradição: a possibilidade de expansão ilimitada dos horizontes pessoais, trazida pelas novas tecnologias, resultou na tendência ao isolamento e à contração dos indivíduos para dentro de si, uma espécie de força gravitacional individual que se opôs à dilatação do universo para manter a integridade da unidade e não explodir. Como resultado possível para esse jogo vislumbra-se, em geral, ou o entrincheiramento de resistência ou a abertura anuladora de si, a explosão.
De acordo com Isaacs (1999a), esse panorama se dá porque o aumento das conexões tecnológicas não promoveu o aumento dos contatos, de uma comunicação genuína e de afetividade. Como consequência, há mais troca de informações, tanto em âmbito pessoal quanto profissional, mas não compartilhamento de “compreensões, insight, sabedoria, ou nossos corações” (Ibid., p. 389, tradução nossa). Ainda que esse contato genuíno brote aqui e ali, os obstáculos colocados pelas circunstâncias estão tornando-o cada vez mais raro (YANKELOVICH, 2001). Conversas familiares ou entre amigos são em geral superficiais, e quando dificuldades aparecem, ou são evitadas ou não são sanadas, persistindo ao longo do tempo (ISAACS, 1999a).
Diante desse cenário, pelo menos duas questões podem ser suscitadas: primeiramente, se existem alternativas para essa situação, ou seja, se há espaço para que se diminua o distanciamento entre as polaridades postas, de um lado a segurança e do outro a autonomia. Em segundo lugar, como o diálogo se insere dentro desse contexto. Essa última questão será abordada na análise que se dará abaixo.
Como visto acima, o pluralismo no mundo conectado é uma característica recente e também crescente na atualidade e trouxe transformações para a vida no âmbito individual, social, político e econômico. A possibilidade de emancipação dos indivíduos em relação a seus papéis sociais produziu o surgimento de novas identidades, expectativas e demandas, novos papéis, que por sua vez trouxeram consigo novas tensões, que passaram a ter de ser reconhecidas e lidadas nos relacionamentos pessoais, nas famílias, no ambiente de trabalho, na política e etc.. Ao mesmo tempo, mudanças culturais e no arcabouço legal que favorecem processos democráticos passaram a criar condições e oferecer maior respaldo àqueles que desejam participar mais ativamente nas decisões sociais que os afetam (YANKELOVICH, 2001).
Da mesma forma, o surgimento de temas globais, transnacionais (meio ambiente, saúde, imigração, crime organizado etc.) praticamente condiciona os processos de tomada de decisão ao envolvimento de vários atores, provenientes de heranças culturais diversas e, portanto, carregando pontos de vistas diferentes.
Do ponto de vista das políticas públicas, a busca pelo envolvimento dialógico e participativo se justifica por pelo menos duas razões:
i) A primeira é por um imperativo ético, a urgência de se romper com a brutalidade da lógica que exclui a maioria das pessoas do acesso a conhecimentos técnicos e científicos e que, consequentemente, atribui a intermediários a determinação dos rumos de suas vidas. Isso remete ao projeto de “futuro único” abordado por Ramos (2009) e Rezende (2009), entre outros, já mencionados acima, que desconsidera a pluralidade social existente e rejeita todas as opções culturais alternativas, conforme dela nos fala a sociologia das ausências de Santos (2002).
Nesse sentido, o que se denomina de “modernização” (ao que esse caminho único, no final das contas, se reduz) se transforma na continuação do processo de colonização, só que por outros modos, por ora mais sutis. Mesmo assim continua demandando sacrifícios das pessoas e justificando a destruição de culturas, povos e ambientes em nome da imposição de um conjunto de valores, o do “desenvolvimento” (FURTADO, 1996). Como coloca Bauman (2010), com referência a Rosa Luxemburgo, o capitalismo necessita constantemente de novas pastagens para se alimentar, para então levá-las à exaustão. Por isso a necessidade obstinada
de se “incluir” pessoas e espaços nesse “desenvolvimento”, são eles as “terras virgens” (p. 27) a serem explorados, os novos “recursos”, como hospedeiros para serem parasitados.
