As atividades empreendidas no Centro Social, logo após as visitas orientadas à UTC, funcionaram como um prolongamento das informações recebidas nas visitas. Geralmente o público participava de forma passiva nas palestras e de forma ativa nas oficinas em dinâmica de grupo. As palestras permitiam alguma expressão do público, se manifestando em relação a
dúvidas e/ou comentários; entretanto, em matéria “de desvendar o pensamento” desse público, as dinâmicas foram decisivas enquanto coletoras de depoimentos, considerados como informações riquíssimas para a pesquisa.
Conforme comentado anteriormente, apenas no Centro Social as donas-de-casa participantes assinavam o livro de visitas da usina, possibilitando inferir sobre o percentual de comparecimento. Para determinar quem seriam as que compareceram, contou-se com a ajuda das agentes, identificando-as e classificando por bairros. Esse procedimento foi fundamental para que se soubesse quais donas-de-casa deveriam ser novamente procuradas para a aplicação do Questionário no 2, que avaliava as atividades de mobilização. A Tabela 7.6 a seguir identifica o número de pessoas presentes em cada dia de evento, incluindo as que não faziam parte do público-alvo.
Tabela 7.6 – Comparecimento aos eventos de mobilização
Data do evento Número de donas-de-casa participantes
Outras pessoas,
incluindo crianças Total
12/5 10 6 16 14/5 17 8 25 17/5 18 5 23 19/5 17 5 22 21/5 23 30 53 24/5 30 30 60 26/5 9 20 29 28/5 27 39 66 Total 151 143 294
Apurou-se que, das 151 participantes da segunda fase, 43,7% eram moradoras da Vila Fátima, 23,2% moravam no Centro, 18,5% na Vila Mendes e 14,6% no Bairro Nossa Sra Conceição. Esse fato influenciou o resultado da avaliação do grau de separação do lixo na esteira após as atividades de mobilização, como será visto mais adiante, na avaliação geral dos resultados da mobilização.
Conforme descrito na metodologia, as oficinas em dinâmica de grupo eram estratégias de mobilização fundamentadas no método de estudo dos pequenos grupos e favorecia, portanto, a exposição das opiniões e sentimento das donas-de-casa, ao privilegiar a “palavra livre” e ao registrar essa “palavra” para reapresentá-la, mais tarde, a esse mesmo público, como se fosse um reconhecimento de que essa “palavra” tivesse sido importante.
Entretanto, para Afonso (2000), “não se deve esperar um dado resultado a partir de uma técnica, no sentido de suscitar um conteúdo previamente delimitado.[...] O resultado esperado não é um conteúdo e sim um processo[...] o grupo é que irá dar conteúdo [...].” Então o que foi falado, durante as oficinas, pelas donas-de-casa, foi considerado o conteúdo em si, na medida em que refletia os motivos da não mobilização desse público para a ação que se pretendia investigar: a separação do lixo em casa.
Ainda segundo Afonso (2000) as oficinas não podem ser encaradas como um método de manipulação, mas sim um método participativo de análise psicossocial, cujos processos podem ser estimulados e não induzidos. Dentro dessa perspectiva, as oficinas em dinâmica de grupo ofereceram os elementos a serem analisados através das falas que afloraram durante a sua execução.
Passa-se, a seguir, a enumerar as falas colhidas durante as oficinas em dinâmica de grupo. São as falas mais comuns que chamaram a atenção devido à sua importância ou à incidência com que ocorreram. Ressalta-se que a redação procurou ser o mais fiel possível às originais; entretanto, algumas foram reproduzidas levando em consideração o pensamento de uma e complementando com o de outra, desde que um dos pensamentos exposto fosse repetido, ou seja comum a duas ou mais de duas participantes.
Escolheu-se a forma de apresentação em forma de itens, já que algumas falas apresentam redações mais extensas, dificultando a sua formatação em outra forma de apresentação, como em um tabela. Cabe ressaltar que a ordem em que são enumeradas não significa ordem alguma, seja ela cronológica ou de freqüência de aparecimento. Aliás, a contagem do número de vezes que determinada fala ocorreu não foi feita.
Ressalta-se ainda, conforme já exposto na Metodologia, que as falas colhidas serviram de base para a escrita do texto do teatro que foi apresentado posteriormente, no fechamento das atividades de mobilização. Mais que um re-enunciar de falas, o teatro buscou mostrar a importância das falas para todo o processo. Finalmente, a seguir, são enumeradas algumas das principais falas, agrupadas por grupos temáticos:
1) A prática da queima do lixo:
Existe um sujeito que queima lixo no fundo do quintal da casa dele e a fumaça pára lá em casa... Agora estou preocupada, já que causa câncer.
