Para Fairclough (2003), as formas de agir e interagir em eventos sociais têm aspectos especificamente discursivos: são os gêneros – o significado acional. De acordo com o autor, há uma série de características que devem ser observadas nos gêneros. Em relação ao corpus desta pesquisa, inicio tratando, de um modo geral, da maneira como o gênero charge eletrônica apresenta-se nos textos escolhidos (também faço alusões a outros), para em seguida tratar da escala, grau de estabilização e homogeneização (ver Capítulo 1, Seção 1.3.1.1). Além disso, abordo os níveis de abstração, buscando identificar os pré-gêneros84. A estrutura
multimodal também será considerada. Utilizo quadros para apresentar esses itens. O quadro 4, por exemplo, sintetiza características e elementos das CEs:
QUADRO 4: CE – características e elementos
A CE usa mídia eletrônica (Internet e TV); tem imagens caricaturadas; representa a voz dos personagens de forma a acentuar características prosódicas; trata de um fato cotidiano relacionado à política; usa humor; tem animação computadorizada, com ou sem som. Uma das CEs do corpus contém música e outra tem inserção de duas gravações em vídeo. Três CEs trabalham com representação de pessoas reais e duas trabalham com estereótipos.
As demais CEs produzidas pelo site tratam também de temas como: esporte, novela, entrevistas com pessoas famosas85.
O quadro 5 apresenta outras especificidades do gênero:
QUADRO 5: CE – escala, estabilização, homogeneização
A escala das CEs é geralmente nacional em termos de audiência e conteúdo, mas o acesso pode ser global via Internet. Para os dois itens seguintes, estou considerando níveis baixo, médio e alto, sendo assim, quanto à estabilização são de nível médio, considerando a produção, recepção e reconhecimento do gênero por parte de leitores e leitoras. A CE deriva da charge ‘tradicional’ e conta com as possibilidades das novas tecnologias.
A homogeneização das CEs é de nível médio. Existem diferenças em comparação com outros sites ou programas de TV que as exibe. Inovações podem ser observadas no próprio
85 O trabalho de Amarildo P. Magalhães (2006) apresenta essas outras possibilidades com mais detalhes.
Gênero, suas características abstratas e elementos componenciais mídia caricaturadas voz cotidiano humor animação música vídeo pessoas Escala Grau de estabilização Homogeneização nacional médio média
charges.com.br, por exemplo, a inserção de vídeo.
Uma correlação em diferentes níveis de gêneros está registrada no quadro 6:
QUADRO 6: CE – Pré-gênero, subgênero, gênero situado
Considerando que os personagens das CEs estão sempre dialogando entre si ou diretamente com o/a internauta, entendo que o ‘pré-gênero’ é a ‘conversação’. Sendo a conversação o ‘pré-gênero’, pode-se perceber que a narração, a argumentação e até mesmo a descrição estão presentes no corpus, atuando como ‘subgêneros’. A CE é um ‘gênero situado’ social e historicamente dentro de práticas sociais, como veremos nesta Seção.
Conforme apresentado no quadro 7, a CE é multimodal:
QUADRO 7: CE – estrutura multimodal
A análise das CEs precisa ser feita considerando as diferentes modalidades e principalmente a relação entre elas, sob pena de fazerem-se interpretações equivocadas. O verbal, por exemplo, nem sempre coincide com o visual e essa é uma estratégia de construção dos textos.
Fairclough (2003, p. 77) observa que “Uma questão geral que surge ao analisar gêneros é: quais modalidades semióticas se esboçam e como elas se combinam”. Entre as diferentes formas semióticas, é possível encontrar nas CEs imagens (caricaturas86, cores, ambientes, desenhos ou vídeos) e linguagem verbal (com som e/ou registro gráfico) conectadas semanticamente e em seqüência de animação computadorizada.
A seguir, analiso: (i) a cadeia de gêneros, iniciando com o quadro 8; e (ii) o hibridismo de gêneros nos textos, considerando rápidos exemplos de mescla de gêneros no quadro 9.
86 As charges do site geralmente apresentam caricaturas ‘leves’ e com ‘aparência’ engraçada, mas não exageram
características de avaliação estética negativa, como acontece com a maioria das charges impressas.
