4.1 The Iranian official foreign policy discourses
4.1.2 Syria and foreign intervention
Mapa baseado em: NOGUEIRA, Gabriel Parente. Fazer-se nobre nas fímbrias do império: práticas de nobilitação e hierarquia social da elite camarária de Santa Cruz do Aracati (1748-1804). Dissertação (Mestrado) em História apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Ceará, 2010. p. 28.
Foi pela ribeira do Jaguaribe que os conquistadores que passaram pelo Rio Grande, exterminando e afugentando o indígena tapuia, entraram no Siará Grande e, através dela, interiorizaram a colonização daquele sertão. Esse movimento logo depois deu origem à
Estrada Geral do Jaguaribe, que era usada para tanger as rezes para o abate e trazer, na volta,
mercadorias chegadas ao porto do Aracati. A conquista do sertão do Jaguaribe foi decisiva para a empresa colonial que, naquele momento, tentava expandir a fronteira da pecuária e ocupar o espaço que a cada batalha era desabitado pelo nativo, que ia por sua vez expulsando outras tribos para mais longe 20.
O sertão do Jaguaribe foi, portanto, o que gerou um interesse quase que imediato, pela sua extensão e pelo número de rios e riachos afluentes. Primitivamente estas terras foram disputadas com os indígenas, cabendo destacar aqui um episódio marcante da guerra dos
bárbaros que ficou conhecido como o “Massacre do Jaguaribe”, acontecido no ano de 1699.
Nos fins do mês de julho, o mestre de campo Manuel de Morais Navarro partiu de seu arraial no Açu, acompanhado dos capitães Teodósio da Rocha e Pedro Carrilho de Andrade e mais 130 infantes e cerca de 250 tapuia aliados da nação dos janduís. Quando chegaram próximos a um acampamento de índios paiacús, que contava com a presença do padre João da Costa, apresentou-se naquele lugar sendo recebido com festejos no dia 4 de agosto. Diante de uma situação de desconfiança mútua, Manuel Morais Navarro alvejou um tapuia como uma senha para que seus comandados abrissem fogo contra aqueles índios paiacús. Depois da sangrenta batalha, quase todos os habitantes daquela tribo de paiacús foram mortos e Morais Navarro teve que prestar contas à Junta das Missões (PUNTONI, 2002, p. 243-245).
Com este exemplo, fica evidente o valor estratégico da ribeira do Jaguaribe e as motivações das disputas ali empreendidas. As primeiras doações de terras nesta região quase sempre possuíam, dentre suas justificativas, a participação dos solicitantes na luta contra o gentio bárbaro. No caso do pedido de sesmaria de 30 de outubro de 1707, empreendido por Raulino Gomes da Silva, Tenente Simão Rodrigues e Manoel Teixeira, moradores da “fronteira do rio Jaguaribe”, os suplicantes afirmam que
(...) sam rezidentes nas fronteiras da Ribeira do Jaguaribe donde se acham prontos pera as ocazioins de defensam dos barbaros e sam dos primeiros
20 Utilizamos aqui a perspectiva de sertão defendida por Kalina Vanderlei Silva (2010, p. 117). Para a autora:
“Não se tratava, dessa forma, de um sertão, mas de vários sertões. Cada um correspondendo ao interior de determinado rio, um determinado lugar bem específico. Ou seja, usava a palavra para definir lugares indefinidos e vagos. Um nome para um espaço sem nome”.
povoadores com he notorio e nam tem terras pera apozentarem seus gados se hopuzerem a risquo de suas pessoas e despezas da fazenda 21.
Os concessionários desta sesmaria se colocaram como prontos para as ocasiões de
defesa dos bárbaros, levando a crer que já participaram de lutas, inclusive porque um possuía
a patente de Tenente, e por serem dos primeiros povoadores queriam garantir terras onde poderiam criar seus gados. Temos aqui a tentativa de unir o predicado de uma possível “função militar” da ocupação da terra à sua real função econômica e social, ou seja, a criação de gado para alimentação e fabricação de utensílios.
