O período da Ilustração deixa como legado a análise sobre a racionalidade e de seu papel histórico. Tal análise é possível porque a razão vigora no âmbito filosófico argumentativo da epistemologia como passível de interpretação variável, devido às diversas abordagens e pontos de vista por ela inspirados. Boa parte dessas reflexões acerca da racionalidade tem como pressuposto a própria razão enquanto instrumento para o desenvolvimento do pensamento sistemático. Daí é possível entender, a partir da modernidade como propositora dessa racionalidade absolutizada e ao mesmo tempo questionadora, o fato de atualmente haver inúmeras descrições da racionalidade que beiram inclusive o irracionalismo. Nesse sentido, Rouanet (1987) apresenta a crise da racionalidade na contemporaneidade devida a sua comparação e, por vezes, confusão, com a razão enlouquecida, mas também, e principalmente devido a sua relação com aquilo que ele denomina como “desrazão”, ou irracionalismo. O principal fator dessa crise por ele apontada é o aparelhamento da Razão sábia pelo irracionalismo vigente, travestido de racionalidade,
A razão não é mais repudiada por negar realidades transcendentes – a pátria, a religião, a família, o Estado -, e sim por estar comprometida com o poder. O novo irracionalismo se considera crítico e denuncia um status quo visto como hostil à vida. [...] ele considera a razão o principal agente da repressão, e não o órgão da liberdade, como afirmava a velha esquerda. (Rouanet, 1987, p.12).
Este é o motivo pelo qual se impõe a explicitação, e de certa forma também o excetuar-se à neutralidade, tomando partido em favor de um modelo de racionalidade capaz de fornecer uma nova leitura tanto da realidade, e dos processos que constituem a razão como parâmetro de mensuração nas definições do social e do político como relação epistêmica, entendidas a partir do binômio sujeito-objeto, bem como também, delinear o significado dela extraído para designar o sentido da tolerância nos dias atuais, sobretudo quando voltados para o âmbito educacional/escolar onde as relações ocupam o centro do desenvolvimento da vida em comunidade, mostrando inclusive os
parâmetros regentes do comportamento relacional dos atores envolvidos nessa perspectiva.
A Ilustração representa a crença ou a adesão da consciência humana, seja no que se refere às suas atitudes, e, portanto, na derivação das regras que delimitam a ação humana dentro das perspectivas ético-morais; seja ainda na valoração epistêmica do conhecimento e da investigação, provendo distinções e definições que se referem diretamente a conceitos praticados e, não raro, assimilados pela sociedade ocidental a partir desse evento de arejamento intelectual.
Característica similar entre a passagem para o medievo e a passagem para a ilustração é o fato de que haja uma sobreposição conceitual, o que aparentemente pode representar uma mudança substancialmente justificada, contudo, uma investigação mais acurada pode desvelar uma mera substituição de paradigmas, não tão distantes quanto se assevera pelo consenso histórico, pois na verdade, para citar um exemplo, a passagem do período medieval para a idade da razão evidencia uma sucessão de crenças, da unidade e validade universal de Deus para a unidade e universalidade da Razão38.
