3 PROFESJONSVERDIER 3.1 Oversikter
42. Marino R, Stuart GW. The validity and reliability of the Tertiary Student Values Scale (TSVS)
O documento número 11 dos Anais Palatinos do Califa de Córdova al-Hakam II (García Gómez 1967, 50) é particularmente interessante, mas também problemático. Diz que, ao vigésimo quinto dia do Ramadão, a que o editor faz corresponder a data de 22 de Julho, chegou a Córdova um embaixador de um conde galego de nome Gundisalb ibn Munio. Trazia uma carta enviada de Astorga, selada ao décimo segundo dia do mesmo mês, a que García Gómez faz corresponder a data de 9 de Julho de 971. Dava conta da entrada de vikingues no rio Douro, ao meio-dia do dia anterior, e de que tinham atacado Santaver e arredores, mas sem sucesso.
A notícia está listada sob o ano de 360 da Hégira que, consultada a tabela de Cappelli, terá tido início a 4 de Novembro de 970 (1930, 171). Contados meses de vinte e nove ou trinta dias, o Ramadão teve início por volta de 2 de Julho de 971, o que
149 coloca o décimo segundo dia aproximadamente a 14 desse mês e o vigésimo quinto a 27 de Julho. Isto é, próximos da equivalência fornecida pela edição que consultámos.
Esta notícia é a primeira referência explícita à entrada de piratas nórdicos no Douro, que se encontrava ausente das fontes até agora analisadas. Tratando-se de um dos grandes cursos de água do ocidente da Península Ibérica, seria de esperar que, mais cedo ou mais tarde, fosse usado como via de penetração no interior do território. Poderá tê-lo sido ainda no século IX ou em décadas anteriores à de 970, mas não nos chegou qualquer referência que nos permita afirmá-lo com certeza. Se o Douro foi de facto alvo de ataques antes de 970 e o acontecimento foi, à época, ignorado, não é impossível que isso se tenha ficado a dever à situação política da região. Recorde-se que a linha de fronteira do norte cristão apenas chegou ao rio em causa em 868, alguns anos depois da última incursão de que há notícia para o século IX. Antes disso, o território estaria fora da esfera das Astúrias, mas também do sul Omíada, numa espécie de terra de ninguém onde qualquer autoridade existente seria de natureza local. É a já referida questão do ermamento, que nunca o foi de facto, e do repovoamento que, afinal, integrou numa ordem jurídica maior a realidade pré- existente de populações abandonadas pelas partes em conflito. Os acontecimentos no território “despovoado”, do qual a foz do Douro fez parte até 868, eram, por isso, passíveis de serem ignorados pelas principais fontes, fossem elas do norte cristão ou do sul muçulmano.
Conflitos militares e ideologia religiosa à parte, os dois blocos ibéricos parecem ter sabido cooperar quando estava em causa a defesa da costa contra as investidas vikingues. É essa, pelo menos, a conclusão que se pode tirar do documento em análise, dado que dá notícia da chegada de um embaixador galego a Córdova com o aviso de que os piratas nórdicos tinham sido avistados. Não é certo até onde na hierarquia política chegava essa cooperação. Certamente que até ao califa, no caso dos muçulmanos, mas a questão é menos clara quanto ao norte cristão e a resposta reside, em parte, na identidade de Gundisalb ibn Munio. O documento diz ser um conde galego, mas não diz qual o território específico a que presidia. Tal como na questão do Pedro que derrotou os vikingues em 858 e no caso de Guilherme Sanches em 969, voltamos ao problema de nome e título com poucos detalhes. Apenas temos um patronímico – ibn Munio, filho de Munio – e sabemos que a mensagem foi enviada de
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Astorga, embora isso não nos permita perceber se era ou não a residência habitual do remetente.
