Fairclough (trad. 2001, p. 278) destaca: “uma forma comum de ampliar-se o corpus é o uso de entrevistas”. Aponta, por exemplo, a validade das mesmas, considerando a possibilidade de obter outras interpretações e de observar a consciência ou não de investimento ideológico em convenções discursivas particulares. Tomando essa orientação como relevante, e por ter interesse em considerar também a recepção dos textos, escolhi a última charge eletrônica do corpus, para ser o ponto de partida para a realização de entrevistas. As razões da escolha são anteriores à publicação da charge eletrônica. A meta era aguardar a veiculação do primeiro texto que tratasse das eleições presidenciais na semana imediatamente anterior ao dia da votação, por conta de sua relevância contextual. Dessa forma, a charge eletrônica “Bois don’t cry” foi exibida em 27 de setembro de 2006 e as entrevistas foram realizadas nos dias 28 e 29 do mesmo mês.
As/Os participantes da pesquisa foram escolhidas/os levando-se em consideração a formação acadêmica; a suposta capacidade de leitura aprimorada73; a familiaridade com o computador e a Internet: o critério era que esses fizessem parte da vida cotidiana.
Essa parte da pesquisa foi realizada no Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula – LIV, da Universidade de Brasília – UnB. Primeiramente, abordei as pessoas no Laboratório de Informática e, em seguida, realizei as entrevistas individualmente na Sala de Eventos (que fica ao lado do Laboratório).
Cada participante era convidada/o a ser entrevistada/o depois que eu me identificava como estudante de Mestrado da instituição; explicava que estava fazendo uma pesquisa sobre charges eletrônicas e que manteria os nomes em sigilo, utilizando pseudônimos74. Estabelecia, também, o compromisso de compartilhar análises e resultados da pesquisa. Esclarecia que eles e elas iriam ver (e ouvir) uma charge eletrônica e depois seriam entrevistados na sala ao lado. Havia, na sala, uma mesa que seria, provavelmente, para professores/as ou palestrantes; de propósito, sentava-me sempre na posição secundária, conferindo à/ao participante uma posição de maior status. Não tenho certeza se essa questão subjetiva de espaço de poder teve alguma influência; porém, acredito que o inverso poderia colaborar com o usual desconforto do/a pesquisado/a. Pensei, posteriormente, que uma saída seria termos nos sentado nas carteiras, em suposta posição de igualdade.
73 Uso o termo ‘suposta’ para deixar claro que não é a formação acadêmica unicamente o que torna uma pessoa
apta para leituras mais aprimoradas, mas a possibilidade de maior acesso ao conhecimento é inegável e indicativo de uma determinada capacitação.
74 Deborah Cameron et al. (1994) recomendam que os/as pesquisadores/as precisam proteger a privacidade dos
Considerando o pouco tempo no qual tivemos contato, creio ser complexo afirmar que foi possível estabelecer rapport75. No entanto, as relações interpessoais na abordagem, no
momento da entrevista e depois, foram muito amistosas e tranqüilas.
De acordo com George Gaskell (2005, p. 68), “a finalidade real da pesquisa qualitativa não é contar opiniões ou pessoas, mas ao contrário, explorar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão”. Nessa perspectiva, entrevistei seis pessoas, três mulheres e três homens. Estudantes do curso de Letras, porém, com diferentes licenciaturas (Português, Inglês e Português do Brasil como Segunda Língua – PBSL) e cursando o sexto, sétimo ou oitavo período letivo. As idades variaram de 21 a 28 anos.
Fiz um roteiro de questões (ver Apêndice A) para obter a opinião das/dos participantes em diferentes perspectivas da recepção do texto e mesmo para obter comentários sobre convicções e pensamentos particulares. Dessa forma, abordei pontos relacionados a humor na charge eletrônica; à representação dos candidatos; ao que teria chamado mais a atenção no texto; e as opiniões pessoais sobre políticos, candidatos/as. As três primeiras questões, por exemplo, talvez pudessem ser sintetizadas em uma única, porém, estrategicamente fiz o desdobramento com a finalidade de facilitar a relação com a/o estudante no início da entrevista (geralmente é o momento de maior tensão) e também de estar precavido com relação a respostas muito sintéticas que não expressassem bem as opiniões. Com esse recurso, aumentei a possibilidade de complementações e ampliação da reflexão da/o participante. Houve casos também em que a/o participante afirmava já ter respondido aquela questão, mas isso não criou problemas na entrevista.
As questões foram ‘abertas’, evitando assim as simples respostas ‘sim’ ou ‘não’, possibilitando maior liberdade para os/as participantes expressarem suas opiniões. Uma outra preocupação foi evitar a presença de pressuposições. Procurei deixar as pessoas falarem livremente, sem interrupções ou cortes, ou novas perguntas antes de concluídas as respostas. Demonstrava interesse pela fala do outro por meio da expressão facial, de meneios com a cabeça, por exemplo, e também com reforços lingüísticos de marcadores conversacionais como ‘ahn ahn, uhn uhn, sei, certo’.
As entrevistas foram gravadas com o consentimento das/os participantes e transcritas (veja Anexos F a L).
75 Refere-se ao estabelecimento de uma relação de segurança e confiança entre pesquisador/a e participante de
pesquisa (Gaskell, 2005). Magalhães (1986) fala da importância do rapport para a pesquisa e discute a relação entre poder e rapport (2006).
Segui, também, o procedimento recomendado por Gaskell (2005, p. 84) para o encerramento das entrevistas:
Ao finalizar a entrevista, procure terminar com uma nota positiva. Agradeça ao entrevistado e garanta a ele a confidencialidade das informações. Dê a ele tempo para ‘deixar’ o ambiente da entrevista, pergunte se ele gostaria de fazer mais alguns comentários agora que o gravador está desligado.
Nenhum deles desejou fazer comentários relacionados a questões das entrevistas com o gravador desligado. As conversas, de modo geral, eram sobre o projeto que eu estava desenvolvendo, com perguntas sobre minha área de pesquisa e sobre a etapa na qual estava.
Além disso, para atingir a perspectiva da produção das charges eletrônicas, tentei fazer uma entrevista com o criador das CEs em análise. Estabeleci contato por meio da opção ‘Fale Conosco’ do site www.charges.com.br e averigüei a possibilidade de realizar a entrevista via sites (e respectivos programas)76 que possibilitam a conversa com voz e vídeo. A proposta era realmente estabelecer uma comunicação mediada por computador, considerando que esta pesquisa tem uma forte relação com o ambiente virtual.
Maurício Ricardo respondeu ao convite via correio eletrônico. Explicou que por razões de tempo e compromissos seria inviável fazer a entrevista diretamente. Pôs-se, então, à disposição para responder as questões que eu poderia enviar por e-mail. Encaminhei as perguntas e recebi as respostas poucos dias depois (Anexo M). De qualquer forma, mantivemos contato de uma maneira virtual, porém, sem interação direta.
Dessa maneira, comento na pesquisa sobre o meio de ‘distribuição’, computador/Internet (ver Capítulo 2); faço, no Capítulo 4, análises discursivas, sociais, lingüísticas e semióticas das charges eletrônicas, correlacionando com as contribuições das/os participantes (recepção), por meio das entrevistas77, e do autor (produção) dos textos, por meio das respostas às questões formuladas.
Essa variedade de métodos é recomendada para a pesquisa, pois, conforme Magalhães (1986, p. 185): “a necessidade de validar a interpretação do investigador pode ser resolvida em parte pela ‘triangulação’: a combinação de diferentes tipos de amostragem”78.