Eu queimava o lixo em casa para sumir com ele.
Eu queimava todo o meu lixo e o meu filho que é universitário falava que eu não devia, porque estava causando poluição. Agora com essa história de que a fumaça é cancerígena, vou parar.
2) Sentimentos ambíguos em relação ao lixo:
Quando eu cheguei na usina e vi aquele monte de laranja espremida, pensei logo: “Chi.... É o lixo lá do hotel. Que vergonha!”
Eu separava meu lixo mas, meus vizinhos não separavam, então eu parei. Me sentia fazendo papel de boba.
Gente, misturar o lixo não é chique, não! Está super fora de moda! 3) Comportamentos e dúvidas sobre a separação do lixo:
Eu fui na usina e vim aqui e aprendi. E as minhas vizinhas que não vieram? Então agora eu vou organizar o meu lixo direitinho, mas vou deixar escrito: ESTE LIXO É DE FULANA.
Na minha casa somos dez pessoas. É muita gente para pedir para separar o lixo. Eu brigo com eles todos os dias!
Mesmo que eles peçam para separar em duas sacolinhas: uma para o lixo seco e outra para o orgânico, eu ainda coloco outra sacolinha (a terceira) para o rejeito. Assim o pessoal da usina não precisa mexer com os papéis higiênicos.
Às vezes eu tenho dúvida na hora de classificar o lixo. Por exemplo: O que eu faço com o “bombril” usado?
Quando quebra vidro na minha casa, embrulho bem embrulhadinho e ainda escrevo: VIDRO. Para não machucar os rapazes
4) O conhecimento sobre o funcionamento da usina:
Antes eu pensava que o lixo da cidade ia para um lixão. Agora foi bom conhecer a usina de separação.
Eu mesma já tinha ido na usina várias vezes e não tinha percebido que era assim. Achava que as máquinas que faziam o trabalho de separação. Para os operários fazerem a separação é difícil mesmo.
Antes eu pensava que os operários estavam lá na usina para isso, que ganhavam para isso. Agora eu vejo que mesmo assim, preciso colaborar separando o meu lixo, porque senão fica muito difícil para eles.
Acho que as visitas como aconteceram, vão resolver, porque a gente foi e viu. Essa história de livrinho e folhetinho não adianta.
5) A falta de motivação ocasionada pelas condições de coleta ou transporte:
Eu separava o lixo, mas reparava que o coletor jogava os sacos de qualquer jeito na carroceria do caminhão, misturando tudo. Então eu pensei: “Para que vou continuar separando? Perda de tempo!”
Porque foram retirados os latões das ruas????
A gente até que quer separar o lixo, mas não temos sacolinhas plásticas suficientes. Se for comprar saco de lixo, fica caro. Quando a gente faz compra de mês no supermercado, eles colocam as compras em um engradado, para entregar na casa da gente. Vem pouca sacolinha então!
6) Preocupação com o esgotamento dos recursos naturais:
Eu estou preocupado (fala de um marido de dona-de-casa) com isso que foi falado na palestra: que o petróleo vai acabar. Quase tudo vem do petróleo: gasolina, plástico.... Percebeu-se que as falas anteriores estariam carregadas dos motivos da mobilização e/ou da não-mobilização e continham em si os elementos necessários a provocar a mudança de comportamento desejada. É como se tudo se passasse de forma que outras falas estariam subentendidas assim: “se eu tivesse sacolinhas suficientes; se o coletor não misturasse o lixo na carroceria do caminhão, etc.; eu separaria o lixo!”
Entretanto, a conclusão julgada como a mais significante foi a constatação de que alguns depoimentos apontaram para a importância das visitas à usina de lixo. O que antes era apenas uma hipótese revestida de intuição passou a ser um fato comprovado, corroborado pelas falas durantes as oficinas e pelas respostas ao Questionário no 2, conforme será exposto a seguir.
Considerou-se que o espaço para expressão oferecido pelas oficinas foi o principal componente para que se cumprisse a pesquisa-ação como é idealizada: o público pesquisado sendo ouvido e respeitado em seus pensamentos sobre a ação que se pretendia realizar. E esse
ouvir e analisar o que foi falado serviria como base, então, para as futuras tomadas de decisões no sentido de como viabilizar mobilizações mais eficazes.