Segundo Ibn Idhari, no ano 245 da Hégira, um grupo de vikingues composto por sessenta embarcações surgiu no ocidente peninsular, encontrando, no entanto, a costa da Península guardada por uma armada muçulmana. Dois navios dos piratas nórdicos parecem ter-se adiantado ao resto do grupo e, na costa de Beja, acabaram por ser interceptados pela esquadra andaluza. Assim capturadas, Ibn Idhari diz que, no interior das embarcações vikingues, foi encontrado ouro, prata, escravos e mantimentos, enquanto o resto do bando conseguiu seguir viagem até ao rio Guadalquivir, que subiram e cujas margens pilharam. De seguida, voltaram ao mar, atravessaram o Estreito de Gibraltar e passaram pela actual região de Murcia (Tadmir) antes de atingirem o sul de França, onde passaram o inverno (Fernández González 1999, 133-4). Nos Anais de São Bertino, sob o ano 859, é dito que um grupo de nórdicos navegou através do estreito entre a Hispânia e África e chegou ao rio Ródano, estabelecendo uma base na ilha de Camargue (Nelson 1991, 90).
Um olhar para um mapa de Portugal é suficiente para se constatar que Beja é uma cidade do interior, afastada do mar por cerca de 100 quilómetros, pelo que Ibn Idhari refere-se, obviamente, ao distrito árabe a que a cidade presidia. E, nesse caso, importa saber quais os seus limites à época para se perceber qual era a sua faixa costeira. Infelizmente, conhece-se mal a extensão da região no século IX, mas existe a descrição deixada por al-Razi no século X, que possibilita, pelo menos, uma
115 aproximação. E o que esse autor descreve permite, segundo Christophe Picard, atribuir a actual costa alentejana ao distrito árabe de Beja, do rio Sado ao Cabo de São Vicente (2000, 61). É nessa faixa marítima que se deve colocar a captura de duas embarcações vikingues pela armada andaluza, desconhecendo-se se o resto do grupo nórdico tentou levar a cabo algum ataque contra uma povoação costeira. Mas é de notar a referência de uma frota muçulmana, que parece ausente dos confrontos de 844. O que talvez indique que, no espaço de pouco mais de uma década, o Emirado de Córdova aprendeu com os primeiros ataques nórdicos e começou a munir-se de meios de defesa.
A data indicada por Ibn Idhari levanta um problema complexo. Segundo Cappelli, o ano 245 da Hégira teve início a 8 de Abril de 859 (1930, 170), o que quer dizer que, entre o ataque a Lisboa de Julho de 858 de que fala a Crónica Profética e o confronto na costa de Beja referido por Ibn Idhari, teriam passado nove meses. O hiato temporal é grande, demasiado grande para acomodar pequenas incursões costeiras numa viagem para sul, pelo que, a admitir-se a veracidade das datas fornecidas, as hipóteses são de imediato duas: a primeira é a possibilidade de os nórdicos terem estabelecido uma base em 858, talvez em torno de Lisboa, onde permaneceriam até rumarem para sul pelo menos nove meses depois; a segunda consiste em admitir-se que o grupo que Idn Idhari coloca na costa de Beja e depois no Mediterrâneo é outro, chegado ao ocidente peninsular apenas em 859 e distinto do que foi derrotado pelo conde Pedro. Al-Qutiya volta a ser útil para fazer pender a balança para uma das hipóteses, dado que ele refere uma derrota dos vikingues na foz do Guadalquivir no ano 244 da Hégira (Ta’rikh 6; James 2009, 102) que, segundo Cappelli, teve inicio a 19 de Abril de 858 (1930, 170). Ou seja, o grupo que a Crónica Profética diz ter atacado Lisboa em 858 terá seguido viagem para sul, até perto de Sevilha, o que elimina a possibilidade de ter permanecido numa base perto do Tejo até 859. É certo que o relato de al-Qutiya tem elementos imaginativos que não abonam a favor da sua credibilidade, na medida em que, depois de relatar a expulsão dos vikingues de Sevilha em 844 (ano 230 da Hégira), o autor andalus conta como o grupo entrou no Mediterrâneo e chegou a Alexandria, numa viagem de catorze anos antes de um regresso ao Guadalquivir (capítulo 6; James 2009, 101-2). Mas talvez se deva considerar isto um equívoco de al-Qutiya que, tendo duas notícias, uma sobre
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vikingues no norte de África em 844 e outra sobre a batalha naval de 858, terá pensado que os dois momentos foram perpetuados pelo mesmo grupo. Também é possível que a referência a Alexandria e a catorze anos de actividade no Mediterrâneo derive de tradições populares, que geraram uma fábula sobre o paradeiro dos vikingues entre 844 e 858. Tradições essas a que, de acordo com o que dissemos na apresentação das fontes, al-Qutiya poderá ter recorrido; ele ou um aluno seu responsável pela obra. Mas a realidade terá sido menos digna de Ulisses: primeiro o saque de Sevilha, talvez seguido de uma incursão em Marrocos antes de um regresso ao norte em 844; depois uma investida contra a costa galega, Lisboa e a foz do Guadalquivir em 858. A entrada no Mediterrâneo veio mais tarde e terá sido protagonizada pelo grupo que surgiu na costa de Beja.
