Por uma questão de clareza e de comodidade de leitura, convém ainda acrescentar alguns dados sobre a estrutura básica das páginas que se seguem e o modelo de referências bibliográficas pelo qual optámos.
Assim, a primeira parte deste trabalho é inteiramente dedicada à apresentação e análise das principais fontes escritas, organizadas de acordo com a sua origem: norte-ibéricas, árabes, nórdicas e outras da Europa ocidental além-Pirinéus. Os três primeiros grupos abrem com uma contextualização histórica e literária antes da abordagem individual das fontes, na qual se procede à análise das questões de autoria, datação e transmissão manuscrita de cada uma. Algo que pensamos ser relevante, porque todos esses aspectos pesam no valor dos textos enquanto fonte histórica. É necessário saber quando e por quem foram redigidos, com que motivação e como é que foram preservados para se perceber se são muito ou pouco fidedignos e em que aspectos. Correndo o risco de dizer o óbvio, o facto de algo estar escrito não quer dizer que seja necessariamente verdadeiro, porque o autor pode ter adulterado a informação, moldado os acontecimentos de acordo com as suas motivações e a transmissão – oral ou escrita – pode ter adicionado ou retirado conteúdo. E, por esse motivo, é necessário fazer uma análise crítica de cada uma das fontes. Não que tudo o que dizemos a respeito da autoria e datação de crónicas e outras narrativas tenha implicações na análise dos acontecimentos históricos que elas transmitem, mas, em alguns casos, as considerações críticas fazem a diferença. Por exemplo, Ibn al-Qutiya diz que os vikingues chegaram a Alexandria antes de voltarem ao Estreito de Gibraltar e, se não tivéssemos em conta que o seu trabalho incorporou tradições populares, talvez fôssemos levados a acreditar nele. Da mesma forma, podíamos pensar que São Rosendo lutou activamente contra os vikingues, não fosse o facto de o único texto que o refere ser a sua própria hagiografia, cuja narrativa está longe de ser rigorosa. Ou assumir que o norueguês Óláfr Haraldsson passou pela costa galega-portuguesa por haver sagas nórdicas que o colocam perto de Gibraltar, quando a referência mais antiga a essa viagem se encontra num poema cuja transmissão oral pode ter acrescentado elementos em prosa. Nenhuma destas considerações poderia ser feita sem um olhar crítico sobre as fontes, motivo pelo qual começamos por analisá-las.
17 A segunda parte ocupa-se da História das incursões, organizadas pelos quatro séculos em que ocorreram, do IX ao XII. Antes disso, porque nada acontece no vazio, apresentamos a Escandinávia antiga e analisamos os vários motivos que terão originado a Idade Vikingue, seguindo-se uma consideração idêntica, mas específica para a Península Ibérica. Cada capítulo sobre as diversas incursões abre com um apanhado histórico da actividade nórdica noutras partes da Europa, pondo em contexto os ataques na costa galego-portuguesa, que são listados por local e data. Por último, na terceira parte abordamos os vestígios materiais e imateriais da passagem dos vikingues pelo oeste ibérico, recolhendo referências a lendas, festas populares, fortificações e analisando as possibilidades de colonização, incluindo hipotéticas influências nórdicas sobre a construção naval.
A esta organização que apresentámos subjaz um processo lógico, na medida em que primeiro analisamos criticamente a origem e o valor dos documentos que contêm as notícias dos ataques para apenas depois nos concentrarmos neles. Por isso mesmo, o presente trabalho tem incorporado no título os termos Fontes, História e Vestígios.
A escolha do modelo de referências bibliográficas teve as suas vicissitudes, em parte porque, pelo menos em Portugal, o investimento na publicação de fontes primárias não foi acompanhado de uma alteração na forma como elas são referenciadas nos trabalhos de pesquisa. Isto é, o convencional seria a indicação do capítulo ou parágrafos originais e a listagem na bibliografia pelo título da obra ou o respectivo autor. Algo que faz perfeito sentido quando a pesquisa historiográfica passa pela consulta directa dos manuscritos ou de transcrições dos mesmos. Mas, nos últimos anos, têm surgido edições detalhadas de fontes medievais, providas de extensas introduções críticas que são de valor para a análise dos textos e da informação neles contida. O que nos levantou o problema de como listar na bibliografia uma publicação que foi consultada não apenas por ser uma fonte primária, mas também pelas notas e introdução modernas. E, ao fazer referência às páginas introdutórias, como seria esse facto referido na bibliografia? Listando pelo editor, que não escreveu a fonte primária, ou pelo autor da mesma, que não redigiu a introdução crítica?
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A solução do problema passou pela adopção do modelo de referenciação em que, ao longo do texto, as obras são indicadas por apelido(s), data e número de página(s) e as fontes primárias são listadas na bibliografia por editor e não por título ou autor. No entanto, dado que existem diferentes edições de vários textos medievais, introduzimos alterações ao modelo, nomeadamente a referenciação mista no corpo do texto, indicando não só a paginação da edição moderna por nós usada, mas também o capítulo ou parágrafos originais. Dessa forma, consegue-se uma correspondência entre as notas e a bibliografia final, possibilitando, em simultâneo, a consulta de edições alternativas de uma mesma fonte primária. Para o caso de, querendo confirmar-se a análise que fazemos dos textos medievais, o leitor não se veja obrigado a consultar a mesma publicação que nós.
Na bibliografia final, por uma questão de organização, distinguimos entre fontes primárias por publicar, as que utilizámos em formato virtual e as publicadas. Chamamos ainda a atenção para o facto de diferentes volumes da mesma obra poderem estar listadas em secções diferentes consoante o uso que lhe demos. É o caso da España Sagrada, editada por Rafael Lazcano: alguns tomos foram usados como fonte secundária, mas outros como primária. Por último, atendamos à referenciação de inscrições rúnicas que, embora não forneçam informação para a análise das incursões no oeste ibérico, foram usadas na presente introdução e nas partes iniciais de vários capítulos de História. Para tal, recorremos ao formato digital da Samnordisk runtextdatabas1, onde os diferentes textos em runas são referenciados por um número precedido por um conjunto de letras que indicam a região de origem. Por exemplo, Vg 61 corresponde à inscrição 61 da Västergötland.
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I.
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