Assim, o processo de colonização continua em andamento, de forma perspicaz e ardilosa mas não menos violenta, não mais pelas palavras dos jesuítas, mas dos “desenvolvimentistas” ou “progressistas”. Para piorar, esse processo se apropriou das estruturas e instituições que deveriam intermediar relações sociais democráticas e as transformou em agentes de seus planos, covardemente legitimando, pela força, seus interesses.
Exemplos desse tipo de conduta abundam no Brasil recente, sendo o de maior destaque a discussão acerca das mudanças do Código Florestal: desde a formação do que deveria ser uma comissão mista se viu um enviesamento da questão pesando para o lado ruralista. A exclusão quase completa da comunidade científica nos vários pareceres e propostas emitidos desde então, o que levou a uma resposta desses (SILVA, 2011), ilustra bem o que foi colocado acima: uma decisão predefinida que deve ser implementada a qualquer custo a despeito das várias vozes dissonantes que, como reclamaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências, jamais foram ouvidas, apesar de se colocarem para o diálogo. Como eles reivindicam em seu documento, a “formulação de uma política pública sobre um bem de interesse coletivo, como o patrimônio florístico brasileiro, deve resultar de um acordo consensual entre todos os níveis de governo e todas as partes interessadas, incluindo a comunidade cientifica” (Ibid, p. 20).
Diante desse cenário, é extrema a necessidade de se resgatar ou fortalecer a autoestima e a capacidade de diálogo entre pessoas e grupos sociais, de forma que sejam capazes de se incluir e interferir nos processos decisórios cujos resultados influenciarão seus próprios futuros (SORRENTINO E NASCIMENTO, 2010). Políticas públicas participativas podem levar à emancipação e ao fortalecimento da dimensão política da vida.
ii) A segunda se remete a um aspecto mais técnico que se mistura com a questão ética acima: há um crescente reconhecimento das limitações das políticas públicas produzidas de forma excludente e não dialógica, tanto em âmbito internacional, como demonstra amplamente a obra de Olsson e Wohlgemuth (2003), que organizam um livro inteiro de análises sobre os processos e resultados das políticas públicas suecas de ajuda internacional; quanto nacional, como aborda Castellano (2013), na análise de uma política pública que supostamente deveria ter sido realizada a partir do diálogo entre diferentes instituições públicas estatais e ainda o
público receptor. Em ambos os casos, a ausência de diálogo não só ilustrou o caráter impositivo dos casos de políticas públicas que abordaram, como também impediu que os próprios objetivos predefinidos para os projetos fossem alcançados plenamente.
Como todas as situações acima demonstram, em todas as dimensões da vida, privada, profissional e pública, nacional ou internacionalmente, há uma demanda para que as pessoas sejam capazes de estabelecer relacionamentos mais próximos com as outras, de desenvolverem suas capacidades para pensar colaborativamente e agir de forma organizada (ISAACS, 1993). Como coloca o autor em outro espaço (Id, 1999a, p. 329, tradução nossa), “se não podemos conversar juntos, não podemos trabalhar juntos”. Isso, no entanto, ocorre simultaneamente à tendência de afastamento entre elas.
Da mesma forma, percebe-se uma capacidade muito limitada de se manter conversas com profundidade em contextos delicados. Em geral, o que ocorre com os participantes enquanto conversam é a ativação inconsciente de vários dispositivos de proteção para defender suas opiniões e atacar, banalizar ou desacreditar as dos outros, ou ainda forçar consensos. E nesses âmbitos quando a tensão aumenta, a conversa tende se tornar uma batalha (ISAACS, 1999a). A situação descrita no parágrafo acima remete a dois aspectos importantes e que precisam ser considerados. Primeiro, independentemente do resultado da conversa em si para os participantes, seu alcance dentro da situação foi limitado, pois não carregou consigo nenhuma forma de aprendizado, apenas demarcou os pontos de vista e reforçou as diferenças. Segundo, que a consequência provável de uma experiência do tipo é a diminuição, para os participantes, da crença na conversa como forma de construção, ou seja, da retroalimentação da desmotivação para participar de novas situações e propostas de conversas, o que reforça o seu isolamento.
É possível, no entanto, ir além desse tipo de situação, promover encontros que levem ao real enfrentamento das questões em seu cerne, sem que as dificuldades sejam evitadas e com outro tipo de desfecho que não a sensação de ter participado de uma briga? É possível criticar e não desertar? Ao mesmo tempo, é possível aceitar sem se anular?