1.4 X-ray sources
1.4.2 Synchrotrons
Em sua história republicana, o Brasil sempre teve no horizonte as relações com os Estados Unidos da América, ainda que elas tenham pendulado entre posições mais ou menos alinhadas à potência do norte. Bandeira 105argumenta que essas relações foram marcadas pelo inconformismo brasileiro com a hegemonia dos EUA e que
[a]s relações competitivas entre o Brasil e os Estados Unidos foram determinadas por fatores históricos e geográficos, na medida em que ambos se tornaram duas enormes massas de terra, com grandes contingentes populacionais e, apesar da assimetria, as duas maiores economias do hemisfério. 106
A alvorada da República no Brasil, para alguns que ajudaram a instalá-la, deveria vir acompanhada da superação da herança colonial e da modernização do país, adequando-o à modernidade industrial. As manifestações mais radicais do nacionalismo passam a ver o capital externo com desconfiança, propondo-se, inclusive, a expropriação de empresas e a expulsão do capital europeu. Neste instante, paradoxalmente, o nacionalismo era acompanhado pela tendência de americanização do país.107 A nova constituição elaborada sob a batuta de Rui Barbosa era de nítida inspiração estadunidense. Fato que se manifesta na proposição para a primeira bandeira republicana: cópia da norte americana, apenas mudando-se as cores para o verde e o amarelo, e o batismo do país como Estados Unidos do Brasil.
Argumenta Bandeira que a americanização refletia o espírito da classe que chegava ao poder e era contrária ao anterior domínio inglês. A oferta de crédito ‘mais barato’ pelos Estados Unidos era visto como opção para o financiamento do desenvolvimento brasileiro. Neste sentido, entende-se a defesa da doutrina Monroe pelo positivista Benjamim Constant.108 Manifesta-se, ainda, a importância da
105 1989.
106 2003, p.41.
107 BANDEIRA, 1997a, p.121. 108 BANDEIRA, 1997a.
movimentação dos grupos de interesse que se relacionam com a busca de mercados para seus produtos. Acordos aduaneiros e comerciais propostos pelos Estados Unidos e negociados pelo representante comercial brasileiro nos Estados Unidos, Salvador de Mendonça, geram forte reação em setores sociais que defendiam a industrialização do país e que identificavam neste movimento a inviabilização de qualquer projeto nacional de constituição da autonomia industrial. Ressalte-se que, entre 1889 e 1906, o café e a borracha representam cerca de 70% das exportações brasileiras, sendo, portanto, atividades defendidas por importantes setores da sociedade. De modo contrário, os setores que não estavam alinhados com tais atividades reagem. Pode-se identificar em tais manifestações uma mutação e diversificação do sentimento nacionalista, que também passaria a abrigar doses de antiamericanismo.
Veem, pois, delineadas e confrontadas desde o início da República duas correntes distintas. À primeira, ‘industrializante’ – e frequentemente especulativa, inflacionista e cavadora de negócios, embora no fundamental portadora de valores de progresso tão ao gosto da época e afim, até certo ponto, com o reformismo positivista -, contrapunha-se uma segunda corrente, mais sólida e conservadora. 109
A postura dos Estados Unidos da América em relação ao Brasil e ao continente seria criticada por importantes personagens da vida política brasileira. Joaquim Nabuco - posteriormente o primeiro Embaixador brasileiro nos EUA em 1905 -, por ocasião da revolta da Armada (1893-4), ocorrida no governo de Floriano Peixoto, considerou a atuação da marinha dos Estados Unidos no conflito um atentado à soberania do Brasil. Oliveira Lima, observando as ações dos EUA no Havaí, Porto Rico, Filipinas, Cuba e na América Central, denunciou o imperialismo dos ianques. Coro engrossado por Rui Barbosa que pede atenção e cuidado face à postura dos países ricos que desejavam ‘colonizar’ as nações mais pobres.
A investidura do Barão do Rio Branco ao cargo de ministro das relações exteriores marcaria a tentativa de atualização da política exterior do Brasil às condições reais do período. Neste sentido, sua gestão (1902-1912) poderia ser sintetizada com as seguintes características: a) tentativa de constituição de uma supremacia compartilhada na América em conjunto com os EUA; b) restauração do prestígio
internacional do Brasil; c) intangibilidade da soberania; d) defesa dos interesses agrário-exportadores e e) solução dos problemas das fronteiras nacionais do Brasil. Desenvolve-se a ideia de um país destinado à liderança regional no espaço latino- americano.
Tal concepção, segundo o Barão do Rio Branco, impunha a imitação, na parte sul do continente, do modelo de atuação dos Estados Unidos. Fato explicado na correspondência de Rio Branco a Joaquim Nabuco: “Somente pelas vitórias fecundas da paz é que poderemos um dia imitar a nossa poderosa irmã e aliada no Norte e alcançar um dia a seu lado a influência a que ela já tem sabido conquistar no mundo”. 110 A intenção era expandir a internacionalização do Brasil para que pudesse, usando de suas capacidades de poder, reivindicar o status de potência. Observe-se que a política externa do Barão, além de levar em conta a dependência das exportações brasileiras de café para o mercado dos Estados Unidos (quase 70%)111, também encampava valores estratégicos. Neste sentido, considera Bueno que
[o] aprofundamento da amizade Brasil-Estados Unidos não decorria somente das demandas do setor exportador. Rio Branco via na potência mundial do hemisfério, um neutralizador contra eventuais intervenções e um reforço da posição do país nas negociações destinadas a solucionar os ainda pendentes problemas de fronteira. 112
Esta estratégia de aproximação com a potência hegemônica do Novo Mundo causaria suspeita nos vizinhos brasileiros. Conforme matéria publicada no jornal argentino La Nación, em 19 de janeiro de 1905, os passos tomados pelo Brasil conformavam uma ‘diplomacia imperialista, uma hegemonia a ser partilhada entre o Brasil e a Norte América, prestando-se o primeiro a ser agente do segundo em suas ambições de domínio continental’. Acusações que contribuem para justificar a aproximação com o Chile e a Argentina proposta por Rio Branco que, batizada de Projeto ABC, seria ação complementar à aliança ‘não escrita’ com os Estados Unidos. 113