Ao versar sobre os problemas enfrentados pela racionalidade ao longo de sua constituição histórica, Rouanet (1987) chama a atenção para a mais notável crise enfrentada pela razão após a iniciativa moderna. Essa crise, a qual se tem assistido e que por meio de tantos outros teóricos se tem evidenciado é por ele entendida no mundo contemporâneo como resultante de um problema de identidade,39do que seja a razão e
do papel que deve desempenhar, assim, após introduzir a temática da distinção entre Ilustração e Iluminismo, sendo a primeira caracterizada pela investigação, tanto de princípios teóricos quanto práticos, em um determinado período historicamente situado tendo em vista àquilo que o Iluminismo em todas as épocas intencionou, a autonomia,
38 Segundo o Dicionário de Filosofia de Cambrige, no verbete Iluminismo, guardadas as divergências
filosófico-idiomáticas da substituição do termo Iluminismo por Ilustração, cujos fundamentos encontram- se em Sérgio Paulo Rouanet, conforme acima mencionado, as principais características da corrente em pauta eram: 1)Os seres humanos são livres à medida que suas ações são realizadas por uma razão. [...]; 2)a racionalidade humana é universal, sendo necessária apenas a educação para seu desenvolvimento. Em virtude da sua racionalidade comum, todos os seres humanos têm certos direitos, entre estes o direito de escolher e moldar seus destinos individuais; 3) Um aspecto final da crença na racionalidade humana é que é possível descobrir as verdadeiras formas de todas as coisas, quer se trate do universo (leis de Newton), da mente (psicologia associacionista), do bom governo (a constituição dos Estados Unidos), da vida feliz (que, com o bom governo, é “equilibrada”) ou da bela arquitetura (os princípios do paladio) [...]. (2011, p.497).
39 O problema da identidade como pretende Rouanet, também encontra-se em “A identidade Cultural na
que em Kant notadamente encontra seu significado mais profícuo como Aufklärung40;após estas distinções ele aponta para o referido problema de identidade
que se dá no irracionalismo travestido de racionalismo, ou seja, a racionalidade instrumentalizada por sua principal opositora, a “desrazão”, que traduz o problema mais contundente e ao mesmo tempo mais desafiador a ser enfrentado pela razão, que tradicionalmente é entendida como “órgão da liberdade”, “propositora da emancipação”, ou mesmo como detentora do esclarecimento.
O irracionalismo por sua vez possui suas raízes fixadas no “conformismo”, na não movimentação da razão, na não afirmação da mesma em prol de uma comodidade epistemológica voltada inclusive para a vida prática, transitando entre os valores que confrontam a ética e os regramentos morais clássicos que constituem os parâmetros da ação humana, isto é, os valores que engendram o irracionalismo são absolutamente antagônicos à atitude de racionalidade pretendida pelo Iluminismo de todas as épocas.
Ora, sustento que o irracionalismo mudou de rosto, mas não mudou de natureza. Hoje como ontem, só a razão é crítica, porque seu meio vital é a negação de toda facticidade, e o irracionalista é sempre conformista, pois seu modo de funcionar exclui o trabalho do conceito, sem o qual não há como dissolver o existente. (Rouanet, 1987, p.12)
40Ao iniciar seu texto sobre como responder ao problema do que seja o “Esclarecimento”, Immanuel
Kant conceitua o mesmo a partir da etimologia semântica do idioma alemão, salientando sua compreensão como atitude daquele indivíduo que transpõe o percalço da condição inferior de norteado, ou, conduzido por outrem; versa sobre o “esclarecimento” partindo de uma dinâmica prática de libertação do indivíduo de uma condição alienante, no entanto, por alienante deve-se entender a condição de um determinado indivíduo ou sociedade sujeito às causas extrínsecas e não intrínsecas de regramento. Todavia, a concepção kantiana acima mencionada parte necessariamente da compreensão de que tal protagonismo do indivíduo frente às suas próprias iideias e atitudes deve partir de si mesmo, o que lhe dá como consequência imediata a noção de responsabilidade. Assim, quando essa noção de responsabilida de tornar-se crescente tanto na pessoa quanto no âmbito social, e nesse último com maior vigor, toma-se consciência da capacidade ou incapacidade desses sujeitos, em transformar a atualidade situacional. No dizer do próprio Kant: “Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é responsável. A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento”.(KANT, p.1) –Resposta à pergunta o que é o esclarecimento. Traduzido por Rouanet.- Em contrapartida ao modo crescente da responsabilidade tida como fundamento para o esclarecimento, para a saída da minoridade por parte do homem, o movimento que parte em direção oposta tornar-se uma segunda natureza, excluindo dessa maneira aquilo que se entende por maioridade natural do sujeito. Kant pretende valorizar o que chama de “apreciação razoável de seu próprio valor”, isto é, o reconhecimento gradual e livre de suas capacidades, vislumbrando a responsabilização de si e tendo como resultado sua própria auto-regulação.