Com o avançar do século XVIII, a distribuição de terras foi “subindo” a ribeira do Jaguaribe, distribuindo-se também por seus afluentes e os pedidos que antes eram, geralmente, de concessão de terra para posterior ocupação, transformaram-se em confirmação de terra já ocupada. Como no caso do Capitão José de Araújo Rêgo, “morador no termo da Villa do Icó”, alegando que
(...) elle tem povoado hû Sittio no riacho do Truscû ao qual chamão N. Senhora do Solidade pertencente a Ribeira do quixelô por achar as ditas Terras Dezertas e desaproveitadas e se Lhê que em algû Tempo foram pedidas ou dadas por Sismarias a Pessoa algua não forão povoadas e cuja rezão as povoou o Supplicante e esta poSuindo e por que Carece de Título para melhor concervação (...) 22.
Neste caso, temos a doação de uma sesmaria na testada de um rio afluente do Jaguaribe para um morador do termo da segunda vila mais importante deste rio, que se localizava no sertão, a vila de Nossa Senhora da Expectação do Icó. Dali saíram tangedores e vaqueiros que se encontravam para conduzir suas boiadas para as feiras da cidade da Parahyba e nas vilas de Goiana, Igarassu e Recife, entre outras, naqueles primeiros anos de criação de gado. Em outra situação, estes trabalhadores rumavam também rio abaixo para comerciarem seus gados na vila de Santa Cruz do Aracati, já durante a produção de carnes secas.
A vila do Icó foi a terceira vila criada no Siará Grande, em 1738, e que tinha dentre seus moradores grandes proprietários de terras e gados. Mas no caso do capitão José de Araújo Rêgo, para este pedido, não foi citada como justificativa a criação de gado, no que podemos inferir que aquela terra serviria para plantação de alimentos de subsistência, ou ele apenas não queria pagar o dízimo dos gados.
21 Pedido Nº 257 de 30/10/1707. In: Datas de sesmarias do Ceará. Op Cit. (Grifo nosso). 22 Pedido Nº 535 de 31/12/1748. In: Datas de Sesmarias do Ceará. Op. Cit. (Grifo nosso).
Podemos afirmar, a partir da documentação das sesmarias, que a ocupação da ribeira do Jaguaribe, tendo em vista sua extensão, foi rápida. Desde o início do século XVIII, quando as guerras e batalhas contra os bárbaros os havia empurrado mais para o oeste, as terras nas testadas dos rios foram sendo distribuídas de maneira frequente, porém, já para os primeiros anos da década de 1740 os pedidos passaram a ficar cada vez mais raros. Podemos visualizar isto na tabela abaixo, baseada em análise sistemática das Datas de Sesmarias da Capitania do Siará Grande para a primeira metade do século XVIII
TABELA 2: Doações de sesmarias na ribeira do Jaguaribe
Período Nº de Cartas Nº de Sesmeiros
1681 01 13 1704-1708 47 65 1711-1719 18 27 1720-22 18 25 1746-1748 04 05 Total 88 135
Fonte: Datas de Sesmarias do Ceará e índices de datas de sesmarias. Op. Cit. 23
Na tabela, podemos ainda observar certos períodos de falta de pedidos, em contraponto com anos de muitos requerimentos, como entre 1720 e 1722 com 18 sesmarias distribuídas. Nesse sentido, podemos atribuir a rápida expansão de doações de terras no Jaguaribe, além do interesse dos colonizadores, a violência com que se deu tal processo. Percebemos isso em dois elementos já comentados aqui: em primeiro lugar, no aumento vertiginoso das doações feitas à época dos mais sangrentos conflitos, como o Massacre do
Jaguaribe, que empurraram os indígenas para outros sertões, talvez para a região do cariri ou
para o Piauhí; e, em segundo lugar, nas justificativas dos pedidos de sesmarias, isto é, o combate ao índio brabo e a posse de gado sem ter terra para criá-los.
Na segunda metade do século XVIII, o já conhecido rio Jaguaribe era descrito pelo governador e capitão-general da capitania geral de Pernambuco, José Cezar de Menezes, em uma espécie de relatório finalizado no ano de 1774. No texto, o governador informa que o Jaguaribe tinha a extensão de
(...) trinta e cinco léguas de Costa, que parte do Norte principião nos Salgados que divide da ribeira do Seará, e faz extremas no rio Mossoró onde principia a capitania do Rio Grande, como acima se disse: por esta parte só
entra trinta Legoas pela terra adentro; mais passa pelo norte como corre pela Freguezia de Quixeramobim até os caratius tem mais de oitenta (...) 24.
