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Torna-se necessário começar pelo momento em que se deu a manifestação da depressão, isto é, pelos sinais e sintomas que levaram em primeira instância os indivíduos a reconhecer que algo não estava certo com eles, e que os levaram posteriormente a procurar ajuda. Segundo DGS (2017, p. 4), “as perturbações depressivas são caracterizadas por tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa ou de autoestima baixa, perturbações do sono ou do apetite, sensação de cansaço e baixo nível de concentração”, bem com por um humor deprimido, pensamentos suicidas e distúrbios psicomotores (Sloan e Sandt, 2006). Estes sintomas mais típicos da depressão estão em concordância com os sintomas referidos e identificados pelos indivíduos entrevistados. Assim, e de forma geral, foram mencionados sintomas como: a falta de interesse generalizado; o choro e tristeza; vontade de vomitar, falta de apetite e/ou perda de peso; problemas de sono; o pensar constantemente nos problemas; sintomas físicos e isolamento. Outros sinais e sintomas foram igualmente referidos, embora em menor número, como: ansiedade, nervos, angústia e ataques de pânico.

É importante ainda mencionar que os indivíduos identificaram múltiplos sintomas, sobretudo no que diz respeito às mulheres, o que está de acordo com o fato destas estarem mais conscientes e atentas em relação aos seus estados internos e expressarem e reconhecerem mais facilmente os seus sintomas, o que leva a que reportem um maior número de sintomas depressivos, comparativamente aos homens (Sprock e Yode, 1997; Baptista, Baptista e Oliveira, 1999; Sloan e Sandt, 2006).

Tal como mencionado por Zanello e Bukowitz (2012) e Sigmon et al. (2005), existem nítidas diferenças de género no relato e apresentação de sintomas, o que de certa forma está em sintonia com os papéis de género, isto é, homens e mulheres expõem e expressam de forma distinta os seus sintomas, em conformidade com as normas de género. Assim, e em conformidade com o que foi referido por Sloan e Sandt (2006) e Zanello e Silva (2012), as mulheres entrevistadas reportaram um maior número de sintomas e revelaram sintomas relacionados com emoções entendidas como sendo tipicamente femininas, tais como: choro e tristeza; angústia e ansiedade; isolamento; vontade de vomitar, falta de apetite e/ou perda de peso. É possível perceber a forma como os sintomas foram descritos pelas mulheres através dos discursos que se seguem:

Sentia-me triste, muita tristeza, uma vontade de fechar os olhos e que ninguém me perturbasse, era uma angústia, uma angústia muito grande, uma dor aqui no peito, um aperto no coração, é uma angústia que até parece que tenho vontade de vomitar às vezes… não me apetece comer, não me apetece fazer comida… é uma coisa angustiante. (Fem02, 72 anos, divorciada, professora universitária, licenciatura,

reformada)

Chorava constantemente, não tinha vontade sequer de sair, nem de me vestir… não tinha vontade sequer de viver… pensava que…. tinha perdido mesmo o interesse pela vida, comecei a ficar cada vez mais triste, mais deprimida, não queria sair com ninguém, perdi a vontade de tudo. Depois, mais tarde, veio o problema mais grave, que foi quando deixei de comer, e tudo o que eu comia vomitava, o médico achava que poderia ser bulimia ou princípios de anorexia nervosa porque eu emagreci muito.

(Fem06, 36 anos, casada, técnica de vendas, 12ºAno, empregada)

(…) isolo-me muito, começo a deixar de dormir, a chorar por tudo e por nada, sem motivo nenhum, às vezes acordo já com a vontade de chorar sem saber o que é que se está a passar… sem vontade de fazer nada, triste, triste, normalmente vem tudo assim. (Fem12, 55 anos, casada, doméstica, 4ºAno, desempregada)

Outro sinal bastante identificado somente pelas mulheres foram os sintomas físicos, e nestes casos o reconhecimento da depressão deu-se apenas após o surgimento destes sintomas. Entre os sintomas físicos encontram-se: dores de cabeça e peito, hemorragias, face dormente e desmaios.

(…) foi aqui a parte esquerda da face tudo paralisado e dormente, o maxilar também, até para comer me dava impressão, depois isolava-me, chorava e andei uma semana sem dormir, nem de noite nem de dia, uma semana inteirinha e pronto, a gente depois começava a chorar e sem saber o que tinha, e não me doía nada, está a ver? Não me doía nada… era o chorar sem saber porquê e era aquela tristeza que sei

lá… e ninguém me fazia mal nem nada, mas eu nem podia ver ninguém, nem ouvir ninguém, nada. (Fem10, 59anos, casada, doméstica, 4ºAno, desempregada)

Olhe a falta de sono, não conseguia dormir ou o sono excessivo, depois percebi que tinha dores de cabeça constantes, eu andei um mês com dores de cabeça, e foi quando fui parar ao hospital… e também tive perda de peso, perdi 10 quilos num mês. (Fem11, 30 anos, solteira, 12ºAno, desempregada)

Quanto aos homens, estes exprimem os seus sintomas de modo diferente. Segundo Andrade, Viana e Silveira, (2006) e Rabasquinho e Pereira (2007), os homens exprimem os seus sentimentos e sintomas de depressão através de comportamentos híper-masculinos, tais como raiva, agressividade ou consumo de substâncias. Porém, os homens entrevistados não identificaram estes sinais e sintomas. No entanto, identificaram sinais mais aceitáveis socialmente para os homens, tais como: problemas de sono, sendo comum a todos os homens entrevistados, ansiedade e nervos, e a falta de interesse generalizado. Evitam a expressão da doença nos modoscomo ocorre nas mulheres (Rice, Fallon e Bambling, 2011), assim, os sinais identificados estão em maior concordância com o seu papel género, não identificando sinais tipicamente femininos como o choro e a tristeza.

Ah... deixar de dormir, passei noites inteiras sem dormir (choro)… eu não dormia nem deixava dormir, porque eu tremia a noite toda, a minha mulher teve de arranjar uma cama para dormir ao meu lado (choro), tremia muito, não sei se era nervos, frio ou calor, eu passava a noite toda a tremer. (Mas04, 54 anos, casado, 9ºAno,

desempregado)

(…) não dormir, muito nervosismo, só pensar naquilo e depois obviamente perde-se gosto por tudo o resto, porque já não dá para fazer mais nada, não temos vontade de fazer nada. (Mas05, 43 anos, solteiro, professor de educação física, licenciatura,

empregado)

Dormir, dormir é que me custava e custa muito, e sentir-me assim… pronto... em baixo, não me sentia bem, não tinha reação para mais nada se não estar ali assim, era a tal coisa, sentia-me deprimido e sentia-me muito em baixo. (Mas08, 69 anos,

viúvo, empregado de peças de automóvel, 9ºano, reformado)

Uma questão que ressaltada destes discursos analisados é a referencia constante aos nervos, que medicamente não existe, e, portanto, esta noção de que existe um problema de nervos é tipicamente uma explicação leiga (Alves, 2010).