Neumann (1991) e Navajas Filho (1998) apontam correlações entre o desenvolvimento das habilidades necessárias para o exercício da maternagem na vida adulta à história pregressa da relação do cuidador com sua figura materna, e a qualidade dos cuidados primais que lhes foram dedicados. Um indivíduo bem cuidado na infância tem maiores chances de formar um ego bem estruturado, capaz de se manter como núcleo da consciência, fornecendo senso de identidade e autonomia, mantendo-se maleável às forças internas de seu psiquismo e às demandas da vida em sociedade.
A humanidade é uma unidade psicossocial. Nenhum ser humano pode existir e desenvolver suas faculdades especificamente humanas em isolamento. A existência humana só é possível enquanto existência social. Os arquétipos humanos são, portanto, a expressão de relações entre seres humanos. O fator social é pré-psíquico; então, a psique, que se vai diferenciando na realidade unitária, aos poucos vai formando imagens nas quais esse estado de coisas pré-psíquico se expressa e se torna inteligível (Neumann, 1991, p.70).
É função do ego adaptar-se ao conjunto de crenças, valores e cultura compartilhado por seu grupo social, e ao mesmo tempo absorvê-lo, significá-lo e reeditá-lo de modo dinâmico e singular. É no íntimo de cada ser humano em constante interação com a coletividade que as forças arquetípicas e a cultura se realizam, tornando-se ao mesmo tempo perenes e mutáveis (Singer, 2002).
Neste sentido, vale lembrar que há três conceitos fundamentais na psicologia junguiana envolvidos na relação que cada ser humano estabelece com os aspectos arquetípicos: os complexos, a sombra e a persona.
Certamente as crenças e valores sócio-culturais são as condições ambientais que compõem o repertório de experiências do indivíduo em formação, contribuindo para a constituição de sua consciência, tanto quanto para a constelação de complexos, que são idéias, associações e emoções que se aglomeram no inconsciente em torno de um determinado tema arquetípico e que, por serem alimentados pela energia psíquica vivem de modo autônomo, causando repentinas interferências na autonomia do ego. Os complexos podem se relacionar ao arquétipo da sombra que reúne valores e potenciais negligenciados ou preteridos pelo ego a partir de suas relações com a sociedade. Nem sempre a sombra reúne apenas aspectos negativos ou prejudiciais, pois seu diálogo com um ego fortalecido,
conforme discutido, pode promover a ampliação da consciência, o reconhecimento de potenciais e outras manifestações criativas (Grinberg, 2003).
No entanto, um ego enfraquecido, diante de experiências materno-filiais traumáticas, pode constelar um complexo materno negativo na mulher, promovendo uma identificação impessoal e estereotipada com o arquétipo da Grande Mãe. Estas situações podem gerar a exacerbação do instinto materno, de modo que se torne inconsciente de si própria, e viva sua vida “nos outros e através dos outros” (Jung, 1939/2008, p. 97). O aspecto oculto por trás de todo o exagero de cuidados e sacrifícios é o desejo de poder do instinto materno, que ameaça aniquilar a personalidade da mulher e de todos os envolvidos em seus cuidados.
Woodman (2003) relembra que mulheres que se relacionam com o arquétipo da Grande Mãe de modo irrefletido, correm o risco de sucumbirem ao domínio das forças inconscientes, às projeções de cólera e desconfiança devoradora e manipuladora, como a personagem da mitologia “Medusa que transforma as pessoas em pedra. Se elas tentam fazer qualquer coisa criativa, ficam imobilizadas. Ou petrificadas.” (p.40). A dificuldade do ego comunicar-se com as forças do feminino inconsciente “pode ser a causa real de nossa angustiada situação de vida” (Woodman, 2003, p.11).
Outros complexos na mulher, oriundos de identificações negativas com o arquétipo materno, se relevam na dificuldade de assumir as atribuições do casamento e da maternidade, por comparar-se com a Grande Mãe idealizada e se sentir incapaz; ou na obliteração do instinto materno, compensado pela exacerbação do eros e no estabelecimento de relacionamentos de intensidade orgiástica porém efêmera.
O complexo materno quando vivenciado de modo equilibrado, ou seja, quando a mulher vivencia a experiência enquanto filha e, posteriormente como mãe, amparada por uma rede de significados culturais e pessoais que lhe permita se identificar com os aspectos positivos do arquétipo da Grande Mãe, se tornará capaz de acolher e proteger seu filho, nutrindo-o e provendo-lhe condições para seu desenvolvimento (Waiblinger, 1992).
Além da sombra e dos complexos, outra estrutura psíquica imprescindível para a vivência e integração dos aspectos arquetípicos ao longo do desenvolvimento da personalidade, refere-se à persona, ou o conjunto de atitudes e aparências relacionadas ao
exercício de papéis sociais, “um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que ‘alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo’.” (Jung, 1971/2008, p.32). De acordo com sua definição, a persona é enraizada no coletivo, ou seja, possui um conjunto de atributos idealizados socialmente. No entanto, sua manifestação também é individual, na medida em que, ao identificar-se com determinados padrões, o ego além de revelar sua pretenção em atestar socialmente o domínio sobre determinadas habilidades e características, também reconhece partes de sua natureza, revelando e desenvolvendo possibilidades e integrando-as à consciência (Grinberg, 2003).
Especificamente no desenvolvimento psíquico feminino, muitas personas podem ser vivenciadas a partir das experiências enquanto filha, irmã, amiga, aluna, profissional, namorada, esposa, mãe, avó. Todas elas podem acionar habilidades úteis ao desenvolvimento como jovialidade, partilha, aprendizado, racionalidade, sensualidade, parceria, alteridade e sabedoria...
No entanto, Singer (2002) relembra que muitas vezes a persona pode servir para ocultar a verdadeira natureza individual, principalmente nos casos em que a mulher “tem receio de não ser aceitável sendo quem realmente é, ou por simplesmente ainda não ter identificado quem realmente é.” (p. 231). A identificação exacerbada e irrefletida com uma persona, que não corresponda à realidade individual, pode bloquear o fluxo de energia psíquica e tolhir a manifestação de sentimentos, aspirações e talentos. A fim de lutar contra a repressão, os “conteúdos contrastantes e compensadores do inconsciente” (Jung, 1971/2008, p.33) podem se manifestar por meio de sintomas, sonhos, fantasias, arroubos e rompantes comportamentais.
A identificação rígida e irrefletida do ego com a persona, além de representar prejuízos ao self, ou à totalidade da personalidade individual, também pode representar prejuízos à convivência grupal, conforme as considerações de Neumann (1991).
Por outro lado, a adaptação do indivíduo ao coletivo, sem consideração por suas próprias necessidades, não apenas castra o indivíduo como também põe em perigo a comunidade, pois uma adaptação assim incondicional à coletividade transforma os homens em componentes de uma massa e, como a história da humanidade tem repetidamente demonstrado, torna-os uma presa para qualquer tipo concebível de psicose de massas. (p. 37)
Em certa medida, vivenciar as atribuições maternagem e de seus prolongamentos nos cuidados aos alunos com deficiências de modo automatizado e idealizado, pode incitar à identificação maciça com a persona de cuidadora. É necessário o reconhecimento deste mecanismo para que a personalidade conquiste sua originalidade e autonomia, e prossiga em seu processo de individuação.