Podemos, baseados no relatório de José Cezar Menezes, afirmar que aquela ribeira do Jaguaribe – a “primeira” a ser de fato colonizada no Siará Grande – após ter despertado tantos interesses por ter uma grande quantidade de rios e riachos e por localizar-se logo na “entrada” da capitania, tornar-se-ia a mais dinâmica daqueles sertões, pois fez com se enraizassem interesses comerciais, transformando vilas do sertão em mercados consumidores de produtos (fazendas, mel, vinho) vindos do porto do Recife, quiçá de outras partes do Atlântico.
*
Enfim, neste tópico nos concentramos nas consequências da guerra de reconquista de Pernambuco e seu posterior “caldeirão” político-social para o sertão. Na distribuição de terras como pagamento das tropas que participaram das refregas, o assentamento das propriedades fez-se contra o gentio bárbaro, nativo daqueles sertões que dificultou a colonização do interior do continente até, pelo menos, metade do século XVIII. Esta dificuldade transformou-se em justificativa para se obter mais terras, onde os aspectos da violência e do derramamento de sangue caracterizaram a conquista dos sertões do Siará Grande. Tal característica fica impressa ainda hoje nos topônimos cearenses: o Riacho do Sangue, Riacho dos Defuntos,
Varge da Cruz, Lagoa dos Órfãos, entre outros (GOMES, J., 2010, p. 35-43). Dessa forma,
preparamos nosso terreno para o próximo tópico, que analisa a pecuária como vetor econômico e social da conquista dos sertões.
24 IDÉIA da População da Capitania de Pernambuco, e das suas anexas, extensão de suas Costas, Rios, e
Povoações notáveis, Agricultura, numero dos Engenhos, Contractos, e Rendimentos Reaes, augmento que estem tem tido &a &a desde o anno de 1774 em que tomou posse do Governo das mesmas Capitanias o Governador e
Capitam General José Cezar de Menezes. In: Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, volume XL, Rio de Janeiro: Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1923, p. 6.
2.3 “Ao passo do gado”: atividade pastoril e colonização do Siará Grande
A efetiva conquista e colonização dos sertões das “capitanias do norte” do Estado do Brasil tiveram em seus princípios uma estratégia baseada na doação de terras. E isso partiu dos dois lados: da administração régia que incentivava os governadores e capitães-mores das capitanias a doar terras e, do outro lado, dos colonizadores que enxergavam na posse da terra uma maneira de formar seu poderio local a partir dos arrendamentos e do uso do absenteísmo como forma primordial de ocupação.
Diferente das terras do litoral leste, a maior parte do sertão tinha aspecto seco e árido durante boa parte do ano, só ficando com sua vegetação verde durante o período chuvoso – isso quando não havia estiagem. Dessa forma, o vetor econômico de ocupação não poderia ser a cana de açúcar, muito menos porque, caso isso fosse possível, iria acarretar em concorrência para as plantações do litoral. Por motivos que serão vistos neste tópico, a criação de gado predominou como atividade econômica no sertão e acabou formando, segundo alguns historiadores, uma sociedade sertaneja distinta da zona do açúcar, baseada no pastoreio.
Os agentes formadores desta pretensa sociedade sertaneja foram aqueles que, num primeiro momento, exterminaram os indígenas ou os reduziram a inúmeras aldeias. Depois o soldado, o sargento ou mestre de campo que pertenciam às tropas conquistadoras passaram a se misturar com o nativo para depois subordiná-lo ao trabalho de casa e à lida nos currais de gado espalhados pelo sertão e, assim, colonizar de forma efetiva os sertões das capitanias do
norte do Estado do Brasil.
Destas relações sociais e econômicas surgiram currais com número excedente de rezes, que passaram a ser comercializadas nas vilas e nos povoados onde se juntavam quantidade maior de pessoas a fim de trocarem seus produtos: surgiam assim as feiras de gado no sertão. No deslocamento das boiadas era preciso pelo menos três “tipos de trabalhadores” para evitar que o gado não se perdesse ou se misturasse com outras boiadas, além de encontrar o melhor caminho que tivesse pastos e poços d’água suficientes, o tangedor, o passador e o vaqueiro. A abertura de estradas, primeiro margeando os leitos dos rios, depois “cortando” sertão à dentro, esquadrinhou as vias de acesso às localidades nos sertões até hoje.