Se se admitir duas incursões em anos seguidos, uma em 858 e outra logo em 859, é caso para perguntar onde está a referência a ambas nas crónicas asturianas. E talvez esteja onde sempre esteve, à vista de todos, mas confundida por falta de referências cronológicas exactas. A Albeldense apenas diz que os vikingues vieram uma segunda vez no reinado de Ordonho I e que foram derrotados pelo conde Pedro, enquanto a Crónica de Alfonso III fala de um novo regresso, sem dizer se foi o segundo ou outro e sem qualquer referência ao nobre galego, mas acrescenta uma descida para sul, entrada no Mediterrâneo e chegada às Baleares (Rotense 27; Ad Sebastianum 27; Gil Fernandez et al. 1985, 220-1). Não há aqui nenhuma data precisa, mas apenas a referência ao reinado de Ordonho I, de 850 a 866, pelo que, a serem dois ataques distintos, seria fácil confundi-los dado que teriam ocorrido no mesmo período. É apenas cruzando esta informação com a Crónica Profética e as fontes árabes que se pode colocar a hipótese de a segunda vinda dos nórdicos de que fala a Albeldense ter tido lugar em 858, enquanto que o relato da Crónica de Alfonso III refere-se a uma incursão distinta um ano depois. A mesma que os Anais de São Bertino colocam sob 859, com a entrada de vikingues no rio Ródano (Nelson 1991, 90). O relato de Ibn Idhari é concordante com o dos anais francos, na medida em que fala de uma base de Inverno no sul francês depois de os piratas nórdicos passarem pela actual região de Múrcia e antes de um regresso ao Andalus ainda em 245 da Hégira (8 de Abril de 859 a 27 de Março de 860; Cappelli 1930, 170). A alternativa a esta teoria e, uma vez mais, admitindo a veracidade das datas transmitidas pelas fontes, é defender uma única
117 expedição, de 858 a 860, caso em que seria necessário explicar o paradeiro do grupo de vikingues em duas ocasiões: entre a derrota na foz do Guadalquivir em 858 e a sua chegada ao sul de França em 859; e entre Lisboa e a costa de Beja no mesmo período.
Note-se, por último, mais um dado dos Anais de São Bertino: sob o ano de 862, há notícia da chegada ao norte de França – Bretanha ou Neustria – de vikingues vindos da Hispânia. Desconhece-se se saíram de território ibérico nesse mesmo ano e de onde veio o grupo, que tanto pode ter sido o mesmo que regressou do Mediterrâneo em 860 (e, nesse caso, terá demorado dois anos a chegar ao Canal da Mancha), como pode ter sido um outro cujo percurso é desconhecido. E recorde-se, uma vez mais, que não existe nenhum registo exaustivo de todas as incursões, pelo que afirmar que o grupo de 862 é o mesmo de 859 e 860, com o argumento de que datam desses anos as únicas referências que se tem a ataques no ocidente ibérico para o período, é esquecer que a informação actualmente existente é fragmentária.