Pré-gênero Subgêneros Gênero situado
conversação
narração; argumentação e descrição charge eletrônica
Estrutura multimodal
com áudio verbal
sem áudio
QUADRO 8: CE – cadeia de gêneros
Nas CEs em análise, a maioria dos assuntos tratados relaciona-se direta ou indiretamente com jornais e revistas impressos ou eletrônicos (por meio de gêneros como: notícia, reportagem, crônica, cartas). As CEs fazem recontextualizações (ver Seção 1.3.1.2, no Capítulo 1), modificando ou criando um novo contexto para texto(s) diferente(s). Criam também textos originais que se apóiam contextualmente por meio da intertextualidade/interdiscursividade.
A cadeia de gêneros continua em conversas de leitores, mensagens ao site, comentários para as mensagens, na possível reverberação em portadores de textos como jornais e revistas e em outros gêneros como nesta dissertação, por exemplo.
QUADRO 9: CE – hibridismo de gênero
Fairclough (2003) observa que há uma intensificação do hibridismo na mídia e que fato e ficção, notícia e entretenimento mesclam-se muitas vezes. A charge eletrônica faz isso de forma explícita – é uma de suas características. Em cada texto do corpus apresenta-se um hibridismo com outros ‘gêneros situados’: em “Classes sociais e o voto” observamos a charge (eletrônica) juntamente com declarações (de intenção de voto) e com a semelhança de uma série televisiva (de anúncio esporádico, tratando das eleições); na CE “Deputado no YouTube (2)”, charge (eletrônica) com base em um suposto pronunciamento de político (em campanha), com a mesma apresentação de uma página de site da internet e contendo uma ‘abertura’ (voz em off) como as de programa de TV; no texto “Não dá liga”, além da charge
(i) cadeia de gêneros
notícia reportagem crônica cartas mensagens comentários (ii) hibridismo de gênero CE + série televisiva
CE + pronunciamento + página de site + programa de TV CE + conversa
CE + pronunciamento + programa de TV CE + paródia
(eletrônica) soma-se a conversa (ao mesmo tempo formal e informal) entre candidata e candidato à presidência; “No horário eleitoral...” vê-se uma charge (eletrônica) que retrata um pronunciamento de político (em campanha) e traz uma ‘abertura’ (voz em off) semelhante às de programa de TV; por fim, em “Bois don’t cry” vemos a combinação de uma charge (eletrônica) mais uma ‘paródia musical’.
Outro trabalho a ser realizado em relação ao gênero em sua perspectiva discursiva é identificar as atividades, relações sociais e as tecnologias presentes.
O que as pessoas estão fazendo discursivamente? Essa é uma questão fundamental a se fazer, pois a produção e a leitura desses textos são atividades de eventos sociais que pertencem a práticas sociais prioritariamente discursivas (percebe-se isso melhor se compararmos com atividades de mergulho, que são bem menos discursivas). Como os gêneros têm propósitos definidos, cabe identificar quais são os propósitos dos textos, podendo assim perceber que há uma hierarquia entre os propósitos e que uns estão explícitos, enquanto outros, implícitos. Apresento as principais atividades no quadro a seguir:
QUADRO 10: CE – atividades
As relações sociais estabelecidas entre texto e leitor/a ocorrem entre a organização charges.com.br e indivíduos, em um processo onde há distância (organização – escala nacional versus indivíduos – lugares específicos) e hierarquia social (as organizações exercendo poder em relação aos indivíduos), mesmo que a linguagem (verbal e não-verbal) utilizada procure minimizar essa característica ao criar uma aparência de proximidade entre organização e indivíduo.
Quanto às tecnologias presentes no gênero, os textos analisados são de comunicação mediada eletronicamente e em via de mão-única (não há troca de turno); a CE é veiculada de forma gratuita na Internet; e a apresentação da CE é dinâmica por meio de recursos (programas e equipamentos) de informática.
Atividades entreter criticar informar obter audiência comercializar
Fairclough destaca, na obra de 2003, que as práticas sociais articulam conjuntamente elementos sociais discursivos e não-discursivos, citando-os: “ação e interação; relações sociais; pessoas (com crenças, atitudes, histórias etc.); o mundo material; discurso” (p. 25). É possível dizer que o gênero (significado acional) analisado nesta pesquisa (a CE) é responsável pela ação e interação mediada pelo computador (por meio da Internet). Isso propicia uma relação social virtual com a organização e com outras pessoas que visualizam esses textos, as quais têm identidades diferentes e lêem as CEs por meio da tecnologia material necessária, em espaços físicos semelhantes ou não (no trabalho, em casa etc.) e, por fim, têm contato com os discursos que estejam presentes nos textos (ver exemplos na Seção 4.3.2).