Para uma análise específica sobre como a pecuária foi um vetor importante na colonização do sertão, será empreendida uma discussão historiográfica sobre o tema, lançando as bases para que, no capítulo seguinte, possamos abordar nosso tema central. No intuito de verticalizar um assunto já bastantemente tratado, analisaremos a “expulsão do gado”
discutindo a possível existência de um projeto de colonização (ou de projetos) para os sertões das capitanias do norte do Estado do Brasil.
2.3.1 A pecuária na historiografia
A historiografia clássica brasileira que tratou de uma história agrária ou uma história do abastecimento, analisou de forma quase homogênea as motivações e consequências da atividade pastoril nos sertões da capitania geral de Pernambuco. Para Capistrano de Abreu (2000, p. 150-151), diante dos entraves da colonização do interior do continente “a solução foi o gado vacum” que “dispensava a proximidade da praia, pois, como as vítimas dos bandeirantes, a si próprio transportava das maiores distâncias e ainda com mais comodidade”, além de ter outras qualidades tais como exigir mão de obra diminuta, pouco investimento e, principalmente, fornecer transporte e alimentação constante em lugar tão ermo. Isto é, a pecuária foi entendida por ele como um prolongamento da sociedade que se formara no litoral açucareiro e que passou a existir em função dela.
Também segue esta linha Caio Prado Júnior (2000, p. 190), embora conferindo certo destaque ao pastoreio no mercado interno brasileiro. Para ele seria a pecuária “a única, afora as destinadas aos produtores de exportação, que tem alguma importância. Não é com justiça que se relega em nossa história para um plano secundário”. O autor dá ainda destaque para a montagem da estrutura produtiva e o grande mercado consumidor, destacando que
A rapidez com que se alastram as fazendas de gado se explica, uma parte, pelo consumo crescente do litoral e das minas, bem como pela pequena densidade econômica e baixa produtividade da indústria; mas doutro, pela facilidade incrível como que se estabelece nestes sertões uma fazenda. (PRADO JÚNIOR, 2000, p. 193).
Segundo Prado Júnior (2000, p. 193), para esta atividade
(...) mão-de-obra não falta, e não havendo escravos, bastam destes mestiços de índios, mulatos ou pretos que abundam nos sertões, e que, ociosos em regra e avessos em princípio ao trabalho, tem [para a pecuária] uma inclinação especial.
Nesse sentido seguem outros autores, com destaque para Celso Furtado, que analisou a atividade pastoril como uma projeção do dinamismo econômico gerado pela economia do açúcar. Isto é, a geração de uma demanda por suprimentos alimentares que justificasse a
procura por terras que não fossem aquelas usadas para o plantio da cana de açúcar. Para Furtado (2007, p. 96), “a criação de gado (...) era uma atividade econômica de características radicalmente distintas das da unidade açucareira. A ocupação da terra era extensiva, e até certo ponto, itinerante”.
Ainda nesta linha temos os escritos de Roberto Simonsen (1977, p. 150) que, analisando “os fatores econômicos que permitiram a ocupação do sertão e a manutenção de tão dilatadas regiões sob o domínio lusitano”, assinala que a criação de gado e a caça ao indígena para o trabalho nos engenhos do litoral já contam como motivações essenciais para a interiorização da colonização nas capitanias do norte. No entanto, podemos observar certo “avanço” nos escritos de Simonsen que atribuem à pecuária uma grande contribuição na formação unitária do Brasil, principalmente nas regiões Nordeste e Sul. O autor, escrevendo entre os anos 1930-1940, chama atenção ainda para o vultoso comércio de couros, sejam secos ou salgados, que movimentava vários portos da América Portuguesa. Para ele
Computando-se o consumo de carne no país, o uso do gado bovino como elemento trator, o largo emprego industrial do couro e os aspectos sociais e políticos decorrentes da atividade pecuária, compreende-se o valor da contribuição anual e permanente dessa exportação e os benéficos proventos que dela resultam para a formação política e econômica nacional. (SIMONSEN, 1977, p. 172).