110 BUENO, 2002, p.2.
111 BANDEIRA, 1997b, p. 33. 112 2002, p.12.
Portanto, a política exterior do Barão não deve ser vista somente em sua dimensão de aproximação com os Estados Unidos, já que tal atitude deve ser conjugada com a consolidação das fronteiras nacionais, a defesa da soberania, a prática de uma política de prestígio e o estabelecimento de ações próprias de uma potência regional. Deve-se, ainda, levar em conta que o contexto refletia o papel dos Estados Unidos que se preparavam para assumir maiores responsabilidades e poderes no sistema internacional (já haviam se tornado a primeira potência industrial mundial no início do século XX e, após 1919, seriam o maior parceiro comercial do Brasil, ocupando espaços antes dominados pelos europeus). Assim justificava-se a aproximação com os Estados Unidos em termos que não fossem de total subordinação, mas que buscasse estabelecer no continente um condomínio com dois síndicos.
No entanto, tal americanização não se processa de modo consensual. Houve resistências à transposição mecânica de valores estadunidenses para o Brasil. Eduardo Prado, em seu livro-ensaio “A Ilusão Americana”, publicado em 1893, produz virulento ataque à política externa dos EUA. Monarquista originário da oligarquia agrária paulistana, Prado transforma-se em um dos principais críticos da recém-instalada república brasileira. Coautor do Manifesto Monarquista, ele representa parcela social que é desalojada dos círculos decisórios com a mudança de regime no Brasil. Reunindo dados de 1823 a 1892, Prado tenta reagir à aplicação do modelo norte-americano no Brasil.
Felqueiras considera que Prado, ao investir contra a política exterior dos EUA, “julgava, por um lado, golpear a República brasileira em seu flanco mais débil: a política externa que, necessitando de apoio, procurava cada vez mais uma aproximação com os Estados Unidos”.114 Outro objetivo era criar alto grau de antipatia dos EUA em setores da opinião pública brasileira. ‘A Ilusão Americana’ acaba tendo grande impacto no Brasil, publicidade que rende exílio ao autor e apreensão do livro. Posteriormente, ao prefaciar sua obra, Prado lembrava que: “Este despretensioso escrito foi confiscado e proibido pelo governo republicano do Brasil. Possuir este livro foi delito, lê-lo conspiração, crime havê-lo escrito”. 115
114 2001, p.14.
Findo o período do Barão, no qual se consolida a reversão do alinhamento da política externa brasileira rumo aos Estados Unidos, o Brasil está às portas da I Guerra Mundial. O magnetismo da potência do norte torna-se inexorável devido à condição periférica do Brasil que impossibilitava qualquer ambição na partilha do mundo, objetivo último dos blocos que se configuravam para o embate beligerante a ser deflagrado na I Guerra Mundial. Assim, restava ao país desempenhar o papel de ‘pajem dos Estados Unidos’. 116 Argumentaria Tobias Monteiro, “os Estados Unidos são o nosso laço mais forte da política internacional”. 117 Em síntese,
[c]om a morte de Rio Branco (1912), a política externa no Brasil marchou ao compasso de Washington, refletindo, em larga medida, a situação de extrema dependência em que caíra. Os Estados Unidos, seu principal cliente de café, borracha, cacau e outros produtos primários, adquiriram também a primazia como fornecedores de manufaturas, ao suplantarem, desde a eclosão da primeira guerra mundial (1914-1918), tanto a Grã- Bretanha quanto a Alemanha, e assumiram substancial parcela da dívida externa. 118
No entanto, mais uma vez, não há unanimidade em tal posicionamento. Parte do operariado, capitaneado pelo movimento anarquista, percebe na Guerra a causa do agravamento de suas condições de vida. Passam a pregar a paz. Também setores das classes dominantes reagiram à satelitização do Brasil aos Estados Unidos.
Muitos escritores, como Lima Barreto, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Carlos de Laet, não se conformavam com nova orientação da política externa brasileira, cuja bússola apontava cada vez mais para o Norte. Lima Barreto verberava a ‘triste e ignominiosa verdade de que o Brasil é e está sendo caudatário desavergonhado da América do Norte’. (...) Lima Barreto deplorava o fato de que os brasileiros não tivessem o bom senso de repelir os ‘grosseiros e megatéricos ideais americanos e de permanecerem fiéis a si próprios. 119
Entretanto, o processo de influência dos Estados Unidos no Brasil será processo vencedor, apesar das críticas existentes. Tal influência seria crescente e manifesta em amplos setores da vida nacional. Da economia a cultura, da política aos aspectos comportamentais da sociedade. 120
116 BANDEIRA, 1997a, p.173. 117 apud. BANDEIRA, 1997a, p.173. 118 BANDEIRA, 1997b, p.34. 119 BANDEIRA, 1997a, p.171.
120 Movimento que chegaria ao paroxismo ao final da década de 1930, quando o mundo caminhava para novo conflito mundial. Neste momento, os Estados Unidos adotam, no âmbito hemisférico, política da Boa Vizinhança e se preparam para reverter sua política externa isolacionista e assumir