A oposição racional evidencia-se pelo caráter dinâmico da ação, que visa a negação da facticidade em detrimento de uma pseudo-estabilidade, nomeadamente reconhecida como criticidade frente ao estático e não problemático; ao submeter o critério da criticidade à segunda categoria, inferindo na negação da dialética filosófica do confronto de ideias e, partindo, portanto, de uma concepção unívoca ou mesmo simplista41da realidade, ignorando sua complexidade e extensão, o irracionalismo
inverte a relação entre sujeito e objeto, sob a alegação e justificativa de tirania da razão. Tal inversão é sem dúvida o fator decisivo para a compreensão da crise da racionalidade instrumentalizada ou usurpada pela irracionalidade.
O conceito de dialética empregado faz menção não somente às diversas abordagens que dela se obteve ao longo da historia da filosofia, mas procura, sobretudo, versar acerca de sua interpretação especificamente dinâmica, num sentido mais coerente com as conceituações de Rouanet, ou seja, da aproximação do conceito de Dialética ao conceito de Razão. Nesse sentido vale delimitar e indicar a dialética adotada por Sócrates e difundida por Platão através das obras “Fedro”, “O Sofista” e “O político”, que constitui ao longo da historia sua primeira e talvez mais conhecida conceituação.
Na tradição socrático-platônica a dialética é concebida primeiramente como método de divisão ou de investigação, portanto, como primeira sistematização na busca do conhecimento científico, praticado a partir do método maiêutico de perguntas e respostas, procedimento argumentativo pelo qual se chegava a definição de uma tese. Por sua vez, a dialética no sentido platônico era entendida como o movimento racional na busca de compreender, isto é, trata-se de um embate que gera movimento no campo das ideias e que por sua vez não se restringe ou se ajusta a uma verdade única, mas que coloca o interlocutor na constante procura dela.
No campo educacional a dialética encontra-se mais próxima do sentido empregado por Paulo Freire que entendia a educação como um fazer livre e, portanto, dialético, isto é, constituído a partir da relação comunicativa entre os interlocutores, dessa maneira, afirma o educador:
41 Segundo Abbagnano, o conceito de simples implica, “Aquilo que carece de variedade ou composição,
vale dizer, o que existe de um único modo ou é destituído de partes. Aristóteles entendeu o simples [...], como falta de variedade [...] Na lógica terminista medieval usava-se com o mesmo sentido o termo
Só podíamos compreender uma educação que fizesse do homem um ser cada vez mais consciente de sua transitividade, que deve ser usada tanto quanto possível criticamente, ou com acento cada vez maior da racionalidade. A própria essência da democracia envolve uma nota fundamental, que lhe é intrínseca – a mudança. Os regimes democráticos se nutrem na verdade de termos em mudança constante. São flexíveis, inquietos, devido a isso mesmo, deve responder ao homem desses regimes, maior flexibilidade de consciência. (FREIRE, 1992, p.98).
Assim como na concepção filosófica da Grécia Antiga comono modo aplicado por Freire enquanto método educativo, a dialética é o modus operandi da racionalidade sábia e do fazer democrático, pois, fundada na dinamicidade do embate entre os pareceres diferentes entre si, cuja negação só pode resultar em totalização ingênua e dominadora, seja no âmbito político como no âmbito social, filosófico e, sobretudo, educacional. Nesse sentido, tolerar significa partidarizar-se pela razão sábia cujo instrumento maior é o movimento dialético e a criticidade como parâmetro que assegura a não univocidade pseudo-estabilizada por meio do não movimento, da não ação e da não reflexão crítica, traduzidas pelo conceito de ideologia.