Em uma perspectiva de estudos mais “regionais”, e que, portanto, procuram de certa forma “valorizar” aspectos locais, podemos destacar os escritos de Djacir Menezes e Manuel Correia de Andrade. No seu “livro-contraponto” ao Nordeste de Gilberto Freyre, Menezes busca a junção da sociologia à história e uma pretensa “sócio-biologia” para explicar O Outro
Nordeste. Este autor constrói seu texto identificando duas “personalidades” principais que habitam os sertões semiáridos: o cangaceiro e o fanático. Assim teria se constituído uma sociedade de violência que tem na pecuária seu principal vetor econômico, no qual os vadios e facínoras que foram habitar estes sertões estavam aptos a levar uma vida nômade e aventureira. Para Menezes (1970, p. 33),
O desenvolvimento da indústria pastoril é célebre. (...) A tal ponto avulta a indústria pastoril, que Maranhão, Pernambuco e Bahia foram abastecidos pela carne xarqueada saída do Aracati, onde se abate anualmente 20.000 reses. A seca de 1792 liquidou todo esse comércio.
Para outro importante autor a conquista dos sertões, feita a partir do Recife e de Salvador, assim como destacou Capistrano, não fora empreendida por grandes senhores como
os Garcia D’Ávila ou Guedes de Brito. De acordo com Manuel Correia de Andrade (1980, p. 163) a interiorização da colonização, isto é, “a luta difícil em um meio hostil contra selvagens belicosos, assim como a defesa das rezes deixadas nos currais como verdadeiros marcos do avanço do movimento povoador, eram feitas pelos vaqueiros”, envolvendo “grandes capitais [e], embora em menores proporções do que na área açucareira, foi utilizado o braço escravo negro ao lado do indígena”. Ou seja, o autor se alinha com uma visão de “sentido da colonização” fundada por Caio Prado Júnior, mas incluiu uma “classe trabalhadora”, isto é, os vaqueiros e seus funcionários, como agentes importantes no avanço da pecuária sobre as terras do sertão.
Também para Fernando Novais (1995, p. 106), a pecuária constituiu-se como um setor “subordinado e dependente do primeiro, de subsistência, para atender ao consumo local naquilo que se não importa da metrópole, no qual cabe a pequena propriedade e o trabalho independente, que se organiza para permitir o funcionamento do primeiro [setor, ou seja, de exportação]”. Ainda segundo Novais (1995, p. 106-107), “o setor de subsistência pode adquirir certo vulto, como no caso da pecuária, e então se organiza em grandes propriedades, ou noutros casos, incorpora o regime escravista”.
Em perspectiva bem específica, isto é, numa história agrária e do abastecimento, outros autores se destacaram nas últimas décadas do século XX. Num grupo que ficou conhecido por produzir em torno de temáticas como a fome, a miséria e a falta de políticas para a população mais pobre, os temas de alimentação e abastecimento alimentar são estudados desde os tempos da colônia até a contemporaneidade, ou seja, problemas de longa permanência em nossa sociedade. De acordo com Maria Yedda Leite Linhares (1979, p. 191- 192),
A carne verde [fresca], mais do que qualquer outro gênero de alimentação, persistiu no passado brasileiro como um problema de abastecimento dos centros urbanos a desafiar leis, instituições, regimes políticos, doutrinas econômicas, governantes, consumidores e soluções. Dela sempre todos se queixam – má qualidade, escassez, carestia, como uma litania que tem seus primeiros refrões no século XVII, em praticamente qualquer aglomeração urbana na colônia, continuando na mesma toada, através do século XIX e penetra na República, sem quebra de ritmo.
Isto é, as insistentes reclamações de governadores e câmaras municipais em relação à falta de abastecimento de carnes verdes, farinha, sal, feijão, entre outros gêneros, com as quais nos deparamos na documentação relativa ao período colonial persistiram no império e ainda continuaram boa parte de nosso período republicano. Analisando também a situação histórica
da conquista e colonização dos sertões das capitanias do norte, a mesma autora enfatiza, em