Uma hipótese óbvia para a identidade de Gundisalb é Gonçalo Moniz, que viveu entre 926 e 981 e era Conde de Coimbra em 971 (Mattoso 1992b, 470). O nome corresponde ao do texto árabe, uma vez que Moniz é um patronímico para filho de Munio, e, dada a localização geográfica do condado na linha de fronteira, não só seria directamente ameaçado pela presença de vikingues no Douro, como estaria em condições de manter contactos próximos com o sul muçulmano. Aliás, relações amistosas ou mesmo alianças entre os dois blocos em confronto fizeram parte da realidade político-militar da “Reconquista”. Por exemplo, o primeiro rei português manteve uma aliança com Ibn Qasi, líder sufi que assumiu o poder em Silves e no Alentejo por volta de 1144. Para o monarca, era uma forma de retirar pressão da fronteira sul de Portugal; para Ibn Qasi, a aliança ajudava a preservar a independência da Taifa de Silves. Da mesma forma, um acordo entre o Conde de Coimbra e o Califa de Córdova permitia-lhes enfrentar melhor o inimigo comum que eram os vikingues. E, se dúvidas houvesse sobre o potencial para alianças entre norte e sul, refira-se a participação de membros da família condal conimbricense na campanha de Almançor. Como é normal nos territórios limítrofes – e o Condado de Coimbra encontrava-se na linha de fronteira – os contactos entre os dois lados podem ser próximos e as rivalidades podem esbater-se em caso de necessidade.
Há, no entanto, um problema na identificação de Gundisalb ibn Munio com Gonçalo Moniz: a mensagem foi enviada de Astorga. É certo que não é impossível que o Conde de Coimbra se encontrasse fora do território a que presidia, nomeadamente se chamado ao Conselho Régio pelo seu suserano ou por ele recrutado para um teatro de guerra. A título de comparação, recorde-se um outro nobre, Henrique de Borgonha, que presidiu ao Condado Portucalense e morreu precisamente em Astorga, em 1112 (Barrilaro Ruas 1992a, 195). O que quer dizer que não é impossível que Gonçalo Moniz estivesse, também ele, na referida cidade. A confirmação desta hipótese depende de um estudo do itinerário do Conde de Coimbra, ainda por fazer e a haver sequer informação suficiente para tal.
Sobra uma última questão: onde fica a povoação de Santaver que o documento diz ter sido atacada pelos nórdicos? Não encontrámos nenhuma nas margens do
151 Douro e é plausível supor que não se encontrava no sul muçulmano, dado que, se assim fosse, não faria sentido que fizesse parte de uma mensagem enviada por Gonçalo Moniz ou por qualquer outro nobre do norte cristão. A hipótese mais imediata é a actual Santander, na Cantábria. Mas não se percebe qual a sua relação com o rio Douro nem, nesse caso, a ordem em que vem referida no documento. Se o aviso se referia a um grupo que começou por atacar a costa norte da Península e que depois seguiu para o ocidente e sul, seria de esperar que Santander fosse o primeiro elemento a ser mencionado na mensagem. Talvez se possa atribuir a confusão ao facto de a entrada dos vikingues no Douro representar uma ameaça maior, tanto para os condes galegos como para o Andalus, motivo pelo qual seria referida em primeiro lugar na mensagem, que depois acrescentaria, em género de nota adicional, outra menção às acções do bando pirata, na distante Cantábria. Aliás, estando Gonçalo Moniz em Astorga, não é impossível que ele tenha recebido notícias do que se passava não só no seu condado, mas também na costa norte da Península Ibérica. A alternativa a esta teoria é procurar-se outra Santaver, existente à época, mas não actualmente.
Desconhece-se se a cidade do Porto foi ou não alvo de um ataque vikingue. O documento não o refere, nem ele nem qualquer outro de que tenhamos conhecimento. Trata-se de uma povoação estranhamente ausente do registo das investidas nórdicas, não obstante a sua localização e o ter sido “repovoada” em 868. Talvez tenhamos que admitir para o Porto a mesma possibilidade geral que referimos para tantas outras partes da costa ocidental da Península: a de ter sido vítima de ataques dos quais não se fez ou não sobreviveu um relato específico.